Na prática de compartilhar, dessem um prazer continuar ouvindo Fernanda Maia, que agora vai falar da experiência dela assistindo à primeira peça teatral, "Édipo" no Teatro Fantoche em Sorocaba. Pois é, né? Com onze anos — onze das doze — enfim, acho que 11 anos, ajudava no Estadão, e a professora de Língua Portuguesa estava falando sobre teatro, não é?
Sobre a tragédia grega, e ela ouviu falar que estava passando e estava em cartaz no antigo Teatro Fantoche. Ela falou para os alunos: "Olha, então quem for assistir a essa peça vai ganhar um ponto na nota. " E aí eu cheguei em casa e disse: "Mãe, olha, a professora de Português falou que quem assiste à peça vai ganhar um ponto na nota, então eu quero ir.
" E aí minha tia me levou. Não se pensa, não é? A primeira peça de teatro que assisti, e não uma peça infantil, foi "Édipo", uma tragédia grega que começava.
Eu nunca mais esqueci essa cena, nunca! Eu sentei no Teatro Fantoche com as minhas tias de lado, tinha 11 anos, e a primeira cena do "Édipo" trata de uma mulher que quer enterrar o irmão. O irmão foi morto pelo rei, um irmão que foi morto pelo Estado, foi torturado e morto pelo rei, e, pela tradição grega, ele não poderia ser enterrado porque era tido como um criminoso.
E ela queria enterrar o irmão. Então, a primeira cena que eu assisti de teatro na minha vida foi com o ator Carlos Roberto Mantovani, um grande ator sorocabano, no "Édipo". Imagina isso!
E, em 1978, durante a ditadura militar, eu, com 11 anos, assistindo a uma peça onde havia um tema de vida e morte! Imagina isso hoje! É uma peça, e a professora, obviamente, não viu a peça, não sabia, e ela não viu a peça.
Eu vi, e aquela cena foi tão marcante para mim, pela força, pela bolha, vai crescendo, está pendurado, ele está sozinho, pendurado e, sempre que apanhava, era morto num pau-de-arara. Então, a primeira cena de teatro que eu vi na minha vida foi uma cena de tortura, né? Olhei para as minhas tias que, claro, quando a gente é criança, a gente busca, de alguma maneira, perceber a intensidade daquela situação.
Eu percebi que aquilo tudo era muito inapropriado. Eu via, intuindo, que era uma coisa que impactava aquele público. Eu percebi como criança, quando sabe, que ali estava muito à flor da pele.
Eu lembro das minhas tias, que estavam incomodadas, ajeitando-se na cadeira, dizendo: "Sai daqui, não, né? " E aí eu assisti àquela cena, que foi muito marcante por uma questão de emoção estética. Eu acho que foi a primeira grande emoção estética que tive no theater, foi assistindo àquela cena.
E fiquei impactada com o que aquela pessoa se dispunha a fazer artisticamente como ator, um ator que tinha tal grau de disposição, de disponibilidade pra cena, despojamento. Exatamente essa palavra: despojamento, para se colocar numa situação em que ele estava nu, num pau-de-arara, apanhando, né? E eu me lembro que fiz a resenha porque a professora pediu que fizéssemos uma resenha.
Eu fui a única pessoa deste grupo que assistiu à peça e entregue a resenha. Cheguei na professora e disse: "Professora, eu assisti à peça, olha, eu fiz a resenha. " Ela: "Tá bom, tá bom.
" Eu acho que, àquela altura, já devia saber do que se tratava a peça. Ela pegou a resenha, me deu a nota e nunca mais me devolveu. Eu perguntava: "A senhora pode me devolver, por favor?
" E ela: "Não, não. Quando é que a senhora vai devolver o meu trabalho? " E ficou fingindo que não, nada daquilo.
E foi assim que houve a minha primeira cena de teatro. A partir daí, eu me tornei uma frequentadora do teatro em Sorocaba, que tinha um movimento teatral maravilhoso. Eu assisti "Macunaíma" também por outra indicação do professor — dessa vez já no 3º colegial, no magistério.
O professor me incentivou a ler e entender a obra do Carlos Camargo Costa, que foi diretor do Getúlio, e depois, quando Antunes Filho levou "Macunaíma" para o Teatro Municipal, eu também fui assistir. Eu tinha 16 anos, e a peça era cheia de luz, um espetáculo repleto de conteúdo, que falava de uma outra maneira. Naquela época, a gente sabia que a coisa ia para além do novo.
Hoje em dia, as pessoas param ali: "Ah, tem alguém, tem uma cena", mas não tem só isso. Isso é uma narrativa de outra coisa. Qual é essa outra coisa que este ator está narrando?
Naquela época, por conta da formação que a gente tinha e de uma estimulação em casa relacionada a saber ver obras de arte, eu não me detive naquele nu; eu fui ver o que era que ele estava dizendo, contando. E Sorocaba tinha prometido ao tropeiro que eu ia ver e ver tudo aos poucos. Outros teatros foram aparecendo; o Teatro do Sesi foi construído.
Eu passei a frequentar a cena teatral sorocabana, que era muito intensa, com uma qualidade muito grande, muito importante mesmo. E, nesse sentido, as escolas tinham uma participação importante, não só no festival de teatro que você mencionou no Getúlio — já disse e vou repetir, porque é uma coisa realmente muito importante que muita gente saiu de lá. 105 da escola, e quem foi a principal organizadora?
É ela, quem o presidente em sancionar. Nesta também tinha asma. O time que ela quer perguntar a eles explica que era eu.
Eu entrava no contexto, é central no contexto, você estimulava, né? Aham. Então eu era uma coisa muito importante.
Você vê um movimento cultural na cidade ligado às escolas, né? Quando eu comecei a fazer teatro amador em Sorocaba, isso foi mais pra frente, em 92. A gente ensaiava muito elevadas, mas a gente tinha chave da escola.
Hoje, não só o José Henrique, que era um aluno egresso da escola, né? Naquela época, ele já estava no Mackenzie fazendo arquitetura. Eu já tinha feito letras da Uniso, já tinha feito música, fui estudar música no Nordeste.
Fiz faculdade de música da UFPB. Daqui a pouco eu vou falar um pouco mais sobre isso também, mas a gente tinha chave da escola e a gente abria o portão. Já ensaiava no pátio da escola, às vezes passando frio, era inverno, pátio aberto, né?
A gente ia lá também e ensaiava, ensaiava. E a escola dava a chave para um aluno egresso ensaiar, né? O seu grupo de teatro amador.
Exatamente, José Henrique pegava a chave ou alguém abria, sem problema. Muito, muito. Então essa ligação da escola com o movimento cultural da cidade é uma coisa importante.
E que hoje é tão difícil. Qualquer coisa que você tenta fazer com a escola pública tem tantas travas. Você tenta, mas não pode deixar ver quem vai ser.
Não pode nem passar pela sua cabeça, hoje em dia, que o diretor deixa a chave da escola com o aluno egresso de 21 anos para ensaiar no pátio. Não, não passa, né? E isso acontecia, né?
Isso acontecia. Ele aposta que nunca aconteceu nada muito grave, né? E essas peças aí, o que você está fazendo, o espírito de bom.
A primeira peça, o primeiro espetáculo que a gente ensinou em Sorocaba, que a gente montou, mas aí, que estava montando, Macbeth de Shakespeare. E ele me deixou fazer uma trilha. Aí foi a trilha.
E eu já era frequentadora do teatro. Todos os lugares que ele, já não é, moreno no Nordeste, frequentava a cena teatral e assistia, né? Nesse momento, você já tinha razão assim.
Já vamos ter que fazer um flashback depois, né? Já tinha ido, quando eu comecei a fazer teatro amador. Lá já tinha terminado a música.
Eu estava voltando do Nordeste, o Zé Henrique estava montando Macbeth, e você me indicou pra ele. Ele falou, você falou: "Olha, Fernanda, está voltando, não quer chamar? " Então, ele, já Henrique, nos conhecemos desde antes de nascer, né?
Porque os nossos pais se conheciam antes de casar. É uma relação com a marca. Minha mãe foi colega de faculdade da mãe de Henrique, depois deram aulas juntos no estadão, né?
Foram colegas a vida inteira, tal. Então a gente conhece desde a infância. Mas aí ele estava montando Macbeth, eu fui fazer a trilha para uma conversa, e eu gostava muito.
À vontade, estar em cena, mas não sabia muito bem se era pra mim e tal. Enfim, nós só vamos, continuando, continuando, continuando. E naquele momento eu falei assim, eu pensei: eu não vou deixar de fazer isso.
Eu gosto muito disso, não vou deixar, porque obviamente a tomadores comprometia finais de semana, comprometia a vida social, comprometia as reuniões familiares, né? Compromissos. Mas eu fui, não vou, não vou abrir mão disso, não.
Então a primeira coisa que a gente montou foi "Maquiada". A gente se apresentou no Teatro Sesi. Mais tarde, a gente teve um festival, e uma das atrizes saiu, né?
Por questões pessoais e tal. Aí eu entrei no lugar dela, e aí foi quando comecei a. .
. A loja já, o Sesi? Não, esse foi "Poderosa", Ponta Grossa, toda a droga em Ponta Grossa.
E aí foi a primeira vez que eu fiz, no próprio ato. Eu estava muito acostumado a tocar, até tocava muito em concerto, tinha tocado muito, dado defeito do conceito, muito recital. Mas pra eu foi a primeira vez, né?
E foi muito interessante que não parei mais, né? Eu não parei mais. Entrei pro teatro, pela vida, atuação até hoje.
Muita gente faz isso e depois as pessoas fazem cursos para sair na média de atuação, e depois elas vão se identificando mais com algumas atividades dentro. Então tem gente que começa a fazer curta e descobre que quer fazer produção, o que quer fazer figurino, o que quer fazer uma outra coisa dentro dessa área. Comigo foi assim também.
Eu entrei pela via da atuação. Não é? Eu vim estudar em São Paulo.
Tinha as pessoas que a gente começou a fazer uma produção anual de teatro amador. E saiu no jornal, netinha, divulgação. Então apareceu a atriz Fernanda.
Mãe me assustava quando eu via como um filtro. Lançou, a 3, mas o planeta. Sou professora naquela época também, já dando aula.
E aí, não é preciso estudar isso. Estão chamando de atriz. Fui estudar isso, e vim estudar em São Paulo com o grupo Tapa, nem fazer a minha formação no grupo Tapa.
Agora, fazendo um flashback, né? Voltando para a questão do ginásio, falei muito da minha formação com Fábio. Quando eu cheguei no colegial, então, eu não gostava de exatas.
A formação do ensino médio antigo, colegial, era muito calcada em matérias exatas pra uma coisa no vestibular e tal. Eu estava entendendo que eu queria ir por caminho das artes, que era fazer música. E aí eu fui fazer magistério, fui fazer o que chamava o curso normal, uma das últimas turmas no Estadão, né?
E, obviamente, tinha um preconceito muito grande com quem decidia ser professor. O que o adolescente falou: "Isso é inteligente, porque você vai fazer Magistério. Você, professora, também vai ser professor".
Falei: "Vou, porque você é muito inteligente para ser professora". Não vem daí uma certa. .
. É que vamos falar um português bem claro: a marginalização da profissão que, nos últimos anos, a gente tem visto de uma maneira mais intensa é como um projeto político do Estado. Você curte os acadêmicos, o tratamento e a marginalização de professores e artistas, como as outras coisas.
Então, não é, é um momento muito triste, né? Momento muito triste. Eu tenho duas profissões: uma delas é tida como uma coisa de vagabundo e outra, como algo de gente que não é muito inteligente.
Então, vai decidir por ser professor? Não, isso é uma mentira deslavada. E a gente percebe que é um projeto, mesmo um projeto político, fazer com que esses professores sejam vistos dessa maneira.
Bom, fui estudar Magistério. E aí terminei o ciclo de estudos, fui para a faculdade. Eu estimo muito cedo, terminei muito cedo, eu tinha 16 ou 17 anos.
Eu queria fazer música, mas estava ainda muito nova para sair. Minha mãe achava que eu era muito nova, tal. Era amplo não escolher uma coisa por aqui primeiro, até para você ter um plano B.
E depois, vai fazer música. Não, tá bom, vou fazer Letras da Uniso, que na época nem era faculdade de Filosofia. Botar lá, porque ela volta.
. . e daqui a pouco, mas continua dando show para a faculdade de Letras.
Então, até já.