Essas pessoas felizes no Brasil seriam aquelas que acreditam profundamente, muitas pessoas acreditam, que a corrupção está a cargo de um partido. As pessoas que acham que a corrupção está a cargo de um partido e que bastaria tirar esse partido do poder para que o reino da justiça e da igualdade se instalasse no país, são pessoas muito felizes. São pessoas que substituíram cultos como do Papai Noel e do Coelhinho pelo culto da corrupção isolada.
E quando eu digo isso, eu não estou dizendo que um ou outro partido não sejam notáveis pela corrupção. Eu estou dizendo aquilo que eu venho dizendo seguidas vezes em muitas manifestações, na televisão ou em textos, que a corrupção que Hamlet nota começa no leito da sua mãe na Dinamarca, a microfísica do poder. A corrupção começa na andar pelo acostamento.
A corrupção começa no recibo de dentista comprado para entregar um imposto de renda. A corrupção continua no atestado médico falso, entregue pelo pai para justificar o filho, que apenas vagabundeou para a prova. A corrupção continua com o colega, que na aula de ética política em filosofia assina a lista pelo colega, estudando Espinoza e a sua ética.
A corrupção continua em todos os lugares e apenas numa ponta do iceberg como o último o último elemento da corrupção, ela chega a um partido, a um governo e a um poder. Se a corrupção fosse de um grupo, eu seria uma pessoa profundamente feliz. rejeitaria Hamlet, adotaria Paulo Coelho, seria uma pessoa absolutamente tranquila, porque a partir deste momento eu teria consciência que eliminando aquelas pessoas que são do mal, eu estaria livre.
No seu mais famoso monólogo, ele vai dizer: "A consciência nos torna covardes". Porque quanto mais eu envelheço, e Hamlet envelhece muito nos atos finais, é um dos mistérios da peça, Ramlet dá um salto cronológico. Quanto mais eu enveleço, mas eu tenho medo.
Quanto mais eu tenho medo, mais eu vou tendo consciência do mundo. Que que significa isso? Eu percebo que a vida tem riscos e que a ignorância é uma bênção.
O que fazer com essa consciência? O que fazer com o fato que eu sei que enquanto os outros gritam dia 31 de dezembro, feliz ano novo eu digo: "Vai ser um ano igual a todos, só que mais velho e um ano mais próximo da morte. " E como dizer isso em estragar a festa dos outros, né?
Enquanto eles cantam este ano, quero paz no meu coração. Quem quiser ser um amigo que me dê a mão. E eu penso, cada vez terei menos amigos, porque eles estão morrendo ou se afastando.
Hum. Porque a ignorância é uma bênção. É uma bênção profunda.
Ou seja, todo estado tem algo de podre. E quando eu sei que a mudança de um governo não é a mudança de uma estrutura, eu não vou ter a expectativa, a alegria daquela nova posse no dia primeiro de janeiro com o novo partido que vai restaurar a ética num país enfim transformado. E quando alguém me diz na ditadura militar era melhor?
Eu digo é uma beleza. Era uma beleza. Eu lembro dessa beleza, deste paraíso que era, né?
Ai, Dom Pedro II era ético. Então eu listo 10 escândalos do Segundo Império para as pessoas. A consciência é um peso.
Como seria bom imaginar que nós tivemos um imperador inteiramente simpático e um período em que, apesar da repressão, a ética tivesse dominado. Como seria bom. Só que não foi assim.
A democracia, pelo contrário, trouxe à tona todas as mazelas do nosso mundo. E este é o defeito da democracia. Ela nos dá consciência do que somos.