Olá, pessoal! Hoje eu quero conversar com vocês sobre um tema que, naturalmente, acaba, eu vou dizer assim, tangenciando, né, os estudos e a vida de estudos, ou mesmo o porquê da vida de estudos, certo? Que é o tema das virtudes, que alguns de vocês já devem ter ouvido em vários lugares, tá?
Principalmente se você vem aqui em busca de informações que procurem elevar sua vida, elevar, né, o seu mundo e a sua vida espiritual em algum sentido, ou ainda a vida da alma, certo? Se, claro, nós assumimos uma antropologia cristã, o espírito e a alma ganham conotações diferentes em mais de um discurso. O espírito é, propriamente, aquele âmbito, né, na maneira como estou abordando aqui.
O espírito é aquele âmbito que, no homem, né, anseia pelo transcendente e só vai satisfazer-se com, né, o verdadeiro contato com aquele que é pessoalmente, substancialmente transcendente a tudo que nós conhecemos, certo? Que é Deus, né? Então é aquela frase famosa do livro de Santo Agostinho, "As Confissões", que diz, né: "Senhor, criaste-nos para Ti; enquanto o nosso coração não repousa em Ti, permanece inquieto.
" E essa inquietude, sim, tem a ver também com o desejo de conhecer do ser humano, né? E Santo Tomás, quando propunha uma oração para antes dos estudos, ele falava da duple, eh, treva na qual nós nascemos: o pecado e a ignorância, né? E a ignorância é um problema muito sério do ponto de vista de que ela impede que as pessoas consigam fazer, né, aquilo que é um dos fundamentos da vida prudente, que é o discernimento, tá?
Inclusive, tem sido o objeto bastante contínuo, né, no contexto católico, né, do magistério do Papa Francisco a questão do discernimento. E aquelas pessoas, né, que lidam, volta e meia, com algum tipo de, eh, caminhada espiritual, caminhada religiosa e assim por diante, muitas vezes acabam também ouvindo falar bastante do discernimento. Então, eh, a questão das virtudes é uma das coisas que deve perpassar a vida de estudos de qualquer, eh, de qualquer um que decida se dedicar, né, a alimentar a sua alma, né, através de coisas boas que o ajudem a conhecer melhor o mundo e, a partir disso, decidir, né, de maneira mais adequada entre o que é bom e o que é mau, entre o que é desejável e aquilo que deveríamos repelir, tá?
Eh, existem classicamente elencadas quatro virtudes cardeais, que seriam a prudência, a fortaleza, a justiça e, eh, a temperança. Eu não estou colocando aqui nenhuma ordem específica: primeiro esta, depois aquela. Porém, independente do ponto de vista, é mais ou menos consenso, quando nós falamos, né, das virtudes, é colocar em primeiro lugar a reflexão acerca da prudência, tá?
Porque, eh, inclusive, existe um título para a prudência que é "auriga virtutum", ou seja, a virtude condutora das outras. Ou seja, a auriga é o cara que, eh, conduz, né, pelo menos esse conhecimento que eu tenho, que conduz então um carro, uma coisa, né? Geralmente, distração animal, tá?
Então essa ideia do "auriga virtutum", né, é aquela que é a condutora, a virtude condutora das demais. Por quê? A prudência é aquela virtude no homem.
Então, para começo de conversa, o que são as virtudes, tá? Virtude é uma palavra que remete à questão de força. A virtude é uma palavra que também passa, né, por uma certa ressignificação: ter virtude é, ou ainda numa palavra grega que pode ser traduzida por virtude, que é "areté", em grande parte conseguir ter força para, então, fazer valer a sua vontade, mas é evidente um caminho de sabedoria.
E depois, mesmo a trilha filosófica, né, da sabedoria ocidental, e mesmo, né, não só ocidental, mas também no mundo oriental, inclusive no patrimônio, né, oriental que vem no cristianismo, que está presente no cristianismo. Lembrando que o cristianismo é uma religião de origem oriental, certo? Que vai se difundir amplamente no mundo ocidental e, é claro, vai entrar em contato com uma série de elementos do ocidente e assim vai absorver, né, dentro do seu anúncio, dentro da sua cosmovisão, eh, as formas explicativas que o ocidente conquistou, né, com a filosofia, tá?
Então, eh, dentro desse contexto, né, de cristianismo e assim por diante, e em outros contextos também, se percebe que simplesmente ter força para fazer valer a sua vontade não é um caminho certeiro para a felicidade. Muitas pessoas querem coisas que são más e, às vezes, têm força para realizar essas coisas, ou seja, porque conseguem impor aos demais, tá, aquilo que elas desejam, certo? E que lutem, que lhe deem dinheiro, que façam isto ou aquilo e assim por diante.
É nesse contexto de virtude, né, que a palavra é usada, por exemplo, por Maquiavel, tá falando do político que consegue fazer valer a sua vontade, senão por amor, pelo medo, né, senão pela, eh, anuência das pessoas, então pela obrigação conquistada, se necessário, até mesmo de forma cruel, tá? Então eu tenho essa ideia. Só que, quando nós falamos de virtude, nós estamos falando propriamente daquela parte da reflexão, por exemplo, em Aristóteles, que é a ética, que nós também podemos chamar de moral.
Ainda que as pessoas geralmente fazem a associação entre moral relacionada a um determinado tipo de conhecimento ou de ciência do agir humano e a ética a um outro âmbito, tá? Eu não vou entrar no mérito da diferença das duas, aí como palavras, são sinônimos da outra, uma em grego, outra em latim, certo? E aqui não vale a pena se estender nesse tipo de coisa, mas pensando que a gente está num tratado onde o filósofo pensa as questões do agir humano em vista da sua felicidade, em vista da realização do ser, em vista de se tornar aquilo, né, que nós deveríamos ser, né, a ideia do "espolios".
A ideia do homem maduro e, assim por diante, está nas virtudes. O principal objetivo que o homem virtuoso está querendo educar, e por isso muitas vezes também combater, não é qualquer outra pessoa, comunidade, sociedade ou instituição; é ele mesmo. Então, essa primeira coisa que eu quero colocar diante de você é utilizando também, né, aquele adágio que está no Oráculo de Delfos, que vai despertar tantas reflexões em Sócrates, como relatado por Platão: ou seja, "Conhece-te a ti mesmo".
Por que isso? Justamente porque não conhecer-se a si mesmo faz o homem, mesmo dominando toda uma multidão, ser escravo das coisas que ele não está consciente que estão dominando-o, que são as paixões. Dentro dessa ideia de virtudes, eu não quero opor, mas quero colocar, né, diante de nossa conversa, a questão das paixões humanas.
Começa a ser chamado de virtude, gradualmente, aquelas coisas que no homem são hábitos que lhe dão força para realizar essa plenitude do ser ou plenitude da sua personalidade. Aí, é claro, nós já estamos pensando no ser humano como pessoa. Isso é um conceito, né, que vai para além da mera admissão da existência do ser humano como animal ou como outras coisas.
Certo? Então, nós temos ali essa individuação racional, tá? Que é a pessoa; e, no caso, a pessoa humana.
Essa expressão "pessoa humana" parece redundante, tá? Mas é porque, dentro de uma visão de cosmovisão, sobretudo cristã, existem as pessoas divinas, existem as pessoas puramente espirituais, anjos e demônios, e existe a pessoa humana, que é, sim, uma alma informando um corpo: uma unidade de corpo e alma. Certo?
E essa alma, com aquilo que alguns vão chamar de espírito, certo? Ou seja, com um elemento capaz de vontade, que tem vontade e intelecto, então é capaz de amar, né? É capaz de decidir, é capaz de escolher e assim por diante.
Então, aí, se eu tenho diante de mim uma substância individual de natureza racional, tá? Eu tenho uma pessoa, certo? E essa definição de Boethius, famosa e clássica, já está.
. . Essa pessoa, quando começa a ter hábitos que concorrem para a realização de sua personalidade, certo?
Para a realização de quem ela é, eu começo a falar desses hábitos como virtudes, porque são forças que nela vão realizar o bem que ela almeja, tá? Então, é isso. E as virtudes, né, são quatro; elas, como eu falei, são chamadas cardiais.
Alguns também vão chamá-las de virtudes naturais, porque, também dentro de uma cosmovisão cristã, existem três virtudes que são teologais, que se referem a Deus, né, sobretudo, e são causadas no homem. Vamos dizer assim, o germe causante delas vem de Deus; só pode ser possível em Deus. Mas não é só Deus que coloca na pessoa a capacidade, mas também auxilia a vontade da pessoa a concorrer para essas virtudes através da graça, né?
Que são fé, esperança e caridade. Tá? Sendo, sobremaneira, a maior de todas elas, a caridade.
E caridade, só para deixar muito claro aqui: não é apenas ajudar as pessoas necessitadas. Ajudar as pessoas necessitadas pode ser algo, tá? Que é motivado pela virtude da caridade, ou pode ser motivado por uma série de outras coisas, inclusive algumas que não são tão boas assim, como o desejo de vanglória, né?
A vontade de acabar sendo conhecido como alguém bom pelos demais, sem estar muito preocupado em sê-lo e assim por diante. É o que algumas pessoas vão condenar em algumas pessoas que têm muito dinheiro, que é a coisa de fazer o bem para aparecer, né? Como alguns diriam, tá?
A caridade, na verdade, é a opção pelo bem, tá? Que se manifesta numa decisão que acaba se tornando vida da pessoa. Só que certas decisões, seguidas de ação, né, seguidas de uma atitude, reconhece-se que são praticamente ou são impossíveis sem um auxílio, né, de Deus, na natureza humana.
Mas dessas coisas nós não vamos falar hoje. Vamos falar dessas virtudes consideradas naturais, certo? Ou mesmo, né, virtudes cardiais.
Tá? A palavra em latim "cardo" significa, na verdade, dobradiça ou eixo, tá? Então, são virtudes eixos, certo?
Estão ali na natureza; elas se articulam em torno da natureza humana, favorecendo o quê. Acontece que essas virtudes. .
. Vamos dar uma pequena definição: as virtudes, na prudência, são a distinção entre o bem e o mal, seguindo-se da ação baseada nisso, tá? A coroação da prudência está na ação.
Isso é importante. Então, não é prudente o homem que consegue discernir razoavelmente o bem do mal, mas na hora de viver coerentemente com esse discernimento, ele não vai, né? Então, conseguir ter sucesso em fazer aquilo que ele discerniu como sendo atitude prudente, ou por medo, ou por imperícia, ou porque não consegue, né, passar por algum obstáculo.
Isso vai ser culpável quando esse obstáculo se interpõe a ele por culpa própria e assim por diante. Tá? Depois eu tenho a fortaleza.
A fortaleza é essa disposição habitual de, diante do bem árduo, ou seja, daquilo que é difícil, daquilo que, né, te convida o tempo todo a desistir, você consegue seguir avante, mesmo diante da oposição. Mesmo muitas vezes não contando com mais ajuda do que a sua própria ajuda da graça de Deus e assim por diante. O sujeito vai.
. . Se tornou habitual nele: "Olha, a vida é difícil mesmo.
Certo? O meu dia mais tranquilo. " E ele descreve que o dia mais tranquilo dele é o pior dia da vida de muita gente, né?
Então, esse cara é um cara que segue em frente, custo o que custar; é "whatever it takes", até o final derradeiro e tudo mais. Esse é o nosso homem de fortaleza, e quanto mais ele for assim, mais virtude da fortaleza ele tem nele, né? Depois.
. . Disso, se torna entra a questão da temperança.
A temperança é a moderação, é naqueles bens chamados também como cíveis ou aprazíveis. A coisa prazerosa é. .
. eu sempre me mantenho dentro do limite adequado. Isso tem a ver exatamente e é muito interessante como se articula, e as virtudes.
Depois, tem uma certa articulação entre elas, evidentemente, certo? Uma certa, uma grande articulação, como por exemplo, as pessoas não associam muito isso. Tá.
Mas a virtude, por exemplo, da temperança está muito ligada à virtude da humildade, porque quando o sujeito é temperante, ele diz assim: existe uma racionalidade, né, nesse agir, nesse fruir o prazer. E se eu não souber respeitar a minha natureza, se eu não souber reconhecer quem eu sou, a verdade sobre mim, e a humildade se trata disso, tá? Eu vou, né, sofrer as consequências por isso.
Eu não vivo como um homem sem limites, como um homem que tivesse uma natureza ilimitada ou que pudesse fazer o que quisesse. Não! Eu sei que eu tenho um limite.
É. . .
meu corpo tem um limite: limite para sono, um limite para a nutrição, um limite para fruição do prazer. Venério! Isso tudo tem um limite.
Essas coisas foram colocadas em mim não para que eu fique simplesmente lá aproveitando prazeres. A nutrição, a alimentação, existe para que eu esteja funcional, esteja bem, para, sobretudo, buscar, né, conhecer as coisas elevadas e agir de maneira coerente com elas. Se eu sou fraco, se eu estou fraco, se eu estou mal alimentada, não vou conseguir, não vou ter cabeça para refletir as coisas.
Posso ser, né. . .
ser. . .
instado a fazer coisas erradas por causa da aflição que essa falta de alimento me traz. Posso ficar confuso. Bom, vocês sabem todos os problemas que tem alguém não se alimentar, não se nutrir, não se hidratar e assim por diante, tá?
E assim por diante também, a mesma coisa, né, não posso viver para ter, né, aventuras amorosas para zer venério, como se não tivesse amanhã. Mas fui colocado em mim para que eu opte por uma esposa, opte por um esposo, né, e dentro da disposição da Divina Providência, possa então, né, ter os filhos que a providência me confiar. Então, é para isso, né?
Não é para simplesmente transformar o leito conjugal num playground, né? Depois disso, entra a coisa do sono. Bom, não é para eu ficar dormindo até sentir o corpo doído, né, de tanto deitar.
Não é para eu poder estabelecer-me e ter o outro dia para fazer as coisas que preciso, que devo, e assim por diante, tá? Então, beleza! Tem que ter temperança sobre tudo isso.
Abusar de qualquer uma dessas coisas por causa do que elas me traz, vai ter as suas consequências, né, e que eu vou sentir muito rapidamente, tá? E, por fim, entra aí a justiça, que de maneira muito curta e grossa é dar a cada um aquilo que lhe é devido, tá? Isso pode parecer muito simples, mas as complicações começam porque as circunstâncias são diversas.
Um exemplo simples: toda a discussão que existe hoje em dia acerca da propriedade intelectual, direitos autorais, por exemplo. As pessoas que discutem isso acham que não é um ponto pacífico tão grande, né? Então, assim, e outras dizem: não é justo, essas pessoas trabalharam, produziram.
É. . .
e você não estaria lendo agora esse livro aí, né, se não tivesse alguém que pôs e dedicou tempo para escrevê-lo. É. .
. e depois, pô, a editora foi lá, colocou-a num formato de livro que facilita a sua vida, é que, inclusive, muitas vezes, é bonito, você gosta de ter um livro bonito à mão. Isso não foi feito de graça!
Então, essas coisas assim, né? Aí vai dessa forma, aí vão querer discutir também. Não, mas livro, tudo bem!
Eu tô pagando pela base, mas aquilo que me vem através de um meio digital. . .
aí vai longe, essas discussões todas. Para muitos, é ponto pacífico, sim, tem um direito, sim, de propriedade sobre propriedade intelectual. Tem que se pagar por esses recursos digitais e acabou, entendeu?
Então, tem essas questões que permeiam, né, também o mundo das virtudes, né? Como é que eu ajo? Como é que eu ajo de maneira virtuosa?
Tá? E aí, aqui, para começar a falar de uma delas, propriamente, que é a prudência, nós estamos diante do dilema do ser humano que precisa conhecer, né, o que é o verdadeiro bem e o que é o mal, tá? Isso é uma coisa fundamental.
Por quê? Porque um erro em relação a isso pode me colocar em sérios apuros. É como você conhecer alguma coisa como benéfica, sendo maléfica.
Olha, isso aqui é um negócio que, quanto mais você tomar, melhor você vai ficar. De onde? Você toma um copo de veneno?
Ah, não! Isso aqui faz muito mal, nunca tome! Um super elixir feito com, sei lá, com coisas bacanas que fazem muito bem para a saúde e que ajudam você a ficar muito bem.
E você nunca vai tomar aquilo ali e não vai ter esse benefício. Então, é meio óbvio, né? A questão da prudência, certo?
E, mas esse aqui é o grande ponto: nós percebemos, né, já nesse primeiro momento, o quanto as coisas dependem-se entre si. Tá? Uma das coisas que vocês vão perceber já de arrancada com relação a isso é que a prudência requer do sujeito, né, algum nível, né, de percepção da realidade.
Tá? E aqui entra também uma coisa que está muito articulada com os estudos das Artes Liberais, como acontece no Instituto de São Vítor e em outros lugares que também procuram conservar, né, os estudos das Artes Liberais. Por quê?
Porque, em grande parte, essas disciplinas, né, ou ainda o espírito daqueles que organizaram essas disciplinas das Artes Liberais, está relacionado a organizar de maneira integral os principais conhecimentos que possibilitam à inteligência humana conhecer o mundo, né? Como ele é verdadeiramente, tá primeiramente conseguindo organizar isso através de um pensamento reto, eh, através expressando isso e registrando isso através de uma arte gramática que permite ao sujeito não só compreender os símbolos, os sinais gráficos e as palavras, mas também entender quando, dentro de um contexto de um texto eh ou de um discurso, quais palavras têm o melhor efeito para conseguir comunicar ou então gerar, né, aquela impressão ou comoção que eu desejo em quem é o meu ouvinte. Então, primeiro eu aprendo a expressar-me, né, aprendo a ter contato, né, com o mundo da palavra, com o mundo da escrita e assim por diante, onde está a maioria dos registros daqueles que refletiram sobre a realidade.
Eh, aprendo a pensar, né, logicamente, né, tentando perceber quais são as regras em relação às verdades percebidas, qual a hierarquia dessas verdades, qual a relação entre elas, certo? Eh, quando um postulado, uma assertiva, uma afirmação, né, pode ser eh examinada como uma afirmação, pode ser examinada e verificada como falsa ou verdadeira. E, depois disso, eu parto então pro conhecimento, né, daquelas coisas que estão externas ao mundo, né, da letra, da palavra e assim por diante.
Eh, o que o movimento dos astros e as forças presentes na realidade, tá? A relação entre o mundo numérico, tá? E, assim por diante, essas diversas coisas, tá?
Eh, e a música também, né, como essa harmonia do número e assim tudo mais, tá? Mas o grande espírito, o grande negócio nessa história toda é procurar perceber cada vez mais adequadamente o que são as coisas. E isso não é possível ser feito o tempo todo com uma atitude que é muito útil ao método científico, mas que não pode ser a única atitude do mundo de conhecimento de alguém, de aprendizado, que é simplesmente aprender as coisas como elas são.
Em isolado, eu vou lá, reparto em partes e conheço as partes; não, eu tenho que ser capaz depois de integrar tudo novamente, certo? E perceber o que aquela coisa significa no todo ao qual ela pertence. Porque a minha vida também é uma integralidade; eu preciso tomar as atitudes que eu preciso tomar de maneira prudente, em coerência eh integral.
Por exemplo, eu não posso ter uma atitude como profissional que não faz sentido com o homem de religião, que não faz sentido com o homem de família, ou seja, o homem que eu sou na minha família, o homem que eu sou em relação à minha fé, o homem que eu sou em relação a tudo isso, né, no mundo dos negócios. Essas atitudes têm que estar lastreadas por alguma coisa que as conecte, certo? E essa conexão vai levar pro bem tudo aquilo que tem a ver comigo.
Ou seja, em um âmbito da minha vida que eu conduza mal, vai acabar impactando todos os outros, porque não existe – isso não tem três Rodrigos, por exemplo, andando pelo mundo. Não tem um Rodrigo que tá lá em isolado, trabalhando com a coisa dos negócios, não tem um Rodrigo que tá lá, né, trabalhando com as coisas da família, não tem um Rodrigo que tá lá operando as coisas da fé, da religião. O Rodrigo que reza é o mesmo Rodrigo que comercia, que é o mesmo Rodrigo, né, que tem a sua família.
Então, ou seja, não tenho como me separar, né, nessas coisas todas, né? Eu tenho que eh entender. E aí, assim, um problema, uma desordem moral no mundo dos negócios, muito provavelmente, vai ter o seu impacto em relação a como eu enxergo certas coisas na minha família.
É difícil! Por mais que alguém tenha esse ideal que a desonestidade que ele tem num âmbito não vai acabar refletindo no discernimento que ele tem no outro âmbito, certo? Ou seja, e aí na religião, um exemplo simples: o homem quer levar a lógica dele da barganha, por exemplo, no mundo dos negócios, pro mundo da religião, e aí ele olha Deus como se ele fosse mais um sujeito ao qual ele quer transitar valores e da qual ele tem que tirar o melhor negócio, ou seja, eh, para muitos, dar o mínimo e receber o máximo.
Então, eu tenho que descobrir aqui como é que eu. . .
ó, vamos lá, eu vou na missa e aí eu rezo um terço, mas daqui a pouco, beleza, isso eu já reservo para mim, que é meu tempo livre, mas eu já fui na missa, pois é domingo; é negócio, aqui eu tenho que ver: ajudei um pobre, ajudei um pobre? Tá legal, beleza! Entender isso não faz sentido, tá?
Essas confusões que são frutos do sujeito não reconhecer o que as coisas são em particular e na integralidade é justamente aquilo que se procura remediar e superar, né, na atitude prudente. O homem prudente, aquele homem que consegue enxergar qual é o verdadeiro bem de cada uma das suas ações, e aí tem uma coisa que é fundamental desde o princípio do projeto filosófico: a gente percebe uma tensão entre o Uno e o Múltiplo. Então, essa unidade, né, essa unidade no bem causa no ser humano aquela coerência de vida que acaba dando para ele uma satisfação que independe daquilo que ele está fazendo de mais ou menos prazeroso.
Porque, de alguma forma, em todos os lugares, ele está fazendo a mesma coisa, perseguindo o bem discernido prudentemente e agindo em conformidade com esse discernimento, ou seja, ele nunca é um cara que para, né, de buscar o bem. Ah, ele busca o bem, sim! Ele busca o bem quando tá indo no mercado, ele busca o bem quando tá dando banho no filhinho pequeno, ele busca o bem quando tá rezando, ele busca o bem quando vai, né, trabalhar, ele busca o bem quando tá lá fazendo seus exercícios, ele busca o bem quando seleciona uma comida, né, mais adequada.
Né? Para aquele momento que ele está, que inclusive pode sim, não é tempo todo: verdura, carne magra e tudo mais. Talvez tem aquele dia que ele percebe que precisa.
Olha, hoje eu preciso comer, né? Uma picanha bem gorda, tomar uma cervejinha, entendeu? E relaxar um pouco da atenção da minha Sese, certo?
Nunca esquecendo que eu não ganhei um vale para ser guloso, para me tornar um ébrio, nem nada. Significa simplesmente que agora, nesse momento, eu vou fazer a experiência de um prazer mais intenso à mesa, sem nunca esquecer o fato de que eu sempre tenho que ser temperante, tá? Mas em todos esses lugares, esse cara está fazendo a mesma coisa: discernindo qual é o bem verdadeiro de cada atitude e optando por ele na sequência.
Só que vocês já estão percebendo que isso naturalmente arrasta junto as outras virtudes, porque se esse cara não for um homem de Fortaleza, agir prudentemente em alguns momentos pode ser algo muito custoso. E aí é a diferença entre prudência e astúcia, tá? Lembrem-se, esse homem não está tentando tirar uma vantagem imediata ou ganhar um prazer barato em relação a alguma coisa; ele está perseguindo o maior bem daquela atitude.
Principalmente quando ele está no contexto de homens maus ou viciados, ele pode ter uma grande oposição, uma oposição generalizada, na hora de praticar aquele bem. É o que aconteceu, por exemplo, no caso dos mártires e de outros homens que tiveram que passar por grandes sofrimentos para fazer aquilo que é prudente ser feito, ou não fazerem algo porque também não é prudente ser feito, tá bom? Mas esse sujeito muitas vezes está também, né, relacionado a não vilipendiar os direitos dos demais.
Então ele também, isso vai impactar. Um homem que não é prudente não vai conseguir ser justo, porque ele não consegue discernir em cada coisa o que é pertinente segundo o bem da coisa e segundo aquele a qual ela se destina. Então ele, muito dificilmente, vai conseguir ser justo sem ser prudente, certo?
Assim como ele não vai conseguir ser temperante sem conseguir discernir: olha, né? A comida foi feita para que eu esteja bem, saudável, não para que eu fique me empanturrando daquilo que eu mais gosto. Né?
Pô, mas eu tô aqui com o meu melhor prato favorito na minha frente! Que vontade de comer, né? Mais dois pratos, mais duas montanhas do meu prato favorito.
Opa, mas não! Isso aqui não é atitude prudente, certo? E eu tenho Fortaleza para resistir àquele prazer que me convida.
Tá? E pode ser que em algumas situações, é aquilo, né? Às vezes o bife tá contado.
Então comer um pouco a mais significa que o outro talvez não tenha nem aquilo que é dele por direito. Então, vocês percebam, né? Como a prudência acaba realmente envolvendo todas as virtudes.
Está bem. Eu acho que isso aqui é suficiente como uma pequena introdução à questão das virtudes. Eu vou ficando por aqui, certo?
Até a próxima! Tchau.