[Música] Não se [Música] ajudar. A alvorada revela o tráfico de barcos pelo rio Xingu. Na Isolada Amazônia, os rios são como estradas, mas é preciso cuidado para navegar, pois já chegou o período da estiagem.
E o Xingu está mais raso. Nosso barqueiro experiente serpenteia as águas em busca dos pontos mais profundos. Viajamos quase 3 horas pela chamada volta grande do Xingu até chegar à barragem principal de Belo Monte.
Uma placa nos lembra o quanto a usina é controversa. Seguranças do Consórcio Construtor barram a presença de nossa equipe. Olá, senhores.
Olá. Olá. Tudo bem?
Nós estamos da TV Cultura de São Paulo. Estamos fazendo uma reportagem aqui a respeito, mas não pode, senhor. Tem uma autorização.
Esse aqui é o canteiro conhecido como Pimental. Aquela obra que a gente vê lá no fundo já é a barragem sendo construída. A partir desse ponto, o rio passa a ser represado e do lado de lá ele torna-se mais seco.
Do alto dá para ver que a barragem já muda as características do Xingu, mas o lago principal, responsável por represar a água que vai mover as turbinas de energia não ficará aqui. O curso do rio será desviado por um canal com 20 km de comprimento até a casa de força principal, fazendo a volta grande do Xingu ter o seu regime de água completamente alterado. Pelo plano estabelecido e autorizado pelo governo, a vazão mínima durante a época mais seca será de 600 m³/ segundo.
Esse patamar não muda drasticamente o rio porque a média histórica para o período é de 700 m³/ segund. A mudança maior vem no período da chuva. A vazão mínima estabelecida é de 8.
000 m³/ segundo. Uma queda acentuada, já que a média histórica do inverno é mais que o triplo, 25. 000 1000 m³/ segundo.
Além disso, a usina está autorizada a em anos alternados diminuir a vazão para apenas 4. 000 m³/ segundo. Isso pode trazer grandes danos às plantas e aos bichos que vivem na região, inclusive espécies ameaçadas de extinção, explica esse pesquisador.
Então, esse tem um um impacto muito maior sobre a região e acaba com os rios, os ambientes aquáticos, pestes, etc. , naquele lugar, mas também com a a parte de floresta envolv. Os técnicos da Norte Energia rebatem os críticos dizendo que os números retratam o patamar mínimo e que se houver mais chuva, mais água deve correr pelo Xingu.
Não é o volume e sim essa variação que tem, né, que vai justamente suprir a vida na Volta Grande, pelo menos é o que foi consensuado. Mas se por acaso ao longo eh do tempo consensuado, que são 6 anos de estudo, de monitoramento, fica provado que realmente houve algum impacto, essa esse regime será repensado, né, para que a gente possa eh encontrar uma outra condição que atenda tanto a parte ambiental como a parte da engenharia, né, da operação da usar. Os ambientalistas que acompanham a construção de Belo Monte criticam o fato de a obra começar antes de os estudos serem aprofundados.
No ponto de vista socioambiental, nós estamos na idade da pedra, né? Os levantamentos são precários, são mal feitos, né? Então, para que você possa ter um planejamento adequado, possa ter um conjunto de medidas mitigatórias com eficácia, você precisa ter um investimento nessa área socioambiental prévio.
A passos lentos, essas medidas para diminuir o impacto da obra vão aparecendo. Essa é a unidade de monitoramento de fauna e flora da Norte Energia. Aqui uma equipe de 120 pessoas trabalha para cadastrar as espécies de animais e de plantas que serão afetados pela barragem.
Cerca de 300 tipos de plantas já foram identificados, formando um banco genético vivo. Parte delas está sendo cultivada e será utilizada para recompor a mata degradada. Pelo plano de construção da usina, a Norte Energia terá de manter ao redor de toda a área lagada uma faixa de 500 m como área de proteção permanente, uma APP.
A região aqui num, de um modo geral, ela foi muito explorada e tem algumas espécies que são de origem aqui nativas daqui, que a gente não encontra mais com abundância, como mogno, IP, IP roxo, IP branco. A fauna também está sendo monitorada. Os bichos são afastados por equipes que percorrem as áreas atingidas.
Quando um deles está machucado e não pode fugir, ele é capturado e trazido para a recuperação. Foi o que aconteceu com esse cachorro vinagre e com esse tatu que tinha uma lesão na calda e acaba de ser operado. A gente espera que corra tudo bem e ele possa voltar saudável pra natureza, devolver pras áreas de soltura mesmo.
Mas as instalações ainda são insuficientes quando se pensa no impacto e no ritmo da obra. O sol beja as águas do Xingu. O bonito espetáculo parece questionar se haverá lugar para o homem em meio a tanta [Música] natureza.
A discussão toda hoje é: vamos aproveitar a energia do rio Xingu como se ela estivesse sendo desperdiçada. A ideia de Belo Monte é a ideia de aproveitar algo que está sendo jogado fora, que está caindo no mar. Mas isso não é verdade.
O rio Xingu é aproveitado todo o tempo. A energia do do rio Xingu se dissipa na vida de todos os que estão em volta dele, sejam plantas, sejam animais, sejam os índios, sejam as populações ribeirinhas, sejam os municípios. Então, a discussão não é aproveitar algo que tá indo fora.
A discussão é como canalizar um certo aproveitamento em benefício de alguns e em prejuízo de outros. Então, todo o debate, na verdade, é um debate político, é uma escolha que o Estado brasileiro está fazendo. E essa escolha aqui no Xingu está reproduzindo inteiramente um modelo de desenvolvimento altamente predatório.
E predatório em que sentido? Desconsiderando a população local e desconsiderando a natureza local.