Hoje eu vou falar pra vocês como que sapata é um bicho perigoso. Mas que fique bem claro, não sou eu que estou afirmando isso, e, sim, Alison Bechdel, uma mulher lésbica, quadrinista e responsável por uma das tiras mais populares sobre o mundo lésbico, que é Perigosas Sapatas. Publicada entre 1983 e 2008, ou seja, uma tira que durou 25 anos, ela acabou pegando uma série de acontecimentos importantes da história dos Estados Unidos.
E como, obviamente, a visibilidade lésbica e questões LGBT como um todo acabaram mudando com o tempo. O nome da tira nos Estados Unidos é Dykes to Watch Out For, que eu não tenho a menor competência de traduzir, porque é uma gíria, e eu ainda acho que Perigosas Sapatas combina. Porque o que a gente aqui acompanha nas tiras de Bechdel é o quanto que mulheres lésbicas, progressistas, ligadas ao Partido Liberal dos Estados Unidos, podem ser pessoas bastante acolhedoras, preocupadas com o coletivo e também muito, mas muito neuróticas.
Não fiquem esperando algo politicamente correto, porque aqui o politicamente correto é motivo pra tirar sarro. E veja, não pra desmerecer as causas, mas pra mostrar que a gente é mais complicado que isso. Muitas vezes a gente cola num coletivo que tem causas ambientais, causas pró-minorias, e a gente acredita de fato naquilo, mas já que estamos ali, dá pra dar em cima de uma pessoa bonitinha ali e quem sabe conseguir uma fodinha legal no final da noite.
Como diz a própria Bechdel, Perigosas Sapatas é basicamente uma novela, na qual a gente acompanha uma série de personagens com dramas ligados a relacionamento, questões políticas e também sexuais. E pra te adiantar, motivos que fazem da tira impoliticamente correta, tem aqui momentos que mostram o quanto que feministas radicais, às vezes, podem ser bastante desagradáveis. E veja, eu não estou falando contra os grandes vilões do mundo, os homens, machos, heterossexuais, os opressores e tal.
Não, eu tô falando do quanto que essa intolerância também pode aparecer com pessoas com deficiência, bissexuais e outros grupos que aqui a gente vê na perspectiva delas. Daí então que Perigosas Sapatas é um quadrinho que eu considero corajoso, porque é Bechdel falando muito do mundinho em que ela vive, mas reconhecendo que, olha, a gente não é perfeita. Pelo contrário, a gente também faz muita merda.
Então eu vou aqui nesse vídeo comentar pra vocês sobre a tira Perigosas Sapatas, falar dos seus primeiros anos, apresentar pra quem não conhece cada uma das personagens, são muito divertidas, falar também um pouco do estilo da Alison Bechdel, e obviamente das questões culturais, sociopolíticas que estão embrincadas num projeto como esse. Mas antes de eu ser cancelado com uma apresentação já tão problemática, eu peço que você curta o vídeo, se estiver curtindo, se inscreva caso esteja novo por aqui e compartilhe. Esse canal só existe graças aos seus apoiadores e são eles que financiam essa loucura.
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Mas vambora. Primeiro vamos falar da própria Alison Bechdel. A sua obra mais famosa é a graphic novel Fun Home, de 2006.
Dá pra dizer que existem algumas graphic novels que se tornaram icônicas no período dos anos 90 até os anos 2000. A primeira delas, que de certa maneira acabou ajudando todas as outras, é Maus de Art Spiegelman, que fala das memórias de seu pai no campo de concentração, só que usando seres antropomórficos. Os judeus são ratos, os nazistas são gatos e por aí adiante.
Outra obra também que vai ser muito importante nesse período vai ser Persépolis, de Marjane Satrapi, que também é uma autobiografia e que servia a Satrapi pra fazer uma série de comentários sobre o Irã, que cada vez mais cedia ao fundamentalismo religioso. Já Fun Home, da Alison Bechdel, também tem a sua importância, está nesse hall aí das grandes graphic novels. Mas ela também tem um detalhe adicional que as anteriores não têm.
Ela é uma obra muito importante até hoje pra comunidade LGBTQIA+. Porque ali o que Bechdel faz é examinar o seu pai, o que pra dizer de uma maneira muito simplista, seria talvez um homem gay enrustido, e o quanto que isso atrapalhou a relação deles, enfim. Eu não vou analisar aqui Fun Home, mas eu fiz toda essa volta pra dizer pra vocês o seguinte.
Apesar de Fun Home ser considerada uma obra tão importante, e eu reconhecer isso, eu acho ela chata. Porque a Alison Bechdel é uma mulher bastante erudita, e Fun Home parece que é muito ela implorando pra que o meio acadêmico a aceite. Daí todo o esforço autobiográfico vem acompanhado de: olha, eu sei citar um monte de autor, olha só como a gente é inteligente, tá vendo?
Isso tá tornando essa obra muito mais densa, porque não basta eu falar da minha vida, eu tenho que falar e também citar James Joyce, Dostoievski, sei lá mais quem. Então eu acho ela meio. .
. enfim, eu não gosto muito. Já Perigosas Sapatas é muito mais interessante, justamente porque é mais descompromissada.
Aqui quer me parecer que Bechdel não estava tentando impressionar ninguém. E muito mais procurando registrar as impressões que ela estava tendo. Porque como ela mesmo diz, depois que ela saiu do armário e ela passou a se comunicar com outras mulheres lésbicas, e fazer parte de uma série de ações sociais, grupos de apoio, coletivos, ações comunitárias, etc.
Ela passou a se encantar, ela passou a ver essas mulheres como pessoas maravilhosas. Aí ela sentiu a necessidade, pô, vou fazer quadrinhos disso. Porém como ela mesma diz, ao longo do processo da série ela foi percebendo que ela estava produzindo uma estereotipia, ainda que positiva.
Algo que remete ao vídeo que eu fiz aqui sobre racismo do bem. Ou seja, ela sente que precisa escapar dessa estigmatização de mulheres lésbicas, como se todas elas fossem mulheres do bem. E é esse o ponto que daí então torna essa série interessante.
Porque aqui apesar de todas as mulheres serem mulheres lésbicas de esquerda, elas não estão imunes a um caminhão de contradições. Eu vou comentar aqui com vocês um compilado da tira, porque, pô, ela durou 25 anos, é muita coisa. E vou fazer um recorte por ordem de acontecimentos que são bastante significativos na política dos Estados Unidos.
Ou seja, na verdade eu vou fatiar em três. O primeiro bloco que eu vou falar aqui é a onda conservadora dos anos 80 e início dos 90, que deixa todas elas muito preocupadas. Tem a ver com o segundo mandato do presidente republicano Ronald Reagan e também da presidência do Bush pai.
Mas vocês gostam aqui do vídeo, depois me digam nos comentários se vocês querem que eu fale mais das outras fases dessa tira. Porque eu acho que valia a pena mais outros dois vídeos. Chegando à era Bill Clinton, ali de 92 a 2000.
E a fase de volta dos republicanos com o Bush filho ali de 2000 a 2008. Então digam aí nos comentários se vocês vão querer, tá bom? Mas vamos lá, vamos lá, vamos falar das personagens porque é isso que segura a onda.
A primeira é Mo, apelido de Monica. E em muito aqui é a própria Alison Bechdel. Inclusive a Mônica é desenhada quase do mesmo jeito que a Bechdel se desenha.
E aqui você identifica um pouco de uma certa tradição que remete a artistas como Robert Crumb, Harvey Pekar. Que são caras que resolvem falar de si sabendo que não prestam. Ou seja, tirando sarro, debochando muito daquilo que tem mais de ridículo.
E não pra ganhar empatia do público, mas pelo contrário, pra ganhar talvez até mesmo ranço. É muito diferente do que a gente vejo nas redes sociais. Onde todo mundo quer parecer muito sofrenildo ou até mostrar certas falhas, mas no fundo apenas pra ganhar like.
Aqui não, o lance é completamente oposto. É quase como, vou mostrar essa obra pra você que fala de mim e você vai gostar menos de mim ao final disso tudo. Mas o que torna a Mo uma personagem que a gente possa não gostar tanto dela?
O lance galera, é que ela é profundamente neurótica. Ela é a encarnação da chata, mas assim, da chata colossal. Ela em parte já serve de deboche sobre o quanto que os americanos são paranoicos.
Sejam à direita, sejam à esquerda. São pessoas profundamente neuróticas com uma série de preocupações em relação ao mundo. Seja porque os comunistas vão vencer, no caso de uma pessoa de direita.
Seja porque, meu Deus, o ar que eu tô respirando tem a ver com os poluentes das plataformas de petróleo. E eu não posso encostar no telefone sem um lencinho, senão um germe letal vai me matar. Aliás, o Brasil importou muito disso nos últimos anos.
O quanto que o progressismo, muitas vezes, é na verdade só uma versão politicamente correta de pessoas muito, muito neuróticas. E isso a gente vê aqui bastante na Mo. Porque não se trata de você minimizar as causas pelas quais ela luta.
Mas a maneira como ela luta é algo que é extremamente angustiante pra ela mesma. Ela fica pensando como é que ela poderia ser mais engajada, mais politicamente correta. E ela fracassa miseravelmente, porque ela sempre percebe que ela tá fazendo alguma merda.
Nem que seja simplesmente só estragando o rolê dos outros, dizendo como o mundo tá horrível. Não é por acaso que a tira mais no seu começo vai mostrar o quanto que Mo está se sentindo sozinha. Ela não tem uma relação sexual há mais de ano.
E lógico, porque ela é muito chata. As amigas dizem isso pra ela. Mo, cê é chata.
E ela fica num dilema, dizendo, não, mas eu não posso pensar nisso. Porque nesse momento tem pessoas com fome, tem guerras, tem coisas horríveis acontecendo. Eu não posso, a partir disso, ficar pensando apenas no que eu sinto.
Isso é egoísmo. Mas no final de dia ela fala, putz, mas cara, eu tô num tesão. Aliás, esse é um ponto já que aparece aqui demais e a Bechdel tira sarro.
O quanto que essas mulheres se reúnem numa série de ações sociais. Todas relevantes, todas nas quais elas acreditam. Mas que serve também ali como rolê pra pegação.
E notem, isso não é uma contradição. Porque, vamos ser francos, qual é o problema das pessoas se amarem à vontade? Mas ainda assim, isso é bacana porque serve como uma crítica ou até mesmo uma vacina contra esse senso de abnegação tipicamente cristão.
Porém, a Mo vai ser escrota também em outros episódios. Que é quando ela acaba se metendo na vida das amigas que são casadas. Dizendo que elas têm que ser um modelo de relacionamento pra própria Mo.
Porque senão ela perde o referencial. Ou seja, ela começa a controlar os outros pra que os outros sirvam pra ela como inspiração. O que é um negócio profundamente egoísta.
Tem comentários bifóbicos, aliás, não só dela. Esse grupo de amigas ali torce o nariz para pessoas bissexuais. Isso é algo que eu não sei dizer se muda no decorrer da série.
Mas é bem interessante como documento. Do quanto que naquele momento, bissexuais eram vistos apenas como pessoas que, na verdade, estão querendo se divertir. Como elas mesmas dizem.
Pô, são meninas que ainda não saíram do colegial. Estão naquela fase de curtir o homem, mas voltam e meia dão os beijinhos na menina. Vamos ser francos, essa treta existe até hoje.
Muitas pessoas bissexuais até hoje reclamam do quanto que não são aceitas por pessoas homossexuais. Mais especificamente, por feministas radicais. Outro momento que a Mo se torna escrota é quando ela não quer aceitar que uma das suas amigas quer ter um filho.
Como ela mesmo diz, o nosso papel como mulheres lésbicas feministas é mudar o mundo. E não mudar fraldas. E além disso, a Mo, além de querer sempre ser a mais radical do rolê.
Sempre querer mostrar que é ela que está pensando de maneira ainda mais problemática do que todas as outras. Ela nesse senso de superioridade, nesse pedestal moral, acaba muitas vezes cometendo atos de capacitismo, por exemplo. Quando ela se incomoda que tem uma colega de trabalho, que é uma judia com esclerose múltipla.
Acaba ficando com a vaga que Mo queria. E daí ela começa a se contorcer dizendo, pô, só deu vaga pra ela porque ela é aleijada, pô. Esse é um detalhe interessante que o quadrinho explora nos últimos momentos, que é muito a cultura do ressentimento.
Inclusive tem pesquisas nos Estados Unidos que mostram isso muito no eleitorado. Que acabou, nos últimos tempos, guinando pra extrema direita. Porque tem uma coisa que já se observou em pesquisas.
Que é o fato de que toda vez que você começa a criar uma espécie de RPG das minorias. Ou seja, de você produzir pontos que as pessoas vão acumulando conforme elas vão acumulando minorias. Isso produz uma cultura do ressentimento que faz com que mesmo pessoas mais progressistas.
Comecem a se tornar um tanto reacionárias. Pra ser bastante objetivo, e é que tem tudo a ver aqui com a história da Mo. Ela é uma mulher lésbica, ela se entende como uma figura minoritária.
Mas agora tem uma mulher lésbica e deficiente física. E o emprego que Mo queria, até pra estar numa condição melhor, foi pra essa outra menina, por uma questão de acolhimento. Mo então, que se diz muito de esquerda, percebe, pô, mas eu fiquei pra trás.
E aí a resposta dela, no final das contas, acaba sendo de preconceito. Enfim, alguns vão dizer que isso é o puro suco do identitarismo. Eu já falei aqui que eu não gosto muito desse termo, porque ele é meio generalizante.
Mas o fato é que esse problema existe, e esse quadrinho aqui demonstra isso muito bem. Pode ser que depois de toda essa descrição vocês tenham achado Mo um porre. Mas ela é muito engraçada.
Justamente porque ela é muito, mas muito neurótica. No começo da leitura eu fiquei do tipo, meu Deus, aqui sim que o pessoal fala em lacração. Meu Deus, isso aqui é lacração o tempo todo.
Mas eu suponho que você vai entender que tem um deboche ali, tem uma autodepreciação que é muito engraçada. Mo, ao querer salvar o mundo, não se converte em uma heroína para nós. Pelo contrário, é por ela ser tão cheia de pretensões, e ao mesmo tempo ser uma pessoa tão problemática, que daí sim ela vira uma personagem interessante.
Inclusive tem uma cena maravilhosa, quando ela briga com uma namorada, que sabendo o quanto que poderia machucá-la, resolve chamá-la da pior palavra possível. Harriet, que foi a namorada de Mo, olha nos olhos dela e diz. .
. Sua liberalzinha. Hahahaha Conforme aqui eu já comentei com vocês, Perigosas Sapata surge num contexto onde havia uma onda conservadora muito forte nos Estados Unidos.
Ronald Reagan foi um presidente bastante popular, e tudo dava a entender que ia ter ali um longo reinado republicano. Algo que depois não aconteceu, porque o Bushi Pai inclusive nem se reelegeu. Mas isso tudo é importante, porque explica o quanto que as personagens aqui são tão engajadas.
Porque era um momento onde se falava muito da visibilidade lésbica, então a gente aqui vai ver sempre muitas passeatas, muitos encontros, grupos de acolhimento, discussões sobre a Guerra do Golfo, discussões sobre AIDS, que naquele momento começava a ser conhecida, além de filmes do período e como eles foram recebidos pela comunidade lésbica dos Estados Unidos. Por exemplo, Thelma & Louise foi um filme que até que agradou, mas elas saem do cinema dizendo, caramba, essas mulheres não tinham opção não, parece que mulher pra encontrar liberdade tem que se matar. E eu falando isso eu acabei de perceber que eu entreguei o final do filme pra quem nunca viu.
Já em compensação em relação a Instinto Selvagem, elas chegaram até a fazer protesto, porque seria um filme que mostraria uma mulher lésbica como uma espécie de predadora. Coisa que eu nem lembro, como é que isso se encaixa no filme? Eu não lembro mesmo.
Mas deixa eu falar mais de outras personagens, porque Mo aqui é só mais uma. Um casal aqui que vai ser bastante interessante é Clarice e Toni. Clarice é uma mulher que estuda direito, muito ligada também a causas antirracistas, e Toni é uma contadora, uma mulher latina que tem o sonho de ser mãe.
No começo essa relação entre Clarice e Toni é um tanto tensa, porque Clarice não quer casar, não quer ter filhos, e Toni quer, quer muito isso. Inclusive isso depois vai fazer elas se separarem, elas voltarem. Além do novelão, isso aqui é muito bacana pra mostrar essa dimensão humana e dá dificuldade muitas vezes de conciliar uma série de postulados sociopolíticos com a vida e as vontades banais.
A Mo, que é eternamente chata, vai questionar muito o casamento das duas. Pô, vocês querem reproduzir aí um padrão heteronormativo? Pra que essa monogamia aí, essa coisa tosca?
E agora vão ter filho? O que que falta? Uma casa com cerquinha branca?
Algo que Clarice e Toni são muito pacientes, entendem a Mo e falam, mina, fica quieta. É dito na história que Toni é de San Juan, suponho eu, Porto Rico. Porém a cidade onde a gente acompanha essas personagens, ela não é bem definida.
Ao que parece é uma cidade de médio porte dos Estados Unidos, um tanto genérica. E é lá também que a gente conhece um outro grupo de mulheres, três mulheres especificamente, que moram juntas. Lois, Ginger e Sparrow.
A dinâmica dessas três é muito engraçada, porque basicamente são três mulheres muito diferentes morando juntas. Ginger é acadêmica, tá fazendo doutorado, já é professora, é uma mulher negra, então também muito ligada a causas antirracistas, mas eventualmente um pouco egoísta. Às vezes ela só pensa na própria carreira, ou mesmo no que que ela pode se divertir com as outras amigas.
Inclusive, assim ó, babado, a Clarice acaba traindo o Toni com a Ginger. Isso inclusive vai ser um motivo ali de muita comoção dentro da comunidade, mas no final todo mundo se entende e se aceita. Outra personagem muito rica e muito divertida é Lois.
Ela é uma mina que transpira anos 80, jaqueta de couro, cabelo estiloso, ela quer se mostrar como uma punk. E ela é muito, mas muito libertária em termos sexuais. Inclusive isso é motivo de muita briga com o Mo, porque parece que Lois só tá sempre pensando como é que ela vai agarrar alguma mulher.
Não que Lois seja alienada, pelo contrário, todas elas estão envolvidas em causas sociais. Lois inclusive é bastante presente, mas ela fica sempre pensando, caramba, eu tô aqui, por que que eu não posso dar uns beijinhos? Lois e Mo são colegas de trabalho numa livraria especializada em literatura feminina, ou em literatura para mulheres.
Então o outro ponto que torna essa tira muito divertida são os diálogos que elas têm no ambiente de trabalho. Então vocês já imaginam, uma é super desencanada, a outra é tremendamente neurótica. Então vocês já sacaram o tipo de conflito que rola aqui.
Por fim tem a Sparrow, que me parece ter traços levemente asiáticos, mas não sei dizer, até onde eu li isso não entra em questão. Mas o que é mais característico da Sparrow é que ela é muito New Wave. Ela é o tipo de pessoa que tá sempre numa onda do quanto é importante o autoconhecimento, ela participa de 500 grupos de terapia, ela faz parte de todo tipo de iniciativa que busca por meios místicos, ou sei lá qual, fazer com que você se conecte consigo mesmo.
Sparrow é o tipo de pessoa que passa mais tempo na psicóloga do que em casa, e isso também é uma outra fonte de conflito com todas aquelas mulheres. A Sparrow, por exemplo, aponta o dedo na cara da Lois e fala que ela tem que parar de ser essa pegadora inconsequente que ela é. Segundo a Sparrow, a Lois só faz isso porque ela tem medo de encarar a intimidade, de encarar a si mesma nos olhos de outra pessoa, o que tá certo.
Só que a Lois responde, e você tem mais medo ainda, porque tá sempre em grupo de terapia, em psicóloga, sei lá quem, pra não ter que lidar com outra pessoa na sua vida, você só pensa em você mesma pra não ter que pensar em mais ninguém. Sparrow retruca então, mas pensar em si mesmo é fundamental. E a Lois arremata, nossa, que legal, imagina que quando você fica sozinha à noite, você acaba gemendo gritando seu próprio nome.
Apesar desses conflitos, apesar dessas respostas ácidas, elas são muito companheiras, todas. Inclusive, uma personagem que vai surgir e depois vai acabar saindo tanto de cena, que é Harriet, que é basicamente a única mulher do mundo que vai conseguir aguentar a Mo. Ela é ligada aos direitos humanos, e tem no começo uma relação bastante calorosa com a Mo, mas depois a coisa vai esfriando e elas acabam se separando.
Se as relações humanas são a primeira e a mais divertida camada dessa tira, todas as questões políticas, todas as suas complicações aqui, aparecem de maneira mais sutil, mas não menos rica. O que tem a ver com esse ponto aqui, que aparece somente na figura da Mo? Do quanto que mulheres engajadas em causas sociais, muitas vezes acabam entrando em conflito com as suas vontades mais simples.
Vontades estas, que elas próprias tem que o tempo todo ficar se questionando. Será que eu estou sendo consumista demais em querer ter um videocassete? Será que eu estou compactuando demais com a violência contra os animais, se eu comer aqui uma salsicha?
Será que eu estou sendo escrota ao querer uma vaga profissional, que eu de fato era a pessoa mais qualificada, mas acabou sendo dado por uma outra menina que tem uma deficiência? Será que cabe ir numa passeata pela visibilidade lésbica, e ver cartazes como nós lésbicas também podemos ser conservadoras, também podemos ser de direita? Tipo, peraí, pelo que a gente tá lutando mesmo?
E quando a gente faz um beijaço que é pra trazer visibilidade, será que a gente também não tá ao mesmo tempo só provocando? Ou seja, talvez piorando as coisas pra nós mesmas no futuro? Essas dúvidas estão o tempo todo ali, e elas não são respondidas.
Por isso que a galera que fala isso é lacração! Mas é o exatamente oposto. Dá pra dizer que Perigosas Sapatas é antes de tudo um quadrinho sobre mulheres lésbicas de esquerda, mas que tem muito mais dúvidas do que respostas.
É uma anti-lacração. Ainda que alguns valores sejam um tanto inquestionáveis, como a amizade, a cumplicidade, a rede de ajuda, e claro, um tesão enorme pela companheira de luta. De um jeito voluntário ou não, eu não sei exatamente o quanto que Alison Bechdel estava autoconsciente disso, mas ela consegue, a partir do humor, mostrar muito das limitações de qualquer pessoa progressista, do quanto uma série de neuroses estão ali na frente daquelas que são supostamente causas muito importantes.
Que eu repito, elas não se tornam menos importantes, mas elas são tratadas de forma neurótica. E o quanto que isso, com o tempo, vai gerando um afastamento, um certo ilhamento dessas comunidades. Várias vezes a gente vê essas amigas lésbicas aqui se portando de maneira intolerante com qualquer pessoa que não seja uma mulher lésbica.
Quando é o caso, inclusive, que elas se revoltam que uma das amigas resolveu agora se juntar com um homem. Outro episódio também muito divertido é quando dois homens chegam perto delas, de pronto elas acham que vão receber uma cantada, já estão de saco cheio, mas esses homens se revelam gays. Isso faz delas mais simpáticas?
Muito pouco. Inclusive até é falado uma hora. É muito difícil a gente conseguir fazer um evento com homens gays.
Essa neurose progressista aparece de uma maneira muito anedótica quando gays e lésbicas resolvem organizar um congresso. E daí eles entram numa discussão infindável sobre se o intérprete de Libras vai ser um homem ou uma mulher. Porque a representatividade é fundamental aqui, a gente tem que botar um homem e também uma mulher.
E se você for pensar, ok, tá, mas basta uma pessoa. Só que não, ao que dá a entender a solução buscada é botar dois intérpretes de Libras ao mesmo tempo, o homem e a mulher. Perceba então como no final das contas, essa busca por inclusão acaba gerando de um jeito bastante maluco uma segregação.
E se isso se justifica de maneira bastante coerente a partir da rejeição, da agressão, ao longo da história a gente vê aqui que essas mulheres lésbicas, todas elas foram muito maltratadas pelas suas famílias. Até hoje seus pais, muitos não aceitam que elas sejam lésbicas. Então se justifica essa alienação tática perante o resto do mundo.
Mas por outro lado, e isso a tira aqui mostra muito bem, vai se produzindo uma incapacidade de entender o outro, já que você está há muito tempo sem ter contato com ele. Notem então como Perigosas Sapatas é uma obra humana. Demasiadamente humana.
E que não tem pudor de mostrar todas as contradições inerentes a qualquer pessoa. Até mesmo revelar o quanto que muitas vezes a militância pode se tornar uma limitância. E veja, vou repetir pela 50ª vez, não se trata de desmerecer as causas.
Mas também de aceitar o quanto que as contradições, as auto negações, fazem parte da nossa vida. Até a parte onde eu li, Toni está grávida. Sim, depois de Clarice e Toni decidirem ter filhos, e depois de muitas e muitas tentativas de inseminação artificial, Toni está grávida.
E a espera de uma criança é algo bastante simbólico para essa comunidade. Mexe com elas, Mo torce o nariz, mas o fato é que agora essa espera está movendo essa galera. Outro elemento aqui bastante interessante vai ser a eleição de Clinton.
Algo que é visto por elas como a vitória. Menos por Mo, que é pessimista e continua achando que está dando tudo errado. Como eu disse para vocês, a intenção aqui é seguir, pegar os diferentes períodos dessa tira.
Então eu digo nos comentários se vocês querem que eu fale mais. Até porque tem questões trans que ainda não chegaram a aparecer aqui, mas vão tomar parte nessa tira. E eu estou bem curioso como é que isso vai ser trabalhado, dado umas tretas que existem até hoje entre feministas radicais e pessoas trans.
Então digo mesmo nos comentários se vocês querem que eu continue analisando aqui. Tem no Brasil uma coletânea dessas tiras, se chama o Essencial de Perigosas Sapatas. E por todos os elogios que eu fiz à tira aqui, eu recomendo que vocês leiam.
Como eu sempre digo, se vocês forem comprar, vão em lojas de quadrinhos. Mas se forem pela Amazon, usa o nosso link aqui que ajuda muito. E vai por mim, Perigosas Sapatas é muito, muito divertido.
Porque daí tem que até que trazer aqui um detalhe pessoal. Eu sou um homem heterossexual. O mundo lésbico para mim é outro planeta.
Inclusive aconteceu uma vez, de eu entrar num bar, que eu não sabia que era point de mulheres lésbicas. Eu não fui destratado, mas também eu não ganhei muita simpatia de ninguém lá dentro. E eu juro, eu não estava lá para azarar ninguém, eu só queria tomar uma Coca.
E isso é doido, porque hoje com o canal, eu vejo uma série de pessoas LGBTQIA+, se manifestando aqui nos comentários. A gente até já brincou que tem a comunidade Sarger Trans, que são as pessoas trans que seguem o canal, que tem um público grande, consideravelmente grande. Inclusive aqui pessoas não binárias, homens gays, homens e mulheres bissexuais, todos esses comentam aqui no canal.
Mulheres lésbicas é raro de eu ver. Então tudo isso reforça o meu senso de descoberta de um planeta alienígena. Isso não quer dizer que Perigosas Sapatas seja uma obra que consiga representar perfeitamente a comunidade e tal.
Não, inclusive a própria Alison Bechdel fala sobre isso, eu não consigo. Mas ainda assim, produz um retrato, produz um documento, que é muito rico e muito divertido. Diga aí nos comentários quantas questões ligadas a questões LGBT vocês querem que eu comente aqui, se é que vocês querem que eu comente.
E dê aquele gás nesse vídeo para rolar uma parte 2 e 3 aí de Perigosa-Sapatas. No mais, peço que você siga a gente nas nossas outras redes sociais, TikTok, Twitter e Instagram. Obrigado por assistir.
Valeu, pessoal.