Chega na adolescência e a gente quer começar a fazer várias coisas que antes a gente não se interessava ou não podia. Tem uma parte bem natural da curiosidade, mas quando é que usar drogas passa da experimentação para uma coisa mais séria, e pode se tornar até um vício? Seja bem-vindo ao "Você Também Sente?
". Nossa websérie sobre questões emocionais da adolescência apresentado por ela, a Valentina Schulz - E por ela MC Sofia. Vem com a gente que o papo hoje é sério.
Uma coisa que precisamos saber é que quando a gente está falando de drogas, a gente está dizendo das ilícitas e das lícitas, inclusive os medicamentos que vários adolescentes estão usando também. Outra coisa é que o álcool é droga. Eu já vi muita gente falar: "Ah, eu não tenho problema com drogas.
Só bebo álcool. " Álcool está presente em quase todas as situações sociais, e a gente vive num tempo em que beber álcool é muito incentivado. Ninguém está aqui para cagar regra e dizer que você tem que parar de beber.
Mas a gente quer falar sobre fazer as coisas que o entendimento das consequências; e lançar a real, que a galera está cada vez mais passando dos limites com as drogas, e que isso pode dar ruim. Buscar diversão num momento específico é diferente de quando você começa a ficar satisfeito só quando você usa a substância. Isso vale igual para cigarro, para bebida, maconha, ou qualquer tipo de droga.
E o que te leva a esse lugar de abuso? Qual a insatisfação que você está querendo encobrir? A dependência não é só um problema no corpo da pessoa, é uma questão psicológica, e também um problema social.
Uma coisa para reparar é se você está deixando de fazer outras coisas, - outras atividades que você curtia - para usar drogas. Tipo, se você está estudando menos, está praticando menos esporte, fazendo menos coisas que você gostava antes. Ou até mesmo deixando de sonhar ou pensar no seu futuro.
Essas coisas podem indicar que você está entrando num abuso das drogas. Uma outra coisa para ficar ligado é: Quando você toma alguma coisa, usa alguma droga, quais são os riscos que você fica exposto? Tipo, beijar ou fazer sexo com quem não tinha vontade?
Andar de carro com quem também está sob efeito de droga? Falar ou fazer coisas que no dia seguinte você vai se arrepender? Existe gente que começa a usar droga para socializar, para tentar se livrar de alguma angústia emocional ou até mesmo pra ficar mais ligado e poder estudar mais.
É comuns usar droga sempre achando que a gente está no controle da situação, mas isso é só uma percepção distorcida que a substância provoca no nosso cérebro. Então agora a gente vai chamar para falar com a gente a Vitória. Ela tem 18 anos e vai contar um pouco da história dela.
Meu nome é Vitória, tenho 18 anos. Trabalho com arte, eu escrevo poesia. E eu também trampo muito com audiovisual.
Eu moro no Capão Redondo, e lá é um cotidiano muito, muito, muito. . .
Nossa. Péssimo, né? Em outras palavras.
. . Eu já usei, sim, química, essas coisas, e já me deixa que em situações completamente vulneráveis.
É uma coisa que não é só no momento, entendeu? Vem um lance pós-brisa, que eu gosto de falar que é pós-brisa: a sensação de culpa, entendeu? Sentimento de culpa, desregula o sono, sabe?
Isso faz muito mal para saúde, eu falo por experiência própria. Quando a gente começa a usar uma droga a gente não sabe o real efeito dela até que ela aja no nosso corpo e traga efeitos colaterais. E o mais um incrível, não só do uso, é o fácil acesso, que não só eu, como qualquer pessoa que mora em São Paulo, ou em qualquer outro lugar, consegue ter acesso a esse tipo de química.
Eu acredito que deveria existir mais políticas públicas. Porque querendo ou não, quando a gente fala do uso de drogas, se isso se tornar um uso não controlado, o índice de violência também aumenta. Isso não é um problema só com quem usa.
Isso interfere na sociedade como um todo. Bom, André. Muito obrigada por estar cedendo seu tempo, falando aqui com a gente.
Qual você acha que é a relação entre a adolescência e as drogas? A adolescência é um período de grandes transformações. É um período em que a gente vivencia transformações no corpo, na mente, nas nossas relações, e isso não vem com manual de instrução na maioria das vezes.
A gente tem que se virar para lidar com essas coisas enquanto elas acontecem. Então em meio a essas transformações, e ao cenário social, que demanda dos adolescentes, cada vez mais cedo, escolhas importantes, como se essas escolhas definissem a vida inteira. Não é incomum que a adolescência, para além desse lugar utópico - como algumas pessoas colocam - também é um lugar de muito sofrimento psíquico.
É nesse sentido que o uso prevalecente de drogas, nesse período, acaba tendo um lugar para lidar ou mediar esse sofrimento e toda essa experiência de descobertas da adolescência. Tem algum gatilho, alguma coisa específica que acontece, que você fala: "nossa, preciso ir atrás". Ou é uma coisa mais espontânea?
Eu uso a expressão "se mordendo", quando a gente fica se mordendo na abstinência. Confesso que quando eu fico com isso, normalmente é quando eu tenho alguma discussão dentro de casa. Mano, eu sou muito revoltada com o sistema, entendeu?
E lá nos dá onde eu moro, eu vejo muitas pessoas passando por coisas, tipo. . .
horríveis, entendeu? E eu penso que isso poderia ser diferente. E isso é gatilho para "mim se acabar", na certa.
Qual seria a diferença entre o uso recreativo, e esse uso abusivo, que pode trazer tanta coisa ruim? Tradicionalmente, o que a gente chama de "uso recreativo": É a utilização de álcool ou outras drogas com uma frequência esporádica, em situações que podem ser de lazer, entretenimento. Normalmente esse uso recreativo, ele é pautado - porque pessoas não têm dificuldade em diminuir, nem a quantidade nem a frequência.
Tem uma questão que passa justamente pelo modo que a gente enxerga. Porque muitas vezes a nossa relação já ficou abusiva faz tempo. Porque a gente não consegue perceber a vida fora dessa mediação.
No momento em que a gente está sob o efeito de qualquer droga, aquele momento pode parecer muito bom, o problema são sempre as complicações, as consequências, os efeitos. Por isso é importante a gente se analisar, se olhar, e identificar quando é que isso começa a produzir um impacto negativo. Nas nossas relações, na nossa vida psíquica, naquilo que a gente precisa fazer, e gosta de fazer.
Parece que as drogas ampliam o nosso olhar sobre o mundo, mas no final, parece que o que acontece é que ela reduz. Porque a gente não consegue enxergar nada além disso. A gente não consegue enxergar um prazer, de repente, de encontrar os amigos, se divertir, rir um bocado, sem que elas estejam presentes.
Então o que ela faz não é uma ampliação, é uma redução. O adolescente vê o amigo ou amiga, algum conhecido passando, e fica com medo de ser o chato que vai falar " acho que você está passando do limite". Mas acho que você pode estar ajudando muito a pessoa falando isso.
No final das contas não é assim que a gente define amizade? Amizade não é isso que a gente consegue dizer para o outro as coisas mais difíceis, mas a gente diz porque se importa. Então, às vezes quando um amigos fala uma coisa, a gente está ocupado demais.
Às vezes a gente precisa parar e escutar. Assim como às vezes a gente precisa parar e falar: "Eu não tô conseguindo lidar com isso. " Eu ainda não procurei ajuda.
Eu, particularmente, apesar de ser artista, eu sou muito fechada na questão dos problemas pessoais, entendeu? Não gosto de ficar compartilhando, e aí isso se torna mais difícil. E aí eu estou pensando, mano, estou pensando.
. . meu cérebro passar em processo de andamento, em busca de alguma ajuda.
E eu pretendo pedir ajuda de um profissional. Por que que você acha que o abuso de drogas pode ser perigoso? Ela pode comprometer tanto o nosso desempenho na escola, desempenho acadêmico, a nossa vida no trabalho.
. . No nosso próprio desenvolvimento, pode proporcionar transtornos psiquiátricos graves.
A grande dificuldade do abuso de drogas é supor que é possível uma vida sem lidar, às vezes, com a frustração. O sofrimento, ele é no atacado. Felicidade é no varejo.
Viver é aprender a lidar com as contrariedades. E aí a gente tem problema. A gente vive numa sociedade, atualmente, que insiste sobre várias formas de comunicação em dizer que é possível ser feliz o tempo todo.
E quando a gente descobre que não é às vezes a gente supõe que tem alguma coisa errada com a gente. Lidar com a frustração, a gente não resolve com as drogas. Para lidar com a frustração a gente resolve conhecendo a si mesmo.
Você tem alguma mensagem para dar para algum jovem? Eu recomendo que façam coisas que vocês gostem. Tenta ocupar a mente com outras coisas.
. . Eu, por exemplo, gosto de rimar, de escrever, mas tem gente que não gosta.
Tem gente que já prefere andar de skate, de bicicleta. . .
E o que a arte representa para você? Vamos trabalhar com metáforas agora. Vamos imaginar que a gente está no mar, na praia, se afogando, e aí tem o salva-vidas lá.
Para mim a arte é isso, a arte é o salva-vidas. Eu não sei seria da minha vida sem a arte. Bom, vocês falaram que queriam que eu recitasse uma poesia, né?
Cria da Brasilandia Cria do capão A semelhança entre os dois A discriminação Já tive a opção de trabalhar na boca Ficar de toca Só que isso aqui o Brasil quer para mim Mas eu não sou trouxa Fazendo a estatística virar Eu vou para a escola para comer Mas a prioridade é estudar Para quando alguém vier me tirar Eu falar que eu comprei Não precisei roubar Eu sou estudante Não traficante A única coisa que eu trafico É informação Nossa, muito f*da! Mano do céu, gente, eu estou arrepiada! Muito obrigada, muito prazer por ter conhecido você -Eu que agradeço!
- e ter trocado essa ideia. Falar e dar visibilidade para esse tema é um jeito da gente aprender e evitar danos que podem acontecer com o uso abusivo. Prevenir e usar com moderação é sempre o melhor.
Se o bicho tá pegando para você, você está se identificando que passou dos limites, procura alguém que você confia e que possa ter uma conversa sincera, pede ajuda. Você também pode encontrar apoio diretamente no sistema público de saúde. Vou dar algumas dicas para vocês: Você pode procurar a UBS - Unidade Básica de Saúde O CAPS - Centro de Atenção Psicossocial ou CRAS - Centro de Referência de Assistência Social.
Pode ser que você se sinta com vergonha, tenha medo de ser julgado, mas se isolar vai ser pior. Não deixe mais o tempo passar. O organismo vai se acostumando e vai sempre querendo mais.
Pense nos possíveis passos para você sair da dependência: Existe tratamentos, são processos que costumam ser longos, mas vale a pena. Cuida de você mesmo com carinho Toma consciência e faz escolhas para o seu bem. "Você também sente?
" é uma websérie de 7 vídeos. Veja os outros episódios clicando aqui no card.