Em uma calçada de Washington, a poucas quadras da Casa Branca, uma máquina que parece vender apenas refrigerantes na verdade é parte de uma estratégia para conter uma das piores crises sociais e de saúde que os Estados Unidos já enfrentaram Em vez dos produtos de sempre, as prateleiras têm kits para tratar ferimentos, testes para analisar a substância de drogas e o principal: sprays nasais que evitam mortes causadas por overdose de fentanil. Este opioide sintético é cem vezes mais potente que a morfina e 50 vezes mais forte que a heroína. No ano passado, os Estados Unidos tiveram quase de drogas - o dobro de 7 anos antes.
E o fentanil foi responsável por boa parte dessas fatalidades Eu sou Mariana Sanches, correspondente da BBC News Brasil em Washington, e nesse vídeo eu explico por que essas máquinas viraram um retrato da grave epidemia dos opioides entre os norte-americanos Os equipamentos começaram a ser instalados na capital norte-americana no primeiro semestre do ano. Operam 24 horas por dia e sem cobrança pelos produtos. Para retirar um item como a naloxona, o spray antioverdose, basta digitar o número do produto na máquina e depois inserir um código recebido, na hora, pelo telefone O Fentanil é tão potente que uma dose de apenas 2 miligramas pode ser letal.
A naloxona pode salvar a vida de um usuário, se for aplicada em no máximo 90 minutos após o consumo da droga. O objetivo da instalação das máquinas é justamente reverter o altíssimo índice de mortes relacionados ao Fentanil em Washington. 96% dos óbitos por overdose na cidade estão ligados à substância A estratégia é ao mesmo tempo atestado da gravidade da situação e exemplo da criatividade e do esforço para conter o problema nos Estados Unidos.
Eu conversei com Angela Wood, chefe de uma organização sem fins lucrativos que opera parte das máquinas automáticas na capital norte-americana. Ela comentou sobre uma das grandes dificuldades da crise: muita gente que morreu por overdose nem sabia que estava consumindo fentanil. “Um dos maiores problemas nos Estados Unidos é que o fentanil está misturado às drogas em geral.
Tentamos alertar todo mundo, até mesmo as pessoas que usam apenas maconha, que se você estiver comprando uma droga vendida nas ruas, você precisa se preocupar, porque o fentanil pode estar misturado a ela, e uma única dose pode ser uma dose letal. Portanto, qualquer que seja a substância que a pessoa vá consumir, precisamos ajudá-la a saber se há fentanil ali” Por isso, apesar de o spray antioverdose ser o item mais distribuído, as fitas que checam a presença de fentanil em outras drogas têm sido de vital importância Angela Wood conta que outro ponto de sucesso na estratégia é a garantia de anonimato. Além dos usuários, amigos e também buscam a máquina.
Segundo um levantamento, mais de 80% das mortes por overdose acontecem dentro de casa. E em cerca de 40% das vezes, há uma outra pessoa ao lado, que poderia ajudar a evitar uma ocorrência fatal se tivesse o antídoto à mão. “Eu acho que as poucas barreiras dessa estratégia permitem que as pessoas façam uso da máquina.
Eu não preciso dizer para ninguém que uma pessoa da minha casa está usando drogas, eu posso apenas ir até a máquina. Porque eu acho que às vezes o que nós queremos é proteger os membros da nossa família. Ou pode ser alguém que mora na sua casa que precisa de acesso ao spray antioverdose e assim você possa estar preparado para lidar com essa situação.
Claro que é preciso chamar socorro médico, mas essa primeira interação realmente tem o potencial de salvar uma vida" Experimentos com essas “máquinas de refrigerante” para distribuir produtos de redução de danos a usuários de drogas não são uma ideia recente. A estratégia é usada há ao menos 30 anos em países como Dinamarca e Noruega. Nos Estados Unidos, o grande empurrão para adotar esse plano foi o aumento do consumo de opioides, especialmente durante a pandemia de covid Uma das primeiras iniciativas do tipo no país ocorreu na cidade de Cincinnati, no Estado de Ohio, no começo de 2021.
Daniel Arendt, professor de Farmácia da Universidade de Cincinnati, atua nesse programa e fez uma pesquisa sobre seus resultados. Ele me falou que a estratégia foi responsável por mudar o comportamento de alguns usuários “Em dois anos e meio de operação, revertemos 2,5 mil overdoses com naloxona distribuída via máquina automática. E as fitas para teste das drogas detectaram fentanil na droga dos usuários em ao menos 5,5 mil ocasiões.
Destas, em 2,9 mil situações, os usuários relataram ter mudado seu comportamento por causa do resultado, descartando a droga ou ingerindo uma quantidade menor" O conceito de redução de danos surgiu na década de 1980 para prevenir contaminações por vírus como o do HIV, em razão do compartilhamento de seringas Décadas de pesquisas mostraram que esses programas realmente diminuíram o número de infecções entre usuários de drogas. Mas uma pesquisa publicada em 2019 sugeriu que a chegada do fentanil à praça mudou um pouco esse cenário positivo. O estudo mostrou que infecções por HIV de fato diminuíram, mas as mortes por opioides cresceram 22% em locais com programas de redução de danos.
A conclusão dessa e de uma segunda pesquisa foi de que a redução do risco de morte por overdose pode levar a um consumo aumentado ou mais arriscado de opioides. Os estudos geraram muitos debates na comunidade científica e ainda é preciso mais estudos pra saber se seus resultados são realmente válidos. Mas responsáveis pelos projetos com máquinas automáticas apontam que o trabalho de reverter a atual crise é bastante complexo.
E uma iniciativa como a redução de danos é parte de uma abordagem mais ampla Segundo Daniel Arendt, as pessoas que participam de programas de redução de riscos se tornam mais interessadas em começar um tratamento de dependência química. Ele diz que a abordagem passo a passo é fundamental “O que nós realmente percebemos é que uma vez que as pessoas estão seguindo um desses passos, os seguintes se tornam mais fáceis. Eu gosto de comparar quando nós aconselhamos pessoas com diabetes que têm níveis de açúcar no sangue fora de controle por um grande período de tempo.
Nós não necessariamente chegamos e dizemos “bem, nós vamos ter que mudar totalmente a sua dieta. Você vai ter que praticar exercício todos os dias. Você não vai comer nada.
Você vai fazer isso ou aquilo. Não é assim a nossa abordagem. Em vez disso, nós focamos em uma mudança gradativa em que você vai conquistando algumas vitórias e dessa forma nós ajudamos a evoluir ainda mais” Eu vou ficando por aqui.
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