[Música] [Música] Imagine uma época em que seus atos são constantemente assistidos e gravados, onde sua localização sempre é conhecida, onde todas as suas atividades deixam um rastro que pode ser usado contra você, onde a verdade é apagar com palavras e expressões que confundem o pensamento, onde o passado pode ser mudado pela vontade de um comitê, onde uma palavra ou gesto pode causar problemas que vão da perda de uma amizade, de uma oportunidade de emprego ou até da sua liberdade e da sua vida. É difícil acreditar que algo assim poderia acontecer um dia. No entanto, se isso acontecer, não foi por falta de [Música] aviso.
Em 1949, o jornalista e escritor George Orell publicou 1984, um livro que se tornou um clássico instantâneo, cuja importância não só não diminuiu desde a sua publicação, como parece ter aumentado. Neste livro, Oel conta a história de uma época em que estados super poderosos exercem controle absoluto sobre a vida dos indivíduos, sobre suas ações, seus corpos e até suas almas. É uma visão de pesadelo sintetizada na frase: "Se você quer saber como será o futuro, imagine uma bota pisando num rosto humano para sempre.
" Quando olhamos ao nosso redor, podemos pensar aliviados que a visão anunciada por Our não se concretizou. Afinal, a vitória da democracia liberal sobre os totalitarismos do século XX era tão evidente que o historiador Francis Fukuyama chegou a alegar que havíamos chegado ao fim da história, o fim dos conflitos ideológicos e do desenvolvimento histórico-político, já que o mundo inteiro passaria a adotar os preceitos da democracia constitucional liberal, evidentemente superiores, entrando em uma era de conflitos reduzidos. De fato, nenhuma obra de ficção tem a obrigação de ser uma profecia.
E durante algum tempo, 1984 ficou como uma lembrança de um futuro esquecido, o pesadelo que o ocidente tinha conseguido evitar. No entanto, ainda há aqueles que alegam ver nos vagos e ameaçadores Ecos de 1984 traços nos dias de hoje na experiência social e política de 2024. E por isso, os insightes que esse livro traz sobre a relação entre poder, liberdade, política e linguagem continuam atuais e pertinentes.
Neste programa Insite BP, nós vamos revelar a você porque as ideias contidas nesse livro podem nos ajudar a compreender melhor o ambiente político e social em que vivemos e nos prepararmos para um cenário que se desenha no futuro, onde o acirramento da disputa entre liberdade humana e o controle autoritário absoluto parece inevitável. [Música] No dia 4 de abril de 1984, Winston Smith comete um crime. Ele começa a escrever um diário.
Ele escreve em um canto da sala que fica protegido do olhar da teletela, um aparelho que transmite propaganda do partido e também filma o ambiente. No mundo de Winston, o partido representado pela figura do líder grande irmão, está sempre de olho nos cidadãos, controlando todos os aspectos da vida dos indivíduos. Winston não tem nem certeza se o ano é mesmo 1984, pois o governo pode alterar qualquer informação sempre que necessário.
No mundo de Winston, a própria realidade é massa de manobra do estado. Eventos e pessoas podem mudar e desaparecer sem deixar vestígios. Um dos lemas expostos no livro diz: "Quem controla o passado controla o futuro e quem controla o presente controla o passado".
Winston trabalha no Ministério da Verdade, que se ocupa justamente de controlar e falsificar toda a informação transmitida em Oceania, a nação onde a história se passa. Oceania, Lestasia e Eurásia são os três grandes superstados que surgiram após um período de guerra nuclear. Eles lutam entre si pelo domínio de zonas contestadas em uma guerra de cujo início ninguém mais se lembra e que parece que nunca terá fim.
Ao longo da narrativa, passamos a conhecer em mais detalhes o mundo em que Winston vive. Em 1984, a população se divide em três castas. O partido interno, identificado por roupas pretas, é a casta mais alta que comanda a Oceania e goza de privilégios impensáveis para as castas inferiores.
O partido externo que usa macacões azuis é a casta intermediária formada pelos membros mais instruídos da nação, são as pessoas que exercem o trabalho burocrático administrativo em Oceania. Essa é a casta de Winston. E por último, os proletários.
Cerca de 85% da população, pessoas sem instrução, anestesiadas e embrutecidas pelo trabalho diário, vivendo vidas miseráveis e sustentando toda uma nação com o seu trabalho, mas que, de modo geral são menos vigiados pelo partido, pois não tem meios de ação e nem conhecimento para ameaçar o status qu. O que movimenta a ação da história é o fato de Winston Smith ser o tipo de pessoa que o partido considera criminoso, alguém dotado de consciência, capaz de pensar por conta própria e disposto a se rebelar. Em 1984, acompanhamos a jornada de Winston, que começa sua história de rebeldia, escrevendo seus pensamentos em um simples diário.
Se envolve com um suposto grupo rebelde e, em meio ao medo e a paranoia, finalmente conhece o amor. 1984 foi escrito entre 1946 e 1948 no isolamento da ilha de Jura, na Escócia, por um George Orell bastante debilitado pela tuberculose, doença que viria matá-lo menos de um ano depois da publicação do livro. O livro é fruto das preocupações de um escritor e jornalista que viu de perto as violentas convulsões políticas inerentes à disputa de poder.
Orell tinha participado da Guerra Civil Espanhola, onde lutou ao lado dos republicanos associados ao movimento comunista. Ele foi um defensor do assim chamado socialismo democrático, a teoria política segundo a qual o povo deve eleger seus líderes e ter controle direto sobre a economia e distribuição de recursos. OR tinha visto a maneira pela qual os altos ideais e teorias políticas podem ser pisoteados e descartados segundo a conveniência do momento.
Na Espanha, o movimento comunista se fragmentara em grupos que tinham visões opostas e que logo começaram a se enfrentar. O Partido Comunista da Espanha era leal a Stalin e aos interesses da União Soviética. Orell tentou se filiar a esse grupo, mas foi rejeitado por acreditar em uma forma mais democrática de socialismo.
Um tanto de forma acidental, ele acabou se unindo ao Partido dos Trabalhadores da unificação marxista, que acreditava que o povo tinha sido traído em nome dos interesses políticos de Stalin. As tensões entre essas duas vertentes eiram nas jornadas de maio de 1937, cinco dias em que os comunistas se enfrentaram nas ruas de Barcelona. Orellou dessa e de outras batalhas na Espanha.
No dia 20 de maio, ele foi atingido por um tiro no pescoço que por milímetros não acertou a artéria carótida. Orell sobreviveu e precisando de tratamento, perseguido pelo Partido Comunista e decepcionado com as lutas internas e o que ele considerava a traição da revolução em nome do poder, decidiu ir embora da Espanha e voltar paraa Inglaterra. A experiência na Espanha e a decepção com o totalitarismo de Stalin forneceu a Orell temas que ele trabalharia pelo resto da sua vida.
Em seus livros vemos a traição dos ideais revolucionários pelos líderes da revolução, o totalitarismo, a corrupção do poder, o uso da linguagem e da propaganda para controlar o povo, a manipulação das emoções populares para fins políticos e falsificação da verdade. Apesar das decepções, Orel continuaria comunista até o fim. E suas obras são denúncias do que ele considerava o abandono do verdadeiro socialismo por um projeto de poder fascista.
[Música] Muitos dos incidentes relatados em 1984 se baseiam na experiência totalitarista da União Soviética sob Stalin. Muito embora esses incidentes se baseiem na organização social de uma época e lugares específicos que ficaram no passado, a essência do comportamento humano permanece inalterada em todos os tempos e lugares. bem como o desejo pelo poder e controle total.
Assim, o aviso de 1984 permanece atual e traz consigo uma pergunta inquietante. Ao olharmos ao nosso redor, o quão certos estamos da nossa liberdade diante das diferentes formas de totalitarismo que Orel denunciou? O fim da privacidade e a censura total.
Em 1984, a privacidade não existe, pois os cidadãos são vigiados o tempo inteiro pelo partido, por meio da teletela ou por outros cidadãos. Hoje nós temos um dispositivo que nos permite filmar os outros e transmitir as imagens com alcance global instantâneo, mas que também permite a outras pessoas fazer o mesmo conosco. Além disso, diversos aplicativos afirmam em seus termos de uso que tem acesso ao microfone do celular, de forma que nossas conversas ou parte delas podem estar sendo gravadas.
No mundo de 1974, o partido prefere utilizar a força, a coção, a tortura e assassinato como formas de manter a população amedrontada sob controle. Na vida real, o conforto e a praticidade é que nos fazem ceder cada vez mais a nossa privacidade, nossas conversas, nossa localização para empresas e governos. Nosso estilo de vida depende cada vez mais da estrutura tecnológica em que nos vemos inseridos.
E a ideia de abrir mão desses confortos e facilidades é impensável. Em 2024, o requinte das tecnologias de controle se revela no fato de que hoje nós mesmos nos vigiamos mutuamente. E é aí que o outro elemento de 1984 se insinua, a possibilidade de ser punido pelo que se pensa.
Em 1974, existe o conceito da ideia crime. O simples fato de ter um pensamento fora da cartilha do partido transforma o cidadão automaticamente em criminoso. Os cidadãos são patrulhados constantemente pela polícia do pensamento.
O serviço secreto de Oceanie que vigia os cidadãos sempre à espera de um deslize comprometedor, uma fala infeliz, um gesto denunciador. Hoje em dia, vivemos uma situação tensa, em que diferentes visões de mundo nos afastam, enquanto a tecnologia nos força a conviver de perto. Agora, uma opinião ou até mesmo uma frase mal entendida ou tirada de contexto podem gerar consequências desastrosas para seus relacionamentos, seu emprego ou até a sua vida.
Um fenômeno descrito por uma expressão tão sinistra que parece ter saído direto de 1984. Cancelamento. Antes um termo utilizado para descrever algo que podia acontecer apenas com coisas e eventos.
Agora, ela também se aplica a pessoas, rebaixando o status ontológico do ser humano a uma mera coisa que pode ser eliminada sem remorço. Em 1984, um processo similar acontece com aqueles que desagradam o grande irmão. Eles se tornam despessoas, um termo que indica alguém que simplesmente desapareceu do convívio social, tendo sido eliminado fisicamente pelo Estado.
E não apenas fisicamente. Uma despessoa tem seus registros inteiros apagados, de forma que é como se lá nunca tivesse existido. Oell se baseou na cultura de delação que existia na União Soviética, em que vizinhos se denunciavam e filhos entregavam os pais para serem presos, torturados e até mortos.
Isso era considerado um ato de heroísmo, como na história de Pavel Morosov, que foi louvado pela imprensa por ter denunciado o pai para as autoridades soviéticas. No mundo real, a intensa polarização política cria um ambiente que incentiva os jovens da família a expressarem vergonha e raiva dos parentes não alinhados ideologicamente. Os exemplos históricos nos ensinam que radicalismos como esse já foram seguidos por períodos de perseguição e extermínio.
Em 2024, linchamentos virtuais são um fenômeno frequente e o preço de emitir uma opinião que contrarie o consenso tem ficado cada vez mais alto. Aos poucos, o entorno psicológico se torna um ambiente de paranoia e desconfiança. O resultado é que na hora de emitir uma opinião, o mero bom senso é substituído por uma autocensura motivada pelo medo das consequências incertas.
Em 1984, a palavra censura não aparece nenhuma vez. O partido é responsável pela produção de toda a informação consumida em Oceania, de forma que a censura se torna desnecessária. Só tome cuidado com o que você vai dizer.
Nunca se sabe quem pode estar [Música] ouvindo. O fim do significado e o caos total. Um dos insites mais penetrantes de Our se refere à importância da linguagem para o controle das massas.
Assim como a chave de fenda é uma ferramenta do mecânico para consertar carros e a esponja é uma ferramenta da dona de casa para lavar louças, as palavras são ferramentas que todos nós usamos para um trabalho específico, nos comunicarmos. Se as ferramentas estiverem defeituosas, o trabalho sairá prejudicado e não haverá comunicação, apenas confusão. O psicólogo soviético Levotsky desenvolveu uma teoria do desenvolvimento cognitivo que aponta para uma relação próxima entre a linguagem e o desenvolvimento do pensamento.
Ol explorou essa relação e expressou no conceito que ele chamou de nove língua, o novo idioma falado em Oceania. O partido percebeu que toda ação começa com um pensamento e todo pensamento precisa ser expresso em palavras. Assim, se certas palavras forem suprimidas ou distorcidas, o pensamento será suprimido ou distorcido junto com elas.
Sem conseguir pensar direito, as pessoas se tornam menos inteligentes, menos capazes de articular suas experiências. A nove língua é uma versão empobrecida do inglês que usa cada vez menos palavras para limitar a habilidade do indivíduo de pensar e comunicar conceitos abstratos. Uma das características definidoras da nova língua é sua propensão a forçar o falante a aceitar termos mutuamente contraditórios o naturalidade, mutilando a coerência interna em nome da lealdade ao partido.
Isso é chamado de duple pensar e se expressa, por exemplo, no conceito de white black, a capacidade de acreditar que a cor preta é branca e mais, de saber que a cor preta é branca e de esquecer que algum dia você já pensou o contrário. Isso exige uma alteração contínua do passado. No livro, o partido tem um controle total sobre a história e ao negar a população a lembrança dos eventos ocorridos no passado, o resultado é uma população de pessoas sem memória, que podem acreditar em qualquer coisa, como no exemplo do livro, de que 2 + 2 ig.
Como o povo de 1984 já não conhece a sua história, é muito fácil aceitarem qualquer versão sem questionar, simplesmente porque não sabem como as coisas eram antes. Todos os registros foram destruídos ou falsificados. Todos os livros foram reescritos.
Todos os quadros foram repintados. Todas as estátuas, ruas e prédios foram rebatizados. Todas as datas foram alteradas.
Se parece impossível acreditar que 2 + 2 é 5. Basta olhar ao redor para constatar que a realidade só é tão forte quanto a nossa capacidade de defendê-la. Outra característica da nova língua é o uso de eufemismos para mascarar o caráter perturbador de certas ações e realidades.
Retificar, na verdade, significa distorcer um registro histórico. Campo Alegre são, na verdade, campos de trabalho forçado. No mundo de 1984, houve uma guerra mundial com uso de armas nucleares e, portanto, a ameaça de aniquilação ou conquista por poderes estrangeiros era um medo real da população.
É essa ameaça constante que dá ao partido o seu poder, pois tudo pode ser justificado com uma medida de proteção da nação contra um inimigo terrível. Os líderes do partido encontraram a fórmula ideal para manter a nação inteira sob controle, o medo. Para esse inimigo terrível, o partido inclusive reserva 2 minutos diários para a população destilar o seu ódio.
Uma locação de tempo que hoje em dia parece modesta, considerando que a internet nos propicia um fórum de 24 horas para fazer isso. Ao incutir na população o medo de ameaças constantes, o grande irmão pode agir como quiser, sem ser cobrado por algum excesso ou contradição. Afinal, qualquer coisa é válida para proteger o Estado.
O grande irmão também obtém o exército de voluntários dispostos a vigiar, denunciar e combater os oponentes do regime e obtém um board expiatório para culpar quando suas promessas não são concretizadas. Um outro ponto de contato do livro de Orel com a nossa realidade aparece no seguinte trecho. A nova aristocracia era formada em geral por burocratas, cientistas, técnicos, representantes de sindicatos, especialistas em publicidade, sociólogos, professores, jornalistas e políticos profissionais.
Em 1941, James Burhan articulou a percepção de que uma nova classe de profissionais havia subido ao poder no livro The Menagerium Revolution. Segundo Burham, agora são os administradores profissionais que detém o poder, ao ponto de a política, a economia e a cultura serem controladas por comitês de burocratas. À medida que as democracias se tornam mais complexas, correm o risco de ficarem menos transparentes, facilitando a instrumentalização do cidadão comum.
A tarefa de prever o futuro é ingrata, pois a realidade sempre tem maneiras surpreendentes de acontecer. George Orel não antecipou os saltos tecnológicos da indústria e da computação, nem podia imaginar o impulso que essas inovações dariam à economia, a qualidade de vida das pessoas e ao poder das grandes empresas. Sua visão não tinha como prever o papel decisivo que hoje grandes conglomerados multinacionais t na política e na cultura.
No entanto, 1974 não é um livro de profecia, nem um aviso sobre o futuro. Em certa medida, é uma sátira e uma denúncia dos abusos cometidos na União Soviética sobalin, mas também acaba servindo como um aviso perene sobre o futuro de todas as épocas, uma vez que a busca de poder e de controle sempre faz parte da história humana. Na história do livro, Winston Smith se envolve com uma moça chamada Júlia e por algum tempo, eles conseguem construir um mundo secreto que eles acreditam estar protegido do olhar do grande irmão.
Ao mesmo tempo, Winston se envolve em um grupo rebelde que planeja a derrubada do partido. No entanto, essa é apenas uma pequena trégua concedida pelo partido, que estava vigiando o tempo inteiro. Winston e Júlia são capturados e enviados para o assim chamado Ministério do Amor para serem reeducados.
preso. Winston é interrogado, submetido à tortura e depois passa por um tratamento psicológico em que as defesas mais íntimas de sua alma são destruídas e reconstruídas pelo partido. Ele finalmente cede seu último reduto de individualidade e se entrega de corpo e alma ao grande irmão.
Winston é libertado, mas perde o que ele tinha de mais precioso, sua personalidade, seus pensamentos, opiniões e vontades. Ele termina a história amargurado e sozinho, amando o partido que o oprime. Em 1984, o livro A luta principal de Winston Smith, mais do que derrubar o regime autoritário de Oceania, era conseguir preservar sua autonomia interna, sua consciência individual, cercado por um entorno opressivo que tentava arrastá-lo junto com os demais para a despersonalização e a entrega de sua alma ao partido.
Nisso, o livro sempre será atual, pois as forças da tirania em qualquer tempo e lugar sempre exigirão nossa liberdade em troca de uma suposta segurança e de confortos e prazer. Essa é a mesma luta que se apresenta no mundo em 2024. A imagem do futuro já não é mais a de uma bota pisando no rosto humano, é talvez a de um rosto humano hipnotizado por uma tela de celular, vigiado e vigiando, escravizado por distrações e confortos, submetido às decisões tomadas por burocratas.
que afetam sua liberdade, sua cultura e suas perspectivas para um futuro que se anuncia cada vez mais difícil e amando o mundo que o oprime.