Em 1993, as Forças Armadas Brasileiras realizaram a Operação Surumu, o maior exercício de guerra da história do Brasil até então. Essa operação, que reuniu milhares de soldados, consistiu numa simulação de guerra na Amazônia. A grande questão é que o que parecia ser apenas uma operação regular de adestramento das tropas, escondia na verdade um objetivo secreto: dissuadir uma invasão norte-americana e britânica na Amazônia.
Sejam todos muito bem vindos. Eu sou Felipe Dideus e esse é mais um vídeo do canal “Vamos Falar de História? ”.
No final de 1993, as Forças Armadas Brasileiras realizaram a Operação Surumu, até então o maior exercício de guerra já realizado pelo Brasil. Essa operação cobriu uma área de cerca de 55 mil quilômetros quadrados, na região amazônica, na fronteira entre Brasil e Venezuela. O objetivo da operação, segundo o então ministro do exercido, Zenildo Lucena, consistia na mobilização militar para a defesa da Amazônia.
Consistia em testar a capacidade de deslocamento das tropas brasileiras para qualquer local onde fosse necessário “defender a soberania e a integridade de patrimônios nacionais”. A Operação Surumu envolveu cinco mil soldados das três forças armadas. Foi nessa operação que ocorreu pela primeira vez o deslocamento de grande quantidade de equipamentos bélicos e milhares de soldados por meios fluviais, marítimos, aéreos e terrestres.
Até sistema de guerra eletrônica foi montado para a Operação. O comando da aviação do exército manteve na área a Força de Helicópteros, com aeronaves que deslocaram de sua base, em Taubaté, no interior de São Paulo, a quatro mil quilômetros da área de operação. A Marinha deslocou quatro navios-patrulha, dois helicópteros e duas companhia de fuzileiros navais para apoiar as operações.
A Aeronáutica organizou uma Força Polivalente de Pronta de Defesa baseada em Boa Vista e Manaus que reuniu 37 aeronaves e 460 soldados. Foi a primeira vez que se realizou um exercício de adestramento no quadro da divisão do exército, na Amazonia, com ativação simulada de uma área de guerra, o teatro de operações terrestres norte, como também foi a primeira vez que se ativou uma concentração estratégica das três forças, a tal distância. Até onde eu sei, os exercícios militares são estratégicos para a defesa do país.
Logo, são divulgadas poucas informações operacionais. Afinal de contas, não quer que outros países saibam das estratégias militares de defesa. Só que algo curioso ocorreu na Operação Surumu.
O Chefe do Estado Maior das Forças Armadas de Defesa da República da Guiana e adidos militares da Colômbia, Peru, Bolívia, Paraguai, Uruguai, Argentina e Venezuela foram convidados para estarem no teatro de guerra da operação. Era como se o governo brasileiro quisesse mostrar aos convidados que o Brasil tinha capacidade de defender a Amazônia caso fosse necessário. Era como esse convite, principalmente, do chefe do estado maior das forças armadas de defesa da Guiana, fosse um aviso: “olha o que faremos se tentarem invadir a Amazônia.
Mas Felipe Dideus, o que a Guiana tem a ver com isso? Essa operação ocorreu em um período conturbado das relações externas do Brasil. Enquanto Itamar Franco assumia a presidência no final de 1992, os Estados Unidos assistiam a posse de Bill Clinton e de seu vice-presidente Al-Gore.
Albert Arnold Gore Junior, conhecido pelo seu ativismo ambiental, ficou conhecido no Brasil após sua declaração a respeito da Amazônia, em 1989, na época em que era senador. “Ao contrário do que os brasileiros, pensam, a Amazônia não é deles, mas de todos nós”. No início da década de 90, o Brasil passou a sofrer pressão internacional para a homologação da demarcação da Raposa/Serra do Sol, uma reserva indígena situada no nordeste do estado de Roraima entre a fronteira com a Venezuela e Guiana.
A Organização das Nações Unidas, segundo ongs, a pedido de povos indígenas de Roraima, pressionava o presidente Itamar Franco para demarcar a Raposa/Serra do Sol. O que resultaria na criação de um enclave indígena sob a sob a tutela da ONU dando origem, no que muitos diziam, na primeira nação indígena do mundo. Só que essa mesma região, Raposa/Serra do Sol, segundo uma pesquisa realizada em agosto de 1988, pela Compania de Pesquisa de Recursos Minerais, era uma das mais ricas em diamantes no Brasil.
Essa região é conhecida ambém pelos seus arrozeiros que hoje produzem cerca de 160 mil toneladas de grãos por ano. E ainda há quem diga que nessa região está a maior reserva de nióbio do planeta. Nesse contexto, surgiu a guerra de narrativas.
Tinha quem defendia a narrativa de que os Estados Unidos, com apoio de seus aliados europeus, queriam usar a pauta indígena e a ONU para fazer da Raposa Serra do Sol um nação indígena independente sob sua influência para explorar parte da Amazônia. Tinha quem defendia a narrativa de que a ONU, com apoio do governo norte-americano e de governos europeus, queria apenas defender os interesses dos povos indígenas. É nesse contexto que surgiu a história de que em setembro de 1993, uma aeronave civil brasileira de uma empresa chamada Bolsa de Diamantes, avistou um enorme destacamento na fronteira entre Guiana e Brasil enquanto sobrevoava rumo a cidade Ui-ra-mutã.
A população dessa cidade relatava que os americanos iriam invadir a cidade. Toda essa agitação teria mobilizado as autoridades locais e o exército. Um segundo voo com essa mesma aeronave civil, dessa vez com um capitão do exército, foi realizado e foi constatado uma intensa movimentação militar no lado guianense.
O exército brasileiro teria enviado homens para o alto da serra Cuano-Cuano, na fronteira entre Brasil e Guiana, para registrar em foto e vídeo tudo o que estava acontecendo. A embaixada brasileira em Georgetown, capital da Guiana, ainda teria notificado o Itamaraty que embarcações dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha tinham aportado na cidade. É importante deixar claro que essa história não foi contada por fontes oficiais.
Pelo menos não encontrei. É uma história que aparenta ter ocorrido nos bastidores. Então, nessa guerra de narrativas, a pressão internacional pela demarcação das terras indígenas, fez com muitos entendessem que as movimentações norte-americanas e britânicas na fronteira da Guiana com o Brasil era para uma eventual invasão na Amazônia caso Itamar Franco não demarcasse a região da Raposa Serra do Sol.
E é nessa parte da história que entre a Operação Surumu. No jogo de xadrez da política internacional, o governo brasileiro teria usado essa operação para dissuadir a eventual invasão norte-americana. Isso porque essa operação ocorria de forma periódica na de cidade de Ourinhos, em São Paulo, e Cambará e Jacarezinho, no Paraná.
Quando circulou a notícia das movimentações na fronteira, as forças armadas brasileiras decidiram realizar a Operação Surumu em Roraima, na fronteira com a Venezuela e Guiana como demonstração de força. Apesar da história ser pouco conhecida, algumas coisas batem. Por que a operação surumu de 1993 foi o maior exercício de guerra do Brasil?
Por que foi realizado na Amazônia próximo da Raposa serra do Sol? Por que convidaram miltiares da goiana e de vários países sul-americanos? A Operação ocorreu na fronteira com a Venezuela e Guiana Justamente no momento de maior pressão internacional?
Isso tem cheiro, de fato, de demonstração de força. De Dissuasão. O que vocês acham?