Nós ainda estamos vendo e ouvindo muitas pessoas dizerem que o autismo é moda, que existe uma banalização do diagnóstico. Às vezes, representantes de conselhos que deveriam esclarecer a população trazem essas falas capacitistas, dizendo que um adulto que deseja ser autista, que deseja receber um diagnóstico de autismo, na verdade é um transtorno de personalidade ou um transtorno de humor ou outra condição. Mas a verdade é que o DSM e outros manuais já preveem o diagnóstico diferencial; isso não é exclusividade do autismo.
Isso acontece, né? O diagnóstico diferencial precisa ser observado, precisa ser realizado tanto na infância quanto na fase adulta. Então, considerando que a pessoa tenha uma boa consulta, passe por um processo de avaliação adequado, todos esses aspectos vão ser considerados, né?
As funções psíquicas e a personalidade são uma dessas funções, uma função complexa. Mas pensando nisso, nós quisemos trazer aqui no livro "Espectro Autista Menina" um capítulo específico sobre a personalidade. O título do capítulo é "A Personalidade e Suas Possíveis Alterações: Como Evitar os Equívocos Diagnósticos.
" E eu gostaria de ler um trecho aqui com vocês, e o subtítulo é "Autismo e Transtornos de Personalidade. " Quando pensamos em um transtorno de personalidade, é necessária a presença de traços patológicos destoantes da norma ou cultura, que tragam prejuízos à própria pessoa e/ou ao grupo social, com modo de operar pervasivo, aparecendo em múltiplos contextos, persistente, com início no final da adolescência e manutenção ao longo da fase adulta. Essa é a descrição do DSM-5 TR.
Então, o DSM-5 TR também lista e descreve 10 transtornos de personalidade. Assim, com base em semelhanças, eles são reunidos em três grupos, e aqui nós vamos especificar quais são esses grupos. O primeiro grupo é o Grupo A, que inclui os transtornos de personalidade paranoide, esquizoide e esquizotípica, que são os indivíduos que parecem excêntricos ou esquisitos.
Esquisito é uma palavra inclusive usada pelo DSM-5 TR. O Grupo B inclui os transtornos de personalidade borderline, histriônicos, antissociais e narcisistas, que são os indivíduos que costumam ser dramáticos, muito emotivos e erráticos. O Grupo C inclui os transtornos de personalidade evitativa, dependente e obsessiva-compulsiva; indivíduos desse grupo podem parecer ansiosos ou medrosos.
Então, nós percebemos aqui que realmente existem pontos de contato. Nós não estamos negando isso; pelo contrário, faz parte do processo de diagnóstico e avaliação diagnóstico diferencial. E continuando o texto, eu escrevo assim: os modelos psicopatológicos mais atuais, como o modelo hierárquico com raios, excluíram os diagnósticos categóricos indicados pelo DSM-5 TR, sendo que a CID-11 manteve apenas o transtorno de personalidade borderline como um possível especificador.
Ou seja, em um futuro breve, precisaremos nos atualizar sobre o espectro dimensional também da personalidade. No caso do autismo, o critério C presume a precocidade dos sinais, mas alerta para a possibilidade de os sintomas não serem plenamente manifestos até que as demandas sociais excedam as capacidades limitadas ou possam ser mascarados por estratégias aprendidas mais tarde na vida. Também, descrição literal do DSM-5 TR, página 57.
Inclusive, dessa forma, é frequente a manifestação das dificuldades sociais em períodos demandantes de transição, como adolescência, ingresso na faculdade, casamento e outras situações. Quanto à frequência dos sinais, a depender do nível de suporte, a pessoa autista pode apresentar dificuldades em múltiplos contextos. Em parte das pessoas do nível 1 de suporte, os desafios tendem a se manifestar em uma ou poucas situações.
Isso significa que, para o grupo de autistas com inteligência preservada, vulneráveis aos equívocos diagnósticos, a oferta de conforto sensorial pode facilitar a distinção entre o TEA e o transtorno de personalidade, visto que a redução da sobrecarga por excesso de estímulos pode mitigar a ansiedade e, consequentemente, as dificuldades diagnósticas. Ou seja, dependendo da resposta à intervenção, a gente consegue, talvez, né, diferenciar um transtorno de personalidade de um transtorno do neurodesenvolvimento. Por quê?
Porque se a pessoa recebe as acomodações, se às vezes ela usa uma de ruídos, se ela não precisa socializar tanto ou se ela tem o mediador e os sintomas, esses comportamentos que são considerados inadequados, atípicos ou não condizentes com a cultura, são reduzidos. Então, quer dizer que ela não tem um transtorno, provavelmente não tem um transtorno de personalidade; talvez estivesse apenas sobrecarregada tanto por estímulos sensoriais quanto por excesso de socialização. E aí, continuando o texto, os manuais já consideram os transtornos de personalidade como diagnósticos diferenciais para o espectro autista, explicitando semelhanças e diferenças.
Em particular, as pessoas com transtorno de personalidade esquizotípica podem ser confundidas com pessoas autistas por apresentarem preocupações atípicas, experiências de percepção incomuns, falas e pensamentos muito imagéticos ou fantasiosos, baixa reciprocidade socioemocional, ansiedade social, poucos amigos íntimos e comportamentos diferentes da norma ou comportamentos excêntricos. As pessoas autistas, um grupo delas, também pode apresentar comportamentos semelhantes, mas aí nós precisamos ver as diferenças e ver quando surgiram esses comportamentos, né? E aqui novamente no texto: porém, essas pessoas com transtorno de personalidade esquizotípica não tendem a exibir déficits na compreensão dos códigos sociais e também não apresentam estereotipias.
Os autistas não precisam necessariamente ter também as estereotipias, mas esse é um ponto que pode levar à diferenciação pelos traços restritivos e repetitivos. O transtorno de personalidade obsessivo-compulsiva (TPOC), que nós usamos essa abreviação, também pode ser aventado para uma pessoa autista. Já aqui no TPOC, transtorno de personalidade obsessivo-compulsiva, o indivíduo tende a ser perfeccionista, detalhista e rigoroso.
Todavia, tais comportamentos apresentam causas distintas; de acordo com o DSM-5 TR, além de nem sempre haver precocidade, a teoria da mente, o comportamento não verbal e o processamento sensorial costumam estar preservados nesse transtorno de personalidade. Então, é isso. Geralmente, o que nós observamos, né?
Às vezes a pessoa vem, ela acredita, ela não teve formação para isso, então ela vê aquelas características do autismo. Nós estamos falando mais sobre esse tema, e ela se identifica: "Olha, eu vim me avaliar porque talvez eu seja autista. " E quando.
. . Nós vamos conversar.
Aquele rigor, aquela formalidade. Às vezes, a pessoa tem os gastos muito restritos, mas ela compreende o que está acontecendo à sua volta. Talvez não tenha seletividade alimentar, né?
Questões sensoriais. E aí, nós vamos distinguindo melhor qual é a condição e, por necessidade de controle, os conflitos interpessoais talvez sejam queixas, mas não têm as mesmas causas do autismo. Também um outro detalhe é a falta de insight sobre a própria condição.
A pessoa com transtorno de personalidade obsessiva-compulsiva tem a certeza de que todo mundo deveria agir como ela, respeitar as regras. Então, assim, se não pode pisar na grama, eu não posso colocar um milímetro do meu pé na grama. E aí, elas começam a ficar hipervigilantes.
Se o filho, né, toca a grama, elas já podem ficar muito bravas, irritadas, e querem controlar tudo. Tudo é preciso; não pode ter nada sujo, o vidro riscado. E aí, elas ficam muito obsessivas com aquele comportamento.
Mas, diferente do TOC, em que a pessoa sabe que aquela repetição, né, o comportamento compulsivo, é um exagero, só que ela não consegue controlar, aqui, no transtorno de personalidade, a pessoa acredita que aquela seja a forma mais adequada de se viver. E se as pessoas autistas conseguem perceber e até mascarar as suas atipicidades, as pessoas com TPOC costumam acreditar que o seu modo de operar na vida é o mais adequado. Por essa razão, exigem o mesmo dos demais membros da família e colegas de trabalho.
E aí, nós vamos vendo as diferenças entre o autismo e as condições. Elas podem vir juntas como comorbidades, então, nós precisamos considerar isso também, né? E se há necessidade de haver os dois diagnósticos, no caso das mulheres, o transtorno de personalidade borderline é o mais citado pelos estudos como comorbidade do autismo.
Pelas dificuldades afetivas e emocionais de uma parcela das autistas, há relatos de equívocos diagnósticos, postergando a identificação do TEA. Existem vários artigos sobre esse tema e por causa da desregulação emocional. Mas é interessante, porque desregulação emocional não é critério para transtorno do espectro autista.
Entretanto, nós temos vários estudos, esses estudos de neuroimagem agora mostrando que a amígdala da pessoa autista pode ser diferente, tanto anatomicamente quanto em relação à sensibilidade. Então, ela pode ser mais reativa, detectando mais sinais de alerta e, por isso, a pessoa também fica mais amedrontada, fica mais ansiosa. As meninas autistas podem ter um tipo de ansiedade atípica, ou seja, que não é descrita pelo DSM.
E aí, isso também dificulta. Então, sim, as pessoas autistas podem ter maior desregulação emocional, mas esse aspecto, essa queixa é transdiagnóstica. Então, vai aparecer em transtornos de ansiedade, em transtornos do neurodesenvolvimento, em transtornos do humor, em transtornos da personalidade.
Então, não, não é exclusivo; isso não pode guiar o diagnóstico. Nós precisamos ver outros aspectos. E aí, continuando, as mulheres autistas parecem correr mais risco de receber diagnósticos de transtorno de personalidade do grupo B e serem consideradas excessivamente dramáticas, sobretudo se manifestam a ideação suicida.
Porém, em geral, as motivações para o desejo de abandonar o mundo tendem a ser diferentes para essas duas condições. Então, no caso das mulheres autistas, o que eu vejo, né, pelos relatos que eu escuto, elas costumam ter a ideação suicida, né, o desejo de não estar mais aqui, por sobrecarga. Então, às vezes, elas acham muito difícil viver.
E como elas não têm um GPS, elas mesmas às vezes usam esse termo, elas acabam se sentindo sobrecarregadas, confusas. Então, né, pensam em morrer mesmo. É terrível.
E tem estudos mostrando que a hiperatividade física é um componente que costuma aparecer mais em pessoas autistas e leva-las a esse desânimo com a vida, porque elas não conseguem administrar essa própria ansiedade, essa própria tensão interna. Então, acabam ficando muito, muito ansiosas e, às vezes, deprimidas. Então, tudo isso precisa ser considerado.
E aí, o capítulo segue. Nós temos o link para que você peça seu exemplar, reserve o seu livro pela Literar. O link está aqui na descrição e você pode continuar a leitura.
Mas, resumindo a história, nós não podemos banalizar nenhuma das condições. Ao mesmo tempo, não faz sentido negligenciar uma queixa, mesmo que ela não seja pertinente. Mesmo que a hipótese não se confirme.
Aliás, quando a pessoa chega ao nosso consultório, quando ela faz a sua própria hipótese, quando faz o seu autodiagnóstico, a nossa missão como profissionais não é, por maldade, é o raciocínio científico. É tentar refutar aquela hipótese. E, novamente, não é por maldade, mas a hipótese precisa resistir à nossa tentativa de refutá-la.
Só assim, aquele diagnóstico vai ser válido. Então, esse é o raciocínio clínico, esse é o raciocínio científico. Mas nós não estamos aqui para ser preconceituosos; nós não estamos aqui para julgar quem pensou, quem aventou determinada condição, porque está em sofrimento.
A nossa missão é ajudar essa pessoa. Então, espero que vocês se atualizem, se conscientizem. Nós temos vários livros.
Esse é um dos poucos livros que nós temos sobre apresentação feminina do autismo, que nós lançamos este mês. Eu espero que seja útil para os estudos de vocês. Um grande abraço e até breve.
Tchau, tchau!