[Música] Olá, ouvintes do Pauta Pública. Eu sou Andrea Dip, divido os microfones desse podcast com a Cláudia Jardim. Oi, Jardim.
Oi, Dip. E oi para você que acompanha a gente aqui no Pauta Pública. Emprego, serviço, ocupação, bico, frila, CLT, PJ, terceirizado, quarterizado, informal, jornada integral, jornada 6x1, jornada intermitente, funcionário, colaborador, contratado, empreendedor, plataformizado.
O vocabulário do trabalho cresceu, mas a lista de direitos diminuiu. Nos últimos anos, o mundo do trabalho no Brasil se tornou um campo de incertezas cada vez maior. A expectativa de autonomia e flexibilidade prometida com as novas tecnologias, na prática, trouxe outra realidade: precarização, jornadas mais longas e perda de direitos trabalhistas.
O último levantamento do IBG aponta que mais de 2 milhões de brasileiros trabalham para plataformas digitais. Sem garantias trabalhistas, esses trabalhadores precisam se submeter a jornadas extensas para conseguir sobreviver. Enquanto isso, a chamada pejotização continua em debate, acumulando mais de 285.
000 1000 processos na justiça do trabalho de pessoas que reivindicam o vínculo empregatício. Modelos como o trabalho intermitente, criado pela reforma trabalhista de 2017 pagam em média apenas R$ 762 por mês. Isso é menos que o salário mínimo.
A nova febre das IAS promete aumentar a produtividade, facilitar parte do trabalho vinculado às tecnologias. Só que essa revolução traz consigo novos riscos. Menos postos de trabalho, mais sobrecarga e uma vigilância invisível controlada por algoritmos.
Enquanto as pessoas estão cada vez mais insatisfeitas, entre os jovens é uma tendência de ver a CLT virar meme e ofensa. Mas como a estabilidade e a garantia de direitos viraram piadas? E quais são as armadilhas que as novas modalidades de trabalho escondem?
Para entender como aconteceu essa transformação e as implicações disso tudo pro presente e pro futuro do trabalho, hoje o Pauta Pública recebe o sociólogo e professor da USP, Rui Braga, num programa que também conta com a participação do Bruno Santos da Silva, um trabalhador uberizado. Mas antes de ir para essa conversa, já que estamos falando de trabalho, é uma boa hora de te fazer um convite. Como uma agência de jornalismo independente, a pública conta com pessoas como você para manter toda a equipe, a estrutura de programas como esse podcast e de reportagens que trazem um impacto real na vida das pessoas, como foi o caso da matéria sobre a exploração de operários chineses que estariam sofrendo agressões numa fábrica da BID na Bahia.
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Agora sim, vamos pra pauta com Rui Braga. Professor Rui, muito obrigada por você topar, falar com a gente aqui no Pauta Pública. Eu que agradeço, André, pelo convite.
Muito obrigado por estar aqui. Professora, eu vou abrir essa essa conversa com uma cena. Um menino negro de 9 anos, cotista, matriculado numa escola privada do Maranhão, foi vítima de racismo e apelidado de CLT pelos colegas.
Eles chegaram a fazer uma réplica da carteira de trabalho feita à mão para reforçar o bullying verbal. Como a gente explica isso? Em que momento ter um registro na carteira de trabalho CCLT deixou de ser um motivo de orgulho para se tornar uma ofensa, algo pejorativo?
Esse é um caso, né, que expressa muito bem, em especial porque diz respeito a esse universo infantil, né, aquilo que eu chamo de desconstrução da sociedade salarial no Brasil. desde 43, com a promulgação da CLT, enfim, a sistematização daquelas leis que foram sendo eh aprovadas, enfim, na década de 30, né, que diziam respeito basicamente à questão da proteção do trabalhador urbano, né, e a formação, a criação de um mercado formal de trabalho no país. Desde 43, a CRT foi um instrumento essencial do processo de desenvolvimento do capitalismo no país.
Porque entre outras coisas, esse diferencial entre ter direitos nas cidades, não ter direito, por exemplo, no mundo rural, atraiu a massa rural num grande processo, um enorme histórico processo de migração, eh, campo, cidade. Quer dizer, isso aí explica a industrialização, isso explica eh a urbanização brasileira. a gente tá falando de uma longa lista, né, de direitos que foram sendo conquistados durante esse período, em especial no pós- Segunda Guerra, década de 60, por exemplo, com o 13º, os direitos previdenciários, né, associados à questão do trabalho formal, isso tudo, a a proteção, seguro desemprego, isso tudo tá dentro desse contexto de criação de uma sociedade salarial no país.
a partir dos anos 90, com o colapso do modelo nacional desenvolvimentista, enfim, o que se verifica é um um lento, porém é muito estável processo de desconstrução dessa utopia, de desconstrução desse tipo de sociedade integrada pelo salário e que, por sua vez, estabelecia uma conexão muito íntima, né, entre progresso individual de um lado e direitos sociais coletivos por outro, né? E hoje você tem um problema muito grave que é a incapacidade que os sindicatos no país têm de atrair a juventude, né, os os jovens trabalhadores entrantes no mercado de trabalho. que eu posso perceber quando eu leio, né, essa notícia desse garoto no Maranhão, enfim, hostilizado pelos colegas, eh, chamado de CLT e coisa do gênero, né, o que eu posso perceber é que há um enraizamento muito forte dessa desconstrução da sociedade salarial, no caso brasileiro, né, e que atinge, enfim, esse universo infantil.
Professor, mas em que momento o que antes era uma garantia de direitos passou a ser uma espécie de certificado de precariedade ali no imaginário da população? O país passou aí ao longo dos anos 2000, 2010 por inúmeras reformas da previdência, primeiro a reforma do funcionismo público, depois a reforma eh do setor privado. O país passou por reformas trabalhistas que retiraram direitos e enfraqueceram de fato a capacidade da legislação de proteger o trabalhador.
nos anos 2000, com, vamos dizer assim, uma guinada muito muito aguda da estrutura socioocupacional brasileira na direção dos serviços, né, o que é a expressão de um processo precoce de desindustrialização do país. O que a gente verifica, na verdade, é uma concentração muito forte daqueles empregos que pagam 1. 5 salário mínimo.
Ou seja, o mercado formal brasileiro, a partir dos anos 2000, ele se especializa em criar ocupações que pagam muito pouco. Então, quando você observa o tipo de emprego que se oferta e que é o emprego mais comumente associado, né, a CLT, eh, que é esse emprego, o trabalho formal, porém, eh, subalterno, com baixa qualificação, jornadas muito longas, que ao mesmo tempo, né, combina o bom e velho eh despotismo gerencial, característico de uma sociedade que passou pelo escravismo e assim por diante, com, eh, É, salários muito baixos, jornadas muito longas, baixíssima representatividade [Música] sindical. Meu nome é Bruno Santos da Silva, tenho 39 anos e trabalho como motorista de aplicativo autônomo.
Eu trabalho na Uber desde 2019, início da pandemia, já são 6 anos. Trabalhei carteira assinada. por 15, 17 anos.
A diferença de hoje para tempo passado, eu acho que é a valorização mesmo, né? No CLT você trabalhava, mas às vezes era banco de horas e às vezes a hora isso não era tão convidativa assim para você tá fazendo mais horas. Então isso tudo acaba fazendo com que esse tipo de emprego, entre aspas, CLT, ele não seja atraente, principalmente paraa juventude, né?
E aí abra um espaço muito grande eh para que eh esses jovens entrantes, trabalhadores entrantes no mercado de trabalho, prefiram outras opções, né? Então essa desvalorização simbólica, né? prestígio propriamente da CLT, ela foi sendo ao longo dos anos 90, 2000, 2010, até até os anos 2020, enfim, até metade dos anos 2020, ela vem sendo uma constante e essa desconstrução, esse desmanche eh da utopia da sociedade salarial brasileira, de você ter um emprego protegido, ganhar um salário digno, trabalhar durante muitos anos numa empresa, se aposentar, enfim, viver uma aposentadoria digna, isso tudo tenha ficado para trás.
Quer dizer, isso tudo não tá mais eh no horizonte dessa juventude porque não surge mais como algo eh alcançável, né? E se não é alcançável, deixa de ser desejável. E se não é desejável, muitas vezes se transforma em algo que é motivo de repulsa, como se aqueles que fossem protegidos, eles, na verdade, eles fossem eh pessoas preguiçosas, que estão acomodadas na vida, que sabe, não querem eh empreender, não querem trabalhar duro, ou seja, que não tem a mesma ética do trabalho que esses jovens entrantes precisam eh apresentar para ter alguma possibilidade propriamente de ganhar um dinheiro e subsistir nessa nova a realidade, né?
Professor, quem se beneficia desse desmanche? Quem é que ganha com essa retórica do empreendedorismo que seduz principalmente os jovens? Ah, o setor empresarial ganha muito com isso, claro.
Quando, por exemplo, elas contratam, ao invés de contratar via CLT, preferem ou optam, né, pela pejotização do trabalho. Então, isso também representa eh um ganho pra empresa, porque a empresa não tem responsabilidade praticamente nenhuma. Mais de 38 milhões de brasileiros enfrentam o desafio de todos os dias batalhar por uma renda sem os benefícios e as garantias da previdência social.
O meu sonho vai ser realizado quando a gente for enxergado como trabalhador, né? A gente precisa lutar pelo trabalho formal, para quem quer ficar no trabalho formal, mas quem não quer ficar tem que ser legalizado no trabalho informal e tem que ter direito. A empresa simplesmente não não reconhece direitos porque é um contrato, é um contrato de prestação de serviço com tempo determinado.
O serviço é entregue e acaba. Isso e geralmente isso aí frauda, né, a relação salarial, a relação eh de hipossuficiência do trabalho, do trabalhador, né? Porque a gente tá lidando com pessoas que prestam serviço para as mesmas empresas durante anos, né?
Então, o que caracterizaria fundamentalmente o contrato de trabalho, o vínculo empregatício, né? Com decisão do ministro Gilmar Mendes do Supremo Tribunal Federal, ele suspendeu todos os processos que tratam da pejotização do trabalho, ou seja, a licitude da contratação de um profissional autônomo para a prestação de serviços. a própria decisão agora recente do ministro Gilmar Mendes, né, de congelar, enfim, essa discussão, a a os julgamentos, né, de pejotização no Supremo, enfim, esperando ali que o princípio que o Supremo já já havia definido no passado prevalecesse sobre a justiça do trabalho.
Enfim, é algo muito sintomático disso, né? Ou seja, a gente tá lidando basicamente com fraudes. Pejotização ela frauda, ela ela expropria, não é isso?
Ela expolia o trabalhador porque submete o trabalhador que não é uma empresa, ele é hipossuficiente, ou seja, ele é subalterno a contratante. Não há uma igualdade entre duas empresas, isso não existe de fato do ponto de vista concreto, mas isso vai sendo progressivamente aceito e legalizado, normalizado e legalizado pela justiça brasileira. diga de passagem, o Supremo Tribunal Federal é incrivelmente antitrabalhista, né, e própatrão, própatronal.
É incrível. Eh, todas as decisões importantes eles tomam pró própatrão, pró empresas, né? Então, a gente realmente tá tá num numa situação muito difícil, muito delicada.
e também no mercado formal que você verifica esse aumento exponencial que acontece desde 2017 com a a aprovação eh da reforma trabalhista do trabalho terceirizado, né, que é esse trabalho ainda mais explorado, enfim, jornadas mais longas, baixíssimos salários, porque a partir de 2017 você pode eh contratar trabalho terceirizado para atividades fim. Michel Temer sancionou a terceirização em meio a manifestações em todo o país contra retrocessos nos direitos trabalhistas. O texto polêmico amplia as possibilidades de contratação de serviço terceirizado, inclusive na atividade fim de empresas em órgãos públicos.
Então isso aí aumentou muito o número de trabalhadores terceirizados, ou seja, aumenta exponencialmente o número de de trabalhadores terceirizados, o que também tende a afastar esses trabalhadores da representação sindical, de direitos trabalhistas. O que a gente tá observando, né, nesses últimos 10 anos no país, pelo menos, né, desde a crise do emprego de 2516, isso só se intensificou com a pandemia. E o que a gente tá observando é isso, eh, em essência, né?
Eh, uma deterioração das condições de contratação, uma deterioração das condições, vamos dizer assim, de reprodução da classe trabalhadora brasileira em escala global. Então, e nessa lógica global, nós vemos que as plataformas e as redes sociais se convertendo numa espécie de novo patrão, né? Assim, de que maneira as bigtecs influenciam essa nova estrutura do trabalho informal hoje?
A grande diferença é que agora a dinâmica deixa de ser aquela dinâmica focada na pequena propriedade, né? um trabalhador que empreende eh por si mesmo, ou seja, que abre um pequeno negócio, ou nas famílias, nas dinâmicas do trabalho reprodutivo, em especial o trabalho doméstico, e passa a ser uma dinâmica focada eh no interesse de capitalização e de acumulação de grandes empresas multinacionais de tecnologia. Então, o que a gente verifica é o surgimento de um novo setor informal muito dinâmico, né?
Eh, hegemônico, que tá presente no mundo todo, com características semelhantes, né? E que no fundamental, o que que eles fazem? Eles acionam essa força de trabalho informal, subalternizam essa essa força de trabalho informal, mas não reconhecem nenhum direito para esses trabalhadores que eles são acionados permanentemente de trabalho informal, né?
Então, é uma informalidade, mas muito marcada, muito associada pela subordinação a essas grandes empresas de tecnologia. É claro que num contexto em que você tem, por exemplo, no caso do boom, né, da Uber no Brasil, 2015, 16, 17, 18, num contexto em que você tem uma taxa de desemprego muito grande, isso aparece, evidentemente, como uma tava de salvação para quem tá [Música] desempregado. É melhor agora, viu?
Assim, pela flexibilidade, né? E você vê o dinheiro, né? Você consegue fazer às vezes um mês numa semana ou dependendo até menos, dependendo da demanda, igual fim de ano, você consegue ter uma um ganho maior, né?
Você consegue fazer às vezes um salário mínimo em 4 dias. Então, a flexibilidade, não importando com o tempo de trabalho, mas você sabe que você tá sendo remunerado, é o que mais atrai, né, nessa área de aplicativo. Mas quando você observa, né, a evolução desse setor, você percebe que o que a gente tá lidando é com um processo absolutamente eh radical de exploração econômica desses trabalhadores, porque eles são obrigados a trabalhar jornadas muito longas para conseguir ali, vamos dizer assim, fazer um salário eh relativamente modesto que a a a despeito de ser relativamente modesto, ainda assim é maior do que ele estaria ganhando como CLT, pelo menos do ponto de vista do dia a dia, né, do do mês a mês, eh, num trabalho subalterizado formalizado, né, que hoje em dia tá pagando 1.
5 salário mínimo no máximo. O aplicativo é um serviço que depende somente de você, né? Somente de você, da sua saúde física e mental, né?
Para você conseguir fazer um bom trabalho e independente da carga horária. E você sabe, quanto mais você trabalhar, mais você ganha. Então ele ganha em relação ao salário CLT, mas ele pede em termos de proteção, ele pede em termos de aposentadoria, ele pede em termos de segurança, ele pede em termos de direitos, enfim, é um é um trade ali muito complicado, né?
Muito muito dramático, né? E ao mesmo tempo, esse trabalhador, além de trabalhar longas jornadas, né, ele também está sendo expropriado politicamente, porque o seus direitos trabalhistas, os seus direitos previdenciários, os seus direitos sociais não são reconhecidos pelas empresas, né? Então não há nenhuma proteção.
O trabalhador tá tá por si próprio. A minha rotina de trabalho eu começo às 4 horas da manhã, né? Vou até às 10, depois volta às 2as e vou até às 19, no máximo 20 horas, mas é um período aí de 10 horas, às vezes 12 horas trabalhado.
Antes era mais fácil ter a meta, né? Porque tinha mais demanda, então a gente tinha a meta aí de R$ 350 por dia, mas não livre, né? Aí combustível, alimentação, tudo envolvido nessa meta que a gente tinha de 350.
Hoje em dia você faz 200 e leva comida de caras. A combinação da exploração econômica com a expropriação política eh tá muito ligada à racialização dessa classe trabalhadora que hoje é a massa que tá aí nas ruas fazendo entrega e trabalhando na de Uber e assim por diante. quer dizer, é uma massa racializada, é o setor eh informal, onde fundamentalmente o que você tem são trabalhadores negros à disposição dessa exploração e expropriação aí eh que é levada adiante pelas grandes empresas de tecnologia, né?
Uma pausa e a gente já volta. Tem muitas falsas promessas nas redes sociais, viu? Dietas miraculosas, coaches falando para você desaparecer e voltar.
Perfeito em seis meses. Por isso, eu te convido a escutar de segunda a sexta, de graça, sem pegadinha, o podcast de notícias no pé do ouvido. E não é só manchete, não.
A gente explica o assunto. Se junte aos ouvintes de um dos top 100 podcasts da América Latina. No pé do ouvido, é uma produção do canal Meio comigo e Asmin Restum.
Te espero. [Música] Oi, pessoal. Aqui quem fala é o Ricardo Terto, roteirista aqui do Pauta e apresentador do Bom Dia Fim do Mundo.
No episódio dessa semana, nosso assunto é o trabalho, os trabalhadores. Afinal, como que a gente vai trabalhar nesse fim do mundo? Bom, de preferência não na jornada 6x1.
Aliás, a gente traz uma boa notícia. A redução da jornada de trabalho traz impactos positivos até pro clima com a diminuição do consumo de energia. E pode ficar tranquilo, viu, patrão?
As pesquisas mostram que a redução da jornada não reduz produtividade. E pros novinhos e novinhas que estão entrando no mercado de trabalho agora, a trombeta da semana vem cheia de dicas com o top três profissões do fim do mundo. Quando terminar o pauta, procura a gente aí no seu tocador e no YouTube.
Bom dia, fim do [Música] mundo. Agora, professor, você estava falando de quando as pessoas começam a empreender ou criar seus pequenos negócios, né? Então, abriu uma quitanda, abriu um puxadinho em casa para fazer manicure, isso não é uma coisa nova, mas essas atividades nunca foram glamorizadas, né?
Por que que o empreendedorismo ele hoje só é reconhecido como tal quando ele vem com essa estética de sucesso, de inovação digital? É isso que a gente costuma chamar de empreendedorismo, tem duas faces, né? Uma face é uma face popular que é o empreendedorismo popular por necessidade e que tem a ver em essência com a desconstrução desse disso que eu tô chamando de sociedade salarial brasileira, né?
Ou seja, as pessoas precisam subsistir, elas precisam ganhar algum dinheiro, elas estão cada vez mais dependentes, fundamentalmente, né, eh, do mercado para acessar tudo. Quer dizer, você não tem mais, como no passado, o mundo rural mais ou menos acessível em que você pode voltar para pra sua terra, subsistir com uma lavoura, ou então você não tem, sabe, uma mãe ou um pai que trabalha em casa e fabrica ou ou faz a própria roupa ou costura. Não, não.
Hoje em dia e tudo passa pelo mercado, quer dizer, os meios de subsistência mais elementares passam pelo mercado. O empreendedorismo popular, por necessidade, sempre existiu. Hoje, evidentemente, com características eh novas eh em essência, né?
e hoje ele tá muito estruturado em torno dessas grandes empresas eh que trabalham com plataformização do trabalho. Você tem eh, vamos dizer assim, uma eh plataforma para quase tudo. Quer dizer, se você quiser, por exemplo, passear o seu cachorro, você tem plataforma que contrata passeadores de cachorro.
Então isso evidentemente que marca uma diferença em relação ao passado, né? E mesmo quando a gente pensa, vamos dizer assim, no pequeno comércio, na pequena propriedade, o no comércio popular, nas periferias também, esse essas pessoas estão dependentes das redes sociais, dependentes das plataformas para poder tocar o seu negócio, quer seja fazendo propaganda, quer seja vendendo, né? Então você tem assim uma uma plataformização generalizada desse trabalho subalterno e cuja face mais visível é o da entrega de aplicativo do ou do da Uber e assim por diante, mas que existe uma face invisível.
Quer dizer, as pessoas que resolvem montar, por exemplo, uma boutique no bairro, né? As mulheres que querem vender roupa, modinha no bairro, elas dependem da rede social para fazer para fazer os negócios. Ou seja, tudo isso passa por esse universo digital hoje em dia, né?
A outra face é, evidentemente, esse esse empreendedorismo altamente tecnológico. Então você tem eh na realidade uma espécie de polarização nessa discussão do empreendedorismo. Você tem um polo superior que se destaca enormemente, que você vai encontrar muito no universo dos bancos, das fintecs, das empresas de tecnologia digital e assim por diante.
E por outro lado, você tem essa massa de gente que depende, enfim, das redes sociais e dessas plataformas para poder subsistir, né? De um lado, o que você vê é o sucesso, mas na realidade por baixo desse sucesso, existe uma massa imensa de trabalhadores que estão fracassando dia após dia e cada fracasso você se endivida mais. Os aplicativos não tá no ramo do delivery, mano.
Não é o delivery o negócio dos aplicativos. Negócio dos aplicativos é exploração, mano. A bicicleta a gente paga R$ 20 por um mês.
A gente tem que usar de uma em uma hora porque senão a gente paga taxa. Nós mesmo que vamos perder os nossos prejuízos porque para falar que o suporte já é difícil. Às vezes como o pagamento não cai assim, aí manda mensagem pro suporte, fica duas, três semanas para resolver até mês.
Aí eu não sei que difícil. pessoas para para trabalhar, elas precisam se endividar. Antigamente você simplesmente se oferecia no mercado e alguém te contratava.
Hoje em dia você tem que se endividar para poder continuar trabalhando. É, talvez a única pauta propositiva da esquerda brasileira hoje seja o debate da escala 6 por1, né? Como que a gente consegue pensar políticas trabalhistas universais num cenário de informalidade crescente?
Em primeiro lugar, a gente tem que entender que o movimento Vidas Além do Trabalho e a questão da luta, né, pela redução da jornada de trabalho no Brasil tem mais a ver com o setor formal, né? Ou seja, aquele regulado pela CLT e pela jornada de 44 horas, ou seja, 40 horas eh de segunda a a sexta e o sábado inglês no sábado, né? Ou seja, a a meia jornada no sábado.
Quando você olha, por exemplo, setor de supermercados, tá vivendo um apagão de forças de trabalho. Por quê? Por que que tá, por que que se vive um apagão de força de trabalho?
Porque os salários são muito baixos. A escala 6 por1 impede que as pessoas tenham de fato uma vida ativa fora do trabalho. Impede que participe da vida comunitária, que tenha uma participação mais mais eh profunda, mais mais presente, né, na vida familiar.
Então não é, não são só as 8 horas de jornada eh que ele fica ali no supermercado, fica ali na farmácia, fica ali no calcen. Não são às 12 horas, ou seja, sabe, 2 horas para chegar, 2 horas para voltar, mais às 8 horas de trabalho, o que impede que essas pessoas tenham uma vida minimamente engajada, né, com seus familiares, enfim. Eh, eles, na verdade estão perdendo a vida ao ganhá-la, né?
Ou seja, e sem contrapartidas a contento, sem benefícios, sem direitos. Muitas vezes, né, esse setor é muito terceirizado. Eh, então, praticamente não tem benefício, não tem direito.
Só tem os direitos mínimos, né, da CLT, não tem representação sindical, quase nenhuma, né? Os salários são baixíssimos, em média se paga 1. 5 salário mínimo.
Esses grupos de trabalhadores, eles estão muito descontentes com o emprego que tá sendo oferecido no mercado de trabalho. Então assim, a renda média do do trabalhador brasileiro corresponde a 60% do mínimo de subsistência, do mínimo de subsistência de uma família de quatro pessoas, né? Formada por quatro pessoas, dois pais e dois filhos.
O que que isso nos diz? nos diz que eh essas pessoas, esses trabalhadores estão aprisionados no mundo do trabalho que nem lhes satisfaz, nem lhes garante uma uma subsistência digna, nem lhes oferece um horizonte, uma perspectiva de futuro, que é verdadeiramente uma prisão, né? Uma prisão, é a prisão do trabalho, do trabalho subalterno, eu digo, né?
Ah, do trabalho alienado, né? Então assim, o movimento vidas além do trabalho captou essa sensação que é um um misto, né, de angústia com indignação e canalizou pra questão da jornada 6x1. Estudo do dia mostra que o valor do salário mínimo no Brasil deveria ser quase R$ 7.
000 para atender todas as necessidades básicas dos brasileiros. Então, é uma situação realmente muito muito delicada e mostra a urgência de você ter um discurso que vá além desse discurso do governo que a gente tem assistido e de que tá tudo bom. Tá tudo bom por quê?
Porque a renda do trabalhador melhorou um pouco, porque a taxa de desemprego é baixa. Ah, e por, enfim, e tá todo mundo empregado, tá todo mundo trabalhando, tá todo mundo feliz. Não tá feliz.
A verdade é essa. Então, professor, e por outro lado, nós temos esse outro setor da classe trabalhadora, que é o setor uberizado, né? Nós vimos manifestações desses trabalhadores por aplicativos exigindo aumento e melhores condições de trabalho.
Existe espaço hoje no legislativo para se pensar em pautas que possam ir além da proteção dos trabalhadores assalariados dos CLT e que contemplem também os plataformizados? Olha, Cláudia, a gente pode ter um vislumbre disso analisando a pauta de reivindicação do do break doss, né? Então você tem que ter, por exemplo, um pagamento mais justo pelas pelas corridas, né, pelas entregas.
Você não pode naturalizar, isso é o que a as empresas fazem, né, com muita frequência. Então, o que que as empresas eh costumam fazer através da sua inteligência artificial, dos seus algoritmos, algoritmos do seu, do, vamos dizer assim, da sua administração algoritma, algorítmica super eh moderna e coisa do gênero, ela faz assim, ela junta um monte de pedidos numa linha, né, numa linha de entregas, né, e paga só um pedido. paga só o pedido mais longo e o o trabalhador tem que se desdobrar em realizar várias entregas, ganhando uma única entrega, porque tava no caminho, que ela foi acumulando ali entregas, estava no caminho do trabalhador.
[Música] Os preços não são justos, né? Mas manifestação que vira alguma coisa, que muda alguma coisa, você já viu? Difícil, né?
Então, a galera que tá hoje no aplicativo, tá? Porque precisa mesmo, precisa, por mais que as tarifas sejam baixas ou até meses dias escravizados, mas ela sente que mesmo assim ela consegue ter um retorno. Isso tem que acabar, quer dizer, você tem que ter uma um reajuste da remuneração.
O o as empresas alegam que deram um pequeno reajuste nesses últimos dois anos, um pouquinho acima da inflação, o que eu não sei se é realmente verdade, mas o problema é que o patamar é tão baixo de remuneração desses trabalhadores. é tão baixo, os riscos são tão altos, eh, que evidentemente é insuficiente. Os trabalhadores reivindicam melhores taxas de entrega e o fim da precarização da categoria.
Os entregadores de aplicativo pedem que a taxa mínima por corrida seja de R$ 10 e que o aumento do quilômetro rodado vá de R$ 1,50 para 2,50. Eles também reivindicam o pagamento integral dos pedidos, mesmo que haja mais entregas na mesma rota e que os trabalhadores que usam bicicletas só possam rodar até 3 km. Então não chega nem aos pés daquilo que seria o o mínimo minimóum ali para que o trabalhador pudesse ao mesmo tempo garantir a sua subsistência, uma vida digna para ele, suas famílias, né?
Então, as pessoas estão ali vendendo o jantar para comprar o almoço. Quer dizer, é uma coisa muito difícil, né? Então, em primeiro lugar, você tem que ter uma remuneração melhor.
Para isso, o governo pode sim eh atuar. O governo pode chamar, convocar, exigir que as empresas centrem uma uma mesa de negociação coletiva nacional e redefina esse patamar mínimo de de remuneração. O governo nunca fez isso, já propôs mesmo negociação, mas nunca definiu esse mínimo, pelo menos não do ponto de vista dos trabalhadores, né?
Então aquele mínimo lá que foi negociado era um um mínimo que favorecia as empresas, mas não os trabalhadores. O governo tem que comprar o ponto de vista, comprar o partido dos trabalhadores de fato, coisa que não está acontecendo. Não adianta tergiversar sobre isso, não está acontecendo.
Em segundo lugar, o governo precisa urgentemente, enfim, e negociar com as empresas, com todas as empresas de aplicativo, em especial aquelas que são de entrega e de motoristas, aquelas que envolvem mais risco de acidentes e assim por diante. O governo tem que efetivamente compartilhar os riscos dessas atividades com as empresas. O SUS não pode assumir toda essa responsabilidade de ficar, sabe, eh, cuidando desses trabalhadores acidentados.
As empresas têm sim que colaborar para um fundo coletivo de amparo a esses trabalhadores. Ela ela precisa dar a sua colaboração juntamente com o governo. O governo precisa comprar o ponto de vista dos trabalhadores.
O governo precisa comprar exatamente aquilo que os trabalhadores estão demandando. Caso contrário, eh, essa crise não não vai ter nenhuma possibilidade de de encerramento, né? ela vai continuar se reproduzindo e se ampliando, porque cada vez mais trabalhadores vão depender de plataformas para poder Então, não, não tem o que fazer.
Professor, é isso. Muito obrigada por acompanhar a gente aqui no Pauta Pública. Eu que agradeço, Cláudio pela Andreia, Cláudia, pela oportunidade de estar aqui com vocês.
Tô sempre à disposição. Muito obrigado. E Bruno, muito obrigada por dividir a tua jornada aqui com a gente no meio desse corre aí de mais um dia de trabalho em Belo Horizonte.
Maravilha. Precisar aí eu poder ajudar, só chamar nós. Um abraço para você aí, viu?
E chegou a hora da gente recomendar um programa da Rádio Guarda-chuva para você emendar na tua playlist depois do Pauta. A dica de hoje é conhecer a nova série Vida de Jornalista, podcast comandado pelo Rodrigo Alves. A novidade dessa temporada é que se trata de uma série interativa e por isso se chama escolhas.
No final de cada episódio, uma escolha jornalística abre um novo caminho de conversa. Quer saber como ficou essa experiência? Procure por vida de jornalista no seu tocador favorito e boa [Música] escuta.
Chegamos ao fim de mais um Pauta Pública. Muito obrigada para você que ficou com a gente até aqui. O pauta é apresentado por mim, Andreia Dip, pela Cláudia Jardim e nós também cuidamos da entrevista do programa.
A produção é da Estela Diogo e assistente de produção a estagiária Rafaela de Oliveira. O Ricardo Terto é quem cuida do roteiro. A edição é de Pedro Pastoris.
A identidade visual é da Tainá Gonçalves. Na comunicação, a coordenação das redes sociais é da Lorena Morgana. O vídeo para as redes é da Etiene Karen e a publicação no site fica com Guilherme Silva.
A trilha sonora original do programa é do Pedro Vituri. A coordenação da produção e edição de podcasts da pública é feita pela Cláudia Jardim. Esse episódio inclui áudios do canal TV Brasil, CNN Brasil, Rede TVT, Folha de São Paulo, Canal Itatia, Jornalismo TV Cultura e trecho do documentário Vidas Entregues, disponível no canal do diretor Renato Prata Biar.
O Pauta Pública é uma produção original da Agência Pública de Jornalismo Investigativo. Até sexta que vem, gente. Um abraço.
É isso, gente. Obrigada por acompanhar a gente até aqui. Espero vocês na próxima semana.
Este podcast é uma parceria da agência pública com a Rádio Guarda-chuva. Jornalismo para quem gosta de ouvir.