Exclusivo. O Fantástico traz agora imagens e relatos inéditos da vida num país em guerra. Os repórteres Caco Barcelos e Thiago Joque conseguiram o que jornalistas de todo o planeta tentam desde o início do confronto.
Entrar no Irã. Um acesso raro concedido a poucos veículos de imprensa. >> Foram sete dias na capital Teerã, registrando a destruição provocada pelo conflito [música] que une Estados Unidos e Israel contra o regime iraniano.
Uma crise que mergulhou o Oriente Médio no caos, [música] estrangulou o comércio internacional de petróleo e põe em risco a [música] estabilidade mundial. Estamos em Van, uma grande cidade ainda na Turquia e daqui seguiremos para a fronteira. São 300 km de estrada entre montanhas cobertas de neve.
Cenários muito bonitos. [música] Desde o início da guerra, as fronteiras do Irã são fechadas paraa imprensa. Sabemos que centenas de repórteres já tentaram, continuam tentando e não conseguiram entrar.
Bem, agora chegou a nossa vez. Tem um soldado aqui filmando. Você viu um soldado filmando você?
>> Peguei. OK. Brasil [música] Brasil.
Fizemos essas imagens do poço da alfândica antes de sermos proibidos de gravar na fronteira ainda pelas autoridades turcas. Lá dentro, eu e meu colega Thiago Joque mostramos o visto de imprensa e depois de uma checagem de 2 horas, fomos autorizados a entrar no Irã. Foram 12 horas de viagem da fronteira até a capital do Irã.
Te Irã. Fomos orientados a não sair do carro durante o trajeto e a não fazer gravações. As estradas [música] são monitoradas por satélite pelo exército de Israel e as nossas câmeras podem ser confundidas com armas.
Nesse momento nós acompanhamos os funerais do general militar da Marinha iraniana, morto durante o ataque na embarcação que ele comandava no State de Orm. Eles participavam de uma reunião com outros executivos militares quando dois mísseis atacaram o navio e o local onde ele estava reunido. Ele morreu na hora juntamente com outros militares.
O corpo dele foi transportado até aqui a capital para os funerais que acontecem nesse momento. Tentar chegar mais perto. Pessoas muito emocionadas aqui em volta.
Aqui encontramos também representantes das novas gerações das mulheres, geralmente mais jovens, como essa que está aqui ao meu lado. Elas são as responsáveis por grandes conquistas na área de costumes, como por exemplo a vestimenta, que elas estão ao lado das mulheres religiosas que respeitam as tradições islâmicas. Ela está aqui com outro tipo de vestimenta bem colorida e jovens com essas geralmente universitárias.
Esse é o hino nacional do Irã. >> Nos discursos, muitas críticas aos governos de Israel e dos Estados Unidos, sobretudo contra o presidente Donald Trump. Um jovem me procura no meio da multidão e pede para gravar uma entrevista.
Esse governo americano é o pior de todos os tempos. O Irã não é uma superpotência atômica. Nosso povo está apoiando o nosso governo e os nossos militares.
>> No fim do cortejo, sem nenhum incidente, policiais fortemente armados concordam em aparecer para as câmeras do Brasil. Em outras duas oportunidades, soldados pediram para não serem filmados e inclusive conferiram que tínhamos gravado. Que mais nos impressiona nesta guerra é que o perigo é invisível, vem de cima, não se ouve nem o barulho dos aviões que lançam os mísseis como fizeram aqui.
O míssel deixou esse prédio dessa maneira. O Alvo era um cientista, professor da universidade, engenheiro eletrônico que trabalhava no programa nuclear. Este professor aqui perdeu também o filho e a filha.
Não, >> não. Pessoas estão um pouco tensas aqui. As moradoras não quiseram falar conosco.
As autoridades puseram uma placa ali, aquela amarela, dizendo que é para ter cuidado, que esse prédio pode desabar. Então eles fizerem que a gente fique longe. >> Os governos de Israel e dos Estados Unidos acusam Irã de enriquecer urânio para produzir armamento atômico.
França, Alemanha e Reino Unido também já manifestaram preocupação com o programa nuclear iraniano. As autoridades daqui negam e dizem que o objetivo é apenas a geração de energia. 13 cientistas iranianos ligados ao programa nuclear já foram mortos em ataques semelhantes.
Nessa semana houve mais um ataque, desta vez com lançamento de mísseis contra a universidade, onde alguns cientistas são professores. >> É grande a destruição. Voltou abaixo um prédio aqui à nossa direita.
É. E as ondas da bomba levam consequência para bem longe lateral escolar. Olha ali, ó.
Equipamento de laboratório. Eu fiz uma cirurgia que causou lesão aqui na perna direita. Não consigo ter ainda a força suficiente para equilíbrio nesta perna.
Tô usando uma bengala e num ambiente assim, né, cheio de destroços, fica mais difícil. Pelo jeito foi a bomba foi seguida de um incêndio. Somos muitos jornalistas aqui.
Acho que uns 20 jornalistas aqui iranianos. >> Logo depois nos aproximamos de um repórter. Essa colega é da Rússia.
>> Estávamos numa comitiva de jornalistas que visitava os locais atacados. Apenas três equipes estrangeiras estão aqui no Irã. A nossa da TV Globo, a russa e uma britânica.
Aqui na universidade percebemos em meio aos escombros muito metal queimado, retorcido. Nesse último ataque não houve mortos. >> Os colegas falam aqui que na guerra dos 12 dias, junho do ano passado, 11 cientistas da área nuclear foram mortos.
Cinco deles estudavam nesta universidade, neste prédio. Estamos chegando na cidade de Fardis, que foi atacado ontem, horas atrás. São várias casas atingidas.
Impressiona que toda essa destruição foi causada por um único míssil. >> 10 casas foram atingidas e só numa delas três pessoas morreram. Não tivemos a informação do total de mortos nesse ataque aqui.
[música] Acabamos de receber autorização da do segurança de conhecer o lugar onde houve o maior número de vítimas. 25 pessoas morreram neste ataque. É um conjunto de prédios residenciais que virou isso escombros.
Impressiona a o tamanho da destruição, um pouquinho da vida das pessoas. A gente observa no chão os documentos, os arquivos das pessoas, fotos, pedaços dos carros. Aqui foram várias bombas.
Por aqui dá para ver, Thago, quão profunda é a destruição, né? Retorcendo o prédio. Uma coisa o concreto, né?
cedendo. >> Nossa tradutora Farzani explica que, segundo as autoridades iranianas, o álbum seria uma instalação militar localizada atrás do conjunto de prédios. Um homem que mora perto e viu o ataque conversa com a gente.
>> Molha aí. >> Os 25 mortos são aqueles que os corpos foram encontrados, ainda desaparecidos. As bombas foram tão pesadas que muitas coisas foram totalmente destruídas.
Bom, estamos nos aproximando do local do último ataque que atingiu uma ponte. A gente começa a ver lá à frente. Esta é uma ponte que estava sendo construída há 3 anos.
>> Não temos nada a ver com militares. Essa ponte foi construída com o mesmo objetivo da outra. Conectar Teã províncias do Irã.
e ainda estava em construção, nem estava sendo usada. >> Operários e pessoas que circulavam pela região disseram que foram dois ataques contra a ponte e que no segundo oito trabalhadores morreram e 95 ficaram feridos. [música] Leila Maquelli, irmã de dois trabalhadores, tinha ido até a obra levar almoço para eles.
Foi atingida e teve que ser levada ao hospital em estado grave. Ela estava com os irmãos embaixo da ponte quando houve o bombardeio. Horas depois, Leila não resistiu aos ferimentos.
Duas médicas, três médicos mortos durante o ataque nos hospitais onde trabalhavam. Os colegas deles estão aqui fazendo uma manifestação, protesto contra os ataques que estão acontecendo nas áreas dos hospitais, nos centros de socorro. Ainda hoje, quatro ambulâncias foram atingidas pelos aviões que a gente não vê.
Ela está explicando que ela é umaante de medicina. Ela trouxe a foto de uma enfermeira, colega, que foi morta durante o ataque. É considerado uma heroína.
Ela permaneceu no hospital ajudando os pacientes, por isso o uniforme dela ficou queimado. Uma das líderes do protesto leu uma declaração em persa e em inglês também. A médica disse que a preservação das instalações médicas e farmacêuticas é um direito universal que não pode ser violado sob nenhuma circunstância.
Ela também conversou com a nossa equipe. Eu acho que é necessário falar que numa guerra os inimigos devem respeitar algumas fronteiras. Não se pode bombardear infraestruturas de saúde.
São lugares essenciais para cuidar das pessoas feridas. Autoridades americanas e israelenses alegam que hospitais e centros de saúde foram atingidos porque estariam próximos a instalações ou equipamentos militares. Segundo os médicos iranianos, mais de 300 hospitais e centros de saúde foram atingidos durante os combates, inclusive 18 instalações do Crescente Vermelho, que é a Cruz Vermelha daqui.
A Organização Mundial de Saúde confirmou pelo menos 23 ataques a centro de saúde no Irã. Nós visitamos alguns hospitais. >> A gente consegue ver os estragos aqui no Hospital Psiquiátrico de Terã.
E ele foi afetado por um choque pós bombardeamento, né? Então, os estragos estão por todas as partes. Aqui em todos os eventos que visitamos, sempre encontramos muitas pessoas [limpando a garganta] carregando fotos dos líderes religiosos e políticos do país, os acima da guarda revolucionária islâmica e de um governo civil são os aatolás que controlam o Irã.
Desde a revolução de 1979, quando o país virou uma república islâmica, o regime exerce forte controle sobre a sociedade, por repressão a protestos, censura à imprensa, prisões de ativistas e imposição de comportamentos sociais, principalmente a mulheres. Hoje, além das críticas ao programa nuclear, o Irã também financia e apoia grupos como Resbolá e o Ramás, responsável pelos atentados de outubro de 2023 contra Israel. >> É difícil, qualquer gravação tem que passar pelo pelo checkpoint, pelas barreiras da polícia, chamada guarda revolucionária.
Bom, aqui somos liberados. Depois de passar da barreira, >> durante nossa estado aqui, tentamos falar com opositores ao regime, mas não conseguimos. No início do ano, protestos contra o governo por causa da crise econômica foram fortemente reprimidos pela Guarda Revolucionária.
Autoridades iranianas dizem que mais de 3. 000 pessoas foram mortas, mas organizações independentes afirmam que o número de vítimas pode ter sido muito maior. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã falou sobre os protestos de janeiro.
Esses protestos deixaram de ser pacíficos e se tornaram violentos. pela ação de infiltrados. Homens armados que atiraram contra policiais.
Mais de 200 oficiais de segurança foram mortos por esses atiradores, que ainda mataram vários manifestantes. >> Esmaí Bagai rebateu também as acusações de violações a direitos humanos e de perseguição a opositores no país. >> Nós somos vítimas de uma campanha sofisticada de demonização nas últimas cinco décadas, desde a Revolução Islâmica.
Criaram muitas mentiras. Quer um exemplo? é o que falam sobre o nosso programa nuclear.
Na questão dos direitos humanos acontece mais ou menos o mesmo. Qualquer que seja a acusação que eles façam contra o Irã, nós reconhecemos que não somos perfeitos. Mas você consegue me mostrar algum país que seja perfeito na questão dos direitos humanos?
>> No mês passado, três opositores foram enforcados, inclusive um atleta de luta olímpica por toda a capital. Imagens mostram osatolás e exaltam o patriotismo. O líder máximo, Ali Camenei, foi morto junto com a neta no primeiro [música] dia dos ataques.
Ele aparece quase sempre ao lado do filho Mojitaba, escolhido o novo líder. >> Essa imagem sintetiza muito dessa guerra, um míssil adorado pelos iranianos. A guerra lá no alto não se vê.
É sem trégua. Os bombardeios americanos israelenses não param, enquanto que os iranianos fazem o contra-ataque com esse míssil. Esses mísseis e os drones lançados pelo Irã têm atingido alvos civis em Israel em outros países do Oriente Médio.
Assim como os israelenses e americanos, o governo iraniano também alega que sempre busca alvos militares. >> Um dia depois do bombardeio que destruiu uma escola e matou 170 crianças, as imagens das vítimas já estavam sendo expostas no país inteiro. O bombardeio à escola de Minab também aconteceu no primeiro dia da guerra e causou grande comboção no país e no mundo.
Essas são imagens do trabalho das equipes de resgate. As famílias tentavam fazer o reconhecimento no local para onde os mortos eram levados. Uma investigação feita pelo jornal americano The New York Times revelou que o míssil que atingiu a escola foi lançado pelos americanos e que a ordem de ataque foi baseada numa informação de inteligência defasada.
Segundo o jornal, os americanos acreditavam que ali ainda funcionava uma base da Guarda Revolucionária do Irã, mas o prédio tinha deixado de ser uma instalação militar e se tornado uma escola havia cerca de 10 anos. O caso está sob investigação dos Estados Unidos. Segundo o governo do Irã, mais de 3.
000 pessoas morreram no país desde o início do conflito. Num dos muitos parques de Terã, nos deparamos com memorial em homenagem às crianças mortas no ataque. >> Aqui a gente vê parte do material escolar delas, as mochilas, flores de homenagem.
Tá virando um memorial. 6 horas da tarde, estamos acompanhando aqui um espetáculo organizado por artistas e professores, pessoas da comunidade. Um espetáculo ao ar livre na frente do teatro municipal em homenagem às crianças da escola de >> enquanto estivemos no Irã, houve um feriado, o dia da natureza.
Fomos a um dos parques da cidade que estava bem cheio. Muitas famílias se divertindo. >> O açafrão >> no Irã.
O piquenico é uma paixão, como o futebol no Brasil. Somos muito bem recebidos pela família de Czar Mohamad, de 16 anos. Ela nos apresenta os parentes.
Tem pai, mãe, tio, primo, irmãos, avós e, claro, o churrasqueiro. >> Eu pergunto sobre a importância desses encontros. >> É muito importante porque ficamos juntos, unidos e praticamos esportes, especialmente o badminton.
A família curte o piquenique. >> Ficamos mais um tempo ao lado deles e depois nos despedimos, >> mas só por algumas horas. >> Bom, nós conhecemos a família Mohamado durante a tarde numa praça fazendo piquenique e agora vamos acompanhar uma cerimônia de toda a noite, desde o início da guerra, eles repetem esse ritual.
Eles se reúneem aqui no bairro na capital Terã. A família inteira estão aguardando a gente. Nós pedimos para acompanhar a cerimônia de toda a noite.
Estão aqui já prontos para partir. Nós trouxemos uma bandeira do Brasil. Eles gostam muito de bandeiras.
Esse senhor acaba de me dar essas flores. Ele tá fazendo parte desse protesto aqui nesse bairro da capital. Toda noite ele se reúne dessa maneira na forma de protesto contra a guerra.
Os homens à frente como esse senhor seguindo das mulheres que neste momento elas ficam de costas no ritual, mulheres e crianças. Esses eventos são incentivados pelo governo e acontecem em vários bairros de Terã e em cidades do interior. >> OK?
Ela tá explicando que esse é o momento de união de todas as gerações unidas pela para dar força ao novo líder. Independentemente da idade da geração, no tempo em que passamos aqui no Irã, percebemos que a população tenta manter a vida normal, indo pra rua, apesar da ameaça constante de ataque. E mesmo na nossa última noiteã, quando havia um risco ainda maior e mais perigoso no ar.
11 horas da noite, falta 1 hora para o fim do prazo estabelecido pelo presidente americano Donald Trump, em que ele ameaça o Irã de bombardear de maneira muito mais intensa. Ele disse que o país vai voltar à idade da pedra caso não abra o estreito de Ormuso. Alguns trazem chá, oferecem doces para quem está na rua.
>> Mohamad, um pesquisador diz que não teme as ameaças de Trump. e que sentiu que devia colaborar com as manifestações toda a noite e voluntariamente oferecer chá e alguns doces aos participantes. Neste momento, nós estamos acompanhando um movimento de protesto contra os governos de Israel e dos Estados Unidos.
Impressionante a quantidade de pessoas aqui. >> Elas agitam bandeiras e gritam palavras de ordem. Muitos dizem que ao longo da história perderam muitos combates, mas a vitória foi sempre deles.
No meio da multidão, reencontramos a moça que mostramos no funeral do general a um clima de euforia no ar. Meia-noite na capital perã. Momento importante.
Acaba nesse momento o prazo final estabelecido pelo governo americano, pelo presidente Donald Trump para reiniciar os combates de maneira muito mais intensa. Apesar das ameaças, a multidão está nas ruas aqui na capital do Irã, sem nenhum tipo de proteção. A ameaça vem do céu.
Bombas, mísseis, drones, todo dia desabam. E aqui eles não t a proteção que a gente vê em outros países. Não há brigo subterrâneo.
As estações de metrô não são preparadas para proteger o povo. Mas eles continuam nas ruas. Horas depois, quando nós já estávamos iniciando a viagem de volta para o Brasil, foi anunciado um cessar fogo, o início de negociações que podem levar ao fim do conflito.