Olá, tudo bem? Nesse vídeo vamos conversar um pouco sobre o luto perinatal, que é aquele luto que envolve a morte gestacional e a morte neonatal, a morte do recém-nascido. Nós sabemos que é só a partir do século XIX, que a morte das crianças começa a ser vista como um motivo de grande comoção.
Até nesse momento da história, a expectativa de vida das pessoas era menor e o índice de mortalidade infantil era muito mais alto do que observamos hoje, em função dos vários fatores de risco aos quais estavam expostas as crianças. Na medida em que as sociedades evoluem as condições de vida melhoram, condições essas ligadas à alimentação, assistência médica, saneamento básico, vacinação, entre muitas outras, a morte de criança vai se tornando cada vez comum e hoje é percebida por nós com muito mais comoção do que percebia era percebida em outros momentos da história. Nesse vídeo vamos falar especificamente do luto gestacional e do luto neonatal, aquele que é decorrente da morte de um bebê ainda durante a gestação ou até o trigésimo dia de vida.
Sabemos que essa experiência de perda produz nos pais a vivência de um luto. Um luto bastante importante, entretanto, um luto com características distintas por alguns motivos, entre eles podemos dizer o fato desse luto nem sempre ser autorizado, validado socialmente, como vimos em vídeos anteriores. Muitas vezes profissionais de saúde, familiares, comunidade de um modo geral, não valoriza essa perda como sendo uma perda importante, pois, entende que esse casal pode vir a ter outros filhos.
Além disso, um outro aspecto que torna esse luto também distinto é o fato da relação entre os pais e esse bebê, quando no caso de um luto gestacional, ainda ser marcado por uma relação mais simbólica. Embora a mulher já tenha uma vivência física com esse bebê, no caso de uma gestação ainda assim, a relação com esse bebê como uma pessoa ainda não se constituiu, isso torna a experiência desse luto também diferente nesse aspectos. Por fim, esse luto tem que ser pensado também de modo distinto, porque nem sempre será possível a essa família a elaboração de rituais de despedida desse bebê.
Como vimos em um vídeo anterior, o luto não reconhecido é aquele que acontece quando a sociedade inibe o processo do enlutado ao estabelecer normas sobre quando, como, quem, de que modo essa pessoa pode expressar o seu luto. Assim, não é incomum que mulheres que passaram pela perda gestacional relatem não ter tido o seu luto validado socialmente ao ouvir essas frases: "Mas você é jovem, você pode ter outro bebê. Você já tem outros filhos".
Isso fala de uma experiência de luto que se torna não autorizada, porque ela não encontra um espaço de expressão social daquilo que sente. Alguns estudos vão indicar que o luto gestacional aumenta a possibilidade de que essa mulher vivencie sintomas depressivos, ansiosos, que nessas mulheres a prevalência desse sintoma se torna maior do que em mulheres que não passaram por essa experiência, o que aponta a necessidade de um olhar cuidadoso para mulheres e também homens nessa situação. Alguns aspectos podem aumentar a possibilidade de um luto ainda mais difícil a partir de uma perda gestacional, quando há história prévia de outras perdas de mulheres, então, que passaram por mais de uma perda, o que não é incomum quando essa mulher apresenta alguma dificuldade para gestar.
Estudos mostram que quanto mais jovem essa mulher maiores as chances também de uma vivência mais difícil desse luto e a idade gestacional também mais elevada, quanto mais próximo está esse bebê do seu nascimento mais vinculação vai existir entre essa mulher e esse bebê e mais concreto se torna a maternidade, deixando de ser tão simbólica e se apropriando também dessa relação corporal que se constitui com o bebê. Nessas situações, a gente observa uma intensidade maior do sofrimento relativo à perda. Não é incomum que mulheres após a perda gestacional relatem sentimentos como raiva, tristeza, decepção, muitas falam de aspectos ligados a uma baixa autoestima decorrente disso, como se houvesse por parte delas alguma culpa pelo que aconteceu.
Dificuldades conjugais também podem ser decorrentes desse tipo de perda. Além disso, é provável que essa mulher tendo outras experiências de luto possa nessa situação de uma perda gestacional reviver as suas outras perdas. Assim, é importante que profissionais de saúde estejam atentos a manifestação desses sentimentos.
Ofertar apoio, uma escuta cuidadosa e acolhedora se constitui o primeiro passo para que essa mulher tenha o seu luto validado e possa elaborar essa perda. Ao perder um bebê não se perde somente o filho amado e sonhado perde-se também um conjunto de idealizações, sonhos feitos, projeções que esse casal faz com esse bebê. Todos esses aspectos vão constituir também aquilo que chamamos de um luto simbólico, o que também deve ser objeto de de amparo e de cuidado.
Numa perda gestacional há também sempre uma perda narcísica. Pais ao longo da gestação projetam no seus filhos os seus sonhos, as suas idealizações, aquilo que se espera dessa criança. Ao se perder um bebê se perde também todas essas projeções.
No parto de um bebê morto, nas situações em que isso acontece, é necessário estarmos atento também a dor física que essa mulher traz como sendo componente desse luto. Além disso, é muito comum que o luto se torne ainda mais difícil quando esse parto é feito em condição dessa mulher está inconsciente. Nessas situações em que não há uma participação ativa no parto, porque ele acontece às vezes numa situação de emergência para a saúde da mulher e também do bebê.
Não é incomum que a experiência de elaboração desse luto seja ainda mais difícil, porque ela não estava de modo consciente participando desse parto. Eu me recordo de uma das pessoas assistidas no nosso projeto que durante a pandemia da covid-19 foi contaminada e deu entrada no Hospital numa situação de emergência no sétimo mês de gestação, precisando ser entubada e ficando em coma por alguns dias, quando ela retorna desse estado e é extubada, a sua bebê tinha falecido 40 minutos após o parto. Recordo-me dessa pessoa falando da dificuldade que era reconhecer a morte da sua filha como sendo a morte daquela bebê que ela havia gestado.
Ela não conseguia entender e sentir que eram as mesmas crianças, ela falava disso: "Aquela bebê que faleceu 40 minutos depois, que me mostram uma foto, eu não sinto que é minha filha. A minha filha era aquela outra bebê que estava na minha barriga". Passar pelo parto de modo inconsciente pode ser um fator de risco que agrava a experiência do luto para essa gestante, o que demanda cuidado e atenção dos profissionais de saúde que lidam com essa mulher.
Assim, podemos pensar em outros fatores que ampliam um risco de um luto complicado nessas situações, a falta de apoio social ao não reconhecer esse luto como sendo válido, como sendo real, o próprio preparo da equipe de saúde, que nem sempre consegue se portar de modo acolhedor e empático com essa gestante e a ausência de rituais de despedida. Nesse sentido, é importante também que as equipes de saúde que prestam assistência a essa gestante sejam capazes de contribuir para que outros rituais de despedida possam ser construídos e a impossibilidade de se conectar com esse bebê. Segundo Bowlby, é importante que os pais sejam incentivados a estar com o bebê após o parto mesmo que ele já esteja morto.
Estar com esse bebê, tocá-lo, segurá-lo no colo pode ser um fator importante para que essa morte seja tornada real e para que eles tenham possibilidade de ao reconhecer essa perda iniciar um processo de elaboração. Entretanto, a gente observa dificuldade que a sociedade tem com essa situação e que os profissionais de saúde também tem. Para muitos profissionais é difícil prover um ambiente em que isso seja possível, a oferta de um espaço reservado, de um momento de intimidade, de acolhimento a essa família com o seu bebê morto.
Nesse sentido, mais uma vez reiteramos o quanto é importante que profissionais de saúde sejam preparados também para lidar com esse tipo de situação. Assim, podemos pensar em alguns papéis que a equipe de saúde deve desempenhar junto a mulheres e porque não dizer a um casal que perde um bebê na gestação ou logo após ao nascimento. Primeiro, prestar apoio e informação sobre a causa da morte, a circunstância em que ela aconteceu, de modo que essas informações sejam dadas em linguagem simples e com espaço para expressão dos afetos decorrentes dela, para se tirar dúvida, entre outras coisas.
Segundo, incentivar os pais a falar sobre o que sentem, sobre as suas expectativas, sobre como estão lidando com a realidade dessa perda. Por fim, favorecer a emergência de outros rituais de despedida. Algumas equipes em alguns hospitais maternidade já têm se mostrado eficientes nesse sentido, criando formas de favorecer essa despedida.
Há relatos interessantes de equipes que vestem o bebê, que preparam a mãe e permitem que o casal permaneça com esse bebê por um tempo mesmo após a sua morte. Isso se mostra importante para que esses pais tenham a possibilidade de se despedir e de tornar concreta e real a morte do seu filho. A ausência desses rituais pode tornar o processo de luto ainda mais difícil para um casal, especialmente, para uma mulher.
Estar atento a isso é importante e faz parte do cuidado a pessoa enlutada. Nos vemos no próximo vídeo!