[Aplausos] [Música] Olá seja muito bem-vindo muito bem-vinda ao curso democratizando a história meu conterrâneo José Laurentino Gomes é Paranaense de Maringá formado em jornalismo pela Universidade Federal do Paraná com pós-graduação e administração de empresas pela USP e cursos complementares por universidades estrangeiras em Cambridge na Vanderbilt Foi repórter foi editor em inúmeros órgãos de imprensa do país de grande porte né como o Jornal Estado de São Paulo a revista Veja angariou oito prêmios Jabuti de literatura por sua obra A trilogia das datas de que a gente vai falar um pouquinho à frente e a trilogia sobre
escravidão cujo terceiro Volume saiu ano passado ao todo se estima que suas obras já Venderam mais de 3 milhões 500.000 exemplares no Brasil Portugal e Estados Unidos Laurentina é um fenômeno também nas redes sociais com centenas de milhares de seguidores seu estilo jornalístico de escrita da história impactou Definitivamente a historiografia de divulgação Histórica no Brasil ou de história popular como se queira chamar querido Laurentino eu começo agradecendo enormemente a sua Generosa presença aqui hoje para falar de história de escrita de públicos é uma honra é um prazer muito grande ter essa conversa contigo Uma conversa
eh Há muito tempo planejada e só agora a gente consegue fazer né então eu queria começar pelo seguinte eh você era um Jornalista já reconhecido que passou por muitas redações por grandes empresas de comunicação atuava como executiva do grupo Abril no final dos anos 90 né dirigindo dezenas de periódicos importantes como a revista Virgo E aí você escreveu sua primeira obra 1808 que teve uma opção muito bem sucedida tão Bem sucedida em termos de público como de crítica né a tal ponto de você abandonar uma carreira constituída né consolidada de executivo na grande mídia para
construir uma outra de escritor de não ficção né de livros de história Então antes da gente falar dos seus livros conta para nós como é que se deu essa virada de chave né é um ponto eh um passo existencial imenso né como é que isso aconteceu Muito obrigado bem primeiro que eu Eu que agradeço né a A a honra de participar dessa série de entrevistas eh eu sou um seu admirador desde o início aliás eu arriscaria dizer que você é um dos culpados pela minha carreira como escritor e e jornalista eh dedicado à história do
Brasil o a a mudança foi foi muito surpreendente para mim né Eu sou jornalista eu tenho mais de 40 anos de profissão eu diria que a atividade do jornalista e do Historiador não é tão Diferente quanto se imagina eu acho que os dois procuram a verdade dos Fatos e dos personagens né o jornalista escreve digamos assim uma história mais a Sangue Quente enquanto ela tá a acontecer é uma história mais superficial mais sujeita a erros de interpretação e de informação o historiador faz a mesma coisa olhando com maior profundidade com mais metodologia com um processo
de validação do seu trabalho né em em bancas de Mestrado de doutorado mas eu diria assim A essência do nosso trabalho é é quase a mesma enquanto eu era jornalista de redação do dia a dia em jornal ou semanal no caso da Veja eu sempre tive uma paixão paralela que era estudar a história do Brasil Lia muito sobre esse assunto aí em 97 essas duas paixões convergiram a revista Veja tinha um projeto de lançar uma série de de edições especiais sobre história do Brasil para se defender de uma concorrente importante que tava sendo Lançada que
era a revista Época pela Globo uma série de ações de promoção e assinatura então uma das ações para fidelizar e atrair mais assinantes era fazer uma série de especiais sobre eventos importantes da história do Brasil e era sempre uma mesma fórmula era como se uma revista Veja fosse publicada na semana dos acontecimentos Aliás a revista já tinha feito isso no Centenário da República e teve uma repercussão grande publicaram Uma edição especial e como se uma vez já tivesse sido publicada em novembro de 1889 interessante com entrevistas com perfis de personagens importantes um relato dos acontecimentos
essa série de especiais ia falar sobre o a chegada dos portugueses a inconfidência mineira a corte no Brasil a independência e eu acho que mais um ou dois episódios talvez a Revolução de 30 se eu não me engano eu fiquei encarregado de coordenar uma equipe que I falar sobre a Corte Portuguesa de Don joor do Rio de Janeiro Aí eu procurei a orientação de uma grande historiadora que é a Maria Odila Leite da Silva Dias e ela me indicou uma bibliografia básica sobre o assunto e eu comecei a ler o primeiro livro que eu li
foi Dom João VI no Brasil do Oliveira Lima o segundo foi a corte no no exílio Ó que legal eu fiquei absolutamente Encantado especialmente por isso que eu digo que você é um dos culpados Do que aconteceu comigo porque eu fiquei o o livro do Oliveira Lima é muito bom ele é muito denso e ele tem também uma abordagem mais digamos assim a narrativa da história do ponto de vista institucional né a troca de de cartas de correspondências diplomáticas de decisões tomadas em Portugal e no Brasil em Viena no congresso de Viena mas é um
livro fundamental o seu livro a quando eu li me deu a impressão que era Um grande jornalista que tinha escrito um livro muito bom com ótimas histórias e muito fácil de ler então assim eu me apaixonei pelo assunto e li mais coisas a respeito da da corte no Brasil e aí para min a grande frustração o projeto foi cancelado a vez já desistiu de lançar esse especial e eu continuei sozinho continuei a pesquisar durante mais 10 anos até que chegou um evento importante que era o Bicentenário da chegada de Dom João ao Rio Salvador e
Rio de Janeiro e aí aquele projeto que era digamos assim corporativo virou num projeto pessoal eu decidi lançar um livro eh e aí trabalhei fim de semana à noite nas férias pesquisei mais viajei fui para VI para Portugal onde eu moro agora atualmente né Visitei os locais em que as coisas aconteceram e lancei esse livro na do Rio de janeiro de 2007 mas eu confesso jurand que no Começo as minhas ambições eram muito modestas era lançar um livro por um assunto que do qual eu tinha gostado e fiz um estilo reportagem né como se fosse
uma série de reportagens para Veja sobre o mesmo assunto para minha surpresa o livro se tornou um bestseller eu confesso que eu nunca imaginei isso nem nos meus sonhos mais delirantes aliás eu lembro exatamente o dia em que a minha vida mudou eu fui para Bienal do Rio E aí Tinha um stand da Saraiva falecida Saraiva que já foi a falência e o meu editor na planeta me chamou e falou Laurentino observa o que tá acontecendo lá naquela pilha de livros era o meu livro 1808 as pessoas chegavam pegavam o livro e iam pro caixa
eu falei o que que significa isso ele falou Você acaba de se tornar um bestseller a sua vida daqui pra frente não vai ser mais a mesma fato foi o que aconteceu 8 meses depois eu pedi demissão do emprego e assumi minha Carreira como escritora eu fiz o livro 1822 depois fiz o 1889 fiz a trilogia escravidão mas eu diria assim a essência do trabalho continua a mesma eu continua sendo um repórter E editor fazendo livros de história do Brasil por isso que eu sempre faço questão de demarcar bem essa Fronteira né Às vezes as
pessoas me chamam de historiador doutor eu não sou nenhuma coisa nenum outro eu sou um Jornalista que escreve sobre eh história Do Brasil e tô muito feliz né perfeito Laurentino Eh vamos falar então puxando um pouquinho desses livros né para eh eh pensar algumas questões relativas a escrita deles e e a tua prática mesmo como escritor né que é diferente de um de uma redação como você disse a quente né que você tem que condensar eh assuntos em espaços muito reduzidos com as informações chegando e tal e com o livro A A A tua eh
parte criativa é diferente né Então você já disse que que O livro foi lançado na Bienal eh do Rio de Janeiro 2007 né E se tornou eh um fenômeno um fenômeno editorial né assim foi foi eh escolhido o melhor ensaio de 2008 pela Academia Brasileira de Letras né foi publicado em inglês nos Estados Unidos o livro eh segundo reza lendo Urbano ele tava pronto havia algum tempo né E você esperou o gancho eh como se diz no jargão jornalístico né o contexto das efed do Bicentenário eh da da chegada da família real eh para Catapultar
o lançamento então e foi Uma Jogada de mestre mesmo dentro do do mercado editorial assim como o Fishing né do do do título curto né a data impactante né inesquecível o subtítulo provocador né como uma louca um príncipe medroso Uma Corte corrupta enganaram o Napoleão e mudaram a história de Portugal e Brasil aí você estruturou esse livro em 29 capítulos 29 reportagens curtas né quase Independentes mas isso e e eh a partir De um texto fluido né informativo misturando Trama política perfis psicológicos né dos protagonistas e uma certa Pegada anedótica também né E aí O
livro caiu nas graças do público aliás Esse é um é um ponto importantíssimo junto com outros autores Você Tem trabalhado para criar um público leitor o que hoje em dia é uma grande coisa e uma tarefa muito difícil né Então essa primeira experiência embora mercadologicamente bem sucedida deve ter Sido para você um laboratório muito importante como é que se deu a produção toda desse livro né você já contou um pouquinho dele mas Quais os principais desafios né os aprendizados que foram determinantes na na depois da continuação do teu trabalho de escrita da história que que
que você aprendeu e que se foi aprimorando na nas Produções seguintes A partir dessa experiência sim sim de fato é tem uma curva de aprendizagem né é eu não diria assim o a Maneira de pesquisar de escrever é jornalística mas não é a mesma coisa do que fazer jornal e revista então eu eu fui aprendendo primeiro assim a comunicação ela desenvolveu uma série de técnicas para atrair atenção e reter o leitor então assim é a maneira de fazer um título um subtítulo uma capa fazer uma boaa de livro se destaque na gôndula da livaria ou
no site de internet isso é muito importante né uma técnica de fazer Capa de revistas quando eu trabalhava na Veja uma bo uma boa parte do do tempo e do esforço da direção da redação o diretor e os seus editores era escolher a capa a gente fazia várias capas às vezes até tinha votação Qual é a melhor capa para depois decidir isso era uma parte assim do processo industrial de fazer uma revista fazer a capa um bom título um bom subtítulo é uma uma boa ilustração era muito Importante eu apliquei isso nos livros né Eh
mas houve um aprendizado também eu diria por exemplo 1808 poucas pessoas sabem mas assim esse livro até assim a véspera de ir pra gráfica ele tinha um outro título e ele não tinha subtítulo ia se chamar os segredos da corte Até porque eu tinha trabalhado relativamente bem um personagem que era o luí Joaquim dos Santos Marrocos e eu Descobri por a briga dele com a família na correspondência porque ele teve uma filha no Rio de Janeiro antes do casamento uma carioca e aí A família ficou sabendo e isso explica a confusão o conflito na correspondência
do Lu Joaquim dos Santos Marrocos e eu usei o Santos Marrocos como um fio condutor E então eu ia pôr os segredos da corte na última hora meio que baixou um santo em mim e aí eu botei 1808 como uma rainha louca e coisa assim e eu acho que isso Mudou totalmente a percepção do livro né Eh outra outro aprendizado curioso também um Jornalista não precisa na reportagem fazer bibliografia e citar fontes de referência você escreve transcreve frases cita frases e personagens e entrevistas Mas você não precisa ter essa metodologia de fazer fonte de referência
e eu escrevi o livro inteiro sem me preocupar com bibliografia e f de referência depois de pronto eu falei mas Esse é uma literatura de não ficção alguns colegas leram e falaram mas você precisa dizer da onde é que vem essa informação isso é uma coisa até para dar uma uma credibilidade importante pro seu livro né você vai ser questionado inevitavelmente como é que um Jornalista tá escrevendo sobre história do Brasil aí o que aconteceu eu tive que ler tudo de novo Jandir foi de novo eu tinha lido uma bibliografia enorme ao longo de deu
um trabalho enorme mas aí eu aprendi Olha a partir de agora seu Laurentino Gomes na hora de fazer pesquisa vai anotando as suas fontes fazer fichamento né fulano de tal P Natal então Foi um aprendizado apanhei no primeiro primeiro livro mas a partir de então se você pegar um original meu agora tá tudo lá transcreve a frase põe Olha André João Antonio cultura e opulência no Brasil página tal edição tal então eu fiquei esperto esse Foi um aprendizado Eh então assim eu acho também que tem um aprendizado também num temos de amadurecimento do meu trabalho
eu diria assim o livro 1808 ele é muito divertido muito fácil de ler mas eu reconheço que às vezes ele tem umas coisas meio apelativas assim na forma como ele tem tenta atrair e segurar o leitor os outros livros eles foram ficando um pouquinho mais densos eu acho que mais consistentes e o escravidão mais do que nunca Uhum curiosamente a curva de venda acompanha também os livros foram ficando digamos assim mais mais sólidos do ponto de vista de pesquisa e de escrita mas eu diria que eu Eu também aceito a ideia de que talvez eu
tenha afugentado um pouco um leitor mais leico e Leu e gostou e se divertiu com 1808 mas não tanto quanto escravidão até porque o assunto é mais sério o assunto é mais Complicado é mais sensível politicamente culturalmente e ele não comporta brincadeiras não comporta bom humor a escravidão eu não posso dar a esse assunto o me mesmo tratamento que eu dei para 1808 Mas é uma curva de aprendizagem a gente vai falar mais disso eu tinha percebido isso inclusive na leitura dos teus livros né então mas vamos continuar no no fio cronológico na onda do
do Sucesso estrondoso de 1808 você lançou em 2010 e 1822 né como um Homem sábio uma princesa triste um escs louco por dinheiro ajudaram O Dom Pedro aqui é o Brasil né que teve uma aliás uma bela edição comemor ativa lançada o ano passado né E que e eh eh eu tive o privilégio de de fazer um pós fácil e eh em 2013 veio 1889 né sobre a a proclamação da república né design das Capas você já tocou nesse assunto né o design das Capas com grandes datas estampadas se tornou um elemento de identidade visual
Eh muito marca registrada né de grande apelo depois muito limitado por outros autores outras editoras né então a linguagem simples didática muito mais presente no 1808 Sem dúvida né mas é também um outro elemento eh marcante dos teus livros o fato de independência ser um dos temas mais visitados pela historiografia eh representou algum um desafio a mais na escrita desse livro né porque uma coisa é você falar sobre um tema mais ou menos eh desconhecido do Grande público mas Independência é um grande tema né historiográfico E e aí você tem que se a ver com
esses autores todos né Eh houve algumas críticas mais contundentes sobretudo por parte da academia né Eh pelo seu interesse factual pelo anedótico e tal mas desde o início você dialogou com referências eh historiográficas importantes no teu trabalho de escrita né que acompanharam você no processo de escrita nos diálogos e que acolheram também depois o teu Trabalho como é que foi a tua a a tua relação com a historiografia né em particular a historiografia acadêmica né como é que ela entra na artesania na construção das tuas obras eh bem jul é assim eh primeiro eu procurei
orientação né Eu acho que um jornalista Quando vai escrever sobre qualquer assunto no qual ele não é especializado pode ser psicologia economia astronomia ele precisa recorrer a Fontes especializadas e que o Oriente nesse Texto Então eu no 1822 além de ficar como eu já primeiro que eu já tinha uma certa familiaridade com a bibliografia que que é vizinha do 1808 né se você lê a bibliografia fundamental sobre a vinda da corte Você fica muito próximo da Independência ah eh mas eu procurei orientação então por exemplo o eu tive uma ajuda fundamental do embaix Alberto da
Costa Silva e ele corrigiu ele me corrigiu ao longo do tempo e algumas abordagens que Eu teria realmente escorregado feio né sobre a economia brasileira na época da Independência sobre a importância da escravidão ele foi ele foi me me colocando no eixo Agora ele foi muito generoso porque ele percebeu do início que era uma obra jornalística para um público mais leigo então ele orientou mas sempre dentro dessa perspectiva ou seja em algum em algum em nenhum momento ele ele tentou transformar o meu trabalho numa obra de natureza acadêmica Que não seria o caso isso foi
muito importante então assim eu eu diria que ao longo do caminho eu fui encontrando pessoas que rejeitaram o meu trabalho pura e simplesmente pelo fato de eu ser jornalista e nunca mudaram de opinião outras no começo tiveram uma certa estranheza até criticaram e depois vieram ao meu encontro e foi realmente coisa muito boa muito muito assim Generosa por Parte dessas pessoas e Alguns que me ajudaram desde o início sem praticamente me conhecer que é o caso do professor Alberto tac Silva agora eu acho que existe o jornalismo ele tem esse Grande Desafio né como é
que você tenta conquistar uma audiência mais Ampla mais leiga sem desqualificar o conteúdo imagina lá fora a audiência é como uma pirâmide quanto mais próxima da base mais banal é o conteúdo são os programas Populares do televisão né programas policiais que apelam a emoções muito baratas e tem uma grande audiência quanto mais próximo do Topo mais qualificada é a audiência mais porém mais denso e Menor é audiência Então como é que você migra do Topo paraa base dessa pirâmide sem perder a consistência do conteúdo se você fica só no om manque de curiosidades Olha você
imaginava que era assim não é assim a chamada história politicamente Incorreta né que quer dizer ah olha tal muito simplória muito simplória a Interpretação da história apenas um uma tentativa de desfazer mitos e surpreender o leitor o tempo todo contrariamente às expectativas criadas pela narrativa tradicional pela historiografia tradicional pode ter algum apelo mas você não tem contribuição alguma com a educação e com a formação de leitores né de de de atrair novos leitores pra História do Brasil que realmente interessa se você ficar muito muito denso é você é afugenta novo leitor vai ter um reconhecimento
acadêmico maior Talvez mas ess pessoas que não nunca leram história do Brasil vão frentar Então esse é uma essa é uma linha muito tênue mas eu acho que isso também eu diria assim é um exercício de moral né o jornalista ele pode inventar ele pode criar ficção dentro de uma história e tornara mais mais atraente Mas não tem consistência ele pode então assim você tem que ter uma uma fidelidade aos fatos à Fontes então eu sempre procurei no que estava ao meu alcance eh ter como guia a historiografia aceita referendada dentro dos centros de pesquisa
das universidades então eu nunca eu nunca fugi disso acho que essa é a grande né o grande esforço de tentando fazer uma obra de interesse mais popular não se Descolar de uma certa eh de um credenciamento acadêmico Esse balamento é muito difícil sem dúvida e até hoje quer dizer é uma uma coisa por um lado tem dentro da academia esse movimento chamado pública que é um esforço de buscar grandes audiências e dentro da própria academia tem uma uma resistência porque não para você atingir grandes públicos você tem que ceder demais em Rigor e tal então
É é uma coisa que pega todo mundo né não é São só os jornalistas que escrevem por história mas os acadêmicos que querem falar pro Grande pro público leigo também mas vamos continuar em 1889 você aborda outro acontecimento fundamental pra história brasileira que é a queda da monarquia ou o golpe da República né se a gente preferia assim eh você já disse em várias entrevistas que a sua escrita leve informativa e fluida tem um duplo objetivo né de um lado atrair um público Mais amplo nas Suas palavras não habituado a se interessar pelo assunto e
de outro se posicionar contra a chamada história tradicional né ensinada nas escolas resumida a memorização de nomes datas é acontecimentos uma crítica feita em 1889 porém é de que ao se centrar e aos outros livros em alguma medida né ao se centrar em em personagens de Elite e aos fatos as datas né o seu jornalismo histórico de alguma maneira se aproximaria dessa história dita Tradicional né que você eh eh propõe combater né enquanto a historiografia acadêmica tem se voltado cada vez mais para as pessoas comuns o subalterno temas marginalizados processos de longa duração né então
você você já tocou nesse assunto agora que a gente estava falando então aprofundando como buscar esse difícil equilíbrio entre essas perspectivas né uma que problematiza o passado no presente mas que tem menor apelo e eh menor sedução e outra mais Informativa menos despretenciosa mas que também busca e tensionar as questões atuais né como como fazer isso se você me der a fórmula eu vou adorar que eu vou quer vou querer fazer também eu não tenho a fórmula infelizmente não o que que eu faço é ao ler a bibliografia de referência sobre um determinado assunto eu
fico preocupado em duas coisas fundamentais primeiro entender os personagens Quem São eles Ou seja a história é uma soma de conjunturas Mas também de personagens existe os personagens documentados que é o mar Deodoro é o Silva Jardim é o Benjamim constan O Dom Pedro I existe os personagens que a gente sabe que participaram da história mas são menos documentados porque são as pessoas escravizadas as mulheres o povo os Camponeses então assim aí tem um desafio aí tem um desafio enorme quer dizer você tem a história documental Geralmente está espelhada na na na historiografia e já
construída e existe uma outra história possível a gente sabe que existe claro que por exemplo na guerra da Independência houve participação de negros índios homens e mulheres escravizados Sem dúvida mas a documentação é muito menor do que em relação ao Dom Pedro I Zé Bonifácio Labatut e assim por diante Então esse é um grande desafio né Eh Então o que que eu faço eu fico atento aos personagens aos acontecimentos é inevitável você fugir da sequência de acontecimentos de datas e também dos grandes fenômenos o que foi que aconteceu com o Império Brasileiro como é que
desmoronou Quais foram os as razões que que fizeram com que o Império Brasileiro implode mais do que fosse derrubado né E aí eu acho que entra uma uma característica que me encanta muito na história que é uma entre muitas Possíveis narrativas e abordagens uhum essa é a minha é o é o que eu é o que eu consegui fazer é o que eu entendi que era interessante como era interessante fazer claro que um outras pessoas que tem uma outra entendimento uma outra abordagem vão dizer não mas ele deveria ter feito diferente então façam eh eh
tá a história tá aí para isso eu acho que essa é essa é a beleza da história né um edifício que nunca acaba de ser construído cada um pode botar lá um Tijolinho novo e a arquitetura vai mudando Então mas o que que eu fiz eu fiz basicamente respeitando o estilo do 1808 do 1822 Claro tá alicerçado dentro da historiografia tradicional Sim claro eu não vou Reinventar essa roda do zero não tenho nem capacitação para isso mas procurei chamando atenção para outras coisas né da escravidão o movimento abolicionista as próprias digamos assim As fragilidades do
do Império Brasileiro do Imperador dizendo Olha tem aqui uma A Miragem um Brasil que fingia ser Imperial que europeu Branco Liberal uma monarquia parlamentarista mas a realidade nas ruas era de pobreza analfabetismo e concentração de riqueza e escravidão então assim eu acho que eu fui chamando atenção para alguns aspectos importantes mas sem ter a pretensão de derrubar totalmente uma historiografia Tradicional isso seria absurdo da minha parte né perfeito Laurentino numa entrevista de de 2015 paraa Revista História viva você diz né e e eu te cito o que eu faço é reportagem não é nemum manque
de curiosidades porque aí o livro seria irrelevante nem um livro acadêmico denso com um mergulho muito profundo é uma análise com elementos pitorescos coisas bem humoradas perfis de gente de carne e osso O que torna a história fascinante embora por motivos óbvios eu Deva contestar a ideia de que um almanac seja apenas um repositório relevante de curiosidades já que eu escrevi um almanaque né o almanaque do Brasil um almanaque do Brasil os tempos da Independência né ele pode ser um um uma uma narrativa muito rica né o que eu queria ressaltar é que você sempre
foi muito honesto em relação ao que você faz como escritor você nunca se apresentou eh como escritor que por um lado iria Contestar teses consagradas da historiografia como você acabou de dizer ou por outro que descobriu a pólvora que ia oferecer furos descobertas arquivísticas coisas inéditas então nessa transparência de propósito você foi criando e ampliando o seu público conta pra gente um pouco como eh tuas definições e mesmo os teus objetivos foram se transformando na medida da própria eh da tua experiência de escrita né e e um pouco da escutação do teu Público né se
você eh prestava atenção no que as pessoas diziam comentavam o público leitor né Então fala um pouco pra gente sobre isso olha Jú eu acho que você toca num ponto fundamental né que é a transparência de propósitos isso vale tanto para um Historiador quanto para um Jornalista os seus métodos as suas intenções eu fico muito preocupado com essa atitude arrogante de alguns profissionais tanto de um lado quanto do outro dizer olha eu tenho a verdade Absoluta e não me questionem no meu caso não eu sou um aprendiz o tempo todo eu aprendo eu eu eu
eu eu digamos assim eu escrevo e ensino eu acabei Claro você inevitavelmente quando escreve um livro você vira um professor enquanto eu aprendo e quando eu não sei determinadas coisas eu tenho a Total humildade de dizer eu não sei não sei anteontem eu tava participando de uma live e alguém perguntou onde era O pelorinho no Rio de Janeiro eu falei não sei não faço a menor ideia e não vou tentar responder o que eu não sei então assim isso é muito importante an né você ter transparência de propósitos e até porque eu acho que é
a melhor forma de você se defender das críticas Uhum eu confesso que no começo eu me assustei um pouco com a reação da academia em relação ao meu trabalho né e eu falei mas assim ouve né O que tá sendo dito ouvio que tá sendo dito que Pode ter contribuições importantes não é apenas uma corporativa cartorial tem gente que talvez queira contribuir com o seu trabalho e aí eu fiz isso eu passei a ouvir mais fiquei muito atento às críticas às vezes elas eram Sim apenas cartoriais corporativas de Defesa do território mas muitas vezes vieram
contribuições importantes que mudaram a minha maneira de ver a história do Brasil isso veio tanto de Especialistas de historiadores hoje eu sou amigo de grandes historiadores que me ajudaram ao longo do caminho mas também às vezes de leitores comuns que me fazem observações assim num bate-papo numa sessão de autógrafo e que faz todo sentido Então acho que assim talvez por exemplo se você ler o capítulo sobre escravidão no 1808 e depois vai ler escravidão na trilogia tem uma mudança bastante grande a respeito da abordagem até de Informações por exemplo no 1808 eu eu me arrisquei
lá em afirmar que eu acho que sim Acho que foi no 1808 que nos Estados Unidos as pessoas escravizadas eram mais alfabetizadas que no Brasil que por razões religiosas para ler a Bíblia e participar dos cultos hoje eu já percebi que não isso era uma coisa relativamente minoritária os os senhores de de de de de mão de obra cativa nos Estados Unidos lutavam contra a alfabetização e a escolarização das pessoas escravizadas Tanto quanto no Brasil então uma mudança de percepção né lorentino Eh eu eu quero retomar aqui uma uma uma tipologia que você fez eh
da recepção da tua obra entre os os acadêmicos você falou bom teve os que eh não gostaram e continuaram não gostando teve os que eh resistiram no começo e depois foram mudando de opinião e teve os que sempre me acompanharam né eu tô na segunda categoria mas eu acho que isso tanto tanto tanto a reação eh eh de de de Recusa né e ou de resistência eh se deve ao impacto da tua obra né a grandiosidade que e eh eh e foi assustador porque se foi uma coisa muito né Que que é isso né chegou
um cara e começou vender 4 milhões de livros sobre história então isso mexeu muito com o se dis espírito corporativo etc e tal e de lá para cá também nesses últimos 20 anos essa questão de busca de audiências maiores mostraram pros historiadores que eles têm também que descer um pouco do Pedestal e ver como é que essas pessoas se comunicam né Eh eh tem muitas críticas dentro da academia Ah porque o Leandro carnal porque o o Laurentino Gomes porque não sei o quê e eh bom Leandro carnal tem 5 milhões de pessoas que vem suas
cada Live dele né o Laurentino vendeu 5 milhões de exemplares então assim ó por que que eu vendi 1000 né então acho que assim a tem tem a gente tem que ver eh Se nós queremos atingir grandes públicos E se Nós achamos que a nossa verdade tem que ser falada né ou no o nosso conhecimento tem que ser compartilhado a gente tem que tem o que aprender com as com essas pessoas que se comunicam melhor né uma questão básica né mas vamos continuar ali eh eu vou puxar uma coisa que você falou aí da da
dessa mudança no processo de escrita na introdução de 1889 você diz né eu te cito uma sociedade que não estuda história não consegue entender a si própria porque desconhece suas raízes E as razões que trouxeram até aqui e depois adiante você conclui um estudo da história é hoje talvez até mais eh de que qualquer disciplina é uma ferramenta fundamental na construção do Brasil dos nossos sonhos em um ambiente de democracia fim de citação a gente pode pode dizer que o autor de 1889 de 1808 2289 e eh no caso né o autor de 1889 não
é mais o autor de 1808 né a mim me parece que os teus livros foram te reescrevendo né te editando na medida em Que você os escrevia E que esse olhar mais socialmente atento mais sensível embora presente de alguma maneira em 1808 ele foi se aguçando a ponto de te levar a escrever escravidão procede essa essa observação sim J eu diria que a gente pode eu acho que é a primeira vez que eu falo isso mas eh Talvez esse esse autor foi se distanciando do berço que o criou eu eu em 1808 eu tava mais
revista Veja do que Na trilogia escravidão e existe uma ideologia nas redações uma maneira de ver o Brasil uma maneira de ver o mundo que é compartilhada não só pelo seu patrão pelo seu editor mas pelos seus colegas é uma maneira de ver o mundo e de contar a realidade de interpretar os personagens os acontecimentos na hora que eu saio da redação e mergulho a sério no estudo de história do Brasil eu vejo que as coisas São um pouco mais complicadas e que nós temos passivos históricos que são que não vão ser resolvidos com políticas
neoliberais pura e simplesmente são coisas muito Profundas de que esse país precisa de uma revolução pode não ser uma Revolução castrista Cubana descendo da Sierra maestra porque isso não deu certo no Araguaia mas pode ser uma revolução pelo voto uma revolução de tomada de consciência de Mudança de patamar de cidadania e que a construção desta revolução dessa transformação que enfrente passivos históricos enormes que nos fazem um país injusto pobre quase sem futuro da maneira como ele foi construído até agora exige que se olhe que se olhem esses fenômenos construtores da história brasileira de uma forma
diferente então assim eu diria que eu fui caminhando mais pra esquerda Enquanto eu eu escrevia eu fui ficando um pouco mais um dia um um amigo meu viu uma entrevista que eu falei sobre escravidão falou você parece um negro falando defendendo a sua raça e tal uma coisa assim eu falei não eu Eu apenas estou reproduzindo as vozes que eu ouvi que eu entendi que falaram para mim enquanto eu pesquisava eu diria assim eu não sou mais o homem branco que olhava a Escravidão e o legado da escravidão da mesma maneira que eu via antes
de pesquisar esse assunto hoje eu tô muito mais de acordo com a ideia do genocídio negro no Brasil do que eu tava antes eu eu falo isso no no terceiro Volume de escravidão né eu tô eu diria que eu tô com uma visão muito mais de abidias do Nascimento e florestan Fernandes do que eu tinha antes aliás eu até procurava meio que rejeitar essas ideias como se fosse excessivamente de Esquerda é isso assim eu acho que tem uma aprendizado você aprende você se transforma como ser humano e como intelectual como escritor ao longo do caminho
quem não fizer isso é uma pessoa cristalizada calcificada que não consegue se trans e provavelmente também não vai transformar os seus leitores ninguém passa pelo estudo da história em col né se você tiver em busca de uma de uma História ufanista uma história gloriosa reproduzir os modelos do passado aí é quase que inútil né A História agora se você quiser realmente entender o que foi que aconteceu como é que isso afeta o presente e como vai afetar o futuro a história te transforma é Fantástico lorentino ano passado então entrando no no na segunda trilogia né
2022 eh você lançou o terceiro e último volume da trilogia escravidão saem as datas os personagens os acontecimentos e Entra como e eh foco central da narrativa uma estrutura né traumática Central Para se entender a história do Brasil até os dias de hoje lembrando os três volumes da dessa trilogia escravidão né o primeiro do primeiro leilão de cativos em Portugal até morte de zumbi de Palmares né 2019 o segundo da corrida do ouro em Minas Gerais até a chegada da corte de Dom João no Brasil 2021 e o terceiro da Independência do Brasil a lei
aura de 2022 então foram 6 anos de pesquisa muitas viagens né por três continentes para tratar desse tema persistente né em quase 1500 páginas né então aqui o escritor eh Laurentino teve que incorporar o historiador mas também o antropólogo o repórter né então a escravidão recua Até lá a antiguidade clássica europeia e e a chegada eh à África né antes da da da chegada dos portugueses eh o início do tráfico dos cativos paraa América né os números as Cifras do tráfico negreiro além da trajetória de alguns personagens né como o Infante Dom Henrique e um
um daqueles primeiros os grandes trafican eh traficantes afri eh de de Africanos pro pro Atlântico Então conta pra gente como é que surgiu o projeto de escrever sobre esse tema né Eh e quais os desafios as estratégias para superar tanto na pesquisa quanto na escrita um tema que você quando começou certamente sabia que que era de muita sensibilidade né Eh Social inclusive que ia ter muito Impacto né conta pra gente um pouco dessa dessa i sim jurand e isso é muito interessante porque eu acho que um escritor e um pesquisador um Historiador ele tem que
correr alguns riscos na vida né Você tem que sair da zona de conforto e correr alguns riscos eu eu fiz o 1808 2289 aí eu volto a um personagem que eu já citei que é o embaixador Alberto Da Cost Silva que é um grande africanista Brasileiro nosso maior africanista Talvez o maior né é quando eu contei o embaixador que eu ia que eu pensava fazer escravidão ele me desaconselhou ele falou Laurentino esse assunto é enorme é complicado é explosivo do ponto de vista político e você vai ter que ler 1000 livros no mínimo para começar
aí eu respondi para ele falei Embaixador eu não quero esgotar o assunto eu quero Tá assim a história da escravidão de uma forma bastante simples e fácil de entender por um leitor que nunca se interessou por esse assunto é isso que eu quero então eu calibrei minhas ambições mas sabia sim que eu tava entrando num terreno bastante perigoso desafiador e um terreno bastante minado porque hoje Ele tem visões muito diferentes né e ele é muito do ponto de vista de relacionamento entre grupos Humanos políticos no mundo todo no mundo todo não é só no Brasil
não nos Estados Unidos especialmente então o que que eu fiz eu me ancorei aonde é preciso ancorar eu fui pros para quem entendia do assunto luí Felipe Alencastro José João José assim eu Emília viotti da Costa os grandes historiadores do assunto nos Estados Unidos Josef E então eu Joseph Miller desculpe eh eu eu eu me ancorei em quem realmente tinha substância para me oferecer e procurei Ajuda também então assim já no primeiro volume de escravidão o livro já tava pronto quando a minha Editora falou você não vai tocar na questão semântica de escravo escravizado se
deve falar de mulato ou não eu da minha perspectiva branca de homem branco falei não isso é Irrelevante eu tô contando a história essa questão semântica as pessoas que brigam eu não vou entrar nisso ela falou não mas isso tem a ver com a percepção do seu trabalho você precisa entrar nisso E aí eu falei então então vou procurar entender e aí cheguei à óbvia conclusão que as palavras mudam o sentido das palavras mudam e ess esses vocábulos são construídos ao longo do tempo de acordo com determinados Interesses e que se Hoje existe uma parcela
da população afrodescendente que reclama do vocábulo escravo e defende escravizado eu preciso entender porquê é preciso entender e de fato tem razão o escravo é uma condição inata você nasce candidato aquilo escravizada é uma condição circunstancial a qual você foi forçada então eu escrevi isso na abertura do livro A Irene vida gala que é ex-embaixadora do Brasil engana que me Orientou nesse trabalho também ela me chamou atenção pros diferentes olhares né E ela falou olha Laurentino você é um homem branco escrevendo sobre um assunto fundamental da história negra que a escravidão você você está sujeito
a críticas Então procure se explicar melhor E aí eu vim com graças a ela eu vim com aquela ideia dos diferentes olhares né que existe o olhar branco que reproduz modelos geralmente do escravizador o olhar negro que é de quem Nunca teve oportunidade de contar sua a própria história e que eu me encaixava numa terceira categoria que era do olhar atento mas deixava os leitores para julgar se a minha intenção de propósito foi bem sucedido ou não você vê que são pequenos detalhes diante de 1500 páginas que podem parecer irrelevantes mas são muito importantes e
é importante você ficar atento a esses detalhes quando mexe com um assunto tão complicado tão sensível Quanto a escravidão sem dúvida Sem dúvida O o segundo volume de escravidão né Que Eu mencionei da corrida do ouro em Minas Gerais até a chegada da corte né ou seja o foco ali é o século XVII né século das luzes europeias da emergência do liberalismo se mi esmiúça ali o impacto da chegada de milhões de pessoas trazidas a força pra colônia portuguesa né partir de variados aspectos como a questão da família escrava as alforrias A escravidão Urbana eh
as festas das irmandades né as práticas religiosas mas também as fugas rebeliões movimentos de resistência né século XVI das grandes revoluções como americana francesa do Haiti mas tem pelo menos três capítulos ali em que as mulheres estão no foco né um sobre a família outro chamado justamente as mulheres né e e Chica eh na na terra dos Diamantes Como que essa temática né que E aí a a gente estaria falando de interseccionalidade né de Raça e e gênero como é que essas temática que aparentemente satélite se impôs nesse segundo volume da questão das mulheres da
presença da família e tal bem jurand isso tem a ver com a estrutura da obra né Eu dividi os os três volumes de uma forma cronológica mas o o primeiro volume ele se dedica mais digamos assim ao alicerce a paredes do tema escravidão como se fosse um edifício então eu falo eh da escravidão na antiguidade o que é o conceito O que É ser uma pessoa escravizada o como é que foi a chegada dos portugueses na África o que era África antes dos europeus a escravidão no Islã as bulas papais as encíclicas os sermões dos
padres jesuítas que deram a liccia à ideologia escrav vista do ponto de vista religioso e filosófico os números todos para não ter que repetir o tempo todo nos outros volumes Eu condense numa sequência de páginas do primeiro volume o segundo Volume embora ele se ele trate cronologicamente do século XVII eu quis falar sobre a construção da África brasileira no Brasil o que era ser um africano ou escravizado ou um que era um um um um um descendente de africano nascido no Brasil o segundo volume ele embora tenha um corte cronológico século XVI eu decidi falar
sobre a construção da África brasileira ou melhor a reconstrução da África Original na forma de muitas áfricas no Brasil isso é isso é uma coisa fascinante na escravidão né Há uma embora o pessoa escravizada tenha sido arrancada das suas raízes da sua língua da sua família do seu território perdido a liberdade o que o sociólogo Orlando Patterson chamou de morte social havia uma Ressurreição no Brasil o ele ele se porque era o ser humano não era mercadoria imóvel e Nativa então ele tinha que reconstruir a Sua identidade do outro lado do Atlântico E aí começa
a construção de muitas áfricas no Brasil então eu decidi separar isso em em visões assim micros então eu falei do do da da questão religiosa do sincretismo das religiões de Matriz afro eu falei da da da da família escravizada que é um ponto interessantíssimo Porque durante muito tempo se disse que não havia possibilidade de reprodução na cala e aí O Manolo Florentino especialmente mostrou que não que a família escravizada foi um dos pilares a possibilidade de construir constituir família foi um dos pilares inclusive de não só de sobrevivência mas de sustentação do regime escravista falei
das fugas dos quilombos e como é que era o trabalho trabalho num garimpo trabalho num numa lavoura E aí veio o papel da mulher que eu que é fascinante eu acho que assim primeiro Que eu diria assim foi o capítulo mais difícil do do segundo volume porque tem pouca bibliografia tem pouca bibliografia assim tem Claro que tem personagens Fabulosas no mundo feminino né como por exemplo a Chica da Silva tem documentos da Inquisição sobre Feiticeiras que foram levadas para julgamento em Lisboa e deram seu depoimento dos inquéritos mas eu diria assim Proporcionalmente dade de documentação
sobre o o papel feminino na história da escravidão é muito menor do que o papel masculino então é um grande desafio aí eu tive que fazer uma costura bastante delicada até para poder assim eu provávelmente gostaria de ter me aprofundado mais na questão das mulheres mas ao fazer um capítulo sobre esse assunto eu pelo menos acendi uma luz dizendo aqui tem um protagonismo que anda escondido na história da escravidão E na história do Brasil mesmo mesmo né perfeito o terceiro Volume cronologicamente né do da da da série escravidão corresponde ao período monárquico né e o
século XIX e traz junto a história da da expansão cafeeira as lutas internas e externas pela interrupção do tráfico Transatlântico A onipresença inglesa as elites traficantes a sociedade estamental dos Barões e dos fidalgos as modalidades né da escravidão Urbana A composição social dos escravizados né inclusive os reis e nobres né que que vieram para cá mas também os manuais de cativeiro as práticas punitivas isso até o abolicionismo e o a a contraofensiva reacionária antiabolicionista né claro que a discussão sobre o racismo atravessa o livro né muito visível eh no capítulo nono sobre a linguagem né
que é esse humo a linguagem aonde Brota o racismo nosso de cada dia para quem te acompanha é visível como essa obra Também te reescreveu profundamente Então as questões colocadas nesse livro dialogam tão abertamente com os impasses do Brasil atual n como é que tá sendo a recepção eh do escravidão especialmente do terceiro Volume né e depois dessa experiência que outras histórias você acha necessário eh eh serem contadas né ou que você ainda sente necessidade pessoal de contar e bem jurandí eu acho que da mesma forma como nós falamos H pouco de um Amadurecimento do
autor ao longo do trabalho de construção da primeira e da segunda trilogia isso acontece também dentro da própria eh trilogia escravidão até reagindo às ao ao ao retorno que eu recebi de diferentes pessoas depois de publicar os primeiro o segundo livro então agora o terceiro Volume eu diria que ele é mais militante vamos dizer assim em relação às causas atuais porque Ele também tem ele faz uma ponte Direta com o Brasil de hoje né é direto assim porque o que que a gente que que se observa no terceiro Volume um Brasil viciado em escravidão que
resiste a tudo e a todos para manter o regime de cativeiro Foi humilhado pela Inglaterra que bombardeou forte lá na Ilha do Mel em 1850 e foi só so a pressão assim da Marinha britânica que decidiram fazer a Lei de Queiros o Brasil resistiu até onde pode acabar com a escravidão foi o último a acabar com com com fazer Abolição em 1888 Então essa resistência obstinada da aristocracia rural mas também Mercantil brasileira acabar com a escravidão e o nascimento do abolicionismo E aí vem essa história Fabulosa que é existe uma segunda Abolição que ficou travada
no tempo abortada né todos os grandes abolicionistas diziam que não para não Bastava parar de comprar endente era preciso também incorporar os ex escravos e os seus descendentes da sociedade brasileira como cidadãos fazendo reforma agrária distribuindo riquezas educando dando isso o Brasil não fez e aí é que se estabelece a ponte direta porque eu diria assim basicamente os problemas do Brasil no Século 21 São consequência direta da da segunda Abolição que nunca foi Feita eu precisava deixar isso claro então por isso que eu acho que o livro ele ele trabalha muito com essa ideia de
uma obra inconclusa né de um Brasil que não só resistiu acabar com a escravidão até o limite do possível mas no fundo perpetuou a escravidão e de forma de desigualdade social formas de trabalho mal remuneradas abusivas que nós vemos até hoje e essa é a nossa realidade além do preconceito além do do do do racismo que tá presente na nossa história em Relação ao futuro eu assim tem muita coisa que eu eu quero trabalhar quero continuar estudando e e escrevendo sobre história do Brasil eu ainda não sei o que eu vou fazer até porque eu
acho que é preciso resistir muito a tentação de sair correndo para para surfar na onda do Sucesso e publicar uma outra obra eu publiquei seis livros de história do Brasil nos últimos 16 anos eu acho muita coisa muita coisa assim eh chega num Limite do do temerário né então o que que eu tô fazendo agora eu tô lendo lendo muito e observando Pode ser que eu não faça mais nada pode ser que eu faça alguma coisa interessante existem histórias que me Encantam eu vou até te dar um exemplo de uma história do nosso estado que
ali no município de Castro tem a famosa história do da Fazenda Capão alto que é o que era do do de um de uma ordem religiosa dos Carmelitas eles tinham um plantel enorme De escravos depois abandonaram a fazenda que se tornou improdutiva durante 100 anos essas famílias se se procriaram assumiram a fazenda se tornaram devotas de Nossa Senhora do Carmo E aí numa determinada altura os Carmelitas em crise foram lá e Venderam a fazenda com todos os seus habitantes escravizados e a polícia foi lá pegou todo mundo e levou para trabalhar no Café em São
Paulo eu acho essa história Fabulosa até porque ela é uma ela tem um eixo né que Fala da Igreja da escravidão Então é por exemplo tô te dando um exemplo de um assunto que talvez merecesse um livro né no futuro pode ser interessante é tanto Fabulosa quando é cabulosa né Eh lorentino e o a conversa tá muito boa eu queria puxar só agora eh talvez se se essa experiência descrita da escravidão né e o terceiro Volume que dialoga muito com presente você não sentiu um iato Eh existência de trabalhar o pós-abolição né porque no pós-abolição
é que a questão eh eh do preconceito Da perseguição policial e ganha forma né o estado repressor eh começa ali como disse a Emília viotte da Costa que você citou né Eh os brancos se emanciparam dos negros afinal de contas e e abandonaram eles a própria sorte então a questão da exclusão é a partir do fim da escravidão né A questão da Margin anização e tal é uma história Também eh que que mereceria talvez ser contada pro pro público não especializado de é da academia se tem estudos maravilhosos né trabalho da EB da Marta um
monte de gente né é muito pulsante essa essa esse campo da do pós do pós-abolição na historiografia mas não tem chegado tanto eh ao público leitor ao público e eh leigo né que que você acha da ideia sim algumas pessoas já já até sugeriram isso de fazer o pós-abolição então claro que é um voo Muito longo né No fundo no fundo é você analisar a história do Brasil desde então e chegar até aos dias de hoje porque esse assunto tá presente na nossa história hoje né eu diria assim não é apenas o trabalho análogo a
escravidão que persiste hoje na na no Brasil são as nossas relações sociais políticas econômicas a escravidão tá presente na realidade brasileira mas é assim Claro merece esse assunto evidente eu teria que estudar muito muito mais do que eu Estudei eh como por exemplo eu acho que teria ó um livro que eu que eu já pensei em fazer por exemplo é sobre a bolha assassina e é basicamente o seguinte como é que a elite brasileira consegue se reciclar e deglutir revoluções e se adaptar a elas e se perpetuar fez isso na independência na república na Revolução
de 30 e 64 e tá hoje lá na hora que você vê o centrão travando o governo Lula é basicamente a mesma Bolha Assassina as oligarquias rurais aham Regionais e se apropriam do estado e impedem revoluções genuínas na história do Brasil tá em um outro livro interessante uma outra coisa curiosa agora imagina o tamanho desse estudo imagina do escopo né sim sim sim sim sem dúvida é é fundamental pra gente finalizar Laurentino eh falando pro nosso nosso público né de de não especialistas de estudantes pessoas que gostam de história conta pra Gente um pouquinho e
e acho que é importante isso não é não é é uma coisa como é que é a tua rotina de trabalho né como é que é o negócio da pesquisa se você tem um horário como é que você faz o seus arquivos pessoais os fichamentos o planejamento né a dinâmica de construção de textos os paratextos né e e e um pouquinho sobre e a tua interação com o teu público você é muito ativo nas redes sociais né Então fala pra gente essa parte mais prática que é a prática A parte mais eh eh solitária né
do do do escritor né Essa coisa do do da de de de do da rotina do dia a dia bem rede social confesso que eu tô meio desencantado já me encheu as paciências rede social eu tô pensando é mesmo é sair fora sabe eu acho que esse negócio é mais de desinforma do que informa mas durante muito tempo eu fui bastante ativo em rede social até para atrair novos leitores a minha rotina deem primeiro assim a maneira de Pesquisa quando eu escolho um assunto eu procuro identificar a bibliografia mais essencial mais básica sobre esse tema
em 1808 eu citei o seu livro poro exílio e o Oliveira Lima eh escravidão assim inevitável luí Felipe de Alé Castro João José Reis Manolo Florentino e vai por aí então assim eu eu identifico aquela bibliografia digamos assim a espinha Dorsal de um assunto e ela me conduz a uma outra bibliografia então É como se você fosse enrolando o novelo de lã você parte da substância mais profunda e vai a outra bibliografia e eu releio tudo isso e ao fazer isso eu tenho Novas interpretações Novas abordagens no 180 1822 por exemplo era inevitável fazer uma
uma um perfil do José Bonifácio de and de Silva eu poderia fazer da forma tradicional Ele nasceu em Santosa de uma família política importante foi professor em Coimbra minerologista e tal Patriarca da Independência mas ao reler a bibliografia do José Bonifácio num determinado momento eu topei com a seguinte informação que em 1818 já um minerologista famoso aclamado professor tinha lutado nas guerras napoleônicas em Portugal tinha visto a Revolução Francesa de perto em Paris ele Começou a pedir insist autoriza voltar Brasil morr em paz a lado dos seus familiares Santos esse homem mal podia imaginar que
o grande papel que a história reserv ainda estava por acontecer que era de Patriarca da Independência eu deci abrir o capítulo dele com isso então eu t Dando um exemplo de como você às vezes percorreu uma bibliografia que já foi per por outos historiadores uma uma Um personagem um acontecimento eu fico muito atento a essas coisas pitorescas surpreendentes como essa essa essa informação a respeito do José Bonifácio o perfil dele tá lá mas como é que eu amarro o leitor nesse perfil Então eu fico atento a coisas que são realmente muito reveladoras muito surpreendentes muito
interessantes então eu abro o segundo volume de Escravidão descrevendo uma balança de pesar pessoas escravizadas que eu encontrei no Museu de Artes e hospícios de Bela Horizonte é um detalhezinho mas você descrever este objeto é muito simbólico é muito poderoso Então você tem que é como se fosse uma Âncora você tem que ancorar a minha rotina de trabalho eu eu assim eu não forço muita coisa não eu eu não gosto de assim tem dias que eu eu acordo e não sai nada eu não eu tento escrever não sai e tal o Que que eu faço
eu vou andar vou andar com o cachorro vou fazer qualquer coisa eu levo um um gravadorzinho em que eu andar ajuda muito vem muitas ideias eu gravo para mim mesmo chego depois em casa transcrevo no computador eh e tem dias que ao contrário eu acordo e flui muito bem a escrita Então eu fico muito atento ao meu estado de ân Uhum eu sou mais diurno do que Noturno à noite me dá sono eu não consigo ler não consigo pensar direito então eu trabalho Mais de manhã no máximo à tarde não trabalho muitas horas não me
forço é sempre 2 3 horas 4 horas no máximo por dia e vou fazendo anotações então eu vou lendo um livro Os meus livros são todos rabiscados assim é um é um assassinato que eu cometo contra os meus livros vai destruindo os livros tudo tá rabiscado às vezes com caneta faço anotações do lado eu ponho assim Isto daqui merece uma abertura de Capítulo ler o outro capítulo do livro Tal eu vou deixando pistas para mim mesmo depois de ler tudo aí eu transcrevo pro computador eu não faço isso enquanto eu tô lendo eu primeiro leio
anoto Depois eu pego transcr isso pro computador vira uma maçaroca uma coisa gigantesca e por fim aí tem um trabalho de edição mesmo que é planejar os capítulos quantas linhas Quantos caracteres cada capítulo qual vai ser a sequência tem capítulos que deixam Desistir em relação ao planejamento inicial tem capítulo que vira dois eh capítulo que estaria no fim do livro vai pro começo e vice-versa e assim por diante entendeu É é um trabalho de Engenharia assim mas que tem muito a ver com a minha experiência como repórter e como editor em redação é uma coisa
meio eu diria assim não tem uma fórmula faça assim assim assim assim vai muito de sensibilidade de eu eu vou te dar um exemplo mais um exemplo no primeiro Volume de escravidão eu ia começar de forma cronológica eu ia falar do leilão de de de de africanos que houve em Lagos no Algarve no dia 8 de agosto de de 1444 em frente ao príncipe Dom Henrique uma maneira de começar o em 1444 aí no depois eu me dei conta que eu tinha que dar um choque no leitor eu não podia começar com uma curiosidade eu
tinha que dar um um susto no leitor então eu trago paraa abertura um capítulo que tava lá na frente que fala Da mortalidade dos tubarões que seguiam os navios Negreiros a era de cadáveres que seriam lançados todos os dias 14 cadáveres em médias lançados todos os dias ao Mar ao longo de 350 anos é um susto que eu dou no leitor aí depois vem o capítulo leilão Então é assim mas isso acontece ao longo da escrita muito atento o qual qual é a sequência ideal né perfeito Laurentino eh a gente explorou algumas facetas do do
escritor de história né de não Ficção eu te agradeço imenso por compartilhar com a gente esse esse conhecimento essa bagagem toda né que você tem na escrita da história eu acho que era uma conversa que tava adiada precisava ser feita e e eu gostei muito do resultado te passo a palavra paraas suas despedidas Muito obrigado meu amigo Eu que agradeço primeiro acho que hoje é seu aniversário não é hoje é meu aniversário hoje é 5.9 Que você seja muito feliz olha eu queria agradecer J você tem sido uma pessoa muito generosa comigo eu sei que
você foi um convertido a minha causa te admiro muito por isso muito assim mostra a sua honestidade intelectual e e a sua o seu acolhimento né em relação a pessoas que estão aprendendo e e tentando seguir pouco da sua Vereda então eu sou muito grato a você e queria agradecer também acho que foi uma boa conversa Rápida mas realmente muito útil né Espero que contribua para quem também que queira seguir ess esse nosso caminho Muito obrigado Laurentino grande abraço [Música]