Olá, meus amigos! Tudo bem? Professor Fábio Blanco por aqui.
Em outro vídeo, nós falamos sobre a conclusão dos céticos sobre a realidade: que nós não podemos saber exatamente o que a realidade é porque tudo que nós sabemos dela vem pelos nossos sentidos, e os nossos sentidos nos enganam. Então, assim, se os nossos sentidos nos enganam, se muitas vezes aquilo que nossos sentidos nos informam não é a verdade, como nós podemos saber que a realidade que nós estamos observando é verdade ou não? Então, eles concluem, principalmente no ceticismo pirrônico, que a realidade não pode ser conhecida.
A realidade é incognoscível. Essa ideia de que a realidade é, defendemos, que a realidade pode ser conhecida sim, só que isso não significa que nós não podemos concordar com a observação dos céticos. Então, entendam o que eu estou falando: os céticos vão dizer que os nossos sentidos nos enganam constantemente.
E aí eu digo para vocês: isso é verdade, os sentidos costumam nos enganar. Veja, por exemplo, no caso das linhas paralelas. As linhas paralelas, se você desenhá-las até uma distância bem longa lá no horizonte, nós vamos ter a sensação de que essas linhas estão se tocando.
Ou seja, os nossos sentidos estão nos informando que elas estão se tocando. Eu estou olhando e falo: "Poxa, elas estão se tocando! " Eu sei que elas não estão se tocando, mas veja, o saber que elas não estão se tocando é algo do intelecto, enquanto os meus sentidos estão dizendo que elas estão se tocando.
A mesma coisa acontece quando a gente coloca um pedaço de madeira na água. Quando nós olhamos assim, parece que a madeira está quebrada. A gente sabe que não está quebrada intelectualmente, mas as sensações estão dizendo que a madeira está quebrada.
Então, veja bem: os céticos vão falar "Viu? Olha, os nossos sentidos nos enganam! " E se os nossos sentidos nos enganam, como é que nós podemos confiar neles?
E se nós não podemos confiar neles, como dizer o que a realidade é? E aí é que está a questão cética e o problema cético. O ceticismo observou bem as coisas e acertou ao não confiar absolutamente nos sentidos.
Só que o cético errou ao desconfiar absolutamente dos sentidos. Não confiar nos sentidos é totalmente correto; nós não devemos confiar porque sabemos que eles podem nos enganar. Mas daí chegar à conclusão de que nós não podemos confiar nunca e que devemos ter uma desconfiança absoluta em relação aos sentidos, aí já é um outro problema.
Eu sempre digo o seguinte: nós podemos concordar com o ceticismo quando eles dizem que os sentidos são enganosos, certo? Só que nós não podemos concordar com o ceticismo que, por causa disso, eu não devo mais confiar em nada em relação aos sentidos. Por quê?
Porque, apesar de eles serem enganosos, quase tudo que chega ao nosso conhecimento vem por meio dos sentidos. Bom, se vem quase tudo por meio dos sentidos, seria um absurdo que tudo isso que eu percebo por meio dos meus sentidos fosse absolutamente enganoso. Estaria vivendo numa completa fantasia, seria uma grande Matrix, um grande erro.
Eu não poderia confiar em nada. Só que, ainda que os meus sentidos falhem, falseiem ou me enganem, ou tentem me enganar, eu não posso simplesmente ignorá-los. Por quê?
Porque se eu tirasse os sentidos, o que sobraria? Se todo o meu conhecimento vem pelos sentidos, se eu tiro os sentidos—teoricamente, hipoteticamente—se eu tirasse os sentidos e não tivesse mais sentidos, ia sobrar apenas a minha penumbra interior, um grande escuro, porque nem imagens eu teria dentro desse escuro, porque eu não teria nem as experiências trazidas pelos sentidos. Então, assim, os nossos sentidos podem não ser fidedignos, e nós concordamos com isso.
Só que, apesar de eles não serem fidedignos, algo do que eles trazem da realidade para nós tem de ser verdadeira, e é verdadeira. Por exemplo, vou voltar aos exemplos que eu dei no começo: as duas linhas paralelas parecem se tocar no horizonte. Nossa percepção vê isso: "Olha, elas estão se tocando no horizonte!
" Tá errado, tá errado, elas não estão se tocando. Só que, ainda assim, que ela tenha me trazido essa informação errada, ela me trouxe a informação sobre as linhas paralelas; ou seja, ela está me mostrando as linhas paralelas. Ela está me mostrando um horizonte.
Então, veja bem, tem informação aqui, tem realidade aqui. A informação está correta. Realmente, são duas linhas paralelas, realmente tem um horizonte.
Não, isso está fora da percepção do sentido? Não, isso também está dentro do sentido. Então, aqui, poxa vida, ela tá me enganando com um ponto, mas não enganando quanto a tudo.
A mesma coisa com a madeira mergulhada na água: ela dá a sensação de que a madeira tá quebrada. Tudo bem, tá errada essa percepção, mas existe uma madeira, existe um pedaço de madeira na minha mão, existe a água. Isso está certo.
Realmente, a madeira e a água estão lá. Então, assim, essa questão de você simplesmente falar que "ah, não dá para confiar em nada" é errado. Porque, em meio a tudo aquilo que os sentidos me trazem, não dá para confiar absolutamente.
Não é porque o sentido me traz algo errado que também não quer dizer que tá tudo errado. Existem informações verdadeiras em meio às informações equivocadas. Então, o que eu quero dizer é que nós podemos até não confiar absolutamente nos sentidos, mas nós não podemos descartá-los completamente como fonte e como indício de conhecimento.
É nisso que a gente se afasta do ceticismo. A gente não vai concluir como o ceticismo. O ceticismo vai concluir: "Olha, não confio nos sentidos absolutamente, então eu concluo que eu não posso confiar em nada.
" A gente fala: "Não, eu não confio no ceticismo, mas eu. . .
". Tenho outros recursos que podem me ajudar a consertar aquilo que os sentidos me oferecem de errado. Então, na verdade, se a gente for pensar bem, aqueles que escolhem a alternativa cética, no fundo, deveriam se calar, porque eles não poderiam nem falar sobre nada.
Eles não poderiam nem falar: "Olha, veja, o galho dentro da água parece que está quebrado". Não poderiam nem falar isso, porque não poderiam nem confiar que existe um galho, nem confiar que existe uma água, né? Já que não é para confiar em nada.
Mas ele confia em alguma coisa para fazer o exercício do pensamento dele. Então veja, o cético não consegue ir tão longe; um ceticismo absoluto acaba numa completa escuridão e numa completa mentira, e acaba num completo silêncio. Eu não poderia falar sobre mais nada.
Por isso que nós negamos a conclusão cética de que a realidade é, [Música] não serem confiáveis. Nós sabemos que eles trazem algo da realidade para nós. Nós não confiamos absolutamente no sentido, mas também não desconfiamos absolutamente.
Na verdade, nós não somos nem céticos nem crédulos; nós apenas somos pessoas que estão observando a realidade e entendem que esse processo do conhecimento é um processo complexo, que depende dos sentidos, mas também depende da inteligência. E esse é um outro assunto que eu vou trazer para vocês, pois o que a inteligência faz é corrigir os sentidos. Então, quando nossos sentidos nos enganam, nós acessamos a inteligência para que corrija isso.
Então, temos as linhas paralelas; nós sabemos que as linhas paralelas não se tocam de fato no horizonte. Mas isso nós sabemos, e isso nós sabemos por meio da nossa inteligência. Tá bom, gente?
Entendido isso aí? Então, por hoje é isso e até a próxima!