em um universo onde a humanidade provavelmente previu uma grande catástrofe foi embora deixando animais selvagens e domésticos abandonados para trás um gato uma capivara um lêmure um cachorro e uma ave Branca tentam sobreviver em um barco à vela eu vou analisar cada detalhe dessa animação mas antes eu preciso me apresentar eu sou o psicólogo Ricardo Chagas Nascimento e por aqui eu faço análises psicológicas de filmes séries e também sobre a vida Lembrando que essa análise contém spoilers fazer a leitura do universo Onde se passa a história de Flow é um exercício especulativo interessante um detalhe
curioso são as estátuas de gato uma pista de que os humanos que ali viviam tinham uma adoração por esses animais que de fato são fantásticos o gato protagonista parece um dos únicos de sua espécie que ficou para trás e ele se refugia na casa de um humano que era apaixonado pela sua espécie A Grande estátua que o gato escala antes de encontrar o barco é enorme um indicativo de que o dono da casa não era o único gateiro por aquelas bandas aliás é curioso como essa palavra traz uma certa seletividade não é mesmo Alguém já
deve ter te perguntado Você é gateiro ou cachorreiro responder essa pergunta implica em um raciocínio complexo que revira as prof fund dezas da nossa íntima personalidade até ontem estava inclinado a dizer que prefiro cachorros Afinal eu tenho cachorro mas após assistir ao filme automatizei Uma Nova resposta pergunta gosto de ambos e também de tudo que respira Nós seres humanos amamos a seletividade grupos seletos são formados por pessoas que se consideram seletas ou seja sentem-se especiais por enxergar a si em um semelhante ainda mais semelhante eu nem tô falando só de coisas óbvias e terríveis Como
o racismo ou a xenofobia intelectuais se fecham em bolhas herméticas tutores de pitbull se encontram em centros de Treinamento canino enquanto os de Lulu da pomerânea se encontram em concursos de beleza ambos locais diferem das feirinhas de adoção ponto de encontro entre muitos que zelam pelo bem-estar dos animais domésticos abandonados apenas Afinal a palavra doméstica é outra maneira de seg ent ar ainda mais além dos animais domésticos existem outros tipos como os de corte os selvagens também tem os frutos do mar que por destoar da verossimilhança mamífera nem o título de animal recebem Considere a
lagosta escreveu o falecido escritor David Foster Wallace em um ensaio que discute este mesmo assunto da seletividade especista quem somos de fato como aceitar e acolher o novo se ele nada contra tudo aquilo que aprendemos a enxergar como vida Flow responde a esta pergunta com sutileza ainda no início do longa o protagonista se depara com um cão labrador cujo instinto Inicial é de curiosidade em relação à espécie diferente no entanto os outros cães do grupo começam a latir e o labrador abandona imediatamente a curiosidade instintiva e se torna agressivo imitando os demais em um comportamento
de manada no final do filme Uma situação parecida com acontece mas dessa vez o labrador não segue o grupo concentrando-se no esforço de resgatar sua amiga uma simpática capivara o lemor obsecado por bens materiais e fascinado pela própria imagem quase um Narciso do reino animal inicialmente dá mais valor aos objetos do que aos companheiros de viagem seu arco de Redenção consiste em abandonar os iguais outros Lores egoístas para mostrar o caminho ao gato ambos se unem para resgatar os amigos os presos no barco todos de outra espécie o arco da ave Branca implica em uma
mensagem semelhante mas ainda mais profunda inicialmente a ave simula uma situação acidental para salvar o gato da brava correnteza largando casualmente sobre o barco posteriormente a ave precisa se posicionar diante da situação de injustiça sendo mutilada e excluída do bando esse arco se relaciona à teoria da espiral do Silêncio proposta pela cientista política alemã Elizabeth Noel Newman segundo a autora indivíduos tendem a suprimir suas opiniões quando percebem que estas divergem da maioria devido ao medo do isolamento social esse comportamento resulta em um ciclo no qual as opiniões majoritárias se fortalecem enquanto as minoritárias se tornam
cada vez menos expressas criando uma espiral de silêncio ao simular o resgate do gato a ave age conforme o comportamento por seu grupo mantendo-se em silêncio diante de possíveis discordâncias contudo ao adotar uma postura mais interventiva e romper com a opinião dominante ela é rechaçada apesar do ato de sacrifício a ave se isola no novo grupo evidenciando o medo do isolamento social que permeia a espiral do Silêncio mas agora eu quero discutir meu personagem favorito do filme O protagonista engana-se quem acha que seu arco se Rela apenas com a superação da fobia da água a
jornada do gato discute a fragilidade cíclica de vida e morte Mas vamos por partes a cena mais interpretativa do longa certamente é do desaparecimento da ave Branca aliás escreva nos comentários o que você interpretou da cena particularmente interpretei como o momento em que o gato compreende a morte não como uma experiência natural mas transcendental esse momento inclusive se conecta com o final do filme e da compaixão do gato pela baleia Alienígena mas antes de discutir o final preciso voltar ao início o gato não pertena a nenhum grupo visto a ausência de semelhantes na região ele
já é um gato animal considerado individualista por natureza no entanto Acredito que esta ausência de iguais tenha transformado seu senso de pertencimento em uma relíquia tão abandonada quanto as estátuas do jardim de sua casa segundo antes da inundação ele assiste ao bando de cães correr e depois a manada de cervos é na coletividade que a sobrevivência se torna não apenas suportável mas possível mas será que os coletivos segmentados são de fato coletivos ou seriam apenas extensões ampliadas do mesmo individualismo onde a semelhança opera como critério de aceitação e qualquer desvio resulta em exclusão os servos
e cães correm em coletivo e a vulnerabilidade individual se solve na força do grupo a verdadeira coletividade não seria aquela capaz de abrigar as diferenças entre espécies e não apenas proteger os iguais é isso que o gato parece começar a compreender e o que Flow com sutileza nos convida a refletir mesmo sem pertencer a nenhum coletivo de semelhantes o gato arrisca a vida para salvar os cães e a capivara o filme poderia terminar aí que ainda assim seria excelente mas é o encontro com a baleia que torna Flow uma uma obra Sublime diante da baleia
agonizando o gato não encontra apenas um ser à beira da morte mas o diferente em sua forma mais pura o outro que não pertence não se parece não Mia não late ou foge em manada mas que ainda assim respira e sente o silêncio do gato diante da fragilidade do inevitável cela sua mais profunda transformação a vida cíclica e delicada já não é mais sobre iguais protegendo iguais mas sobre a coragem de agir com compaixão diante da barreira outrora incompreensível das Diferenças se você assistiu a Flow e não entendeu por exatamente ele te tocou Tente se
atentar ao seguinte se não mudarmos a maneira como tratamos o outro como poderemos encarar nossos reflexos Sobre as Águas da existência o espelho formado pela poça d'água que o gato e os outros animais encaram não reflete semelhança Mas coexistência ou seja o que importa diante da Correnteza do tempo é se teremos a coragem para mudar qualquer hábito que oprima o ser sciente seja este da espécie humana ou não