Boa noite, Dom. Meu nome é Samuel. Não faço questão de esconder isso porque a situação que vivi foi tão marcante que sinto que preciso falar, nem que seja para tirar um peso das minhas costas. Vou te contar tudo como aconteceu, sem floreios nem cerimônias. Prefiro que cada um tire suas próprias conclusões, porque eu mesmo não sei explicar metade do que vi e ouvi. Às vezes acho que exagerei em algumas percepções, mas Também desconfio que houve algo além do que meus olhos puderam captar, algo que ainda me arrepia só de lembrar. Antes de tudo, quero deixar
claro que essa história aconteceu há alguns anos, provavelmente uns três ou quatro, mas eu perdi a noção exata do tempo. Eu estava passando por uma fase complicada na minha vida. Tinha me mudado para um lugar mais tranquilo, porque as coisas na minha família estavam difíceis. Desemprego, dívidas, brigas Constantes. Fui obrigado a procurar qualquer vaga disponível. Sempre trabalhei com serviços gerais, zelador, manutenção, essas coisas. E por sorte ou azar, me indicaram uma vaga para cuidar de uma propriedade rural grande e meio afastada. Disseram que era um lugar isolado, quase sem vizinhos, mas que o pagamento compensava
a solidão. Naquela época, eu não me importava com a localização, precisava do dinheiro e ponto final. Então, aceitei o trabalho Sem pensar duas vezes. O combinado era: "Eu moraria nessa propriedade, cuidaria da manutenção diária, auxiliaria o dono em tudo que fosse preciso e de vez em quando ajudaria na criação de animais que viviam por lá. O salário seria bom o bastante para eu me reerguer. Isso era tudo o que eu precisava ouvir. Foi num final de tarde de uma terça-feira que cheguei lá pela primeira vez. Peguei um ônibus que me deixou na estrada principal e
depois segui de Carona com um entregador que me largou perto de uma cerca velha. Ainda me lembro de ter colocado a mochila nas costas, respirado fundo e pensado que dali em diante eu teria que me virar por conta própria. O terreno era enorme, com vegetação densa e um caminho de terra abatida que serpenteava até a casa principal. Parecia uma fazenda, mas não era exatamente isso. Tinha algumas construções espalhadas, uma espécie de galpão ao fundo e um curral, mas não vi Grandes plantações ou algo que parecesse justificar o tamanho do lugar. Assim que comecei a andar
pelo caminho, notei um silêncio estranho, como se o vento não passasse por ali. Na minha frente, a casa principal se erguia. Era uma construção antiga de madeira e alvenaria misturadas com janelas pequenas e telhas de barro escurecidas pelo tempo. Ali não parecia ter ninguém. Fui até a porta, bati algumas vezes, esperei nada. De repente, escutei passos na lateral. Apareceu uma senhora com os cabelos presos num coque, o rosto cheio de marcas de expressão e um olhar desconfiado. Você deve ser o moço novo que veio trabalhar, não é? A senti com a cabeça meio sem graça.
Ela me examinou de cima a baixo e abriu um leve sorriso de canto de boca, como se estivesse aliviada por ver que eu não parecia oferecer risco. "Meu nome é Marta, o seu?", Samuel respondi estendendo a mão. Prazer em conhecer. Ela limpou as mãos No avental que vestia e me cumprimentou com cordialidade. Marta era, pelo que percebi na hora, uma funcionária antiga. Tinha aquele jeito de quem sabe tudo que acontece ali dentro, mas fala pouco. O seu Ernesto está no fundo dando uma olhada nas criações. Vou te levar até lá. E foi assim que entrei
oficialmente naquela casa. Tinha um cheiro característico de madeira velha e os corredores eram meio estreitos. Passamos Rapidamente por uma sala de estar empoeirada e por um corredor longo que levava aos fundos. Lá fora, o terreno se abria num descampado. Havia um estábulo improvisado com algumas cabras e galinhas soltas e até vi um ou outro boi, mas não cheguei perto. Marta me guiou até encontramos um homem de uns 50 e poucos anos. Aparência meio rígida, mas não agressiva. Vestia uma camisa de manga longa e calças de bringastas. Estava ajeitando o bebedouro dos animais com uma mangueira.
Seu Ernesto, chegou o moço novo", anunciou Marta apontando para mim. Ele largou a mangueira, se aproximou e me examinou da mesma forma que Marta havia feito antes. "Samuel, certo? Falaram bem de você. Espero que não tenha medo de trabalho pesado." Concordei quase envergonhado e a conversa foi breve. Ele explicou de modo direto o que esperava de mim. Tarefas simples de manutenção, cuidado com os Animais, vigilância do local durante a noite. Eu poderia ficar num quartinho nos fundos perto da cozinha e teria minha comida e estadia incluídas. O salário seria pago todo mês sem atraso. Aquilo
bastava. Eu não era de reclamar. Nem tudo era tão simples, no entanto, percebi que havia algumas regras estranhas. Ele me avisou que depois das 21 horas eu não deveria ficar circulando pelo terreno, a não ser que fosse algo de muita urgência. também disse que Determinados locais da casa principal estavam sempre fechados e que não cabia a mim questionar o motivo. Só pediu que eu respeitasse essas limitações, como ele mesmo definiu. "É mais seguro para você ficar no seu quarto à noite", repetiu algumas vezes, como se fosse um aviso que não podia ser ignorado. Na hora
achei curioso, mas não quis parecer intrometido. Concordei em seguir as instruções. Afinal, precisava mesmo daquele emprego. Marta me ajudou a Levar minhas poucas coisas pro quartinho. Assim que me instalei, ela me ofereceu um café simples com um pão velho que ela esquentou no fogão. Eu agradeci. Tinha fome e estava cansado da viagem. Enquanto eu comia, notei que ela me olhava de canto de olho, como se quisesse dizer algo, mas não soubesse como começar. Após uns segundos, finalmente quebrou o silêncio. Você deve ficar atento aos horários que o seu Ernesto comentou. E se escutar algum Barulho
estranho à noite, não saia para conferir o que é. Deixa para lá. Mas e se for alguém mexendo com os animais? Questionei surpreso com aquela orientação. Ela mordeu o lábio, parecendo medir as palavras. A gente sempre dá um jeito. Eu olho pelas janelas ou ele verifica pelos fundos. Se for algo sério, é o seu Ernesto que resolve. Eu não insisti. Marta deixou claro que não estava confortável em se aprofundar. Percebi Algo parecido com medo. Mas medo de quê? Fiquei me perguntando, porém não dava para tirar conclusões já no primeiro dia. Aceitei a rotina e no
início foi tudo normal. Acordava cedo, limpava o quintal. dava comida pros animais, ajudava a arrumar algumas telhas soltas no galpão, trocava lâmpadas queimadas. Pouco via o seu Ernesto, pois ele vivia de um lado pro outro, saindo em viagens curtas. Quem me dava instruções era a Marta e aos poucos fui me acostumando Com o ritmo da casa. Havia uma construção antiga ao lado do estábulo. Parecia ser uma pequena capela ou algo assim, mas vivia trancada e ninguém tocava naquele assunto. Quando perguntei o que era aquilo, Marta só respondeu: "Um lugar que não usamos mais. A resposta
seca me deixou ainda mais curioso. Tentei dar uma espiada pela janela empoeirada, mas só vi um altar velho com algumas velas apagadas, bancos cobertos de poeira e nada mais. Decidi não cutucar o assunto, pois já sentia que qualquer pergunta a mais deixava as pessoas tensas. Depois de umas duas semanas morando lá, fui percebendo que não éramos só nós três. Havia uma senhora de idade chamada Almerinda, que passava boa parte do dia trancada num quarto dentro da casa principal. Pelas poucas vezes que a vi, notei que falava coisas desconexas, como se vivesse num estado mental confuso.
Ela andava pelos cantos, murmurando Frases que eu não conseguia entender. Em algumas ocasiões, eu a ouvia repetir nomes e frases sem muito sentido, algo sobre cobranças e tempo se esgotando. Certo dia pela manhã, me deparei com Almerinda na cozinha, enquanto Marta estava ocupada em outro cômodo. Ela me olhou e disse: "Você ouviu eles? Eles estão chegando de novo." "Quem, dona Almerinda?", Perguntei sem saber se ela estava realmente falando comigo ou apenas Vagando no seu próprio mundo. Ela balançou a cabeça, me encarando de forma intensa. Os que vagam durante a noite, eles ficam atrás das paredes.
Meu coração acelerou na hora, mas eu estava tentando não levar a sério, porque achava que era só delírio de uma pessoa que não estava bem. Só que a expressão dela, o modo como seus olhos pareciam assustados me deixaram com uma pulga atrás da orelha. Naquela noite fui dormir mais cedo que o costume. Por Volta das 20 horas, eu já estava no meu quartinho exausto do trabalho. A casa parecia mergulhada em silêncio, exceto por alguns ruídos vindos do teto, provavelmente ratos ou maritacas. Cochilei por uns minutos. Quando despertei, já devia passar das 23 horas. Estava escuro
e eu senti um clima pesado, meio opressivo. Levantei tentando me situar no ambiente. Foi nesse instante que notei um som distante, algo como um rangido de porta Ou madeira se arrastando. Não era dentro do meu quarto, vinha do lado de fora. Meu primeiro impulso foi lembrar das recomendações de Marta, não sair, deixar para lá. Mas a curiosidade ou o senso de responsabilidade falou mais alto. O que se passava naquela casa? Caminhei em silêncio até a porta do meu quarto. Abri uma fresta e espiei o corredor. As luzes estavam apagadas. Apenas a claridade fraca da lua
atravessava as janelas. Seguia em passos leves, tentando fazer Barulho. Fui em direção à sala de estar. Tudo escuro, nenhum sinal de gente. Quando já estava prestes a voltar, escutei uma voz sussurrada, ecoando de algum canto. Parecia um murmúrio, mas não conseguia entender a frase. Me aproximei de uma porta que dava para o corredor principal, aquele que levava aos quartos da casa. Tive a impressão de ver uma sombra se movendo no final do corredor. Gelei, mas reuni coragem e fui até lá. Tem alguém aí?", chamei num Sussurro quase inaudível. Nenhuma resposta. Em vez disso, vi algo
como um vulto entrando num dos quartos. Respirei fundo e, ainda que minha mente gritasse para eu não ir, segui na mesma direção. Assim que cheguei perto do quarto, percebi que a porta estava só encostada. Abri de leve, sem fazer muito barulho. Era um quarto vazio, sem móveis, mas o ar ali dentro estava gelado e denso. Entrei procurando algum interruptor para acender a luz, mas não encontrei. Tive a Sensação de que o chão estava úmido, mas não vi nenhuma poça. Parecia mais umidade impregnada nas tábuas. Fiquei ali por uns instantes tentando entender o que tinha acabado
de ver. Não encontrei ninguém. Nenhum sinal de invasão, nada que explicasse aquela sombra. Então, um arrepio percorreu meu corpo quando percebi que a porta estava se fechando sozinha bem devagar. Samuel, ouvi a voz de Marta no corredor, quase num grito contido. Corri até ela com o Coração disparado. Ela me segurou pelo braço e me puxou de volta pro meu quarto. Você quer perder o emprego, moço? O que tá fazendo acordado a essa hora andando pela casa? Eu não sabia o que dizer. Queria perguntar se ela também vira a sombra, mas ela estava visivelmente nervosa. Acabei
me desculpando. Disse que tinha ouvido um barulho e fiquei preocupado. Ela respondeu com uma expressão fechada. Se acontecer de novo, Deixa o seu Ernesto resolver. Ele não quer que você se machuque. Voltei pro meu quarto sem dormir direito o resto da noite. Passei as próximas manhãs trabalhando como de costume, mas agora estava mais atento a qualquer sinal estranho. Pelo que percebi, Marta e seu Ernesto sabiam de algo, mas não deixavam transparecer. E quanto a dona Almerinda, cada vez que eu a via, mais frases estranhas ela soltava, como se antecipasse algo ruim que estava por Vir.
Depois de quase um mês ali, começamos a receber a visita de duas crianças. Eram netos de seu Ernesto, segundo Marta me explicou. Gabriel, de mais ou menos 9 anos, e Elias, de um sete. Aparentavam ser crianças saudáveis, mas não pareciam felizes. Chegaram acompanhados por um homem que só deixou os meninos e foi embora. Não ficou para conversas. Seu Ernesto avisou que os netos passariam um tempo na casa, pois segundo Ele, a mãe das crianças precisava resolver umas questões urgentes na cidade. Fiquei surpreso por ver dois garotos tão pequenos naquela propriedade silenciosa. Eles tinham olhares desconfiados
e quase não falavam comigo. Gabriel, o mais velho, às vezes passeava pelo quintal, curioso com as cabras. Elias ficava perto de Marta, como se enxergasse nela uma figura protetora. Numa tarde, o seu Ernesto me chamou até o estábulo e me pediu um Favor. Vou dar uma saída nos próximos dias, coisa rápida, só para resolver uns assuntos. Você e Marta vão ficar responsáveis pelas crianças. Não deixa eles brincarem longe da casa, ok? Tem uns barrancos perigosos na parte do terreno que ninguém vigia. Concordei. De fato, eu não queria ver as crianças se machucando. Acontece que, desde
que eles chegaram, notei que as noites ficaram ainda mais estranhas. Sempre que eu me deitava, ouvia pequenos passos no Corredor, como se alguém estivesse andando lentamente, parando às vezes perto da minha porta. Eu pensava que poderiam ser as crianças, talvez acordadas, mas quando chegava de manhã, Marta dizia que eles dormiam no quarto dela, pois tinham medo de ficar sozinhos. Cerca de três dias depois da partida do seu Ernesto, acordei com Marta batendo na minha porta, aflita. Ela disse que Elias tinha sumido. Na noite anterior, ela colocou os dois Meninos para dormir e na manhã seguinte,
Gabriel continuava lá, mas Elias não estava em lugar nenhum. Começamos a procurar pela casa toda cada cômodo, cada quarto fechado. Percorri o entorno do terreno. Chamei pelo nome dele em voz alta. Cheguei a andar perto de um riacho que tinha nos fundos, mas nada. Era como se o garoto tivesse evaporado. A aflição tomou conta de mim e de Marta. Ela chorava desesperada, sem saber como explicar aquilo ao seu Ernesto. Passamos horas nessa busca. Já estava começando a escurecer quando avistei alguma coisa no alto de um barranco, perto de uma árvore retorcida. Corri até lá e
encontrei Elias sentado no chão de cabeça baixa. Parecia acordado, mas não reagia direito aos meus chamados. Ele só olhou para mim e de perto percebi que havia uma marca no pescoço dele, como uma arranhadura ou queimadura, não sei ao certo. Ele não conseguia falar ou não queria. Os olhos Do menino estavam marejados. Parecia ter chorado muito. Carreguei Elias de volta. Marta ficou aliviada, mas ao mesmo tempo assustada com o estado dele. Gabriel abraçou o irmão, perguntando se ele estava bem. O garoto continuou mudo, como se estivesse travado. Demorou uma hora até conseguir dizer alguma coisa.
E o que ele disse não fez nenhum sentido para mim. A mulher de roupa escura me chamou. Ela disse que eu não podia escapar. Marta se benzeu aterrorizada. Tentei acalmá-los, dizendo que talvez fosse fruto do medo dele de se perder. Mas naquela noite comecei a ligar os pontos. Havia algo ou alguém que estava rondando aquela propriedade. Na madrugada ouvi de novo aqueles rangidos de porta. Levantei decidido a descobrir o que se passava e encontrei o corredor vazio. O quarto onde a Almerinda ficava tinha a porta entreaberta e, por algum motivo, resolvi espiar. Ela estava acordada,
sentada na Cama de mãos trêmulas. Quando me viu, me chamou com a mão. Eu sei o que eles querem. Ela sussurrou, os olhos aflitos. Me aproximei sentindo um desconforto imenso, mas precisava de respostas. O que tá acontecendo aqui, dona Almerinda? Ela engoliu em seco, como se sentisse medo de falar. Apertou minha mão com força. Faz tempo que isso acontece. Desde antes de eu chegar, eles cobram uma oferta de tanto em tanto tempo e não somos nós quem decidimos. Fiquei Arrepiado. Não consegui perguntar quem são eles, mas imaginei que ela se referia a alguma presença sobrenatural
ou a um grupo de pessoas clandestinas. Qualquer hipótese me assustava. Ela continuou. Precisa ter alguém, alguém que se entregue, que ofereça algo, ou então levam as crianças. Me afastei chocado. Não sabia se aquilo era fruto de um delírio ou se ela realmente estava me contando algum segredo sombrio. Deixei o quarto e fui Tentar dormir. Claro que não consegui. Fiquei virando na cama, sentindo um peso no peito. No dia seguinte, perguntei a Marta se existiam lendas na região, algo que explicasse o que estava acontecendo. Ela pareceuitante, mas depois de muito insistir, contou por alto que havia
histórias antigas sobre essa propriedade. Falavam de um antepassado do seu Ernesto, que teria feito um acordo esquisito com uma força desconhecida para manter as terras Férteis e a família abastada. Em troca, sempre que ocorresse certo ciclo de anos, um sacrifício teria que ser feito. Ninguém tinha certeza se era verdade, mas o boato era que quando o prazo se aproximava, coisas estranhas aconteciam e crianças poderiam sumir. "Eu mesma não sei se acredito", comentou Marta com a voz fraca. Só sei que quando isso acontece, sempre tem alguém que desaparece ou algo de ruim acontece na família. Quase
perguntei se O seu Ernesto estava envolvido, mas não tive coragem. A expressão de Marta me mostrou que ela desconfiava de muita coisa, mas não podia acusar diretamente o patrão. Poucos dias depois, fui acordado de madrugada por um barulho que vinha do lado de fora. Parecia um lamento ou alguém chamando por socorro, mas muito baixo. Peguei uma lanterna e me arrisquei a sair. A noite estava sem lua, escura de doer. Andei com cuidado até passar pela lateral da casa em Direção ao estábulo. Enquanto me aproximava, notei que a porta daquela capela antiga que vivia trancada estava
aberta. Por dentro havia uma luz fraca, como se alguém tivesse acendido algumas velas. Respirei fundo e entrei me esforçando para não tremer de medo. O lugar tinha uma atmosfera pesada, cheiro de mofo e cera de vela queimada. Havia um altar simples com um pano escuro estendido sobre ele. E para a minha surpresa, encontrei Gabriel de joelhos No chão, chorando. Quando me viu, correu pros meus braços. "Como você entrou aqui, menino?", perguntei, tentando manter a calma. Ele balançava a cabeça como se estivesse em choque. Só conseguia dizer que tinha sonhado com alguém chamando o nome dele
e quando acordou não conseguia parar de andar até chegar na capela. Senti um frio na barriga ao perceber que mesmo no escuro ele conhecia o caminho, como se estivesse sendo guiado por alguém. Tentei levá-lo de volta, mas antes que eu saísse vi algo rabiscado na parede dos fundos. Pareciam símbolos rudimentares desenhados com tinta preta. Alguns lembravam figuras humanas, outros eram apenas traços e setas apontando para cima como se indicassem algo no teto ou na direção do céu. Aquilo me deu um calafrio, mas eu não quis analisar muito. Precisava cuidar de Gabriel. Saímos rapidamente e eu
tranquei a porta do jeito que deu. Levei o menino até Marta, que mais uma vez pareceu entrar em pânico. Ela ficou abraçada nele, prometendo que tudo ficaria bem, mas por dentro eu sentia que nada estava bem. Na tarde seguinte, Elias continuava recolhido como se estivesse doente. Tinha febre e tremia. Marta estava sem saber o que fazer e seu Ernesto continuava fora. Pensei em chamar um médico, mas ela disse que não havia como chamar socorro naquela região sem acesso fácil a transporte. Fiquei surpreso por Ninguém falava em levar Elias pra cidade mais próxima. Ela desconversou, dizendo
que o patrão resolveria assim que chegasse. Na noite desse mesmo dia, uma forte chuva caiu. Ventos batiam contra as janelas e o telhado do galpão rangeu. Vez ou outra, eu via clarões de relâmpagos iluminando a paisagem pela janela do meu quartinho. Eu tentava cochilar, mas o barulho da tempestade me mantinha acordado. Por volta de 2as da madrugada, escutei algo diferente do Barulho da chuva, passos correndo do lado de fora, no quintal. Pensei em me levantar, mas hesitei. Queria respeitar as malditas instruções de não andar pela casa à noite. Só que os passos ficaram mais intensos
e jurei ouvir um choro de criança. Abri a porta e corri pra sala, de onde dava para ver através de uma janela grande. Lá fora, na chuva, vi Gabriel andando de cabeça baixa, sozinho, se dirigindo pro barranco. Meu coração disparou. Peguei Uma capa de chuva e saí, ignorando qualquer conselho. Caminhei contra o vento e a enchurrada de água, gritando pelo nome de Gabriel. Ele parecia não me ouvir. Quando finalmente cheguei perto, consegui segurar seu braço. Ele se virou e me olhou com uma expressão quase apática, como se estivesse em transe. "Eles precisam levar", ele sussurrou
com a voz embargada pela chuva. "Levar o qu, Gabriel? Fala comigo. O sacrifício ou Alguém? Ele nem terminou a frase, desabou em choro. Puxei o menino de volta e quase escorregamos várias vezes na lama. Quando chegamos a casa, Marta correu para tirar nossas roupas molhadas e providenciar toalhas. Assim que teve certeza de que Gabriel estava seguro, me puxou pro canto e falou tremendo de nervoso: "Isso não pode continuar. Você não sabe, mas já aconteceram coisas piores antes. Há muitos anos, uma outra criança sumiu numa noite dessas. No dia Seguinte, voltaram a encontrá-la, mas ela não
falava mais. E um tempo depois, ela desapareceu de novo para sempre. "E ninguém fez nada?", perguntei indignado. "Tentar fazer algo é perigoso", disse ela baixinho. "Mas eu acho que dessa vez não vão conseguir terminar o que querem". Naquela altura, eu já não sabia quem eram eles, se era um espírito, um grupo de pessoas ou uma entidade misteriosa que habitava aquele lugar. Só sabia que as crianças estavam correndo Um risco real. No dia posterior, a chuva deu uma trégua. Elias parecia continuar fraco e Gabriel não saía de perto do irmão. Passei a manhã arrumando estragos que
a tempestade causara no telhado. Por volta do meio-dia, seu Ernesto retornou, trazendo consigo um clima ainda mais tenso. Assim que chegou, olhou as crianças, perguntou se estava tudo em ordem. Marta e eu ficamos calados, sem saber como contar a história toda. Antes que eu pudesse tentar explicar, ele Declarou com frieza: "Precisamos resolver uma pendência na capela hoje à noite. Aquilo me pegou desprevenido. Como assim resolver uma pendência?" Marta, que estava ao meu lado, empalideceu. As crianças começaram a chorar, como se já soubessem o que significava. Olhei para seu Ernesto e me senti tomado por uma
raiva contida. Queria questionar, mas não sabia se era seguro ir contra o patrão, ainda mais Sem provas de nada. Mais tarde fui atrás de Marta, querendo entender o que aconteceria na tal capela. Ela evitou meu olhar, mas percebeu que eu não desistiria. Então falou: "É um ritual antigo que a família dele mantém. Eu ouvi dizer que é para aplacar forças que rondam essa terra. Acho que ele quer oferecer alguma coisa em troca de paz. Ela não precisou dizer o que seria oferecido. Senti meu estômago embrulhar. Eu estava envolvido numa história Bizarra e as crianças eram
as mais vulneráveis nessa equação. Esperei a noite cair, decidido a não permitir que nada de ruim acontecesse. Me fechei no meu quarto até às 20 horas. Já passava um pouco desse horário quando ouvi passos do lado de fora. Espiei pela janela e vi seu Ernesto andando em direção a capela, carregando uma lanterna. Logo depois, Marta saiu de dentro da casa, levando Gabriel pela mão. Elias vinha atrás, parecendo dopado Ou entorpecido. Aquela cena me revirou por dentro. Sem pensar duas vezes, peguei uma faca de cozinha que tinha no meu quarto. Era a única arma que me
veio à mão. Fui atrás deles, mas com cuidado para não chamar atenção. A porta da capela estava aberta e assim que cheguei perto, ouvi rezas sussurradas, acompanhadas de vozes quase inaudíveis. Olhei pela fresta e vi seu Ernesto de joelhos diante do altar. Algumas velas Acesas criavam uma penumbra sufocante. Marta estava em pé atrás, segurando as crianças. Parecia paralisada, como se estivesse sendo obrigada a aquilo contra a vontade. Tive medo de entrar e confrontar o patrão, mas também não podia simplesmente ficar parado. Tomei coragem e empurrei a porta, anunciando minha presença. O que tá acontecendo aqui?
A expressão de seu Ernesto foi de ira. Ele se levantou rápido, ainda com a lanterna na mão. Chegou perto de mim, Fazendo sinal para eu me calar. Marta parecia imóvel, talvez apavorada. Elias, com os olhos arregalados, tentou dar um passo na minha direção, mas tropeçou. Gabriel o segurou e começou a chorar baixinho. "Você não tem o direito de se meter nisso. É assunto de família", disse o patrão entre dentes. "Eu trabalho aqui, mas não vou ficar parado enquanto vocês." E não consegui completar a frase. Foi quando notei que No centro do altar havia uma bacia
de metal com água escura. Parecia misturada com algum tipo de pó ou erva. Aquilo exalava um cheiro forte. Ao redor, símbolos riscados no chão lembravam aqueles desenhos que eu vira na parede, mas agora feitos com carvão ou giz. Eu sentia um nojo, uma repulsa e, ao mesmo tempo, um medo terrível de me ver diante de algo fora do comum. Tentei avançar para tirar as crianças dali. Seu Ernesto segurou meu braço com força e levantou a Lanterna, me encarando com um olhar cheio de ódio. Essa é a única forma de manter tudo sob controle. Você não
entende, rapaz. Essa terra cobra o que é devido e não há como fugir. A voz dele soava desesperada, não apenas cruel. Por um momento, tive a impressão de ver lágrimas em seus olhos. Ele não parecia feliz em fazer aquilo, mas agia como se fosse uma missão inevitável. "Deixa as crianças em paz", gritei tentando soltá-lo. Foi então que Aconteceu algo que não sei explicar até hoje. A bacia no altar estremeceu e a vela mais próxima se apagou. A porta da capela se fechou sozinha com uma pancada, o que me fez dar um pulo. Marta soltou um
grito abafado. Elias e Gabriel começaram a chorar ao mesmo tempo. Seu Ernesto se virou, olhando fixamente para a bacia, como se esperasse alguma resposta. Aproveitei aquele segundo de distração, arranquei meu braço da mão dele e corri para agarrar Elias. Gabriel Já estava grudado nas pernas de Marta. Tentei puxá-los em direção à porta, mas a mesma estava trancada como se tivesse sido barricada por fora. Meu coração martelava tanto que achei que fosse desmaiar. Seu Ernesto, fora de si, se aproximou novamente, falando frases desconexas. repetia que não havia outra escolha e que tudo precisava voltar ao ciclo
certo. Marta, no meio disso, tremia, dizendo que não queria colaborar, mas Não conseguia reagir de outra forma. Senti que precisaria lutar, ou acabaríamos todos reféns daquele ritual absurdo. Juntei forças e avancei contra seu Ernesto, tentando tirá-lo do caminho. Ele reagiu rápido, me dando um empurrão que quase me derrubou. Nessa hora, Gabriel aproveitou para correr em direção à porta e começou a bater nela desesperado. Elias permaneceu calado, paralisado de medo. Marta se ajoelhou, mãos juntas, chorando. "Marta, Me ajuda aqui", supliquei, mas ela parecia estática, como se lutasse com a própria consciência. Seu Ernesto se virou para
as crianças e ergueu a lanterna com os olhos fixos em Elias. Fiquei sem pensar e parti para cima dele de novo. Conseguimos rolar pelo chão, caindo sobre os símbolos desenhados. A bacia de metal foi virada, espalhando aquela água escura pelo piso. A vela que restava acesa se apagou, mergulhando a capela em escuridão total, iluminada Apenas por alguns relâmpagos de uma nova tempestade que parecia começar lá fora. Nesse breu ouvi vozes sussurradas que não combinavam com nenhuma das pessoas ali. Pareciam ecos. Não sei se foi alucinação do meu medo, mas juro que soavam como cibilos. repetindo
palavras que eu não entendia direito. Seu Ernesto de algum modo aproveitou minha confusão para se soltar e tentou agarrar Elias. Gritei com toda a força: "Corre!" Marta, em um rompante, segurou o braço do Patrão e gritou de volta para mim: "Tira eles daqui", agarrei Gabriel e Elias pelos pulsos e as cegas fui tateando a parede em busca de alguma saída. A porta principal continuava trancada, mas numa das laterais achei uma janela estreita. Não vi outra opção a não ser forçar a tranca. Dei chutes e murros até que o vidro quebrou. Consegui abrir um vão pelo
qual as crianças puderam passar. Quando chegou a minha vez, precisei forçar um pouco mais, o que me rendeu Alguns cortes no braço, mas no fim conseguimos sair. Fui até a frente da capela, ainda no escuro, e tentei abrir a porta por fora para ajudar Marta, mas estava emperrada e pelo lado de dentro ouvia só gritos e barulhos de algo se arrastando. De repente, um estrondo ecoou e tudo ficou em silêncio. Sem saber o que fazer e temendo pela vida das crianças, corri com elas em direção ao meu quarto. Só parei para pegar minha mochila e
alguns pertences básicos. Não Podíamos ficar ali. Eu precisava tirá-las daquele lugar. Ajudei Elias a colocar um casaco, peguei Gabriel pela mão e corri para fora do terreno. Passei pela cerca velha e segui pela estrada de terra batida. Andamos por muito tempo, até que as pernas das crianças não aguentavam mais. Nos abrigamos num pequeno galpão abandonado que encontrei no caminho. Passei a noite ali com eles, tentando acalmá-los. Se choveram perguntas na minha cabeça, claro, por Que seu Ernesto acreditava nessa história de sacrifício? O que eram aquelas vozes e símbolos? E Marta, será que estava viva? Eu
não tinha respostas, só medo e cansaço. Quando amanheceu, continuei a pé com as crianças. Fomos andando até encontrar uma casa simples onde morava um casal de idosos. Expliquei que estávamos com problemas e precisava entrar em contato com algum familiar das crianças. Eu não queria expor muito, mas O casal percebeu a gravidade da situação e ajudou sem perguntar demais. Eles chamaram um conhecido que passou de caminhonete e nos deu carona até um lugar onde eu poderia achar um meio de transporte maior. Daí em diante, tudo aconteceu rápido. Com muito custo, consegui entrar em contato com uma
tia das crianças que veio buscá-las. Contei a história toda, talvez não com todos os detalhes, pois duvidariam da minha sanidade, mas o suficiente para ela Entender que era urgente tirá-las do alcance do avô. Não sei o que ocorreu depois, pois me afastei totalmente daquela família. Até hoje não tenho notícias certas sobre seu Ernesto, Marta ou a dona Almerinda. Soube por meio de um conhecido que a propriedade pegou fogo alguns meses depois, numa queimada misteriosa, destruindo a casa principal e parte dos anexos. Se foi um acidente ou algo mais, nunca saberei. Também não descobri o que
Houve com Marta, mas dentro de mim eu espero que ela tenha encontrado um jeito de sair daquele inferno. Tudo que posso dizer é que aquela noite na capela permanece gravada na minha memória. A sensação de que havia algo ali, uma força ou presença que não se limitava a uma explicação lógica, me assombra. Às vezes me pergunto se não fui apenas testemunha de uma encenação macabra, mas depois lembro das vozes que ouvi no Breu, do olhar de Elias, daquela bacia com água escura que parecia se mover sozinha, e me arrepio todo. Seja lá o que for,
não quero mais cruzar o caminho daquele lugar. Nunca denunciei ninguém à polícia, porque eu mesmo não sabia como explicar o que aconteceu. E se um dia encontrarem o seu Ernesto, duvido que ele conte a verdade. No fundo, sinto que há segredos que podem permanecer enterrados. Até hoje tento seguir com a minha vida, mas ainda sonho com aquela Capela abandonada, com os símbolos nas paredes e a porta que se fechava sozinha. Me pergunto se os tais ciclos vão continuar em outro lugar ou se de alguma forma meu ato de impedir aquela noite interrompeu o que quer
que estivesse prestes a acontecer. É isso. Se estou contando tudo agora, é porque preciso me livrar do peso. Talvez ninguém acredite. Mas no fim das contas, o que mais importa é que pelo menos consegui tirar as crianças de lá. E rezo Para que não existam outras espalhadas pelo mundo, presas num lugar onde coisas que não entendemos exigem sacrifícios. Espero que esse meu relato ajude a alertar qualquer um que se encontre em situação parecida. Se ver sinais estranhos, vozes na noite ou pessoas desaparecendo sem explicação, não ignore. Por trás do silêncio das paredes pode haver algo
muito mais antigo e sombrio do que imaginamos. Antes de irmos para o próximo relato, se Você é novo por aqui, não se esqueça de se inscrever no canal e ativar o sininho para receber as próximas histórias. Sua presença é importante e seu apoio é essencial. Bem, vamos continuar. Meu nome é Marina. Sempre morei em um lugar afastado, numa região de serra que muita gente nunca ouviu falar. Cresci numa casa simples com meus pais e meu irmão caçula Lucas. Nós não éramos ricos, mas eu nunca senti falta de nada essencial. A vida aqui corre devagar, Cercada
de morros e de uma paisagem que parece imutável. Hoje tenho 20 anos, mas o que eu vou contar começou quando eu estava com 18. Foi na época em que me inscrevi em um programa para auxiliar nas atividades de um posto de saúde comunitário. Não posso dizer que esse programa me daria um futuro garantido, mas eu acreditava que ajudar as pessoas da região me faria bem e talvez me abrisse portas. Como quase tudo por aqui, esse posto funcionava de forma bem Modesta, com equipamentos antigos, poucos funcionários e gente de outras comunidades que aparecia para se consultar.
Nesse posto conheci Letícia, que estudara comigo no colégio. Não éramos melhores amigas na época, mas tínhamos boa convivência. Só que a partir do momento em que passamos a trabalhar juntas, criou-se uma proximidade maior. Íamos e voltávamos no mesmo transporte e passávamos as horas conversando sobre qualquer bobagem que Nos distraísse das fichas que preenchíamos. Sempre enxerguei Letícia como uma pessoa expansiva, do tipo que faz piada de tudo. Ela iluminava o ambiente, era boa em puxar assunto e tinha um jeito de olhar as pessoas nos olhos que me deixava mais segura. Digo isso porque, apesar de eu
parecer tranquila, sempre fui muito na minha, meio insegura para certas coisas. Nesses primeiros meses no posto também conheci Marco. Ele era de Outro povoado, bem maior que o meu, mas trabalhava lá temporariamente enquanto tentava uma vaga em uma faculdade de enfermagem. Marco era alto, moreno e tinha um semblante sério. Tão sério que no início achei que ele simplesmente não fosse com a minha cara. Se a gente falava com ele, ele respondia em poucas palavras, sem dar chance para continuar a conversa. Letícia se divertia com isso. Menina, você viu o jeito fechado dele hoje? Falei: "Bom
dia, e ele só Acenou com a cabeça. É tipo conversar com uma porta. Só que por trás dessa postura durona, Marco, tinha algo que chamava atenção. Eu não sei dizer se era o tom de voz dele que era grave ou se era uma aura de tristeza que parecia acompanhá-lo. Aos poucos, ele se abriu para mim e para Letícia. falou sobre como o pai tinha morrido de forma inesperada há alguns anos e como isso o fez querer cuidar de pessoas e trabalhar na área da saúde. Contou que sonhava em Se mudar para uma cidade grande, mas
que a questão financeira era um obstáculo. Então, tentava todo tipo de programa do governo para conseguir bolsas. Numa dessas conversas, percebi que eu e Letícia ficávamos meio sem jeito quando Marco aparecia, como se rolasse uma tensão que não existia antes. Letícia estava mais quieta, quase tímida. Eu, que já sou calada, ficava tentando disfarçar o quanto me sentia estranha com a presença dele. A gente nunca falou Abertamente, mas eu sabia que ela também estava interessada nele. Na verdade, eu descobri que ela gostava de Marco desde a época de colégio, embora eu nunca tivesse percebido antes. E
a verdade é que eu comecei a pensar nele mais do que achava que devia. Às vezes, antes de dormir, me pegava lembrando do jeito como ele sorria rápido de canto de boca. Em um final de turno, começou a chover do nada. Eu não tinha levado guarda-chuva e a condução Ainda demoraria um bom tempo. Marco tinha uma moto velha, mas que parecia funcionar bem, e se ofereceu para me dar uma carona até em casa. Fomos no maior silêncio, só com o barulho do motor e da chuva nos capacetes. Quando ele parou na porta, agradeci e desci
correndo para não me molhar mais ainda. Aquela noite não consegui dormir direito pensando em como me senti perto dele, mesmo sem termos trocado muitas palavras. Nos dias seguintes, Letícia começou a se Maquiar de um jeito que eu nunca tinha visto. Passou a usar batom de cores mais fortes. Chegava mais cedo no posto e ficava por lá, além do horário, supostamente organizando documentos. Eu notava que ela procurava assunto com Marco o tempo todo. Não preciso dizer que isso me mexia por dentro, mas tentei não demonstrar nada. Mesmo com certa inveja borbulhando em mim, eu escondia. Ela
e Marco passaram a Conversar mais e eu me sentia deslocada. Acho que ela percebeu que Marcos se interessava mais em falar comigo quando estávamos a sós e isso a incomodava muito. Ao mesmo tempo, havia um enfermeiro mais velho no posto que num dia, nos deu uma missão, levarmos algumas vacinas e material de curativo para uma comunidade vizinha. Era distante e só tinha estrada de chão cheia de curvas. Alugamos uma caminhonete antiga da própria prefeitura Local e saímos eu, Letícia e Marco logo depois do almoço. O céu estava limpo quando partimos, mas depois de cerca de
meia hora, tudo escureceu de repente. Era como se o tempo estivesse esperando a gente chegar ao ponto mais perigoso da estrada para despencar água. Marco estava dirigindo. A chuva começou a engrossar e os limpadores mal venciam a enchurrada que caía no para-brisa. De repente, alguma coisa bateu forte embaixo do carro, fazendo um barulho de Metal contra pedra. Marco tentou frear, mas o pedal parecia duro, sem resposta. A caminhonete derrapou e saiu da estrada, indo de encontro a uma cerca de arame farpado. Lembro de ter batido a cabeça na janela. Depois tudo ficou confuso. Letícia gritou
de um jeito que me gelou por dentro. Quando voltei a mim, estava com o lado esquerdo do rosto ardendo. E Letícia tentava reanimar Marco, que estava desacordado, inclinado sobre o volante. Havia sangue. Fomos Socorridos por um senhor que passava de moto e viu a cena. Ele chamou uma ambulância improvisada e acabamos todos no posto de saúde principal da região. Marco não resistiu, morreu na mesma noite. O BAC foi gigantesco. De um dia para o outro, perdemos aquela presença que, mesmo meio fechada, fazia parte do nosso cotidiano. A notícia se espalhou e as pessoas do posto
ficaram arrasadas. A versão oficial foi que a caminhonete estava com o sistema de freio Danificado. Eu, no entanto, já tinha visto muita gente dirigir aquele veículo de forma mais descuidada e nada parecido acontecera. Fiquei sabendo mais tarde que acharam estranhos arranhões em partes do carro que não batiam com o acidente em si. Tive a sensação de que não foi simplesmente falha mecânica. Letícia não derramou uma lágrima sequer na frente de ninguém. Durante o velório, ela ficou em silêncio, com o olhar parado no caixão. Quando falaram para a Gente se despedir, ela chegou bem perto do
corpo e respirou fundo. Eu senti um aperto no peito, mas não sabia se era por ela, por mim ou por tudo aquilo. Nos dias que se seguiram, Letícia simplesmente sumiu da minha vida. Parecia me evitar. No posto, ela mudava de turno com outra colega, então a gente quase nunca se via. Mandei mensagens no celular, liguei para a casa dela, mas era sempre a mãe que atendia, falando que a filha não queria Conversar. Eu também não conseguia lidar com a situação de forma natural. tinha pesadelos constantes com Marco. Não eram sonhos cheios de monstros ou nada
explícito. Era ele em pé, em silêncio, como se quisesse falar algo, mas sem dizer palavra alguma. Acordava confusa e não conseguia voltar a dormir. Dois ou três meses depois, Letícia apareceu em casa com um bolo enrolado em plástico. Disse que a mãe dela tinha feito e que queria me dar um Pedaço. Disse que esperava que eu estivesse bem. Embora não tenha soado sincera. Eu não quis ser grossa e aceitei. Naquela noite comi duas fatias e fui dormir. Acordei por volta das 4 horas da manhã com uma tontura esquisita. Nas semanas seguintes, esse desconforto virou rotina.
Sentia enjoo, dores de cabeça e um cansaço que não passava. Meus pais notaram minha mudança. Fui ao médico do próprio posto, mas nos exames Não apareceu nada de anormal. Fui lembrando então de outras vezes em que Letícia me oferecera chás e biscoitos, principalmente logo após o velório. Na época, eu não quis acreditar em nada de errado, mas agora me dei conta de que aqueles itens sempre vinham dela. Porém, parecia que o tal bolo foi a gota d'água para desencadear algo mais forte. Com o tempo, começou algo ainda mais estranho. Eu via vultos pelos cantos da
casa, especialmente ao entardecer. Parecia que Tinha alguém parado atrás da porta da sala. Quando eu me virava, nada. Uma madrugada, ouvi uma voz baixa no corredor, como se falasse meu nome, mas com a pronúncia arrastada. Meu irmão Lucas também comentou que às vezes achava que via uma pessoa perto da janela do meu quarto, mas quando chegava perto não tinha ninguém. Minha mãe Solange, começou a me levar a rezas na casa de uma vizinha que tinha fama de rezadeira, a dona Benedita. Foi ela quem Falou: "Tem algo ruim perto de você, Marina. Algum tipo de rancor
está pesando no seu corpo. Isso não é só doença do corpo, é outra coisa. No início achei que era exagero. Eu sempre fui meio cética, porém cada dia que passava, a fraqueza aumentava e as visões ficavam mais constantes. Na cozinha, sozinha, eu ouvia barulhos nos armários, passos no quintal e chegava a sentir que alguém me observava da janela. Sim, sei que isso soua estranho. Eu tentava me convencer de que era coisa da minha cabeça, mas cada experiência parecida me deixava mais assustada. Foi quando Letícia me mandou uma mensagem de áudio depois de um bom tempo
sem contato. Ela falava num tom assustado, pedindo desculpas por tudo que tinha acontecido, mas não explicava o que era tudo. Dizia algo como, "Me perdoa, eu não sei o que fazer. preciso conversar com você, tem algo me Atormentando. Respondi na hora, mas ela nunca mais visualizou minha resposta. Tentei ligar e nada. Aquilo mexeu comigo. Achei que ela podia estar entrando em depressão por causa da morte do Marco, ou, quem sabe se sentindo culpada sem motivo claro. Ao mesmo tempo, os sintomas que eu sentia só pioravam. Passei a ter febre sem razão aparente. Certa noite, desmaiei
no quintal. Acordei com meu pai, Márcio, me Carregando para dentro. Minha mãe chamou outra senhora de um povoado próximo, uma benzedeira que diziam ter dons especiais. Era uma mulher chamada Antônia, de cabelos grisalhos e voz firme. Ela chegou à nossa casa e pediu para ficar a sós comigo no quarto. Acendeu uma vela em cima de um pires e começou a rezar baixo, quase murmurando. Depois pegou um ramo de ervas e o passou pelo meu corpo do pé à cabeça. A cada movimento, ela repetia algo que não Entendi muito bem. Quando acabou, saiu do quarto e
conversou com meus pais em particular. disse que tinha captado uma força contrária direcionada a mim, algo que não vinha por acaso. Alguém teria me dado algo contaminado e se a gente não interrompesse esse processo, poderia ficar mais grave. Lembrei imediatamente do bolo que Letícia me trouxera e de outras coisas antes disso, chás, biscoitos. Arrepiei, mas ainda estava confusa. Tentei não tirar conclusões Precipitadas. Afinal, a gente estava falando de algo que soava muito distante da realidade. Antônia fez um trabalho de limpeza ali mesmo, queimou ervas na porta do meu quarto, espalhou sal num pratinho e deixou
debaixo da cama. Depois disse para a gente ficar atenta. Nos dias seguintes, senti uma leve melhora, mas nada muito significativo. Tive menos tonturas, mas a sensação de estar sempre cansada Continuou. E os pesadelos com Marco voltaram ainda mais intensos, só que agora não era só ele. Em alguns desses sonhos, eu via o rosto da Letícia ao fundo, desfocado, me olhando de uma forma fria, quase ressentida. Meu pai, que até então estava só acompanhando tudo sem saber como agir, resolveu procurar um homem chamado Carlos, que vivia em uma área mais afastada e tinha fama de resolver
casos impossíveis. Ele não se definia como Curandeiro, nem nada do tipo, mas todos o chamavam quando nenhuma outra solução funcionava. Um senhor que trabalhava com meu pai disse que Carlos conseguia identificar quem estava sob trabalho feito e de onde aquilo vinha. Meu pai me contou disso, mas confesso que eu não queria ir. Eu tinha medo de tudo ser um charlatanismo ou pior mexer com algo que eu não compreendia. Minha mãe insistiu, acabei aceitando. Não aguentava mais aquela sensação de que estava perdendo a sanidade. Fomos de carro até certo ponto. Depois tivemos de seguir a pé
por uma trilha cheia de pedras e lama. Levou quase uma hora para chegarmos a uma casa de madeira muito simples, com telhado de barro. Carlos nos recebeu sem cerimônia. Parecia um homem de 60 e poucos anos, magro, de olhos claros. Não falou muito, apenas me olhou de cima a baixo, pediu que eu tirasse os sapatos e entrasse em um Pequeno cômodo que ficava nos fundos. Lá dentro, a atmosfera era estranha, tinha cheiro de arruda e velas consumidas. As paredes eram cobertas por panos coloridos e havia cestos com folhas secas, pedras, conchas. Ele puxou um banquinho
e me pediu que sentasse no outro de frente para ele. Você acha que alguém quer o seu mal? Respondi que não fazia a menor ideia. Ele fechou os olhos, pegou minha mão e segurou firme. Falou baixo, sem abrir os olhos. Sinto Uma raiva endereçada a você. É uma raiva que quer se tornar ódio, mas ainda está presa. Vejo uma espécie de laço entre você e quem fez isso. Algo não resolvido. Corei na hora pensando em Letícia, mas não falei nada. Ele soltou minha mão e pediu: "Me diga um nome que passa pela sua cabeça quando
você sente essa fraqueza". Não respondi de imediato, mas acabei dizendo o nome dela. Ele abriu os olhos, suspirou e comentou: "Então é isso. Vocês estão Ligadas por algo que não é natural. Talvez tenha sido por inveja ou rancor. Ele pediu que eu ficasse ali em silêncio enquanto ele preparava um líquido escuro em um pequeno tacho. O cheiro era forte, quase azedo. Quando ele me deu aquilo para beber, engasguei no primeiro gole. Ele insistiu que eu tomasse tudo de uma vez. O gosto era horrível, como terra misturada com ferrugem. Depois que acabei, senti o estômago revirar
e uma tontura imediata. Tive de me segurar na Parede para não cair. Ele abriu uma porta que dava para os fundos e me indicou um lugar onde eu poderia, se precisasse, vomitar. E foi o que aconteceu. Vomitei uma gosma escura com fios de cabelo que não pareciam meus. Carlos recolheu parte daquela gosma em um pote de barro e olhou como se estivesse analisando algo ali dentro. Só disse: "Confirma o que eu pensava. Alguém fez um trabalho para você definhar. Isso envolve restos orgânicos, Possivelmente seu cabelo, e algo que você ingeriu sem saber. Eu não sabia
o que dizer. Estava abalada e me sentindo fraca. Ele falou que precisaria de mais dois dias de rituais, que eu deveria voltar ali e seguir as orientações dele. Estabeleceu algumas regras. Não comer nada que não tivesse sido preparado em casa, não aceitar presentes de ninguém, não ficar sozinha à noite, se fosse possível, e não falar com a Letícia até tudo Terminar. Voltei para casa arrasada, mas um pouco aliviada, por saber que talvez houvesse um caminho de cura. Ao mesmo tempo, meu coração doía só de pensar que Letícia tinha feito algo tão terrível comigo. Por quê?
Era por causa do Marco? Não fazia sentido. Ela não era esse tipo de pessoa. Ou era, e eu nunca percebi. Na noite seguinte, dormi mal. Acordei algumas vezes sentindo dores no corpo. Ouvi barulhos no telhado, como se tivesse alguém andando lá em cima. Pensei em ratos ou galhos balançando, mas cada ruído me fazia saltar o coração. De manhã, vi que deixaram um embrulho na porta da sala, um pano branco amarrado com cordão vermelho. Quando abri, encontrei penas pretas enroladas em um papel onde estava meu nome escrito em letras tortas. Mostrei para minha mãe e ela
quase desmaiou de susto. Meu pai pegou tudo, jogou em um balde e ateou fogo ali mesmo no quintal. Foi quando ele decidiu que iríamos Voltar naquele mesmo dia para a casa do Carlos. Não importava se ele tinha dito que era só no outro dia. A situação estava passando dos limites. Chegamos lá quase no final da tarde. Carlos olhou para mim e fez um sinal para que a gente entrasse. Ele nem perguntou o que aconteceu. Parecia já saber. pegou um ramo de guiné, um punhado de sal grosso e começou a andar em volta de mim, falando
palavras que eu não conseguia entender direito. Eu sentia um suor Gelado escorrendo pelo meu pescoço e meus pés pareciam pesados. Ele então parou e falou: "Tem algo aqui que está desesperado porque percebe que está perdendo a força sobre você. Quanto mais a gente combate, mais ele tenta se agarrar. me fez deitar em um colchão velho, colocou uma bacia com água aos meus pés e acendeu uma vela grande branca, dizendo que era para equilibrar minhas energias. Pediu que eu ficasse ali sem conversar, sem levantar, até a Vela queimar por completo. Ficamos horas. Minhas costas doíam, eu
tinha tonturas ocasionais, mas fui persistente. Quando a vela acabou, Carlos voltou e me ajudou a levantar. disse que precisávamos voltar no dia seguinte de qualquer jeito para o encerramento do ritual, mas que eu iria me sentir um pouco melhor e de fato, me senti. No trajeto de volta, consegui até cochilar no banco de trás enquanto meu pai dirigia. Chegamos em casa e eu Estava tão cansada que dormi sem comer. No meio da noite, fui acordada pelo choro da minha mãe. Ela estava ao telefone com dona Azira, a mãe da Letícia. Pelos pedaços que ouvi, entendi
que Letícia estava trancada no quarto, gritando que via alguém coberto de sangue andando pela casa. estava batendo a cabeça na parede e naquele mesmo dia tinha sido levada a força a um pronto socorro psiquiátrico, onde não conseguiram acalmá-la. O choro da mãe Dela ao telefone era de partir o coração. Tentei perguntar o que estava acontecendo, mas a minha mãe só respondeu. Ela está doente, Marina, muito doente. Na manhã seguinte, meu pai me levou novamente à casa do Carlos. A neblina estava fechada e a trilha parecia mais escura do que de costume. Assim que chegamos, ele
já me aguardava com uma pequena fogueira acesa do lado de fora. Me fez entrar, sentar no mesmo banquinho e beber outro líquido Horrível, dessa vez mais grosso e quente. Pensei que fosse vomitar de novo, mas dessa vez consegui segurar. Senti um calor subindo pelo corpo inteiro e um formigamento nas mãos. Ele colocou a mão na minha testa e pediu que eu fechasse os olhos. Foi como se eu estivesse vendo flashes, imagens do rosto da Letícia, do Marco, da caminhonete no dia do acidente. Era tudo muito confuso, mas deixei as imagens passarem sem tentar entender. Quando
o Ritual terminou, Carlos disse que o mais pesado havia sido removido de mim, mas que ainda tínhamos algo para resolver. O laço entre mim e Letícia não estava totalmente rompido. O que ela fez, por qualquer motivo que fosse, agora estava destruindo a própria mente dela. Ele explicou que em muitas situações a energia maligna ou a bruxaria, quando não concluem seu objetivo, podem se voltar contra a pessoa que as evocou. Fiquei pensando se era isso que estava Acontecendo com a Letícia. Se ela não me destruísse, acabaria sofrendo a consequência do que fez. Não sei se me
sentia aliviada ou culpada por saber disso. Parecia um pesadelo sem saída. Quando voltamos para casa, encontrei minha mãe com o rosto inchado de tanto chorar. Ela tinha recebido a visita da dona Azira. Segundo ela, Letícia não conseguia dormir. Gritava meu nome à noite, que dizia ver o Marco parado no quarto, dizendo que tudo era culpa dela. Azira, desesperada, perguntou se eu não podia falar com a filha ou ajudá-la de algum jeito. Eu gelei e respondi que não achava que fosse uma boa ideia, que eu não saberia o que fazer. Ela caiu no choro, repetindo que
a Letícia não era má, que não queria fazer mal a ninguém, mas que tinha se envolvido com gente errada por causa do ciúme e agora estava pagando um preço alto. Quando ela foi embora, me tranquei no quarto e chorei. Chorei de pena, de raiva, de Arrependimento por não ter ido lá ou por ter deixado tudo chegar a esse ponto. Mas lembrava das palavras do Carlos. Se eu me aproximasse, talvez abrisse de novo aquela porta que finalmente estava se fechando. Meus pais me apoiaram na decisão de não procurar a Letícia, por mais cruel que parecesse. Com
o passar das semanas, a mãe dela sumiu do mapa. Disseram que se mudou para longe. A nossa vida seguiu. Quase um ano depois do acidente, eu tive um último sonho com O Marco. Ele estava em uma área aberta, como um vale, com árvores ao fundo. Me olhou, não sorriu, mas fez um leve sinal de adeus com a cabeça. Quando acordei, apesar da saudade, eu me senti em paz. Foi como se ele tivesse seguido em frente e eu também. A sensação era de leveza. Quanto à Letícia, nunca mais ouvi falar. Algumas pessoas disseram que ela foi
internada em definitivo, pois não tinha melhorado. Outras acreditavam que ela teria fugido ou até morrido. Sinceramente, não sei o que aconteceu, mas rezo para que ela tenha encontrado alguma forma de se livrar do tormento. Hoje, cada vez que passo por aquela estrada de chão, onde tudo aconteceu, sinto um aperto no peito. Lembro do Marco, da Letícia, das nossas vidas que mudaram de repente. Mas também lembro de como saí viva de algo que me sugava aos poucos. Depois disso, nunca mais aceitei comida ou bebida de qualquer pessoa. Parece paranoia, mas eu Só cozinho minhas refeições ou
como o que minha mãe prepara. E agradeço todos os dias por ter tido o apoio dos meus pais e a orientação do Carlos, que depois que fez o que tinha que fazer, avisou que possivelmente viajaria para ajudar outras comunidades e desapareceu sem deixar rastro. Ninguém sabe ao certo se ele ainda mora naquela casa ou se saiu pelos caminhos do mundo. Só tenho a certeza de que quando não encontramos resposta na medicina ou em nós mesmos, Existem forças e pessoas dispostas a ajudar. Eu continuo vivendo na mesma casa. Lucas já está um pouco mais velho. Faz
alguns bicos na roça de um vizinho. Meus pais seguem a vida me apoiando nos estudos. Tentei voltar a sonhar com a área de saúde, mas confesso que perdi um pouco do encantamento. Ainda trabalho no posto, mas de forma bem mais cautelosa e sem grandes planos. Sinto saudade do Marco, é claro, mas prefiro acreditar que ele descansa em paz. Sobre a Letícia, escolhi tentar perdoá-la, mesmo sem entender direito o que houve. É difícil explicar, mas acredito que quando a gente carrega rancor, isso também nos destrói. Aprendi que aquilo que a gente alimenta, seja amor ou ódio,
acaba moldando o nosso destino. Essas palavras que escrevo são, de certa forma, uma forma de testemunho. Não sei se vão acreditar em mim. Talvez pareça surreal imaginar que uma pessoa pode ser envenenada pouco a pouco com algo feito Para prejudicar seu espírito. Mas minha experiência diz que existe sim e que alguém que por ressentimento, ciúme ou inveja pode buscar caminhos obscuros para alcançar o que quer. Só que no fim esse tipo de escuridão costuma voltar de forma ainda mais cruel para quem a espalhou. Tudo que posso dizer é que hoje sinto alívio por estar viva
e por não terme transformado em algo pior. E deixo um alerta para quem lê. Cuidado com o que parece ser inocente demais. Cuidado com quem se aproxima silenciosamente, pois nem toda a amizade é verdadeira. Não sou mais a mesma de antes. Talvez eu pareça mais fria ou desconfiada. Pode ser. Mas durmo melhor assim. E se por acaso passo a noite acordada, já não tenho aquela certeza de que estou sozinha. Não falo de fantasmas ou aparições. Falo da lembrança de que existe muita coisa que não entendemos neste mundo. Aprendi que em algumas Situações a ciência e
a lógica falham e só resta a gente procurar ajuda em quem entende de outras forças. E principalmente aprendi que a inveja de alguém pode tomar proporções que a gente nem imagina e que nunca devemos subestimar o quanto um coração amargurado pode fazer mal. Sigo aqui tentando viver um dia de cada vez. Vou levando meu trabalho de auxiliar no posto. Pretendo fazer um curso técnico um dia. Meus pais me olham como se eu Tivesse voltado de uma guerra que ninguém mais enxergou. E de certa forma acho que foi isso mesmo. Eu voltei e não desejo a
ninguém passar pelo que passei. Ei, pessoal, obrigado por ouvirem. Clique no sininho de notificações para ser alertado de todas as futuras narrações. Lanço vídeos novos todos os dias por aqui. Espero te ver nos próximos. Agora na tela vou deixar outros dois bons vídeos que sei que irão gostar. Te vejo por lá.