Eu [música] só começo a a compor quando eu vou gravar, quando eu preciso. Eu não faço para deixar guardado, [música] porque eu gosto de pão quente. Eu gosto de fazer e fazer e comer, sabe?
Na verdade eu faço porque eu não tenho outra alternativa. Quando eu termino a turnê, [música] eu me expus a uma exposição, um espionámo engraçado, tão grande, viagens, hotéis, palcos, [música] quando termino, eu estou no num estado de exaustão profundo e não é apenas [música] físico, é uma exaustão psicológica também. A meu ver, só uma música nova me traz a vida de volta, me me salva, né?
Então eu preciso fazer. E outra coisa, você vai ficando velho, tudo dói, sabe? Agora, enquanto você não acha, mas quando você acha sobre o que trabalhar, no que trabalhar, aí [música] nada mais dói, nada mais não existe mais nada.
Você só pensa naquilo. [música] 10% apenas de inspiração e 90% de transpiração. Porque se você não trabalhar muito, você não consegue.
Nas primeiras músicas, eu eu penso: "Meu Deus, eu não vou fazer nunca mais essa não vou conseguir". Mas depois que você pega o jeito ali de novo, aí você vai e faz 15. [música] >> Você já sonhou com música composição?
>> Já. Eu já tive músicas que eu sonhei com ela inteira, assim, praticamente, e não esqueci, porque quando ela vem para ser, você não esquece. Mas em geral eu esqueço.
Mas às vezes ela deixa um resquício, entendeu? [música] No pensamento. Se você pega o violão e com aquele resquício você vai caminhando e tal, tatiando e acaba encontrando.
>> Lembra de alguma específica? >> Cara, eu tava eu falando isso, pensando se eu lembraria. Samurai não é a música inteira, mas foi um princípio dela que é o não com a letra, mas essa melodia.
Ah. Ai, quanto querer. >> Quando o Ronnie falou para mim, Javan, você gostaria que o Steven participasse do do seu disco quando eu tava gravando Luz lá nos Estados Unidos?
Falei, óbvio. Aí, você tem uma música para ele participar? Porque o dis tava quase pronto já.
Eu falei: "Não, não tenho, mas eu faço hoje no hotel. Tudo na vida é motivação, né? Uma motivação como essa, meu amigo, estive participar, você vai deixar passar?
" Não, né? Aí fui pro hotel e sonhei nesse princípio. Aí foi isso que eu usei quando eu comecei a escrever a música dele e que no dia seguinte já trouxe ela pronta, sem a letra.
Evidentemente ele ouviu o disco, gostou. Aí disse: "A música eu vou tocar que eu vou gravar". [música] Aí mostramos para ele, ele pegou a gaita, foi pro estúdio, começou a tatiar ali, daqui a pouco saiu tudo aqui.
[música] Eu tenho algumas músicas que eu não dei luz para elas. Eu fiz, mas acabei eu não gravando ou gravei e não gostei do resultado e não usei. Eu vou até mandar destruir tudo porque na hora que eu morrer vai ser tanto disco posto que vai ser um horror.
[risadas] Eu tenho centenas de pedaços de música, porque eu tô compondo aqui e tal, por alguma razão aquilo me desinteressa. Aí eu abandono, jogo para lá e pego uma outra coisa. Não fico tentando aquilo, tentando fazer com que aquilo passe a ser interessante.
Se eu me desinteressei, morreu. Eu agora não jogo fora. Oceano é uma música que comecei e a minha filha Flávia achou a música perdida no a um pedaço apenas ela achou ali no meio das outras.
Ela me ligou: "Pai, achei um negócio aqui lindo, como é que você jogou fora e tal". tava até em espanhol, porque eu eu comecei a a cantá-la em vez de javanês, cantando num num espanhol que eu inventei ali para só para conduzir a melodia e me mostrou, eu gostei. Aí fiz o asspo você em [música] mim, eu >> tenho 10.
000 1 pedaços de músicas que me garante já vários discos, porque agora eu nunca recorro a isso, porque eu gosto mesmo de de me perceber vivo. Usaram muito um verso meu para determinar que a minha letra às vezes era meio non sense e tal. [música] Por exemplo, açaí guardiã zisouro, um ímã branca é a testa da manhã.
[música] Esse verso chegou a ser citado pelo Xchel, pelo Artur Xchel, para nominar [música] um um prêmio que ele dava a a coisas não sense, a coisas assim estranhas. Para mim não é nada senso, tem todo o conteúdo. Veja bem, não há nenhuma pessoa que viva no norte do Brasil que não entenda que o açaí [música] é a fruta que faz com que a subsistência daquela daquelas pessoas esteja garantida, né?
Porque é uma fruta abundante, barata e muito nutritiva e com ela se faz tudo. Por isso, açaí guardiã. >> Você já respondeu muitas vezes a questão das suas letras e tal, já defendeu muito o sentido que elas têm sentido e tal.
Eu acho que essa pergunta, de certa forma, ela cobre uma outra discussão mais interessante sobre o teu estilo de popô, sobre a tua poesia, mas te fazer mosaico de ideias, se é uma coisa que vem na tua intuição que você falou ou é trabalho de ficar procurando palavrinha por palavrinha, por exemplo, uma música como esquina de rano, >> um é p de [música] dois quer verás irei a ti pra viver depois [música] morrer de paz. Você busca fazer uma música, digamos, com um conjunto de palavras distinto, um conjunto de palavras inusual. às vezes você busca no es ron você deu um bom exemplo.
É exatamente isso. Na hora que eu estava fazendo, eu queria fazer uma música usando aquelas palavras de maneira distinta, porque na verdade são palavras que tem uma uma rítmica bacana e e eu queria realmente fazer um samba distinto. O o é um samba distinto, mas mas as coisas são feitas do mesmo modo que sempre, de maneira natural, sem sem eu buscar ser assim ou ser assado.
aquilo. A minha vida não foi moleza desde o início, muito por causa do meu jeito de ser. E porque se eu pudesse ser diferente, eu seria.
Quando o cara falou já, você tem que facilitar as coisas, o João Melo falou, você tem algum talento, mas a sua música é difícil, é complexa, é um versinho ali, eu taco lá e um refrão. É isso que você devia fazer. Eu não entendia, porque o que eu fazia obedecia o meu instinto musical.
Eu não tinha como mudar aquilo. >> Como é que o menino tímido já cantava para qualquer um desde criança se botasse para cantar? Você já vi você fal?
>> Eu acho que isso não era meu. Isso era de Deus. Uma coisa que já veio.
Eu tinha que eu tinha que começar treinando desde cedo, entendeu? Eu era muito tímido, sim. muito, muito, muito, muito tempo também por causa da minha condição de ser negro, ter sido criado sobre os olhares rigorosos da minha mãe de de de proteção, não queria que eu me expusesse, entendeu?
Porque ela dizia que o negro, infelizmente, tem que nem todos os espaços são feitos para os negros. Eu jamais diria isso hoje pros meus filhos. Não, você tem que ter todo o direito a todos.
Briga por pelo que você quiser, vai onde você quiser, que é seu também. minha mãe, né, tentando proteger coisa de mãe e tal, dizia exatamente para eu me evitar alguns alguns espaços. Eu fui criado sob uma uma atmosfera de cuidados, assim, então a timidez veio um pouco disso, né?
[música] >> Como que era essa cena em Maceó de música? >> De música. É assim, tinha essa coisa rip pegando, rolava droga, tinha o pessoal com mais careta, ditadura em cima.
Como que era a cidade assim? >> Olha naquela altura. >> Olha, Marci essa fase.
Bom, uma fase muito ainda muito muito incipiente, muito careta também, né? Eu tinha 16 anos, eu tinha uma banda chamada LSD, onde a gente começou basicamente tocando Beatles. Eu conheci o estádio inteiro por isso, tocando batizado, toquei muito em fazenda, tocando em rodeio, tocando de coisa.
Na minha banda eu só descobri depois que já tinha dois meninos que fumava e cheirava. Eu nunca consegui, eu nunca consegui chegar perto, maconha, alíaco lá e tal. Não, na época só eu eu vim experimentar o primeiro baseado com 36 anos de idade, bem bem já velhinho, né?
Eu tava envolvidíssimo com a bossa nova. Toda aquela dissonância da bossa nova, achava aquilo moderno e quase que inalcançável. Eu precisava ouvir muito para aprender alguma coisa da bolsa nova.
Toda aquelas dissonância, aqueles acordes e tudo. Os Beatles usava, quase na sua maioria das músicas acordes perfeitos que a Bossa Nova odiava. Os Beatles vieram mostrar pro mundo, ensinar o mundo como usar acorde perfeito sem ser piega, sem ser de maneira agregando o valor da inteligência, porque tudo questão de inteligência.
O bom é que eu ouvindo Banova e ouvindo os Beatles, eu consegui absorver essas duas, esses dois conceitos harmônicos, né? E a Bolsa nova que era um é um movimento elitista. E eu disse uma vez, não sei se foi pro Menescal ou foi pro eles, eles eram um pouco preconceituosos, não tinha negro na bossa nova.
O único era o Johnny Alf que sofria um certo distanciamento assim, porque os caras eram todos louros, bonitos e de olhos azuis. Não tô falando mal disso, não, mas é um fato a ser a ser a ser a ser esclarecido. A Bolsa Nova tinha essa coisa naqueles apartamentos de Panema, a a a não era Leão, tinha o seu apartamento como o QG da Banova ali.
E eram todos aqueles filhos de papai que eram realmente talentosos, indubitavelmente talentosos, mas que não tinha preto ali lá em Mació. pessoas como eu, com a minha idade, que já estava vivendo praticamente a a ditadura, não mais no seu auge, mas no quase no ocaso, assim, já partindo pro pro final, tinha como a como eh eh a cara da ditadura que o o o exército ia defender o Brasil dos comunistas que comiam criancinhas. Você não sabe como esse comiam criancinha surtir um efeito devastador.
Comia criancinha, cara, E nem eu acreditava. Eu não acreditei nisso não. Mas eu eu estava envolvido com essas questões.
Eu não sabia o que que era ditadura. Eu não vivenciei as mazelas da ditadura que os as pessoas do Rio de São Paulo, que fazia arte ou não, vivenciaram. Houve uma época que a que Mació começou a pesar 500 toneladas na minha cabeça.
Eu não tinha mais o que fazer ali. Eu não via perspectiva. Eu não via Eu não via futuro.
Eu não via. Eu achava que o meu destino tinha batido numa parede. eu não vou sair daqui se eu não sair de Maceó.
E e outra coisa também, eu sofria uma pressão muito grande dentro do da banda do do LSD, porque as pessoas achavam que o que eu fazia era esquisito. Esse negócio esquisito me perseguiu muito tempo. Achava que era esquisito o que eu fazia, não tinha pé nem cabeça.
Aquilo me dava uma tristeza. Então eu precisava sair do Mació, aí vendia o pouco que tinha e saí de lá. Eu me via no Rio de Janeiro sem conhecer ninguém, jovenzíssimo, sem nenhuma experiência, não conhecia o Rio, não tinha dinheiro, não tinha nada e não tinha, não tinha o que fazer.
Várias e várias vezes eu pensei ir embora, voltar, né? Eu dizia: "Não volto de jeito nenhum, assim como eu estou, não, não volto". E e aí tinha até a praça General Osório na época, antes da da reforma, ela tinha vários arbustos assim com os bancos, sentava naqueles bancos ali escondidos para chorar todas as tardes.
Foi um sofrimento. >> Você passa um tempo até mais ou menos ser apadrinhado por ele. Você fica amigo desse pessoal, da Gud mais >> todos.
Betânia, Roberto Carlos, Chico, Caetano, Gil, todos eles curiosamente me procuraram. Eles foram muito importantes no no quesito tipo me tirar do do obscurantismo para para uma luz qualquer, né? O Chico me ligou e e disse: "Diavan, bom, depois de duvidar centenas de vezes que era ele que tava falando, eh, vamos a Cuba.
" Ah, eu achei que era realmente sacanagem, porque não tinha relação diplomática do Brasil com Cuba na época, não se ia a Cuba, mas enfim, era ele e fomos e ficamos parceiros, fizemos alumbramento, cantamos a rosa dele no meu disco e tal. Depois a Betânia me pediu música, o Roberto Carlos me pediu música. Eles ratificaram meu nome pro cenário musical porque eu sofria de um mal muito terrível para um menino muito jovem.
Eu era contestado por todas as pessoas que poderiam abrir portas para mim. Primeira coisa que dizia: "Essa música é muito estranha, muito difícil. Você devia facilitar as coisas".
O aval dessas pessoas eh me tirou um pouco esse peso das costas, né? Eu me lembro exatamente quando aconteceu o pulo do gato. Até o luz, por exemplo, até o o o seduzir, eu não vendia praticamente nada.
Eu comecei a vender um pouquinho mais no alumbramento. Eh, chegou a 30. 000, o seduzir, chegou a 60.
000, mas eu disse que deu o salto mesmo foi o Luiz, né? O Luiz deu 500. 000.
Isso era impensável para uma pessoa que fazia a música que eu fazia na época. Eu passei de um de uma vida onde eu tinha dificuldade com aluguel, pagar luz, pagar água, com todas as dificuldades que todo mundo tinha num bairro periférico, como era Vilzabel, passei disso para morar numa mansão na Barra da Tijuca, uma mansão que eu nem podia comprar porque eu não tinha dinheiro para tanto, mas o cara gostava tanto de mim que me vendeu fiado a mansão. Essa metamorfose, ela ela abrange a a a pontos assim muito engraçados.
Minha sobrinha Mécia, quando eu passei a a fazer esse sucesso todo, ela não queria mais andar de ônibus, que era minha sobrinha. Você entende? Quer dizer, ela ela afeta a a todo que tudo tá à sua volta.
E é um horror esse essa metamorfose, porque você passa de ter todas essas dificuldades para ter tudo aos pés. Eu passei a ter tudo com facilidade. Eu tinha um carro que eu quisesse, eu morava nessa casa que eu nem queria, mas me caiu aos pés.
Eu tinha tudo. E isso não é uma coisa nem positiva, nem saudável. É preciso, como antídoto, que você tenha uma família concreta.
É a família que segura a cabeça do indivíduo que cai nessa situação. Eu eu se eu não tivesse uma família eu tinha despirocado. Muita gente despiroca por isso.