Bom dia, boa tarde ou boa noite para cada um de vocês. Eh, vamos iniciar agora a aula 10 desse curso, dessa disciplina de ética para a biomedicina eh nesse período de 2024. 2.
Hoje são 16 de abril de 2025. Essa aula se refere ao dia 9 de abril de 2025. Na aula 9, aula anterior que se refere à aula do dia 2 de abril de 2025, nós terminamos falando sobre a posição do Nicholas Rose em relação à questão da eugenia.
Vamos retomar um pouco o próprio conceito de eugenia, que é fundamental para nós entendermos essa pergunta, se eh em que sentido, se a biomedicina transformará a sociedade no século XX e em que sentido a biomedicina transformará ou não transformará a sociedade no século XX. Eugenia é um conceito que foi formulado por Francis Gauton no final do século XIX, 1800 e pouco, final dos 1800. Eh, e a Eugenia visava a melhorar a qualidade da população da nação agindo sobre a reprodução individual.
Então, a eugenia é um termo que se refere a um conjunto de métodos, técnicas e procedimentos que visam a melhorar a qualidade da população a partir da intervenção sobre a reprodução individual. Então, é uma intervenção nos indivíduos visando a um aprimoramento global. Então, qual é o objetivo central das práticas eugênicas?
é o de garantir que eh os indivíduos de melhor linhagem se reproduzissem e passassem qualidades superiores para os seus filhos. Então, o objetivo é selecionar eh é curioso assim mesmo, né? Selecionar os indivíduos de melhor linhagem.
é bem bem curioso o termo e para que possam se reproduzir e eh dar origem a gerações cada vez mais aprimoradas. E a ideia, obviamente, por por exclusão em relação aos indivíduos de linhagem fraca ou defeituosa, é o de permitir, né, o de fomentar a que eles se reproduzam menos. ou em alguns casos, como a gente viu muitas vezes acontecer, especialmente essa era a intenção da Alemanha nazista, eh, efetivamente impedir que determinados indivíduos fossem reproduzissem.
Então, no por volta lá do do quando se celebrou os 60 anos da libertação de Auschevitz, eh muito se falou sobre sobre as práticas, muito começou a se falar sobre as práticas eugenistas na Alemanha. Como é que começou a a eugenia com isso? desde desde a idade moderna, com a eliminação de internos em manicô.
Então, os internos em manicô eram indivídos com cujas vidas eram consideradas sem valor e que, eh, coletivamente eles impunham um peso insuportável para a população saudável do RIS, tá? Então, eh, que que o que que o que que a Alemanha nazista fez em termos pedagógicos? Ela recorreu a três práticas, duas práticas, né?
De um lado, práticas eh práticas pedagógicas eh das políticas eugenistas. Coersão. Três práticas.
vamos chamar de três práticas: coersão, educação e aconselhamento. Então, a coersão é apenas um dentre três possíveis eh elementos da prática das práticas eugênicas, né? o o a eugenia, as práticas eugênicas eugenistas, elas conseguem eh ganhar fôlego na sociedade na medida em que, eh, as pessoas são convencidas por práticas de educação e de aconselhamento a sustentarem, a levarem adiante as práticas eugenistas.
No caso da Alemanha, muitos foram os médicos alemães que tomaram suas próprias decisões em solo Eugênico, no contexto de uma difundida campanha de propaganda e de educação pública. Os médicos também solicitavam medidas eugênicas para os seus próprios filhos. E naquele momento os nazistas estavam extremamente admirados com políticas que estavam sendo aprovadas lá nos Estados Unidos.
Que políticas eram essas que estavam sendo aprovadas nos Estados Unidos? Eh, os Estados Unidos estavam lançando políticas que restringiam a imigração para os Estados Unidos de raças consideradas inferiores, na época, os slavos e os europeus do Sul. E estava também nos Estados Unidos eh sendo aprovadas políticas de esterilização compulsória de internos de manicômios.
Então você tinha, por um lado, políticas eugênicas de esterilização forçada ou coagida daqueles indivíduos que eram considerados como uma ameaça à qualidade da população, principalmente os internos de maniconos, mas também indivíduos que eram considerados como tendo baixa capacidade intelectual. Eles foram coagidos a não reproduzir eh indivíduos considerados e também os indivíduos considerados incorrigíveis, aqueles que eram chamados de imorais e de antisociais. Então essas políticas elas aconteceram não apenas nos Estados Unidos e na Alemanha, mas olhem só a quantidade de países que aprovaram políticas eugenistas.
a Suíça, a Dinamarca, a Finlândia, a Noruega, a Estônia, a Islândia, não apenas países de primeiro mundo, mas também o México, Cuba, Tecoslováquia, hoje é a República Teca, né? Iugoslávia, a Lituânia, a Hungria e a Turquia. e também no Reino Unido.
A esterilização, com base em critérios eugênicos, continuou após a Segunda Guerra Mundial, em um número grande de nações democráticas. Na Suécia, por exemplo, nós falamos sobre isso na aula passada, as leis que permitiam, que fomentavam a esterilização, se mantiveram na Constituição da Suécia entre os anos 35, ou seja, ali no início da Segunda Guerra, próximo do início da Segunda Guerra, até 1975, tá? Então, a Suécia, que era considerada um estado paternalista e dedicado ao bem-estar, você tem então a figura do Estado como pai, como um bom pastor, que tem que estar preparado para tomar decisões rigorosas, cujo objetivo é o de reduzir o incômodo que as ovelhas doentes tenham sobre o rebanho como um todo.
Quem são as ovelhas doentes? Aqueles indivíduos sobre os quais nós já falamos, internos em manicômios, indivíduos considerados intelectualmente inferiores e sempre os chamados incorrigíveis, né? Os antissociais, [Música] eh os às vezes a gente chama de de psicopatas e morais, né?
Cada época dá o seu nome para esses indivíduos. para esses indivíduos que são considerados incorrigíveis. Até os anos 1950, tanto na no Reino Unido quanto nos Estados Unidos, nós tivemos então conselhos, havia nos Estados Unidos, na Grã Bretanha, conselho reprodutivo para futuros pais, conselhos reprodutivos, ou seja, eh havia profissionais dedicados ao aconselhamento genético, tá?
Então, esses indivíduos, eles diziam que não estavam fazendo práticas eugênicas. Então, eh, essas pessoas que continuam existindo são as pessoas dedicadas ao aconselhamento genético e a genética reprodutiva. Então, nós temos o aconselhamento genético e a genética reprodutiva como sendo práticas contemporâneas que rejeitam o rótulo de eugenistas ou eugênicas, né?
Então, o que que eles eh defendem? que as crianças têm as crianças têm valor potencial dado em conformidade com a contribuição que podem oferecer a nação. as políticas, as grandes políticas nacionais, tá?
Então, o que que qual é o argumento qual é o argumento dos proponentes do aconselhamento genético e da genética reprodutiva? que ele, o argumento deles é que é o de que eles estão incentivando a autonomia individual e de que esse incentivo é diferente, completamente diferente de práticas eugenistas. Essa é uma questão polêmica, tá?
[Música] Eh, então, segundo eles, eles estão incentivando tanto a autonomia individual quanto um termo que a gente vê muito hoje na pesquisa empírica, nas ciências biomédicas, a escolha informada. Essa é uma questão que suscitaria entre nós um debate extremamente interessante. Qual é a diferença entre políticas de aconselhamento genético, políticas de genética reprodutiva e as práticas eugênicas?
Qual é o valor argumentativo das eh práticas que são que se arrogam para si o título de aconselhamento genético, genética reprodutiva? Qual é o valor do conceito? Qual é o papel desempenhado pelos conceitos de autonomia individual e de escolha informada na distinção entre uma mera um mério um mero aconselhamento reprodutivo genético de práticas eugênicas?
A a filosofia e a sociologia mostram que o cenário é muito mais complexo, porque apesar dessa retórica contemporânea de que o aconselhamento não é coercitivo, eh há quem diga que os conselheiros genéticos acabam formando as escolhas dos pais. Então essa pergunta, essa é uma pergunta que cabe fazer aqui. Os chamados conselheiros genéticos formam a escolha dos pais?
Se sim, qual é a diferença entre as práticas de aconselhamento genético, genética reprodutiva e as práticas eugenistas? né? Essa é uma questão extremamente importante a se fazer, né?
Porque há quem diga que sob o argumento de que estão atribuindo aos pais a responsabilidade pela constituição de seus herdeiros genéticos, eles estão, na verdade formando a escolha dos pais, né? Então, essa é uma essa é uma posição que tem sido trazida por sociólogos e filósofos. Então, se alguns futuros pais, à luz dos seus próprios valores, à luz dos seus julgamentos sobre a importância de diferentes formas de vidas, tiram vantagem dessas técnicas e decidem não ter filhos numa condição ou no outro, isso seria uma eugenia liberal.
E aí a gente terminou a aula passada com a afirmação do do Nicholas Rose de que não, né? Segundo Nicolas Rose, não há uma eugenia liberal, digamos assim, subsidiando as práticas contemporâneas de aconselhamento genético. Tá?
O que que é Eugenia? Segundo Nicholas Rose, é uma tentativa coletiva imposta por um estado para melhorar a qualidade da população. Então, eugenia é a imposição coletiva estatal para melhorar a qualidade da população.
Então, se a eugenia é uma imposição coletiva estatal cujo propósito é com propósito de melhorar a qualidade da população, então a gente não pode chamar essas práticas democráticas de aconselhamento genético, de genética reprodutiva. Nós não podemos chamar essas práticas de práticas eugênicas, tá? Porque a eugenia envolve um contexto geopolítico frequentemente visto como o de uma luta entre raças.
Então, a eugenia implica frequentemente um contexto geopolítico específico, no qual há no horizonte a ideia de luta entre raças. E o que vemos hoje, o Nicholas Rose afirma é algo diferente. E aí o seu argumento é o seguinte: é claro que a disponibilidade de aconselhamento genético para pais que estão no risco de ter filhos com certa deficiência, com certa condição médica, a disponibilidade de um aborto terapêutico acaba implicando a ideia de que existem vidas que são menos desejadas que outras.
né? Então não podemos negar que por trás das políticas de aconselhamento genético e de genética reprodutiva, envolvendo a minimização de riscos ou mesmo a possibilidade de aborto terapêutico. Existe a ideia de que certas vidas importam mais que outras, de que certas vidas possuem valor intrínseo superior.
a outras, tá? Isso é uma questão problemática também, porque muitos pais que recebem essa oportunidade de escolha acabam, por exemplo, escolhendo não ter filhos cuja vida é mais propensa a ser mais dolorosa, é mais propensa a ser mais curta. por exemplo, por conta de alguma doença herdada e que eh seja uma doença herdada por causa de um problema em um único gene, né, resultante de uma mutação, como ele diz, em um local genético específico.
[Música] [Aplausos] Eh, a gente pode pensar, por exemplo, no caso da distonia, que que é a distonia? É uma distonia de início precoce. É uma condição dolorosa cuja base genética foi descoberta em 1997.
É uma doença chamada DT1, tá? Então, houve um caso lá na comunidade judaica de Chicago em que o menino com 12 anos ele foi diagnosticado com essa distonia precoce. Que que é essa distonia?
É uma doença genética cerebral que causa movimentos involuntários do músculo, forçando o corpo com posturas retorcidas e dolorosas. Então, um pai se recusou eh esse menino que teve essa doença, ele se recusou a ser pai de uma criança que tivesse o risco de ter essa doença. Segundo ele, a sua condição era um pesadelo.
E aí, por conta da sua, por conta da descoberta desse gênio DT1, muitos testes genéticos e pré-natais, além de um procedimento inovador chamado DPI, fizeram com que o Kesler se tornasse pai de uma de uma de uma criança Benjamin, que que era livre dessa distonia, tá? Então o o Kesley ficou muito feliz com a possibilidade da intervenção e significa e aí ele diz: "Olha, com essa intervenção que eu fiz para ter o meu filho Benjamin, isso significa o final da distonia em nossa família, tá? A distonia é uma dentre diversas doenças genéticas judaicas.
Por que que é uma doença genética do judaica chamada assim? Porque ela aparece com muita frequência num grupo de judeus. ahiquenase, tá?
Não é uma doença que só os achikenas t, mas é uma doença genética muito comum nesse grupo. E aí uma série de organizações judaicas nos Estados Unidos t sido muito ativas fazendo campanhas, né, para pesquisar, encontrar, examinar e eliminar os gênes dessas doenças das suas comunidades. E aí, será que eh não seria irônico a gente chamar que eh justamente eh essa prática seria eugênica, né?
Será que a tentativa de eliminar essas doenças genéticas indicam que pessoas com distonia seriam menos dignas de vida, menos dignas de nosso cuidado, menos dignas de nossa sustentação? Claro que não. Então, o que que o Nicholas Rose está defendendo?
Ele defende que a possibilidade de intervenção genética para evitar doenças não implica a concepção de que eh de que vidas saudáveis eh sejam mais dignas do que vidas com doenças. A questão, segundo Nicholas Rose, não é essa. O que está em questão, por exemplo, é a possibilidade que que o Kesler teve de ter um filho sem distonia.
É diferente, né, eliminar doenças, aqui a gente tem uma concepção ética. Eliminar doenças genéticas é diferente de esperar bebês moldados, né? Então, uma coisa é eu usar práticas terapêuticas cujo propósito seja o de eh evitar que eu tenha filho com distonia.
Outra coisa, é, eu queria que meu filho e ele tenha uma pele bonita, que ele tenha olhos bonitos, que ele seja estudioso, que ele seja eh sem propensão para comportamentos antissociais. Por outro lado, não há nenhum tipo de evidência que sugira que os pais que possuem filhos doentes acreditem que as suas vidas sejam de menos valor. Não há nenhuma evidência no sentido de eh acreditar que os pais de filhos doentes amem os seus filhos, amem eh valorizem menos os seus filhos.
Então, não existem evidências de que pais com filhos doentes considerem suas vidas menos valorosas, menos dignas e que os amem menos. A questão, como eu repito, não é essa. E aí eu vou repetir esse termo, que é um termo extremamente importante, que é uma concepção extremamente importante, que é a seguinte: a possibilidade de intervenção genética para evitar doenças geneticamente herdadas não implica de maneira nenhuma a concepção de que vidas saudáveis sejam mais dignas do que vidas com doenças.
Muito pelo contrário. Por que muito pelo contrário, porque é é devido é devido a esse amor que os pais nutrem pelos seus filhos, que eles se esforçam para evitar que suas crianças tenham uma vida dolorosa e curta. Isso também não significa que eles acreditem que a vida dos seus filhos é menos humana, né?
Então, a questão ética aqui é diferente. O que o Nicholas Rose está propondo, tá? Eh, é que no contexto de uma maciça mortalidade infantil, talvez não seja eugenia ou ameaça para a ética das nossas espécies, o investimento no aconselhamento genético.
Na verdade, talvez existam condições que devam ser inclusive financiadas por recursos públicos para que determinadas condições sejam evitadas. Clínicas particulares dos Estados Unidos já oferecem esses serviços para uma gama de condições. Tem um instituto lá nos Estados Unidos chamado Instituto de Medicina Reprodutiva e de Teste Genético, que possui uma lista com 57 doenças, talvez hoje até possua mais, eh, doenças potencialmente evitáveis, né?
É claro que nessa lista existem doenças ligadas ao sexo, mas não se trata da hipótese da gente escolher o sexo dos nossos filhos. é apenas para garantir que determinados embriões masculinos ou femininos sejam implantados para evitar mutações de doenças que estejam associadas eh à sexualidade. No Reino Unido, existe uma regulação, uma uma área que regulamenta um um órgão que regulamenta essas técnicas, né?
a human fertilization and Embryology of Authority Authority, né, que considera que certas condições o embrião ele tem risco de desenvolver uma doença, uma condição grave e que vai gerar muito sofrimento, tá? No entanto, eh, as fronteiras entre doenças para as quais existam terapias disponíveis e doenças para as quais não existem terapias disponíveis, é uma fronteira ainda que não está muito clara. Eh, em novembro de em 2004, esse órgão britânico emitiu uma licença para uma universidade trabalhar em um tipo severo de câncer de intestino de origem genética.
Então é uma doença eh familial adenomatal poliposis colfap, que é uma condição muito séria e que gera uma série de tumores no colon já no início da vida adulta. E aí muitos dos indivíduos que são afetados por essa por essa doença de origem genética, podem fazer na adolescência uma cirurgia profilática paraa remoção do próprio colon. assim, quem quem eh iria eh desconsiderar o interesse de se fazer uma intervenção genética para a para evitar que essa doença venha à tona?
Essa é uma questão interessante. O mesmo, a gente pode falar do câncer de mama, que você tem marcadores genéticos, né, o BRCA1 e o BRCA2, que estão ligados, embora isso não seja uma certeza, a um alto risco de desenvolver o câncer, né? Então você tem uma relação de 70% em relação a 10% de normalidade.
Deveríamos usar essa essas intervenções terapêuticas nesse caso para implantar apenas embriões masculinos quando os pais possuem esse risco? E no caso da acondroplasia, que vem de uma normalidade de um gene que está localizado no cromossomo 4, em que gera crianças com pernas e braços curtos, que é uma condição que causa grande sofrimento que pode ser evitada. E se a escolha eh fosse e se a escolha para evitar filhos com depressão fosse dadas aos seus pais?
É claro que aqui a gente tá lidando com questões difíceis, né? Por exemplo, se você é cristão de determinadas denominações, talvez até da Igreja Católica, talvez você possua uma maior dificuldade de aceitar a possibilidade de intervenções genéticas, tá? Então, embora possa parecer que a questão aqui seja simples, ela está muito longe de ser simples.
As questões envolvendo intervenções terapêuticas genéticas, elas não são simples. porque envolvem concepções como a daqueles indivíduos e segundo eh segundo a qual a intervenção genética fere propósitos, determinações naturais, por exemplo, divinos, tá? Então, é sempre muito complicado do ponto de vista ético discutir intervenção terapêutica, intervenção genética, porque você pode estar esbarrando, por exemplo, na concepção daqueles indivíduos que acreditam que não podemos, que não temos o direito de intervirza, porque ela, a natureza, tende a um propósito superior.
seja ela divina ou não, tá? Mas aqui tá o ponto do Nicholas Rose. Segundo Nicolas Rose, a dificuldade dessa questão não envolve a retórica da eugenia, tá?
Então aqui a dificuldade da questão é de outra ordem. O aconselhamento genético não é uma questão ética associada com o problema da eugenia, uma vez que a eugenia, repetimos, é uma imposição coletiva estatal para melhorar a qualidade da população. A trata-se a a eugenia de um contexto geopolítico específico, no qual há no horizonte a ideia de uma luta de raças, tá?
Então, a questão aqui ela é difícil do ponto de vista ético. Ela envolve, por exemplo, embate com grupos religiosos e com outros grupos, mas isso não tem a ver com a ideia de eugenia. Essas questões indicam antes os tipos de escolhas éticas que são criadas, não pelas nossas tecnologias modernas de vida, mas pela esperança que a gente investe nessas tecnologias.
Então, no futuro, é de se esperar que mais e mais pessoas terão de tomar essas decisões por conta de pesquisas genômicas que estão identificando a mutação de muitos males raros e devastadores e que a gente pode simplesmente eliminar da da da vida dos nossos eh dos nossos filhos. Então vamos considerar agora um outro ponto que tem provocado também muito debate na neuroética. Por exemplo, a neuroética diz respeito às questões éticas envolvendo as pesquisas neurocientíficas.
é uma área cujo interesse tem crescido de maneira avaçaladora nas últimas décadas, tá? Então, há a preocupação com o fato de nós sermos capazes de alterar o nosso humor, alterarmos as nossas emoções, alterarmos os nossos desejos, alterarmos as nossas capacidades intelectuais à vontade por meio do uso de drogas inteligentes, sem o trabalho de construção subjetiva, tá? Então, um dos problemas mais preementes de neuroética é a capacidade que temos de modelar nosso psiquismo, nossas faculdades cognitivas, por meio de drogas, ao invés do esforço subjetivo.
teria uma uma um política transhumanista, digamos assim. Bem, eh, sobre isso nós temos o o que ficou há muito, esse tema até virou obsoleto, né? Mas há muitos anos se falava do problema do prosac, da geração ProAC, de uma psicofarmacologia cosmética, de pessoas que estavam recorrendo a antidepressivos para ficarem mais do que bem, tá?
Então, começou a se usar o conceito de psicofarmacologia cosmética, que é o recurso a drogas psiquiátricas para ficarmos mais do que bem. Em inglês, um termo que se usa é brain enracement, que é o de aprimoramento cerebral, porque uma coisa é você usar eh drogas psiquiátricas, drogas psicológicas para saúde mental. Outra coisa é o uso estratégico, quase como que se fosse uma uma como é que se chama agora?
Eu esqueci, não adianta eu perguntar para vocês porque não tem ninguém aqui. Como é que se chama dopping? Uma coisa é usar a psicofarmacologia para o dopping, tá?
Eh, o não precisamos falar sobre o número crescente de drogas psiquiátricas no mundo de uma maneira geral. As estatísticas estão aí para nos mostrar que seja no Brasil, seja nos Estados Unidos, seja na Europa, aumentou muito o número de prescrições de receitas de antidepressivo, mas aparentemente, diferentemente do que se coloca por aqueles que estão pensando na questão do brain enracement, não Tem havido notícias sobre o aumento de genialidade? Não tem havido notícias sobre o aumento de bem-estar, não tem havido sobre o notícias sobre o aumento da boa convivência entre os seres humanos.
Porque as drogas atualmente disponíveis não permitem que os indivíduos manipulem o seu temperamento, a sua vontade. as drogas psiquiátricas, né, o prosac, os inibidores seletivos de recatação de serotonina, eh os anciolíticos, elas geram efeitos que são menos visíveis, né, eh, do que, por exemplo, o álcool, a maconha, embora elas tenham sido muitas vezes vendidas sobre essa promessa. Os inibidores seletivos muitas vezes foram vendidos sob a promessa de que seriam drogas da felicidade.
E quem usa esse tipo de droga sabe que não tem nada a ver com isso, né? Na verdade, essas drogas elas no máx no máximo elas podem prometer uma vida em que você possa se sentir você mesmo de novo, uma vida em que você possa ter a sua vida de volta, uma vida na qual você possa retomar, ser o autor da sua própria narrativa novamente. que essa não é uma ética da melhoria, essa não é uma ética do enracement, é a ética da autenticidade.
Então, o discurso legítimo do ISRS é o discurso das psicoterapias, é o discurso da autenticidade. Vou pausar a gravação aqui só. 3 minutinhos que eu vou banheiro, tá?
Então vamos lá, gente, retomar. Então, eh, os neuroéticos, né, o o as pessoas que estão pensando as questões da ética das neurociências temem, o temor deles é que a felicidade superficial em uma pílula tem o alvo errado, né? Porque a imagem dos inibidores seletivos de recaptação de serotonina eh acabou mudando de pírula milagrosa para pílula amarga, né?
Porque hoje se fala mal, se fala, você tem um discurso da medicalização, etc, etc, tentando demonizar eh o o remédio que nada tem a ver com aquele discurso que foi feito eh sobre a pílula da felicidade, né? Então, hoje o foco acabou sendo mudado, sendo transferido paraa ideia de melhoria cognitiva. Então, a gente tem os fármacos que melhoram as nossas funções mentais, né?
Eh, então tem companhias aí que desenvolvem novas drogas, novas células, novas terapias genéticas para várias doenças do sistema nervoso central e periférico, né? Então, hoje se fala de 40 drogas que aumentam o nosso potencial cognitivo. Quer dizer, se falava em 2004, né?
Por exemplo, nós ouvimos muito hoje falar da ritalina, um estimulante que uma utilizado para TDH, né, e que tem sido utilizado por muitas pessoas que não têm o diagnóstico de TDH, simplesmente para aprimoramento cognitivo. Então eu mesmo conheço muitas pessoas que usaram Ritalina para escrever dissertação de mestrado, TCC, tese de doutorado, uma grande aberração, né? O o assim como outras drogas que são muito utilizadas para tratar problemas do sono, tratar problemas que nós mesmos em nossa sociedade criamos.
Mas o que que há de novo em tudo isso, gente, né? O que que há de novo em todas essas discussões? Se nós estamos utilizando mecanismos artificiais para aprimoramento cognitivo, desde que o mundo é mundo, né?
Então, há séculos, a gente faz exercício físico, a gente ingere alimentos apropriados, a gente faz palavra cruzada, a gente vai a curso de preparatórios, a gente toma chá, né? Por que que eh se a gente o que que há de errado nas tecnologias de aprimoramento cognitivo? Tá?
Então essa é uma questão que a gente tem que fazer. Qual a diferença? entre determinados alimentos.
Pessoal, não sei se vocês estão vendo que eu tô puxando um pouco de ar aqui, que eu tô com um pouco de dificuldade para falar. E a gente tá falando de psicofarmacologia e eu, embora faça tratamento para ansiedade, eu não sei se é essa esse esse período de grandes dificuldades que eu tô vivenciando, né, de tá preso em casa, de tá com um problema de mobilidade. Então, eh, por mais que eu esteja fazendo meu tratamento adequado, né, eh, eu acho que eu não tô não tô bem, né?
Eu tenho que a minha médica põ em terapia ver isso, mas eu tô com muita dificuldade para falar porque um dos meus sintomas de ansiedade é a dificuldade de respirar, tá? Então peço desculpa para vocês, eu tô aqui eh desde o início da aula passando mal, mas eh para evitar mal entendidos, eu comunico para vocês o que que tá acontecendo, tá? Não tenho nenhum motivo para esconder isso.
Isso para mim não é nenhum tipo de tabu, tá? Eu tenho transtorno de ansiedade, enfim, ten histórico de transtorno de pânico e e tô passando mal hoje, tá? Hoje não, né?
Nas últimas aulas que eu tenho dado tem acontecido isso. Então, volta a pergunta: o que que há de errado na tecnologia de aprimoramento cognitivo? Qual é a diferença entre determinados alimentos entre recorrer a determinados alimentos, ao exercício físico?
e a remédio, né? Qual é a diferença que que envolve, né? Então, a gente tem um comércio maciço de produtos nutricionais aí que são vendidos no mercado e que prometem melhorar a nossa capacidade mental.
Então, por que que nós nos tornamos sociedades psicofarmacológicas? Tá? Qual é a diferença?
Então, eh, em muitos contextos diferentes, de muitas maneiras, em relação à variedade de problemas, a capacidade subjetiva humana, ela vem sendo remodelada, seja por eh drogas naturais, seja por drogas artificiais, né? O o os antigos usavam os antigos não, ainda hoje se usa aca, se usa uma uma espécie, uma série de de plantas de de drogas naturais para alteração de estados cognitivos, para visando a a a estados de sobreelevação espiritual ou cognitiva. Tá?
Então isso propicia uma questão importante sobre como nós configuramos as fronteiras entre o normal e o patológico, o tratável e o aceitável. Então a gente cai aqui nessa fronteira. Como configuramos as fronteiras entre o normal e o patológico?
entre o tratável e o aceitável. Que tipo de ser humanos queremos ser? Qual é o papel do mercado na nossa transformação eh em um eu neuroquímico?
Então são perguntas que devemos fazer. Então, os homens e a natureza nunca foram naturais. Existe é uma variação histórica e de fenômenos naturais como a expectativa de vida, a morbidez, a fertilidade, etc.
Então, apelar à natureza, esse essa ideia de natureza não nos ajuda muito. Uma vez eu fui aqui a à psiquiatria, né, na UFO e o paciente lá internado dizia que o problema dele eram as drogas artificiais. O problema é que vocês ficam me dando drogas aqui.
E ele era um usuário de drogas, né? E aí o psiquiatra perguntou: "Ué, a maconha não é droga? " Não, a maconha é natural.
U cocaína? Cocaína é natural, tá na natureza. E o craque?
O craque é natural. Ué, mas o que que foi engraçado, né? O que que é droga?
Drga são essas coisas que vocês me dão aqui, né? Então é mais ou menos isso, tá? Então, segundo o Nicholas Rose, o motivo das nossas preocupações não deve ser a melhoria, mas o controle.
Porque no mundo de no mundo desenvolvido, a gente tem que administrar o risco e a prudência. que a gente tem que controlar, o que a gente tem que verificar é o controle que a gente exerce sobre os indivíduos e não eh a a intenção que os indivíduos têm de controlar as suas próprias vidas, tá? Então a gente recai na pergunta, a biomedicina vai transformar a sociedade?
E aí o Nicolas Rose diz: "Olha, eu sou um sociólogo, então a minha resposta é sim e não". Ou não e sim. Não, não haverá nenhum novo paraíso.
Não haverá nenhum fim paraa nossa vida mortal. Não haverá nenhum futuro sobre nós vamos continuar humanos. Então vamos voltamos aqui à pergunta.
Ele vai dizer sim e [Música] não. Não, porque não haverá nenhum novo Éden, nenhum novo paraíso, né? Continuaremos humanos, demasiadamente humanos.
Não podemos confiar que os avanços biomédicos vão eh dar um fim à escandalosa desigualdade na saúde mundial. Os avanços biométricos não darão fim à desigualdade mundial. Então isso vai continuar sendo um problema paraa medicina e paraa política, mas principalmente paraa política.
Mas sim, sim. Obrigado, gente. Что?