Olá, como vai? Hoje nós vamos conhecer o modelo das quatro tarefas do Worden, que é um modelo explicativo também sobre como se dá o processo do luto. Worden é professor e pesquisador ligado à Associação Americana de Psicologia (APA), presta consultas acadêmicas na Escola Médica de Harvard e na Faculdade de Psicologia de Rosmead, na Califórnia.
Ele foi um dos pioneiros do movimento de hóspices nos Estados Unidos. Worden, assim como o Parkes, também entende o luto como sendo processual, dinâmico, e traz um outro aspecto bastante interessante. Na sua visão, o enlutado tem um papel ativo durante o processo de luto, então, não trata-se de esperar que com o passar do tempo, somente, as coisas vão se ajustando e a adaptação à perda virá como um processo natural.
Ao contrário disso, ele entende que o enlutado tem um papel a desempenhar durante o seu processo de luto. Esse papel envolve a resolução do que ele chamou de tarefas e é sobre ela que nós vamos conversar. Na visão do worden, o luto envolve quatro tarefas: a tarefa um, aceitar a realidade da perda; a tarefa dois, processar a dor do luto; a tarefa três, ajustar-se ao mundo sem a pessoa que morreu; e a tarefa quatro, encontrar conexão duradoura com a pessoa que morreu.
Nós vamos discutir cada uma dessas tarefas. Para Worden a primeira tarefa do enlutado é encarar a perda e tudo aquilo que ela traz como consequência, é reconhecer que a perda é real, verdadeira e irreversível, isso é o contrário do que a gente vê na negação, por exemplo, que como nós vimos num vídeo anterior, pode se dar em diferentes níveis e por diferentes modos. Não é incomum, entretanto, que o enlutado no início do seu processo de luto oscile entre aceitar e reconhecer que a perda aconteceu e também negá-la.
Pessoas enlutadas podem apresentar comportamentos que são paradoxais à esse respeito. Vou dar um exemplo de uma das pessoas que assistimos no nosso projeto aqui na universidade. Ela reconhecia que o seu pai tinha falecido, ele faleceu na pandemia de covid.
Porém todos os dias no horário que ele costumava chegar em casa de carro e abrir o portão, que era sempre por volta das 18 horas, ela se dirigia para varanda na esperança de que isso acontecesse. Isso não significa que ela está totalmente num processo de negação dessa morte, tanto é que ela já estava lidando com aspectos burocráticos, como organização de documentos, partilha dos bens, resolução de resolução de questões ligadas à vida do pai que havia falecido, mas ainda mantinha uma esperança, um sentimento de que ela pudesse estar vivendo um pesadelo. Então, o enlutado no início do processo do seu luto pode oscilar entre esses dois polos, reconhecer a perda como sendo real, mas também de alguns momentos negá-la.
Essa é a primeira tarefa com que o lutado deve lidar, reconhecer e aceitar essa perda. Algo que contribui para essa primeira tarefa são os rituais de despedida. Os rituais, sejam eles os mais diversos, a partir de crenças religiosas ou de uma cultura específica, eles permitem às pessoas enlutadas apropriar-se da concretude daquela morte.
Num velório nós nos apropriamos da morte diante de um corpo presente, inerte. Numa cerimônia religiosa nós nos dirigimos a quem morreu como estando no passado não mais presente na nossa vida. Os rituais têm, portanto, um objetivo importante de ajudar o enlutado a reconhecer que a morte e a perda são concretas.
Mortes súbitas e ausência de rituais de despedida podem dificultar para o enlutado a realização dessa primeira tarefa. Como aceitar que uma perda aconteceu quando um corpo não está presente, não houve rituais para se despedir dessa pessoa? Quando reconhecer que essa morte aconteceu quando a pessoa é dada como morta, mas nunca foi encontrado o corpo dessa pessoa?
Todas essas situações como também aquelas de uma morte que se dá de modo muito repentino, podem tornar essa tarefa mais difícil para o enlutado. A tarefa dois envolve processar a dor do luto, significa que nesse momento após reconhecer que a morte aconteceu e que ela é irreversível, o enlutado entra em contato com a dor que ela produz. Nesse sentido, é interessante pensarmos que a dor do luto é chamada uma dor total.
O que que significa isso? É uma dor que tem dimensão psíquica, é uma dor que tem dimensão física, já falamos sobre isso, o enlutado fala de sensações físicas, de dor no corpo, dor no coração, não é a toa que existe um termo bastante utilizado "de coração partido, de coração doído", porque o luto também é sentido no corpo, é uma dor que também é social, uma dor que também é espiritual. Evitar ou suprimir a dor do luto pode prolongar o luto, ao contrário do que algumas pessoas pensam.
Muitas vezes enlutados assumem uma postura evitativa, tentando a todo custo não entrar em contato com a sua dor, tentam adotar estratégias de distração, por exemplo, evitam pensar ou rememorar sobre quem morreu, evitam conversar sobre isso na tentativa de não entrar em contato com a sua dor, isso pode ao contrário, como vamos ver mais à frente em outra aula, fazer com que com que o enlutado apresente em outros momentos da sua vida reações de luto que não foram vividas no momento presente da morte. Os fatores para uma pessoa tentar evitar a todo custo entrar em contato com a sua dor podem ser os mais diversos: por falta de suporte social ela pode evitar isso, por exemplo, uma mulher que tem filhos e que perde o marido, pode dizer: "Eu não posso sofrer, porque eu tenho que cuidar dos meus filhos, eu tenho que ser forte para cuidar dos meus filhos", alguém que perde o pai idoso, mas que também tem uma mãe idosa, pode dizer: "Pela minha mãe eu tenho que ser forte. Eu evito chorar e sofrer para que ela não sofra".
Muitos são os motivos, portanto, que podem fazer com que o enlutado não entre em contato com a sua dor, o seu luto pode não ser socialmente validado e reconhecido, como vamos discutir em outro momento, a própria pessoa enlutada pode ter dificuldade de lidar com seus afetos nas mais diferentes circunstâncias e, portanto, evitar a todo custo isso e muitas vezes alguns enlutados, na tentativa de não entrar em contato com a sua dor, podem adotar estratégias de distração da dor ou de distanciamento dessa dor, que apresentem fatores de risco, inclusive, para a sua saúde física e mental, como o uso abusivo de álcool, outras drogas drogas ou de medicamentos. Lidar com a dor do luto é algo, portanto, que é importante. Isso ajuda o enlutado no seu processo de elaboração da sua perda.
Uma coisa que é importante, quando pensamos sobre as tarefas propostas pelo Worden, é que elas não assumem um caráter de linearidade, embora a gente possa dizer que não dá efetivamente pro sujeito entrar em contato com a tarefa dois, a dor do luto, sem ter passado pela tarefa um, reconhecer que a perda aconteceu, essas tarefas podem se sobrepor e o fato de um sujeito estar envolvido com uma tarefa, por exemplo, a quatro, não significa que novamente ele não possa visitar a tarefa dois. Assim, Worden ao propor esse modelo das quatro tarefas, não as apresenta como se fossem fases, mas sim como modos pelos quais o enlutado lida com a sua perda e se ajusta a ela. A tarefa três fala exatamente sobre o ajustamento.
Ela significa ajustar-se ao mundo sem a pessoa. Esse ajustamento se dá de três maneiras: ele envolve ajustamentos externos; ajustamentos internos; e ajustamentos espirituais. Os ajustamentos externos envolvem viver sem o morto, lidar com a sua ausência, assumir os papéis que eram desempenhados por ele, organizar a vida a partir dessa ausência.
Esse ajustamento externo pode desafiar muito o enlutado, como eu já exemplifiquei em outras situações, pode ser bastante difícil para o enlutado conseguir ajustar-se à sua vida sem aquela pessoa que morreu. Os ajustamentos internos envolvem a própria noção de selfie dessa pessoa. Quem eu sou a partir dessa morte?
Quem eu me torno a partir do meu luto? A morte de um ente querido pode desafiar de muitos modos um enlutado com relação à sua autoestima e a sua autoeficácia. Assim, ao contrário do que alguns enlutados esperam, que ao final de um longo tempo ele volte a ser quem ele era anteriormente, é possível dizermos que após um período de luto a pessoa enlutada não volta a ser quem ela era, porque entende-se que o luto transforma essa pessoa.
Como já dissemos anteriormente, a partir de Parkes, entendendo o luto também como um processo de aprendizagem. Durante o seu processo de luto o enlutado também transforma-se. Transforma-se a partir de novos papéis sociais, de tarefas desempenhadas, de habilidades aprendidas, de renúncias que são feitas.
Então haverá também sempre um ajustamento interno do enlutado em relação a quem ele é e quem ele se tornou a partir do seu luto. Por fim, a gente pode dizer que existem os ajustamentos espirituais. A morte de um ente querido pode desafiar as crenças que uma pessoa tem sobre a vida, sobre finitude, sobre os seus valores.
A percepção de mundo dessa pessoa pode ser drasticamente alterada, como eu já exemplifiquei em outros vídeos, uma mãe que perde um filho pequeno pode se questionar sobre a vida, o porquê ela mereceu aquilo, o porquê Deus permitiu que aquilo acontecesse com ela, o porquê uma criança inocente ficou tão gravemente doente. Assim, é esperado que durante o processo de luto um enlutado faça revisões da sua concepção de vida e de outros valores que ele tem. Por fim, a tarefa quatro envolve encontrar uma conexão duradoura com quem se foi.
Ao contrário do que se acreditava anteriormente, que o enlutado deveria, de certo modo, esquecer quem se foi e seguir a sua vida, desinvestir o seu amor, a sua energia nessa pessoa que morreu e investi-la em novos objetos de amor, hoje já se entende que a continuidade do laço com quem morreu se mantém, mas essa continuidade de uma relação vai ser de uma outra natureza. As teorias mais modernas de luto, entre elas a do Worden e a do próprio Parkes, entendem que nós não deixamos de nos relacionar e de ter vínculo afetivo com quem morreu, entretanto, ao enlutado cabe construir uma relação que seja de uma outra natureza, de uma outra ordem. Essa talvez seja a tarefa mais difícil para o enlutado, conseguir encontrar na sua vida um lugar para esse amor que não acaba, mas que não tem mais uma presença física daquela pessoa.
Isso significa que após algum tempo o enlutado percebe que é possível seguir a vida, retomar a vida sem esquecer quem morreu. Entretanto, essa relação com quem se foi, a continuidade desse vínculo não significa não viver e sobretudo não significa sofrer para sempre. Conseguir construir esse laço com quem morreu é um desafio importante para a pessoa enlutada, vou dar alguns exemplos de pessoas que participaram dos nossos grupos de apoio aqui na universidade e que eu considero muito bonitos, uma participante de um grupo nosso que perdeu a mãe por covid relatava nos grupos que sempre que os seus sobrinhos iam para casa da sua mãe, para casa da avó, a avó dava banho neles com determinado shampoo com um perfume muito característico, ela dizia que ao receber os sobrinhos em casa fazia questão de dar banho neles com o mesmo shampoo que a mãe usava e eles sempre diziam: "Esse é o perfume da vovó, esse é o cheiro do banho da vovó".
Então, ela dizia: "Eu vou continuar falando para os meus sobrinhos sobre quem era a avó deles e vou manter viva na memória deles o cheiro do banho que a avó proporcionava". Essa participante encontrou um modo muito singular de fazer com que sua mãe se mantivesse presente na vida do seus sobrinhos. Assim, não é possível afirmarmos como cada pessoa vai fazer isso, nem sequer, nós profissionais, devemos sugerir modos pelos quais a pessoa vai manter um laço continuado com quem morreu.
Isso deve acontecer de modo muito singular, a partir da história de vida e da relação do enlutado com aquele que se foi. Assim, na perspectiva do Worden, é preciso voltarmos a afirmar: as tarefas que ele propõe não são lineares, nem são rígidas, elas podem ser revividas muitas vezes ao longo da vida e podem também ocorrer simultaneamente. A compreensão do luto a partir dessa perspectiva teórica nos traz importantes contribuições para pensar o trabalho junto a pessoas enlutadas.
Até logo!