Você já teve a sensação de que existe algo escondido bem diante dos seus olhos? como se o mundo fosse apenas uma fina cortina, cobrindo algo infinitamente mais antigo, mais sombrio e infinitamente mais verdadeiro. Meu nome é Daniel Ventura, tenho 37 anos, sou historiador formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, com especialização em culturas secretas e tradições esotéricas do século X.
Durante anos, fui considerado um dos pesquisadores mais promissores na área da história oculta das ordens iniciáticas. Mas o que ninguém sabia e o que hoje me custa admitir é que minha busca por respostas ultrapassou os limites da razão, da ciência e da própria sanidade. Hoje vivo isolado em um chalé deteriorado nos arredores de São Lourenço, em Minas Gerais.
As pessoas da cidade me evitam, não por medo exatamente, mas porque há algo em mim que elas não sabem explicar. Um tipo de desconforto, talvez o tipo de coisa que faz uma criança esconder o rosto ou um cachorro se recusar a entrar na sua casa. Aqui minha rotina é simples e silenciosa.
Estudo meus próprios escritos, evito qualquer superfície reflexiva e registro tudo que ouço, mesmo que ninguém mais ouça. Lembro perfeitamente do dia em que tudo começou. Era outubro de 2019.
Eu havia sido convidado por um amigo e colega, Dr Artur Valadares, para consultar os arquivos particulares de uma sociedade maçônica extinta que mantinha uma biblioteca subterrânea no interior do Rio de Janeiro. O local era uma construção antiga, de paredes cobertas por musgo e umidade, com cheiro de papel podre e incenso antigo. Era como descer a uma cripta.
Lá, entre prateleiras de madeira escura e manuscritos em latim, encontrei um documento diferente de tudo que já havia visto. Não tinha capa, apenas um invólucro de pano encerado com o selo de um círculo triplo cruzado por uma serpente de duas cabeças. No centro, um nome escrito em caligrafia arcaica e tremida, Astarot.
A princípio, acreditei se tratar de mais um grimório apócrifo, um entre tantos falsos que circulam em círculos ocultistas. Mas à medida que lia, percebia que aquele texto tinha algo vivo. As palavras pareciam se mover de forma quase imperceptível, como se escorressem da página para dentro de mim.
Naquela mesma noite, tive o primeiro sonho. Estava em uma biblioteca que se estendia infinitamente em todas as direções. No centro, um trono de pedra negra e sobre ele, uma figura com o rosto coberto por um véu branco.
Ela me observava, não dizia nada, mas me fazia sentir nu exposto. Nas semanas seguintes, os sinais começaram a se intensificar. Relógios paravam sempre às 3:33 da manhã.
Manuscritos que eu havia arquivado apareciam abertos em páginas que não lembrava ter lido. Vozes sussurravam palavras em línguas antigas, latim, fenício, até sumério. Ao anotar essas palavras e traduzi-las, descobri que formavam uma espécie de invocação.
Eu deveria ter parado, deveria ter queimado aquelas páginas e me afastado de tudo, mas não consegui. Era como se uma força invisível me empurrasse adiante, como se, de algum modo, eu já tivesse sido escolhido antes mesmo de abrir aquele livro. E então, em uma noite de lua nova, eu fiz o ritual.
Preparei o ambiente como descrito nas instruções originais. O círculo triplo desenhado com carvão e sal, o incensário de benjoim, a lamparina de óleo, o espelho de obsidiana voltado para o leste. E ao ler as palavras finais da invocação, senti como se algo fosse arrancado de mim, uma espécie de deslocamento.
O ar ficou pesado, denso, meus ouvidos zumbiram, o silêncio absoluto. E então ele falou: "A voz não veio de fora, veio de dentro, como um pensamento que não era meu, uma presença que não precisava ser vista para ser sentida. Disse seu nome, Astarot.
Disse também que não precisava me explicar nada, pois eu já sabia o que buscava, o conhecimento absoluto, a verdade por trás do mundo visível. E ele me ofereceu exatamente isso. Em troca, eu daria algo que naquele momento parecia insignificante.
Minha paz, aceitei. Não houve contrato assinado, nem sangue derramado, apenas um sussurro mútuo, um sim que ecoou em mim por dias. Desde então, minha mente não descansou.
Recebo fragmentos de informações constantemente, imagens, fórmulas, textos inteiros em línguas extintas. Conheço nomes de reis que jamais existiram nos livros oficiais. Vejo símbolos escondidos em obras de arte, mensagens codificadas em monumentos públicos.
Descobri a estrutura real do tempo e compreendi que o espaço não é contínuo, que existem brechas e que por elas algo espreita, mas tudo tem um preço. Comecei a ouvir vozes quando estou sozinho, sons de passos atrás de mim, sussurros vindos dos espelhos. Às vezes perco horas, desmaio e acordo em lugares diferentes.
As palavras fluem de mim para os cadernos como se alguém estivesse escrevendo através da minha mão. Meus olhos mudaram, minha respiração também. Não estou mais sozinho.
E agora, escrevendo isso no silêncio desta noite sem lua, com os grilos calados e o relógio travado mais uma vez às 13:33, sei que ele está aqui. E a verdade, a verdade é que a mente humana não foi feita para saber tudo, porque saber de verdade é se perder. E quanto mais se sabe, menos se vive.
Meu nome completo é Daniel Nogueira Ventura, nascido em 20 de março de 1986, no bairro do Catete, no Rio de Janeiro. Filho único de um pai silencioso e de uma mãe profundamente religiosa, crescia entre extremos. De um lado, a rigidez quase as fé católica.
Do outro, o silêncio denso e inexplicável do meu pai. Um homem que falava pouco, mas observava tudo. Nunca soube muito sobre o passado dele e hoje suspeito que foi proposital.
Talvez no fundo, ele já soubesse onde eu iria parar. Minha mãe costumava dizer que curiosidade demais mata o espírito. Na infância isso parecia apenas uma daquelas frases de advertência, como dizer para não brincar com fogo.
Mas eu brincava. Sempre fui fascinado pelo que estava escondido. Gostava de mapas antigos, símbolos em igrejas e ficava horas observando vitrines de lojas esotéricas que minha mãe me proibia de entrar.
Na adolescência mergulhei nos livros. Não era popular, mas também não me importava. O que me interessava estava nos textos, não nas pessoas.
Enquanto outros garotos jogavam futebol, eu passava tardes na biblioteca da escola. lendo sobre alquimia, mitologia comparada, ordens secretas e evangelhos apócrifos. Lembro de uma vez em que encontrei um livro intitulado As Raízes ocultas do mundo cristão.
A bibliotecária hesitou antes de me entregar. Ela segurou o livro com as duas mãos e disse: "Certas coisas não são para os vivos, menino. " E mesmo assim me deixou levar.
Fiz faculdade de história e fui um dos primeiros da turma a se formar. Meu trabalho de conclusão de curso foi sobre os manuscritos do Mar Morto, um tema controverso, mas que me rendeu reconhecimento por sua abordagem ousada. Recebi convites para conferências, artigos em revistas especializadas e mais tarde uma bolsa de mestrado para estudar tradições ocultas do renascimento.
Foi nessa fase que conheci o professor Artur Valadares, um acadêmico carismático, porém excêntrico, que se tornaria meu mentor e, eventualmente o homem que me abriria as portas para o submundo que eu tanto buscava. Minha situação financeira era estável. Nada luxuoso, mas confortável.
Eu morava em um pequeno apartamento em Botafogo, decorado com estantes até o teto, um globo terrestre antigo e várias réplicas de arte sacra medieval. Vivia sozinho por escolha. Relacionamentos nunca duravam muito.
Algo em mim sempre os afastava. Talvez fosse meu olhar constante de busca ou o fato de que eu parecia estar sempre em outro lugar, mesmo presente. Minha rotina era precisa como um relógio.
Acordava às 6:30, tomava café em silêncio, lia por 2 horas e ia para o Instituto de Pesquisa Histórica, onde passava o dia cercado por livros raros, cartas antigas e artefatos enigmáticos. À noite voltava para casa e escrevia diários, traduções, reflexões, tudo era registrado. Sempre tive o hábito de anotar até o mais sutil dos pressentimentos.
Mas então vieram os primeiros sinais, pequenos, discretos, mas persistentes. Comecei a notar que certos textos que eu lia pareciam se alterar. trechos sumam, reapareciam com palavras diferentes.
Atribuí isso ao cansaço. Mas quando outros colegas liam os mesmos textos e diziam que não havia nada estranho, percebi que o problema ou o dom estava em mim. Minhas noites se tornaram inquietas.
Sonhos vívidos com imagens que eu não conseguia explicar, florestas queimando em câmera lenta, cidades subterrâneas. Estrelas caindo do céu, sons como vozes murmurando em couros dissonantes. Quando acordava, sentia cheiro de pergaminho queimado e meu quarto parecia mais frio que o normal, mesmo no verão carioca.
Comecei a me afastar. Meus colegas notaram, comentavam que eu estava mais sério que o normal, distraído, com o olhar estranho. Artur Valadares, porém, parecia entender.
Um dia ele me chamou para conversar e disse: "Você está vendo as bordas do tecido, mas cuidado, desfiar esse pano pode rasgar sua mente. " A relação com minha mãe também piorou. Em uma visita, ela se recusou a entrar no meu apartamento.
Disse que sentia uma presença ruim no ambiente. Rezou o terço na porta, me beijou na testa e foi embora em silêncio. Aquilo me marcou, mas eu continuei.
Não podia mais parar. Pouco depois, Arthur me revelou que havia uma biblioteca pertencente a uma antiga ordem maçônica localizada em um sítio no interior do estado. Um acervo privado, restrito, que só poucos pesquisadores já haviam tocado.
Foi lá que tudo começou. E mesmo hoje, depois de tudo, ainda me pergunto se aquela visita foi uma escolha minha ou se eu fui guiado até lá, porque desde o momento em que entrei naquele porão, uma parte de mim deixou de ser minha. A biblioteca ficava em uma antiga propriedade rural, cercada por mata densa e trilhas pouco sinalizadas.
Chegar lá já era por si só uma experiência. Artur e eu viajamos em silêncio durante quase 5 horas até chegarmos à entrada. Um portão de ferro enferrujado coberto por trepadeiras que se abriu com um estalo que ecoou pela mata como um aviso.
A construção era imponente, embora claramente abandonada há anos. O casarão de arquitetura colonial estava tomado por mofo e teias de aranha, mas ainda sustentava uma aura de poder. Entramos pela lateral, onde havia uma escadaria de pedra que levava ao subsolo.
O ar lá embaixo era espesso, impregnado de humidade e de um cheiro de pergaminho antigo, misturado a algo que lembrava incenso queimado há muito tempo. A sala principal da biblioteca era circular com instantes seguindo o formato da parede. Ao centro havia uma mesa octogonal feita de madeira escura, com entalhes que pareciam formar um alfabeto desconhecido.
No teto, um vitral quebrado deixava entrar uma luz tênue e oscilante. Foi nesse ambiente que encontrei o manuscrito que mudaria minha vida, o códice de Astarot. Ao tocar o volume, um arrepio percorreu minha espinha.
A capa, feita de um material que lembrava couro envelhecido, exalava um calor sutil. O selo em relevo no centro, um círculo triplo cortado por uma serpente bicéfala, parecia pulsar sobre meus dedos. Não havia título, apenas inscrições em latim arcaico e um símbolo que se repetia obsessivamente.
Uma estrela de oito pontas com um olho negro ao centro. Levei o códice comigo com a devida autorização do acervo. Nos dias seguintes, mergulhei em sua leitura, como um afogado se agarra a uma tábua.
As palavras pareciam vivas, mudando de posição, sussurrando significados ocultos. Era como se o livro soubesse que estava sendo lido. À medida que eu decifrava os símbolos, passagens inteiras surgiam onde antes havia páginas em branco.
Foi então que começaram as ocorrências estranhas. A primeira foi um ruído metálico que ecoava à noite, como correntes sendo arrastadas lentamente pelo chão. Procurei em todos os cômodos do apartamento, mas não encontrei nada.
Na noite seguinte, os quadros da parede estavam tortos, todos inclinados para o leste. No terceiro dia, acordei com o nome Astarot, rabiscado em espelho no vapor do banheiro, mesmo sem tê-lo usado. Passei a ouvir sussurros enquanto dormia, frases incompletas em línguas mortas, sempre repetidas.
A verdade está sob o véu. O portador da lâmpada espera. A mente que busca será a primeira a se perder.
Pessoas ao meu redor começaram a se afastar. Meus colegas evitavam conversas longas. Meu supervisor no instituto comentou que eu parecia exausto, como se não dormisse há semanas.
E era verdade, dormir se tornara uma tarefa difícil. Cada vez que fechava os olhos, via fragmentos, um trono de obsidiana, livros em chamas, um deserto com um céu vermelho e olhos, sempre olhos me observando sem piscar. Em um dos sonhos mais vívidos, me vi diante de um espelho negro que refletia uma versão de mim mesmo, com olhos completamente brancos e uma marca incandescente no peito, o mesmo símbolo do manuscrito.
Acordei com a sensação de queimar e, ao me olhar no espelho, havia por breves segundos uma marca vermelha sob minha clavícula. Quando toquei, desapareceu. Minhas anotações começaram a se escrever sozinhas.
Eu deixava cadernos em branco na mesa e encontrava no dia seguinte páginas repletas de escritas ilegíveis. Fotografei, transcrevi, analisei. Descobri que eram combinações de aramaico, latim, vulgar e enoiquiano, a suposta língua dos anjos usada em rituais do século X.
Passei a viver à base de café e silêncio. A luz do dia me incomodava, como se meu corpo tivesse invertido seu ritmo natural. Meus olhos ardiam ao menor contato com a claridade.
Coloquei cortinas pesadas em todas as janelas e só saía de casa ao entardecer. Quando ia ao mercado, as pessoas me olhavam estranho. Um idoso chegou a fazer o sinal da cruz ao meu lado.
A tensão só crescia. Num sábado à noite, Artur me ligou. Sua voz tremia.
disse que havia ido longe demais, que eles estavam observando e que era tarde para desfazer o elo. Antes que pudesse perguntar quem eram eles, a linha caiu. Nunca mais consegui falar com ele.
Na mesma noite, o espelho do meu quarto rachou. Não quebrou. rachou como se algo do outro lado estivesse tentando sair e naquele instante eu soube.
Não era mais uma questão de curiosidade. Eu havia atravessado um limite e algo havia me atravessado também. A partir daquela noite, o mundo ao meu redor deixou de obedecer as regras comuns.
Era como se a realidade tivesse sido rasgada, permitindo que algo, aos poucos, se infiltrasse por entre os retalhos do cotidiano. O apartamento onde eu morava, antes silencioso e previsível, começou a se comportar como um organismo próprio. Portas se fechavam sozinhas, as lâmpadas piscavam mesmo novas.
Meus livros mudavam de lugar, sempre empilhados em ordem específica que eu não reconhecia. Títulos sobre rituais, possessão e sacrifícios espirituais apareciam abertos em trechos perturbadores. Certa vez, encontrei todos os relógios da casa marcando exatamente 6,66, algo logicamente impossível.
O espelho do quarto, agora rachado, refletia coisas que não estavam presentes. Eu via sombras que não pertenciam a mim, vultos de corpos distorcidos que se moviam com atraso, como uma lembrança do que acabara de acontecer, ou um aviso do que estava por vir. Aos poucos, perdia a noção do tempo.
Passava horas em transe, sem perceber. escrevia compulsivamente em línguas que não conhecia conscientemente. Minha aparência física também mudou.
O rosto ficou mais pálido, os olhos fundos, as olheiras tomaram a forma de hematomas suaves. Certas pessoas começaram a me evitar na rua. Um cachorro latiu sem parar ao meiu como se estivesse diante de um predador invisível.
A ansiedade crescia. À noite eu sentia presenças ao pé da cama, ouvi respirações. Uma vez acordei com marcas circulares em torno do pulso esquerdo, como se tivesse sido segurado com força.
Acordei gritando. A vizinha do andar de baixo bateu na porta para perguntar se estava tudo bem. Eu não consegui responder.
Minha garganta estava seca, como se eu tivesse passado horas tentando falar sem emitir um som. Os sons se intensificaram, correntes arrastando, sussurros que vinham das tomadas, batidas secas na parede às 3:33 da manhã. Uma vez, um rádio antigo que eu nunca usei ligou sozinho, transmitindo um som estático que, quando desacelerado por software, revelava uma frase repetida em latim: Omniscientia, prtium habet.
Todo conhecimento tem um preço. As pessoas ao meu redor não estavam imunes. Recebi uma ligação de um antigo colega de faculdade, Vinícius.
Ele dizia ter sonhado comigo preso em uma cela de vidro, gritando em línguas que ele não conhecia. Ele acordou com sangue saindo dos ouvidos. me implorou para parar com o que quer que eu estivesse fazendo.
Mas era tarde. Minha mãe sofreu um colapso nervoso. Afirmava que ouvia meu nome nas preces do demônio.
Ela foi internada por uma crise psicótica. Eu fui visitá-la e ela se recusou a me olhar nos olhos. sussurrou entre os dentes.
Você já não é mais meu filho. Ele está usando sua pele. Meus cadernos, antes registros organizados, tornaram-se diários caóticos com desenhos perturbadores.
Rostos sem olhos, labirintos impossíveis, círculos mágicos entrelaçados com letras que sangravam no papel. Passei a trancar portas que antes deixava abertas. Dormia com facas sob o travesseiro.
Evitava espelhos, luzes, pessoas. Comecei a ter apagões. Certa vez acordei dentro de um ônibus em direção a Juiz de Fora.
Não lembrava de ter saído de casa. Estava com o códice de astarote no colo, aberto em uma página que até então eu não havia decifrado. O símbolo no centro da página brilhava em tons carmesins, pulsando como se estivesse vivo.
Fui ao psiquiatra, disse que precisava de ajuda. Ele me ouviu com atenção, receitou remédios, mas ao me olhar com mais atenção, ficou pálido. Disse sem pensar.
Vocêus olhos mudaram de cor. Nunca mais voltei. Estava sozinho, ou melhor, acompanhado por algo que não me deixava mais.
Então, veio a última mensagem escrita na parede da sala, como se alguém tivesse usado meus dedos enquanto eu dormia. Estava em latim, mas a tradução era clara. O véu se rompeu.
Agora você verá tudo. Foi numa madrugada sem vento, sem som, sem estrelas. O ar parecia espesso como névoa, embora nada visível preenchesse o espaço.
O tempo parou exatamente às 3:33. A luz do abajur oscilou por um instante e apagou de vez. O quarto mergulhou numa escuridão tão profunda que minha própria respiração parecia algo estranho, quase intrusivo.
O códice estava aberto sobre a mesa em uma página que até então jamais havia aparecido, como se só se revelasse quando chegasse o momento. O símbolo ali não era mais apenas tinta sobre papel. Pulsava com uma luz interna viva, encarnada.
Ao tocá-lo, um frio cortante atravessou minha mão. As paredes tremeram, o teto rangeu como se algo imenso caminhasse por cima de mim. Do espelho rachado surgiu um som agudo, como metal arranhando vidro.
E então, lentamente, a rachadura se abriu como se estivesse sendo forçada por dentro. A luz da sala piscou uma vez, duas, e apagou por completo. Eu não estava mais no meu apartamento.
Estava em uma biblioteca infinita como aquela dos meus sonhos. Prateleiras torcidas e corredores curvados se estendiam até onde a vista não alcançava. Tudo era envolto em uma penumbra pálida, onde sombras se arrastavam entre os livros, sussurrando palavras incompreensíveis.
O chão era feito de pedras antigas cobertas por inscrições brilhantes em tons púrpura. No centro, ele estava sentado em um trono de obsidiana. A figura tinha um rosto humanoide, mas os olhos eram fendas horizontais de fogo.
Tinha asas dobradas como véus escuros e em sua testa havia o mesmo símbolo que havia no cdice. Uma aura opressora, majestosa, envolvia todo o espaço ao redor dele. Seu olhar me atravessava como se cada memória minha estivesse exposta como páginas abertas.
Ele falou, não com palavras comuns, mas com pensamentos que invadiam minha mente. Você veio pela verdade e agora será seu portador. Tentei perguntar o que isso significava.
Tentei gritar, correr, mas minhas pernas não respondiam. Meu corpo estava paralisado, como se preso por raízes invisíveis. Então ele se levantou.
Ao se aproximar, o chão tremia. Seus olhos acenderam com mais intensidade e em sua mão surgiu um fragmento de luz. Luz que não era quente nem fria.
Era um conhecimento puro, cruel, sem filtro, sem limites. Você verá o mundo como ele é. Toda estrutura, toda mentira, toda forma será revelada a você.
Em troca, seu silêncio será eterno, sua paz sacrificada, sua mente eternamente aberta. E sem que pudesse resistir, ele tocou meu peito com aquela luz. A dor não foi física, foi como ter todas as certezas arrancadas ao mesmo tempo.
Vi o tempo se desdobrar em camadas. Vi o rosto de Deus se fragmentar em múltiplas máscaras. Vi a humanidade presa em ciclos eternos, sempre à beira da mesma queda.
Vi a origem do mal e descobri que ele não era oposto ao bem, mas parte dele. Acordei no chão do meu apartamento. O codice havia desaparecido.
No lugar onde ele estava, apenas cinzas, mas eu sabia que ele ainda estava comigo. Desde então, vejo coisas que ninguém mais vê. O mundo se tornou uma construção translúcida, onde enxergo as engrenagens por trás da realidade, leio pensamentos, escuto os mortos e o tempo, o tempo não me obedece mais.
Vivo em espirais. As pessoas me chamam de louco, talvez estejam certas, mas agora sei demais para fingir ignorância. Eu fiz um pacto com Astarot e a verdade é um fardo que nunca silencia.
Já se passaram nove meses desde aquela madrugada em que vi a Tarot pela primeira vez. Vivo isolado, escondido, afastado de tudo que me lembra a humanidade, não por escolha, mas por sobrevivência. Após o pacto, minha vida foi rasgada ao meio e a parte que restou não pertence mais a esse mundo.
Os sintomas não cessaram, eles evoluíram. Meus sentidos estão permanentemente aguçados. Ouço batimentos cardíacos através das paredes.
Sinto o cheiro da mentira quando alguém mente. Vejo fios tênues conectando eventos distantes no tempo e espaço. E o mais perturbador, quando olho para o céu, vejo olhos, centenas deles, observando, esperando.
Os dias passaram a perder sentido. Às vezes uma tarde dura 3 minutos, outras uma noite dura dias. Os relógios quebram quando me aproximo.
As máquinas falham, animais recuam, crianças choram ao me ver. Passei a usar luvas, óculos escuros, roupas fechadas, não por proteção física, mas para tentar conter o que emana de mim. Eu anoto tudo.
Tenho dezenas de cadernos preenchidos com símbolos, mensagens que recebem sonhos, visões e fragmentos de realidades paralelas. A maioria das pessoas que lê uma página sequer enlouquece. Já perdiis conhecidos assim.
Um desapareceu. O outro hoje vive internado, repetindo em latim: "O portador da verdade não possui sombra". Artur Valadares nunca mais foi visto.
Há rumores de que ele foi para a Romênia. Outros dizem que entrou em um convento para se exorcizar. Mas eu sei, ele viu algo, talvez antes de mim, e não suportou.
Talvez tenha feito o mesmo pacto ou tentado revertê-lo. A verdade é que depois que se aceita a luz de Astarot, não há mais caminho de volta. Minha mãe faleceu sem me perdoar.
Recusou até mesmo que eu comparecesse ao enterro. disse ao padre: "Aquela coisa que um dia foi meu filho, não deve pisar em solo sagrado. " Respeitei.
Ela tinha razão. Me pergunto às vezes se teria feito algo diferente, se teria fechado o códice antes da última página, se teria ignorado os sinais. Mas a resposta sempre vem com clareza perturbadora.
Não, a verdade me seduzia desde antes do nascimento. Talvez eu já estivesse marcado. Hoje vivo nesse chalé afastado.
Passo os dias em silêncio, com as janelas fechadas, evitando qualquer reflexo, qualquer espelho, qualquer superfície que possa mostrar ele, porque ele está sempre comigo, às vezes em forma de sombra, às vezes na voz que sussurra enquanto escrevo. Starot não exige adoração, ele exige atenção. E eu sou seu escriba, sua testemunha, seu canal.
Às vezes sonho com uma multidão de rostos sem olhos, todos com a boca costurada. Eu caminho entre eles, segurando um livro que brilha em tons de Ambar, e sei, no fundo do sonho, que estou levando a verdade para aqueles que não podem mais falar, um portador do que não deve ser revelado. E é por isso que escrevo estas palavras agora, porque sei que há outros como eu, pessoas que sentem que algo não está certo, que há uma brecha na realidade, que ouvem sussurros na escuridão.
E para esses deixo um aviso, não busque demais, não leia tudo e nunca, jamais aceite um conhecimento que venha sem silêncio como preço. A verdade não liberta, a verdade condena e ela tem um nome, astarot.