Meus queridos irmãos, minhas queridas irmãs, iniciamos mais uma vez o nosso programa Testemunho de Fé, aqui quem fala é o Padre Paulo Ricardo. Quero acolher vocês para esta nossa meditação a respeito do Evangelho, meditação que nós fazemos todas as semanas e neste Quarto Domingo da Páscoa, queremos agora meditar a respeito da figura do Bom Pastor. O Quarto Domingo da Páscoa é conhecido como o domingo do Bom Pastor exatamente porque o Evangelho que nós lemos é sempre o Evangelho tirado do capítulo 10, do Evangelho de São João, o trecho que nos cabe meditar neste ano dos versículos 11 a 18.
Nessa parte do grande discurso de Jesus sobre o Bom Pastor, Ele fala de si mesmo, ou seja, Jesus se identifica como sendo o Bom Pastor e faz uma contraposição com um mercenário, ou seja, com aquele que não é o pastor verdadeiro. Jesus, no original grego, diz assim que Ele é o "Belo Pastor", "Kalós", em grego, a tradução bom pastor também está bem traduzido porque na língua mediterrânea, tanto no latim, principalmente no grego, essa coisa de belo e bom se confundem muito, por exemplo, no italiano, ainda hoje, se você vai comer um bom prato de macarrão eles dizem: "una bella pasta", mas se nós formos olhar mesmo o contexto do Evangelho, a gente vai notar que, no fundo, no fundo, Jesus está falando aqui do pastor verdadeiro, um pastor é bom e um pastor é belo quando é um pastor verdadeiro, e contraste é com o mercenário, o mercenário, o próprio Jesus diz, não é pastor, não é o dono da ovelha e abandona as ovelhas quando vê o lobo chegar, por que isso? Porque a característica do mercenário é que ele trabalha por dinheiro, por interesse próprio, então, nós vemos aqui que o Pastor Verdadeiro, que é Jesus, é o pastor movido pela caridade, "ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos".
Vejam, se nós pensarmos bem na figura dos nossos pastores, ou seja, os ministros ordenados, os padres e bispos que são pastores das ovelhas de Deus, nós iremos ver como é que Jesus preparou os seus bons pastores, todos os apóstolos depois terminaram derramando o seu sangue, como bons pastores, deram a vida pelas ovelhas, com exceção de São João Evangelista que viveu seu martírio aos pés da Cruz de Cristo, junto com a Virgem Maria. Mas, como foi que Jesus levou estes homens, inicialmente medrosos, que saíram correndo no Horto das Oliveiras, que negaram Jesus, como é que Ele fez para que estes homens se tornassem bons pastores e não mercenários? Bom, em primeiríssimo lugar, Jesus lhes serviu de exemplo: ao morrer na Cruz, Nosso Senhor nos livrou de nossas misérias, ali o próprio São Pedro, que é o Príncipe dos Apóstolos, o primeiro dos Apóstolos, nos recorda isso na sua Primeira Carta, no capítulo 2, no finalzinho do capítulo 2, ele diz assim que "Cristo padeceu por vós, deixando-vos exemplo para que sigais os Seus passos" e São Pedro está falando para os seus fiéis, não está falando para padres e bispos, mas é evidente que aqui o primeiríssimo que ele tem em vista ao falar disso aqui são os próprios padres e bispos e ele mesmo, "Ele não cometeu pecado e nem achou falsidade em Sua boca", como é que São Pedro deve ter escrito isso aqui, ele que pôs falsidade em sua boca quando negou Jesus diante da empregada, da serva de Caifás: "Eu não O conheço", aqui é quase que uma confissão, São Pedro está falando como ele não foi pastor, como foi mercenário, como fugiu diante do lobo, ali na corte de Caifás, mas ele professa a fé em Jesus, o servo profetizado em Isaías, no capítulo 53, "Ele não cometeu pecado, nem se achou falsidade em sua boca.
Ele, ultrajado, não retribuía com idêntico ultraje, Ele, maltratado, não proferia ameaças, mas entregava-Se àquele que julgava com justiça", vejam só esse versículo 23, do capítulo 2 da Primeira Pedro, ele está descrevendo o Cristo pastor, mas o que ele está descrevendo? Está descrevendo o Cordeiro vítima. Se nós quisermos ser bons pastores, precisamos ser o cordeiro que se oferece como vítima, vejam que coisa linda!
E eu estou dizendo isso aqui fazendo essa meditação, claro, você vai dizer assim: "Mas, padre, tudo bem, mas o senhor está falando isso, vai lá falar para os padres, vai falar para os bispos, para mim não, eu sou leigo, o que eu tenho a ver com isso? " Bom, duas coisas, primeiro você tem obrigação de rezar pelos padres e bispos para que nós sejamos aquilo que deveríamos ser: vítimas, como Cristo Bom Pastor foi o Cordeiro Imolado; segundo, você tem que entender que todo cristão é, de alguma forma, pastor, porque você recebe pessoas para pastorear também, você que é pai, mãe de família, você não é pastor dos seus filhos, não tem a obrigação de levar os seus filhos para o céu? E como você vai levá-los?
Você vai usar, digamos assim, um jogo retórico, vai fazer um curso de marketing? Não, ou você se entrega, ou você derrama o seu sangue para a salvação dos seus filhos ou não vai ter, não vai funcionar. Então é isso, "Ele carregou os nossos pecados em Seu corpo sob o madeiro, para que mortos para os nossos pecados, vivamos para a justiça", então vejamos como é que Jesus conseguiu fazer bons pastores, Ele morreu na Cruz, para que mortos para os nossos pecados, vivamos para a santidade, a Palavra.
A palavra justiça aqui, é aquilo que nós entendemos por santidade, mortos para o pecado vivamos para a santidade, Ele morreu, essa morte que nós vivemos no dia a dia, quando somos chamados a morrer para nossas vontades, nossos caprichos, nossas veleidades, essas pequenas mortes ou grandes mortes, por que, não sei, não sei que tipo de sofrimento você está passando na sua vida, pode ser que seja grande, pode ser que seja pequeno, mas essas mortes que nós vivemos, as vivemos unidos ao Cristo sofredor para que, mortos para os pecados, vivamos para a santidade, "por Suas chagas fomos curados. Vós ereis como ovelhas desgarradas, mas agora retornastes ao pastor e guarda das vossas almas". Quando Jesus foi entregue aos seus algozes, se cumpriu aquela profecia: "Para que, golpeado, atingido o pastor, as ovelhas se dispersem", sim, nós somos ovelhas desgarradas, errantes, e nós, que saímos fugindo, não são só os mercenários que fogem, também as ovelhas fogem, desgarradas, assustadas, amedrontadas, nós agora olhando para Cruz de Cristo e para a glória da Sua vitória de Ressuscitado, somos atraídos e podemos retornar, nos converter, "eratis enim sicut oves errantes sed conversi estis nunc", vocês eram como ovelhas errantes, desgarradas e agora vocês se converteram, voltaram para o pastor e guarda de vossas almas, para o pastor e "bispo" de vossas almas, a palavra que está no original grego é "episkópos", o que é o episkópo, o que é um bispo?
O episkópo epi, sobre, skópen, ver, é o supervisor, é aquele que vê as coisas, ele está sempre olhando, esse olhar providencial, bondoso, ele guarda as nossas almas com o olhar, é próprio do pastor, o pastor vai e conta as ovelhinhas, uma por uma, "está faltando uma", está sempre olhando, todo pastor tem que ser bispo, tem que ser episkópos, tem que supervisionar as ovelhas, tem que guardar, é o guardião com aquele cuidado, então, vejam como Pedro, na sua Primeira Carta, mostra Jesus, o Bom Pastor e quase ele está batendo no peito e dizendo: "Puxa vida, que pastor miserável, de meia-pataca eu fui", então, é assim que nós vemos Jesus como grande exemplo, "Ele deu-vos o exemplo", diz São Pedro, "dando-vos o exemplo para que sigais os seus passos", vamos seguir os passos do Bom Pastor, "nós éramos ovelhas errantes, perdidas", então vamos seguir os passos Dele, os passos do Bom Pastor é o seguinte: Ele deu a vida, quando São Pedro vai descrever o Bom Pastor, o que ele descreve? Ele descreve o Cordeiro, Aquele mesmo Cordeiro do Apocalipse que segue as ovelhas, as ovelhas seguem o Cordeiro, essa é a ideia. Lá no Livro do Apocalipse, no capítulo 7, São João, o mesmo autor desse Evangelho que nós estamos aqui, nos mostra exatamente isso, que o Cordeiro, imolado, mas de pé, que está no meio do trono, Ele é o Pastor, Apocalipse 7-16, "Agnus, qui in medio throni est, pascet illos", apascenta, "e levará para fontes de água vida e enxugará toda lágrima de seus olhos".
Então, veja, o Cordeiro é aquele apascenta, então vejam como é que o Bom Pastor, qual é o perfil do Bom Pastor? O perfil do Bom Pastor é o perfil do Cordeiro Imolado, é contraditório, parece estranho isso, mas é Cordeiro ou é Pastor? É exatamente isso, se você é verdadeiro pastor, você dia a vida pelas ovelhas e, portanto, você é vítima, isso é uma coisa importantíssima do sacerdócio católico, muita gente não entende e o pessoa, assim, critica, tem gente que fala: "Ah, pra quê esse negócio de celibato de padre, pra que padre tem que ser celibatário, pode ser uma coisa mais funcional, mais moderna, a gente contrata umas pessoas para serem uns funcionários, são uns servidores da comunidade, como fazem os pastores protestantes, pastor protestante é contratado, tem lá um grupo de pessoas que congrega, vão lá, veem o pastor e contrata o pastor", porque o pastor para os protestantes é um servidor da comunidade, para nós, católicos, o pastor não é um servidor da comunidade, ele é uma vítima, uma vítima imolada, não é a toa que nós padres uma batina preta, isso aqui não é uma roupinha bonitinha, é uma mortalha, é um homem que morreu, eu fico assim meio chateado quando eu vejo alguns seminaristas e padres jovens usarem a batina como uma espécie de fantasia de um baile solene, entendeu, eles vão lá na Igreja, usam aquela batina, etc e tal, se apresentam para o povo, depois vai na casa paroquial, tira a batina, põe uma camisete e vai para a vida.
Não, a batina não é isso, a batina não é uma roupa de gala, de apresentação social, de representação social, a batina fala da minha imolação e é exatamente por isso que tem tanta confusão, tanta divisão na Igreja entre os padres mais tradicionais, conservadores, padres mais voltados para a sensibilidade social, da Teologia da Libertação, por que esta divisão dentro da Igreja Católica hoje em dia? Porque nós perdemos a dimensão do sacerdote vítima, então, de fato, de fato se o padre não é vítima, não se entrega pela salvação das ovelhas, de fato é uma estrutura de poder, uma estrutura de poder que pode ser opressora, onde o sujeito é ordenado e a primeira coisa que ele quer é um carro novo, a primeira coisa que ele quer é status, então, de fato aí o pessoal da crítica marxista não tem razão, mas têm razões, ou seja, tem que criticar mesmo esses padres jovens que fazem do sacerdócio um status e não é a toa que tantos padres jovens com pouquíssimo tempo de sacerdócio já desanimam e desistem, a razão é muito simples: se você não está morrendo por ninguém, o sacerdócio não tem sentido, o sacerdócio católico perde o sentido, por quê? Porque o padre é pai, não é isso que a gente chama "padre", que quer dizer pai?
E o que é um pai? O pai é um sujeito que derrama o sangue dele para levar o filho para o céu, a Igreja é uma família e o padre é que dá a vida, aliás, você que é leigo e pai de família, você tem que dar a vida também, cara, o que é isso? Por que as famílias estão se desagregando hoje em dia?
Porque o sujeito casa e daqui a pouco ele está: "e eu, como é que eu fico? ", entendeu? Você se casa, mas não são dois amores que se unem para levar os filhos para o céu, você também é mercenário quando se casa por interesse, quando você acha que a sua família vai fazer você feliz, isso é uma tolice, você tem um sacerdócio também, você também tem que ser pastor da sua família e dar a vida, um pai é isso, então isso é uma questão de maturidade humana e espiritual, nós temos que nos compreender como pessoas que entregaram a vida, eu como sacerdote e você aí, leigo, me ouvindo, você tem que dizer isso de você mesmo, o que é um homem maduro?
Um homem maduro é um pai, ou seja, um homem que vive para os outros, que dá a vida pelos outros. O que é uma mulher madura? Uma mulher madura é uma mãe, ou seja, uma mulher que vive para os outros, que dia a vida pelos outros, então, a gente tem que parar com esse dodoizinho, essa coisinha de.
. . Se a gente não é vítima de amor, sabe o que termina sendo?
A gente termina sendo vitimaste, esse é o problema, a gente vai ser vitimasta. Então esse domingo do Bom Pastor tem uma mensagem para todos nós, uma mensagem para os padres, mas uma mensagem também para os leigos que são pastores de suas famílias: se você quer ser pastor, precisa ser vítima. "O Bom Pastor é aquele que dá a vida por suas ovelhas", então, por que a gente tem que dar a vida?
Tem um versículo muito importante neste capítulo que, infelizmente não será proclamado no Evangelho desse domingo, é o versículo imediatamente anterior ao Evangelho, é o versículo 10, Jesus diz assim: "Eu vim para que tenham vida", sim, é isso, Jesus veio para que nós tenhamos vida em abundância, essa vida lá no original grego é "zoé", Ele veio para nos dar a vida eterna, não é a vida biológica, porque o pastor Jesus dá a Sua vida, ou seja, Ee entrega a vida em sacrifício na Cruz, mas a vida que Ele entrega em sacrifício na Cruz é a Sua vida humana, essa vida biológica nossa aqui, Ele se entrega em sacrifício, mas para nos dar uma outra vida, uma vida com V maiúsculo, uma vida que é zoé, vida eterna. Agora, um mercenário vai fazer isso? Aliás, nem nós dando as nossas vidas pelos nossos filhos vamos ser capazes de fazer isso, nós temos de nos unir a esse Bom Pastor porque essa Vida eterna aí é uma graça, então, a gente se entrega, a gente se doa, se doa no amor, então o diferencial aqui está no amor, gente, a coisa está no amor, na entrega, chegar e dizer: "Ele me amou e Se entregou por mim, e eu preciso, se eu creio realmente nessa entrega, também preciso me entregar por Ele, me entregar de volta", e a forma de eu me entregar para Jesus é bem concreta, é nos outros, é naquelas que são as minhas ovelhinhas que Deus me confiou, eu como padre, você como leigo, todos nós temos umas ovelhinhas para levar para o céu, a gente vai, se une ao Cristo na Cruz e aí o nosso sofrimento que é tão inútil, tão ridículo às vezes, recebe uma eficácia que vem do céu, a Vida plena.
Quando a gente se une a Jesus, o nosso sofrimento estéril fica fecundo e gera a Vida eterna, se a gente não se une a Ele aí tudo bem, é só derramamento de sangue inútil. Então vamos lá, não desanimemos, vamos nesse domingo do Bom Pastor nos entregar pelas nossas ovelhas e quero aqui, sei que o tempo do nosso programa já estes se esgotando, eu não queria terminar esse programa sem dizer uma palavra para as mães espirituais que se entregam pelos sacerdotes como vítimas, por quê? Porque se sacerdote tem que ser vítima, para você conseguir servir a Deus tem que ter muita gente rezando, então, tem muitas destas santas mulheres que, seguindo o exemplo de tantas santas ao longo da história, se entregam como vítimas pelos sacerdotes.
Então, quero concluir esse programa abençoando-as , agradecendo e dizendo um enorme Deus lhes pague, por tudo, absolutamente tudo que vocês têm feito pelos sacerdotes. Vamos lá, não desanimemos, vamos pedir a Deus mais sacerdotes, mais pastores generosos, não mercenários, que se entreguem como vítimas e você que é leigo, que é leiga, também se entregue como vítima tanto pelos sacerdotes, como mães espirituais e como também pelas próprias ovelhinhas que Deus confiou a você em sua casa. Deus abençoe.
Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém.