[Música] Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco. Bendita sois vós entre as mulheres e bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus. Santa Maria, mãe de Deus, rogai por nós pecadores, agora e na hora da morte.
Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém. Queram sentar-se?
Caros fiéis, entramos hoje no tempo da paixão, que é a preparação imediata para a liturgia do trido pascal, no tempo da paixão, que é uma continuação, um desdobramento da quaresma. Enfim, no tempo da paixão, a liturgia considera menos os nossos pecados e a necessidade de se fazer penitência para considerar mais o mistério da morte de nosso Senhor, o mistério da cruz. É por esse motivo que o tempo da paixão é um tempo de luto, porque a igreja se entristece em seus sinais litúrgicos ao recordar a conspiração dos fariseus para conduzir Jesus Cristo até a morte.
Nesse sentido, a liturgia romana omite o Salmo 42 das orações ao pé do altar. Salmo que representa a alegria da alma, que sobe até o altar do Senhor para participar do santo sacrifício. Além disso, a liturgia também omite o versículo do Glória Patri na Antífona da Aspersão da Água Benta, no entroito, no salmo do lavabo e nos responsórios do ofício divino.
Mas o sinal mais importante do luto da igreja consiste em velar a cruz do altar com um pano roxo. Como ouvimos hoje no Evangelho, os fariseus pegaram em pedras para apedrejar nosso Senhor e por isso ele teve que ocultar-se e sair do templo, pois ainda não tinha chegado o momento em que Jesus Cristo glorificaria o Pai no sacrifício da cruz. A cruz velada representa o eclipse da glória de nosso Senhor.
Pois Jesus Cristo se oculta e foge dos fariseus. Da mesma maneira, a igreja também cobre as imagens dos santos, pois não convém que a glória dos santos esteja visível em nossos altares se a glória de nosso Senhor está oculta. aos nossos olhos.
Não obstante, nós podemos extrair desse sinal litúrgico uma interpretação bastante oportuna para as nossas almas, uma interpretação espiritual bastante oportuna. Afinal de contas, caros fiéis, nosso Senhor se oculta não apenas dos fariseus que querem conduzi-lo à morte. Nosso Senhor se oculta também de nós.
De fato, ao final de cada missa, após ter dado a bênção, o sacerdote proclama o prólogo do Evangelho de São João e nós ouvimos a cada vez aquelas tremendas palavras do evangelista. Imprópria venite eti e eu não receber. O verbo veio para o que era seu, mas os seus não o receberam.
Nosso Senhor veio para o que era seu, porque o motivo da sua encarnação, o motivo da sua descida ao mundo era exercer misericórdia para com o gênero humano. Como lemos no Evangelho de São João, Deus não enviou seu filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele. Na verdade, Deus não estava obrigado a exercer misericórdia, uma vez que a graça é sempre um dom gratuito.
Deus nos dá a sua graça por um excesso da sua bondade, não por direito da nossa natureza. E uma vez que perdemos a graça, poderíamos tê-la perdido para sempre, sem que Deus estivesse obrigado a exercer misericórdia. No entanto, ainda que Deus exerça misericórdia por um excesso de bondade do seu coração, ainda que ele nos dê a oportunidade de recuperar a graça que perdemos pelos nossos pecados.
Essa misericórdia não consiste numa mera suspensão das nossas dívidas, como se Deus anulasse o nosso pecado sem exigir a devida reparação. Nada disso, caros cientes. Deus não faz pouco caso dos nossos pecados.
Não é assim que ele exerce misericórdia. Como explica o padre João Nicolagrou, Deus não pode nada aprovar, nada escusar e nada deixar impur que seja contrário à santidade. Deus não pode nada aprovar, nada escusar e nada deixar impur que seja contrário à santidade.
Em outras palavras, Deus é santidade. Deus ama infinitamente a sua santidade. E por isso ele não poderia aprovar nenhum pecado, nem o menor deles.
Ele não poderia escusar nenhum pecado, nem o menor deles. Ele não poderia deixar impune nenhum pecado, nem o menor deles. Se Deus deixasse impune um único pecado, ele não amaria a sua santidade com amor infinito.
O amor à sua santidade exige que Deus seja zeloso contra o pecado. Por amor à sua santidade, Deus tem um ódio infinito ao pecado, porque o o pecado se opõe à santidade. Então, Deus não pode nada aprovar, nada escusar e nada deixar impune que seja contrário à santidade, como ensina o antigo jesuíta.
Isso significa, caros fiéis, que quando Deus exerce misericórdia, quando Deus usa de misericórdia, ele não suspende a nossa dívida. Ele não faz pouco caso do nosso pecado, como se o pecado fosse um nada, uma ninharia, uma bobagem a ser esquecida e relevada. Nada disso.
Na verdade, quando Deus usa de misericórdia para conosco, essa misericórdia significa que Deus nos concede a graça de reparar os nossos pecados, fazendo a devida penitência pelos nossos pecados. Ou seja, a misericórdia de Deus consiste numa nova oportunidade que a providência nos dá para cumprir a justiça, para reparar a ofensa pela união das nossas boas obras aos méritos infinitos da paixão de nosso Senhor. A misericórdia não é uma simples suspensão das nossas dívidas.
A misericórdia consiste na graça de poder cumprir toda a justiça em união aos méritos infinitos da paixão de nosso Senhor. Mas como diz São João no prólogo do seu evangelho, o verbo veio para o que era seu, mas os seus não o receberão. Nosso Senhor veio para exercer misericórdia para com o gênero humano.
Veio para realizar a obra máxima da redenção, que é o mistério da sua paixão e morte sobre a cruz, mas os seus não o receberam. Ora, que há tantos e tantos homens que vivem na ignorância de Deus, que vivem no ateísmo prático, como se Deus não existisse, que vivem na mais completa irreligião. Nada disso é novidade, nada disso nos surpreende.
Grande escândalo. A grande tragédia é aquela que São João expõe no seu evangelho. O verbo veio para o que era seu, mas os seus não receberam.
Em outras palavras, a máxima ofensa a Deus não vem dos homens que vivem na ignorância da nossa santa doutrina, que vivem no ateísmo prático, que vivem na mais completa irreligião. A máxima ofensa, a ofensa que mais fere o coração de nosso Senhor, é a ofensa dos seus filhos. É a ofensa das almas privilegiadas, as almas que receberam mais graças, as almas que foram chamadas a uma maior santidade de vida.
Então, somos nós, caros fiéis, somos nós que não recebemos nosso Senhor por causa dos nossos pecados. E isso fere mais o coração de nosso Senhor do que todos os pecados dos mundanos. Porque nós fomos agraciados com o título de filhos adotivos de Deus.
pelo batismo. Nós somos coroados de graças e mais graças porque conhecemos a Santa doutrina católica. Não vivemos na ignorância da revelação divina.
Nós somos almas privilegiadas que nosso Senhor conduziu até o manancial da santidade, que é o rito romano tradicional, o mais venerável dos ritos católicos. Portanto, somos nós que não recebemos nosso Senhor e isso fere mais o seu coração do que todos os pecados dos mundanos. Nós já sabemos que nosso Senhor veio a esse mundo para exercer misericórdia para com o gênero humano.
Porém, dentre os incontáveis pecados que possamos cometer em nossa vida, um deles manifesta malícia particular. Um deles consiste numa recusa à misericórdia, ou melhor, num desprezo da misericórdia. Esse pecado, caros fiéis, tem um nome?
Trata-se da presunção da misericórdia. Ora, não há pecado que mais nos afaste da misericórdia do que a presunção da misericórdia. O motivo é muito simples.
O presunçoso se apoia na bondade de Deus. O presunçoso se apoia na misericórdia de Deus para continuar pecando, julgando que terá tempo para se arrepender ou então que terá tempo para se confessar. No entanto, nada mais contrário à misericórdia de Deus do que o pensamento dessa natureza.
Nós sabemos que a misericórdia não consiste numa mera suspensão da nossa das nossas dívidas, como se Deus anulasse o nosso pecado sem exigir a devida reparação. Muito pelo contrário, a misericórdia consiste numa nova oportunidade que a providência nos dá para cumprir a justiça, para reparar a ofensa pela união das nossas boas obras aos méritos infinitos da paixão de nosso Senhor. Portanto, nada mais contrário à misericórdia do que a presunção da misericórdia.
O presunçoso, ao invés de reparar o pecado, decide aumentar a sua dívida, apoiando-se na bondade do próprio Deus para continuar pecando. Porém, quando uma alma peca contra a misericórdia de nosso Senhor, quando uma alma cai na presunção da misericórdia, antes ela precisou conhecer essa misericórdia. Antes ela precisou conhecer que a misericórdia de Deus é infinita.
Ela precisou conhecer que Deus pode perdoar todo e qualquer pecado. Ela precisou conhecer que nosso Senhor veio a esse mundo precisamente para exercer misericórdia. Em outras palavras, um pagão, um ignorante, uma alma que vive no ateísmo prático ou na irreligião, não teria a mesma malícia que um católico que cai na presunção da misericórdia.
Pois esse católico usa de toda a ciência que ele adquiriu na doutrina católica, não para amar a Deus de toda a sua alma, não para reparar os pecados cometidos, não para evitar novos pecados, mas para continuar pecando, apoiado ilusoriamente na misericórdia de Deus. a ilusão de que depois, depois ele poderá se arrepender e se confessar o que não é garantido a ninguém. Mas a presunção da misericórdia é ainda mais abominável do que aparenta ser.
Na verdade, caros fiéis, todo pecado mortal, todo pecado grave possui sempre dois aspectos. Por um lado, o pecado mortal consiste num apego desordenado a uma criatura, uma certa idolatria de uma criatura em quem em quem procuramos repousar como se ela fosse o nosso fim, o sentido da nossa vida. Por outro lado, o pecado mortal consiste numa aversão a Deus, num desprezo de Deus.
que é deshonrado pelo apego perverso do pecador a uma criatura qualquer que ele erige em ídolo. Ora, na criatura humana, o primeiro aspecto do pecado tem primazia com relação ao segundo. Ou seja, em geral, a criatura humana comete um pecado mortal, sobretudo por causa do seu apego desordenado a uma criatura qualquer.
compensação na criatura demoníaca, nos anjos caídos, é o segundo aspecto que tem primazia com relação ao primeiro. Ou seja, para o demônio, o pecado é sobretudo um ato de revolta contra Deus, um ódio manifesto a Deus, ódio que a maioria dos homens não ousa sequer pensar. quando cai num pecado mortal.
No entanto, o que faz uma alma que cai na presunção da misericórdia? Ou seja, uma alma que se apoia na misericórdia de Deus para continuar pecando, julgando que terá tempo para se arrepender ou então que terá tempo para se confessar? Muito simples.
Essa alma faz um cálculo. Essa alma calcula. Essa alma decide.
Ela toma a resolução de continuar pecando, mesmo sabendo que se trata de uma ofensa a Deus. Então, ela não pode dar a desculpa que pecou por fraqueza, pois o seu pecado está longe de ser uma fraqueza. Trata-se de um cálculo.
Ela decidiu ofender a Deus e decidiu continuar a ofendê-lo até certo tempo de sua vida. Portanto, para uma alma que cai na presunção da misericórdia, o aspecto mais diabólico do pecado ganha um peso maior. Porque, como sabemos, não se trata de um pecado de fragilidade, um pecado de fraqueza, e sim de um pecado de malícia, que inclui um cálculo.
A alma peca com perfeita ciência da ofensa a Deus, mas ela se apoia diabolicamente na misericórdia de Deus para continuar a ofendê-lo. Ao presunçoso se aplica aquela repreensão que nosso Senhor faz no Evangelho da missa aos seus inimigos. Vós tendes como pai o demônio e quereis fazer os desejos de vosso pai.
Em outras palavras, o pai, o autor desses pensamentos de presunção da misericórdia é o próprio demônio. Quanto mais uma alma se entrega à presunção da misericórdia, mais ela cede a uma sugestão diabólica, mais essa alma se torna semelhante ao demônio em razão da malícia crescente do seu pecado, que não é o mero pecado de fraqueza. Portanto, caros fiéis, sejamos bastante realistas.
em nossa vida espiritual. Se continuamos cometendo pecados mortais, pecados graves, apoiados na misericórdia de Deus, nós ferimos o coração de nosso Senhor de um modo que sequer os pagãos seriam capazes de ferir, porque usamos de toda a ciência que adquirimos na doutrina católica para continuar pecando. Além disso, a presunção da misericórdia dá um peso maior à aquele aspecto do pecado que é dominante nos demônios, ou seja, o desprezo de Deus.
Porque a presunção da misericórdia consiste na decisão, no cálculo de continuar ofendendo a Deus até certo tempo de nossa vida. A diferença entre o presunçoso e os demônios é que os demônios estão confirmados no seu estado de condenação, enquanto que o presunçoso pretende se arrepender antes da condenação. O presunçoso conta com a misericórdia de Deus para dispor de tempo e de meios para evitar a impenitência final.
Ou seja, o presunçoso quer fazer do próprio Deus um cúmplice do seu pecado, o que é a máxima das afrontas. É por isso que nosso Senhor se oculta de nós, assim como ele se oculta dos fariseus que pretendem conduzi-lo à morte. Porque a presunção da misericórdia nos priva dia após dia de uma torrente de graças que nosso Senhor reserva aos seus filhos, a aqueles que ele lavou pela água salutar do batismo.
Então essa é a tragédia do presunçoso caro fiéis. Quanto mais ele se apoia na misericórdia para continuar pecando, mais ele esgota as suas chances. de usufruir dessa misericórdia, menos ele dispõe de luzes e de graças para detestar o seu pecado e tomar o propósito firme de não mais o cometer e de evitar as ocasiões próximas de pecado.
É verdade que uma alma pode cair na presunção da misericórdia para cometer pecados veniais e não mortais. Porém, quanto mais uma alma é privilegiada, quanto mais graças ela recebeu da providência ao longo da sua vida. Um simples pecado venial pode pesar mais no coração de nosso Senhor do que um pecado mortal cometido por um pagão, por uma alma que vive na irreligião?
Porque nesse caso, esse pecado venial revela uma ingratidão muito maior, ainda que seja apenas um pecado venial, mas que contém uma malícia muito maior, uma ingratidão muito maior. De todo modo, o simples cálculo que o presunçoso faz para continuar pecando, apoiado na misericórdia de Deus, já é suficiente para que o aspecto mais diabólico do pecado ganhe peso, ganhe mais peso naquela alma. Ou seja, o aspecto de aversão a Deus, de desprezo de Deus.
Precisamos dar um basta nesse cálculo diabólico, caros fiéis. Precisamos parar imediatamente de brincar com a misericórdia de Deus, de brincar com o sacramento da confissão, de brincar com a sacroanta paixão de Jesus Cristo. Se a nossa alma se encontra nesse estado de presunção da misericórdia, semana após semana, mês após mês, ano após ano, se nossas confissões incluem sempre ou quase sempre esse pecado, esse cálculo, então estamos perdendo tudo o que adquirimos pela penitência quaresmal.
Qual será então o nosso estado de espírito quando chegar dentro de alguns poucos dias a semana santa? O trido pascal, a renovação do mistério da nossa redenção. Como pretendemos aproveitar a semana mais importante do ano litúrgico?
Tenhamos misericórdia de nosso Senhor, que tanto sofreu para nos salvar e não merece ser ofendido com tanto cálculo pelos seus filhos bem amados. Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém.
[Música] Amiga [Música] mā porka Yeah.