Nossos gestores estão ignorando a ciência e quem paga a conta somos eu e você. Nesse episódio da série Soluções para o Brasil, eu vou te mostrar como políticas públicas, muitas vezes bem intencionadas, estão deixando a ciência de lado e podem estar recheadas de negacionismo. Você consegue me dar um exemplo de uma lei que foi aprovada, mas que não tem nenhuma base científica?
Comenta aí embaixo. Eu vou te contar situações que impactam diretamente a sua vida, te provando que política NÃO baseada em evidências é algo mais comum do que você imagina. Pode até atrapalhar o seu sono, literalmente.
A vida escolar do nosso querido Lucrécio nunca foi fácil. Apesar de hoje ele ser um doutor em engenharia química, suas notas eram péssimas na escola. Lucrécio não era nem de longe o melhor aluno e sempre passava de ano no sufoco.
A verdade é que ele tinha dificuldade para acordar cedo e se manter atento nas aulas, que começavam às 7 da manhã. Quem aí se identifica? Seus pais e professores ficavam frustrados, pensando que ele era um preguiçoso.
Mas o problema de Lucrécio era simplesmente uma política escolar que não considerava o que a ciência já sabe sobre o padrão de sono dos adolescentes. Adolescentes têm que dormir entre 8 a 10 horas por noite para que o sono cumpra suas funções. Muito além de descansar, o sono estimula a imunidade, regula hormônios e especialmente, ajuda a consolidar a memória e o aprendizado.
Mas 8 horas de sono não era a realidade de Lucrécio e ainda não é a realidade da maioria dos jovens. Um estudo feito em Fortaleza mostrou que 54% dos estudantes de 14 a 17 anos dormem menos do que o mínimo necessário. E isso se repete pelo Brasil.
O sono insuficiente em adolescentes está associado a um aumento do risco de doenças crônicas como diabetes e obesidade, prejuízo na saúde mental e redução do desempenho acadêmico. O que, no futuro, cria uma geração de adultos doentes e com baixa produtividade no trabalho. A falta de sono dos jovens hoje, impacta até na economia do país.
É por isso que inúmeras sociedades médicas pelo mundo, incluindo a Sociedade Americana de Pediatria, lutam há alguns anos para mudar o horário de início das aulas para que elas respeitem o relógio biológico dos adolescentes. Várias pesquisas já mostraram que começar as aulas mais tarde, a partir das 8 e meia da manhã, teria vários benefícios. Além de resolver a perda crônica de sono, ajudaria na saúde física e mental, segurança e desempenho acadêmico dos jovens.
Você pode até pensar que uma solução mais simples seria obrigar os adolescentes a dormir mais cedo. Afinal, “a culpa é deles que ficam até tarde no celular”, não é mesmo? Mas isso não iria funcionar, como conta o doutor em psicologia Fernando Louzada.
Quanto mais tempo a gente fica acordado a gente vai acumulando a chamada pressão de sono, uma vontade de dormir. E no adolescente essa pressão demora mais tempo pra vir. Tem discussões sobre qual seria a importância, inclusive evolutiva disso.
Mas o fato é que os adolescentes demoram mais tempo pra sentir sono. Consequentemente ao dormir mais tarde, eles deveriam ter a oportunidade de acordar mais tarde, mas em geral o horário escolar não permite. Não é uma questão apenas de hábito.
Não é uma questão apenas da organização familiar. São alterações que estão ocorrendo no cérebro do adolescente e a gente precisa lidar melhor com isso. Apesar das evidências científicas, a maioria das escolas ainda começa as aulas muito cedo.
E pouco foi feito para tentar mudar essa realidade no Brasil. Um projeto de Lei que tinha como objetivo alterar o horário das aulas para as 9h da manhã foi proposto em 2015. Para permitir a adaptação das escolas e da sociedade, nos primeiros 5 anos, as aulas deveriam começar às 08h.
Nada mal, não é mesmo? Política baseada em evidências científicas Porém, a proposta não chegou nem a ir para votação e foi rejeitada justamente pela comissão de Educação. O motivo?
A medida criaria dificuldades, não para os estudantes, mas para as famílias e professores. As aulas começando e terminando mais tarde dificultariam a vida dos pais que deixam os filhos na escola cedo, antes do trabalho, ou aqueles que buscam os filhos no horário do almoço. Também complicaria a vida dos professores que trabalham em mais de uma escola e dão aulas à tarde.
Ela mudaria o horário das empresas e até mexeria no trânsito. Mas, por mais que haja contrapontos, isso significa que devemos ignorar a questão e arrastar ela com a barriga? Devemos deixar pra lá porque a solução é complexa demais e vai envolver diversas instituições?
Por mais que o senso comum diga que quem sente sono na escola é um preguiçoso, já que “Deus ajuda quem cedo madruga”, estudantes vão continuar com problemas escolares e até de saúde, se continuarem tendo aulas às 7 da manhã. Quando um gestor escolhe ignorar evidências científicas ao tomar decisões, de uma forma ou de outra, ele está tendo uma atitude negacionista. E todos nós saímos prejudicados.
Mas agora, eu quero te contar o que está acontecendo na área da medicina, onde tratamentos que já foram até refutados pela ciência estão virando lei. Sejam bem-vindos à era onde o negacionismo sobrepõe a ciência. Quando você vai ao médico, você espera que ele esteja atualizado para te recomendar o melhor tratamento disponível, certo?
Mas, infelizmente, nem sempre é o que acontece. Existem grandes chances de você sair do consultório com um tratamento que não funciona, e o mais bizarro é isso ser recomendado no sistema público de saúde, com o dinheiro dos nossos impostos. Você já recebeu recomendação de usar um remédio homeopático, terapia de florais, óleos essenciais ou mesmo ozonioterapia?
Pois é, essas são terapias que se fossem recomendadas pra mim, me deixariam com um pé bem atrás com aquele profissional de saúde. Elas são exemplos de PICS, as práticas integrativas complementares. As PICS começaram a ser aplicadas no SUS em 2006 e englobam hoje 29 terapias baseadas em conhecimentos supostamente tradicionais.
A ideia é que elas poderiam complementar a medicina moderna, cobrindo todos os aspectos da saúde do indivíduo, até mesmo o espiritual. Faz sentido, já que a própria OMS considera que para ser saudável é preciso bem-estar físico, mental e social. Mas na prática não é bem assim.
O problema começa quando tentam colocar todas as PICS em uma mesma lista. É como ter um saco cheio de frutas deliciosas, mas algumas estragadas podem contaminar o resto. Dentro do saco das PICS nós encontramos tratamento fitoterápico como o própolis, que comprovadamente diminui o tempo de sintomas de pessoas com resfriado.
Temos yoga, que se mostrou efetiva contra dor lombar e dor cervical. E acupuntura que pode sim ser um tratamento auxiliar para dor crônica. Mas nesse mesmo saco temos a imposição de mãos, uma prática que promete curar dores ao transferir energia das mãos do terapeuta para o paciente, mas que não passa disso promessa sem nenhum embasamento na ciência.
A verdade é que a maioria das práticas que estão no saco das PICS não tem estudos suficientes para comprovar sua eficácia. Temos até práticas comprovadamente ineficazes como a homeopatia para câncer, asma, diabetes, gastrite, gripe, Alzheimer, TDAH. .
. O saco das PICs está é cheio de fruta estragada e só algumas salvam. Mesmo assim, de forma inexplicável, o Ministério da Saúde se orgulha das mais de 9300 Unidades Básicas de saúde que oferecem várias PICS, incluindo PICS sem comprovação nenhuma.
Mas como algo tão surreal pode ser motivo de comemoração? Foi isso que eu perguntei pro Léo Costa, fisioterapeuta e especialista em prática baseada em evidências. Existem documentos do Ministério da Saúde que fala como foram constituídas as PICS para entrar no SUS.
Basicamente foi um grupo de associações que representavam essas práticas, então Associação de ozonioterapia, associação de acupuntura, assim por diante. Eles sentaram na mesa, bateram um papo literalmente, isso etá escrito lá, e dali eles entregaram uma carta de intenções para o ministério da saúde que homologou aquilo tudo, a despeito da evidência. Então eles têm referências de livros, tem referência de artigo que fala que não funciona mas foi colocada assim mesmo, etc.
Então a impressão que passa é que foi aprovado um pacotão, de tratamentos, muitos deles completamente desprovido de evidência. É como se vivêssemos um negacionismo velado, especialmente daqueles que têm voz para pressionar por uma solução. A Anvisa, que tem como objetivo proteger a saúde da população e ser protagonista no controle sanitário lavou suas mãos e decidiu não se comprometer.
Desde 2014 ela tem uma resolução que simplesmente diz que produtos da medicina tradicional chinesa, um tipo de Prática Integrativa Complementar não precisam de registro e aprovação para serem comercializados. Sim, a mesma Anvisa que é extremamente rígida com remédios e vacinas, acha que não precisa analisar a segurança disso aqui. Cápsulas para diminuir ansiedade e estresse, que contêm substâncias sem comprovação científica e que se multiplicam na prateleira das farmácias.
Quem já viu isso por aí? Quantas pessoas estão tomando isso ao invés de procurar atendimento psicológico? E esse é só um exemplo.
Calma que piora. Em 2022, a Anvisa anunciou que pretende isentar de registro todos os produtos alternativos, não apenas os da medicina chinesa. A alegação é a mesma para todos.
Produtos da medicina alternativa não seguem o método científico e não seria possível fazer a avaliação tradicional da Anvisa neles. Estranho. Será mesmo que não é possível fazer um estudo e testar se uma terapia funciona?
É 100% possível fazer estudos clínicos de alta qualidade para Práticas Integrativas Complementares. Tanto é possível que tem! Existem excelentes ensaios controlados aleatorizados de acupuntura por exemplo, de tai chi chuan, por exemplo, de yoga.
Não há razão, tanto não há que existem os estudos. Então eu acho uma fala descabida imaginar que não é possível examinar. E se não é possível pesquisar, você não poderia oferecer isso para a população.
A Anvisa e o Ministério da Saúde, ao relaxarem as regras para todas as PICs, sem qualquer critério, legitimam tratamentos sem eficácia e criam para si mesmos uma conta que vai chegar lá na frente. Por exemplo, tem estudo mostrando que pacientes com câncer que usam tratamentos alternativos são mais propensos a recusar tratamentos convencionais comprovadamente eficazes. A consequência pra eles é um risco 2x maior de morte e maior custo para o sistema de saúde.
Nós continuaremos financiando essa armadilha? O próprio Conselho Federal de Medicina, em 2018, lançou uma nota contra essas práticas integrativas, afirmando que "a aplicação de verbas nessa área onera o sistema, é um desperdício e agrava ainda mais o quadro do SUS com carências e faltas". Como fazer com que nossos tomadores de decisão de fato considerem a ciência ao fazer leis e políticas públicas?
Como acordar desse pesadelo? A caminhada para vencer o negacionismo nas políticas públicas começa com mais cientistas na política. Seja para discutir desde o horário das aulas, até para informar quais terapias devem ser adotadas no SUS.
Cientistas são pessoas treinadas para entender profundamente os problemas e encontrar soluções. Eles precisam estar mais envolvidos na formulação de projetos de lei, como políticos, ou de forma indireta, assessorando quem está no poder. Criar comitês de avaliação que incluam cientistas para discutir problemas reais já seria uma baita solução para o Brasil.
Teríamos garantia de que as decisões tomadas foram baseadas em evidências e não em concepções erradas e interesses pessoais. Pra você entender o que eu quero dizer, é só olhar para o que acontece na política hoje. Para aprovação de leis, um projeto passa pela comissão de orçamento e pela comissão de constituição e justiça.
Até existem comissões temáticas, compostas por alguns deputados e senadores especializados em algumas áreas, mas a presença de cientistas não é obrigatória. E se em toda comissão temática participassem cientistas capazes de avaliar se a justificativa daquele projeto de lei é realmente baseada em evidências? Hoje a ciência é deixada de lado, na maioria dos casos.
Até mesmo onde ela é extremamente importante. Até 2022, existiam mais de 140 projetos de PICS tramitando no Congresso, ou 10% de todas as propostas ligadas ao SUS. Certamente existem projetos de práticas sem comprovação científica que serão votados e podem virar lei.
Isso nos custa tempo e dinheiro que poderiam ser usados para o que realmente tem fundamento. Por exemplo, a mudança do horário das aulas, ou o maior acesso de pessoas com a saúde mental debilitada a psicólogos do próprio SUS. Mas enquanto isso não acontece, o que eu e você podemos fazer, além, é claro, de votar em candidatos que valorizam a ciência?
Eu acho que as pessoas podem fugir de falsas promessas caindo no princípio básico do ceticismo. Se a promessa é boa demais provavelmente ela está errada. Eu acho que a primeira coisa disso, entendeu?
Então quanto promete uma cura infalível de alguma coisa e na contra mão pouquíssimos eventos adversos eu sinto em dizer que isso é improvável Para Não Dizer que é impossível. A ciência parece muito complicada. E eu entendo.
Eu não faço ideia de como surge uma galáxia ou como é feita a datação de um fóssil de dinossauro. Mas o que o Leo ressalta é que você não precisa ser um especialista para saber diferenciar boa ciência de mentiras. Parece difícil praticar o pensamento científico, mas a verdade é que nós já somos um pouco céticos.
Quando vamos comprar um carro usado, desconfiados, nós olhamos os pneus, abrimos o capô, chamamos o mecânico de confiança para ir junto. Afinal, o dono do carro pode estar mentindo. E às vezes nós até queremos a opinião de um segundo mecânico, para ter certeza.
Mas por que quando o assunto é a nossa saúde, o meio ambiente, a economia, nós não temos o mesmo ceticismo? Por que milhares de pessoas acreditam cegamente quando um suposto especialista recomenda um remédio em um vídeo no YouTube? Pesquisas apontam que a população brasileira sabe que a ciência é importante, mas falta descobrir como ela é feita e por quem ela é feita, para não cair em falsas promessas.
Muito se fala em regular redes sociais, uma vez que é nelas que a desinformação e o negacionismo são intensificados por bolhas de desinformação e pela facilidade de compartilhamento. E apesar desta ser uma discussão extremamente complexa para esse vídeo aqui, algo que você provavelmente concorda é que não deveríamos tolerar anúncios na página inicial do Google de um suplemento que já foi descartado como cura do câncer por diversos estudos. Da mesma forma, anúncios de produtos naturais que vocês sabem que rodam aqui nos vídeos do Olá, Ciência sem o nosso controle, claro, deveriam ser melhor fiscalizados pelo YouTube.
Você pode até denunciar, mas esse é o tipo de coisa que uma regulamentação a nível federal tem um poder muito maior de cobrir. Ainda assim, a resposta para o negacionismo se chama educação científica. Isso significa incluir aulas de pensamento científico e ceticismo no currículo escolar.
Os estudantes precisam aprender não apenas o que é a ciência, mas como ela funciona, como as evidências são coletadas e analisadas. E aqui não estou falando só de ensino básico, não pessoal. Estudantes de universidades, os nossos futuros profissionais, também precisam ser treinados para interpretar e criticar artigos científicos.
E por fim, a divulgação científica, como a que nós fazemos no Olá, Ciência ajuda você a conhecer mais sobre os problemas que cientistas estão estudando e o mais importante, como a ciência está chegando nas soluções. Inclusive, se quiser apoiar o nosso trabalho, é só se tornar um membro, clicando no seja membro aí embaixo. A partir de R$2,99 por mês, você já ajuda demais a nossa equipe a continuar entregando conteúdo para você.
Não há soluções fáceis ou rápidas para o negacionismo que infectou a nossa política. Mas parafraseando Carl Sagan, descobrir a gota da verdade no meio do oceano de confusão requer vigilância, dedicação e coragem. Só praticando o hábito rigoroso de pensar é que podemos ter a esperança de resolver os nossos problemas mais sérios e dar à ciência o lugar que ela merece na política e em nossas vidas.
Assim como precisamos dar lugar aos cuidados com a nossa saúde mental. Por que o Brasil, o país do Carnaval e berço de diversas riquezas culturais, detém o título de país mais ansioso do mundo? No próximo episódio da Série Soluções para o Brasil vamos mostrar como fazer o Brasileiro viver uma vida mais tranquila e feliz.
Um grande abraço e eu te vejo no próximo vídeo. Tchau.