Dirlene Silva: [vinheta] Educação financeira não é somente p'ras elites, não é? , que, justamente p'ra quem tem menos, vai fazer mais a diferença ainda. [vinheta] Alan Soares: "Existe uma história do negro sem o Brasil, mas não existe uma história do Brasil sem o negro".
O Brasil foi "descoberto" muito próximo de 1500 e, em 1536, começou o tráfico negreiro, o sequestro de pessoas negras do continente africano, sendo [estas] trazid[as] p'ro Brasil. De 1536 a 1888, manteve-se a escravização africana em solo brasileiro. Dirlene Silva: Os negros foram, não é?
, desescravizados, melhor dizendo, né? , mas, ao mesmo tempo, não poderiam frequentar as escolas e muito menos habitar nas cidades. Então, hoje, nós temos ainda um analfabetismo no Brasil, e a maioria desses analfabetos [é negra], não é?
Não é à toa que 70% dos pobres são negros, a pobreza tem cor. As favelas, as vilas têm cor também, porque esses negros, não é? , desescravizados, eles não poderiam morar nas cidades e eles foram habitar onde, não é?
, foram procurar lugares p'ra viver, né? , que foram as encostas dos morros, vilas, lugares que eram matagais, antigamente, desmataram e foram, né? , construindo as suas casas.
Alan Soares: De 1888 a 1934, o negro não tinha direito a voto, o negro não tinha cidadania plena no Brasil. O negro é livre, mas a igualdade, a legalidade é do branco. De 1934 até 2002, não houve [uma só] política de inserção do negro na economia.
[Em] 2002, [processou-se] a primeira política afirmativa no Brasil. Um exemplo, cotas. Luciane Reis: [Não dá] p'ra debater emancipação financeira, sem pensar [na] formação social brasileira, sem pensar [em] qual é o papel dessa formação social no que se refere à relação entre o Estado, e eu falo, as instituições, e modelos de lei, e a população negra.
Debater dinheiro, neste sentido, passa por entender um projeto de futuro e, acima de tudo, as redes de suporte p'ra construção destes futuros. Alan Soares: Se a população negra não se organizar p'ra consumir internamente, passar a ser [a dona] dos meios de produção, e organizar-se p'ra ter direitos políticos, representantes eleitos por ela, nós sempre dependeremos dessas oligarquias. Luciane Reis: Quando você se emancipa, você passa a ser cidadão considerado com capacitação plena para o exercício dos seus direitos, seja na vida civil e, neste sentido, pensar [em] como as políticas de Estado contribuíram p'ra esse processo é fundamental, sabe?
Não é novidade que independência financeira é uma ferramenta de emancipação em várias situações e que ela está ligada à autoestima. Quando você não consegue cumprir com compromissos mínimos da sua vida, você acaba tendo a autoestima relegada a segundo plano. Quando eu fui estudar sobre dinheiro, eu fui estudar sobre dinheiro, porque me inquietava não ter dinheiro, 'me inquietava, mesmo sabendo que eu tenho mestrado, especialização, graduação [e] ainda continu[ava] sendo uma pessoa disponível p'ro mercado de trabalho.
Alan Soares: A comunidade negra representa cerca de 56% da população. Ela é também 51% dos empreendedores, mas ela permeia os menores índices de desenvolvimento humano (IDH). Dos 10% mais pobres da população brasileira, 70% são negros.
Das pessoas desempregadas, 70% são [negras]. Isso faz parte de uma política, isso faz parte do racismo estrutural. Dirlene Silva: Essa lógica, né?
, precisa ser entendida, que economia e finanças fazem parte do dia a dia de todos e, principalmente, p'ras pessoas que são mais pobres, [que] precisam ter mais atenção. Por que o que acontece? A inflação sobe, né?
, os preços sobem, desvaloriza nosso salário. . .
O dólar subiu, subiu o gás, né? , subi[ram] os combustíveis, e isso vai impactar na nossa vida diretamente, e a gente precisa entender [que] o quanto a gente tem essa relação saudável com o pouco dinheiro que a gente tem [é o que] vai nos (sic) fazer a diferença. Não é que exatamente, ah, se tu [tens] dois salários mínimos, tu [vais] receber mais, sabendo educação financeira, mas tu [vais] saber gerir melhor, não é?
, os recursos p'ra que tu [consigas] viver de uma maneira melhor. Alan Soares: Entendendo a ideia dos números, [dos] juros, compostos, finanças, nós podemos mudar essa relação dentro da nossa comunidade. A ideia da educação financeira, [de] entender de negócios, o princípio [de] que esses negócios precisam ser lucrativos e [de] que nós precisamos contratar membros da nossa comunidade, porque isso é demonstração de amor e afeto, [são vitais] p'ra prosperidade dos nossos.
Dirlene Silva: E aí, quando a gente, eu costumo sempre trazer, né? , que, p'ra nós que somos pobres, investir em educação é o primeiro investimento que a gente pode fazer, porque a educação, ela tem a possibilidade de te levar p'ro próximo nível, não é? , e, a partir daí, tu [ascenderes].
E a gente consegue olhar, né? , olhando p'ro passado, olhando o agora, a gente já consegue entender que isso tem acontecido, não é? Então, levar cada vez mais o que.
. . O meu papel, né?
, eu coloco assim, o meu grande papel social é levar esse conhecimento que eu já adquiri p'ras outras pessoas, [o] que é muito importante. A educação financeira não é somente p'ras elites, não é? , que, justamente p'ra quem tem menos, vai fazer mais a diferença ainda.
Alan Soares: E eu compreendi que, se eu simplesmente dividisse esse meu conhecimento financeiro com a comunidade, eu poderia, na verdade, 'tar reproduzindo (sic) mais pessoas iguais a mim àquela época, alguém que só reproduzia a máquina de opressão. Então, o que eu tinha de aprender, de verdade, [era] me tornar negro no sentido mais profundo da palavra e, a partir daí, com consciência racial, e a partir de uma nova cosmovisão [visão de mundo], conseguir passar esse conhecimento p'ras pessoas. Luciane Reis: Então, esse debate é importante, porque, p'ra falar sobre emancipação financeira, é preciso falar sobre [o] nosso direito e, mais ainda, se podemos fazer o mesmo enquanto forma de autodefesa e emancipação pessoal.
Então, gente, pensar sobre essas coisas é entender que a resposta ao ser não (sic) nos faz pensar sobre [a] que modelo de trabalho nós estamos submetidos, esse modelo de trabalho que é violento, que é desrespeitoso, que a gente pouco tem refletido sobre se isso tem resultado ou não na nossa vida. E a gente 'tá começando uma relação muito perversa, que é a disputa de novo entre a gente, agora, p'ra ser a empresa que os brancos validam ou desvalidam. Discutir essa temática, visitar e ver os nossos intelectuais [são fundamentais], quando a gente fala de administração, formação e gestão.
Muita gente nossa já falou sobre isso! A gente não precisa se prender aos grandes intelectuais brancos, por mais que eles sejam importantes também.