Há uma carta de São Francisco Xavier a Santo Inácio de Loyola, na qual dizia que, para ele, Santo Inácio era Deus na terra. A expressão, evidentemente, pode chocar a pessoas acidamente supercuidadosas da doutrina católica. Eu uso o advérbio "acidamente", porque ninguém pode ser mais cuidadoso da doutrina católica do que São Francisco Xavier, ou Santo Inácio de Loyola, que recebeu bem a carta; carta essa que costuma ser publicada pelas editoras católicas, na correspondência de São Francisco Xavier, como uma coisa inteiramente normal.
Qual é a razão de ser dessas expressões? É que, na ordem da vocação, na ordem da graça, Santo Inácio de Loyola era mais do que São Francisco Xavier. Porque Santo Inácio de Loyola era fundador e São Francisco Xavier foi atraído à Companhia de Jesus por Santo Inácio de Loyola.
Uma vez que Santo Inácio representava - pela doutrina que dava e pela personalidade dele - um ideal que São Francisco Xavier, por vocação, devia seguir, Santo Inácio de Loyola era, para São Francisco Xavier, um representante de Deus, um símbolo de Deus, como que uma fotografia de Deus na terra. Quer dizer, São Francisco Xavier conhecia os desejos de Deus, seguindo a vontade de Santo Inácio de Loyola. Ele tinha o espírito que Deus queria que ele tivesse, tendo o espírito de Santo Inácio de Loyola.
Ele tinha a doutrina que Deus queria que ele professasse, tendo a doutrina católica. Mas, dentro da doutrina católica, tendo a doutrina com aqueles matizes psicológicos de apresentação e de insistência, que eram próprios a Santo Inácio de Loyola. O embaixador do país X no Brasil é o seu país no Brasil.
Não quer dizer que ele traga no bojo a nação inteira. É uma expressão ridícula, mas quer dizer que ele é um delegado, um representante; mais do que isso, ele é um símbolo. Olhando-se para o embaixador, vê-se a nação, quando ele está à altura de ser embaixador.
Todos os predicados da nação se espelham nele, e ele tem uma representação dada pelo país, para que ele seja a nação presente em tal lugar. Então, o ultraje feito à pessoa do embaixador é um ultraje feito à nação. Estas são noções inteiramente corriqueiras e inteiramente comuns.
Isso que se dá na ordem inferior e superior na linha da vocação, dá-se também na ordem inferior e superior na linha da graça e de outros aspectos. Por exemplo, o Papa, o Bispo, o Padre são como que Deus na terra para os católicos, na medida em que eles, com fidelidade à vocação e à doutrina católica, ensinam a verdadeira doutrina. É evidente que a Igreja é hierárquica.
Ela é constituída de duas classes: a Hierarquia, que ensina, governa e santifica, e os fiéis, que são ensinados, governados e santificados. Aqueles têm a missão de Deus de ensinar, governar e santificar, e são como Deus para aqueles que são governados, ensinados e santificados. Isso se dá também na ordem temporal.
Aqueles que, na ordem temporal, são mais do que os outros, são como representantes de Deus na terra para outros. Isso vale para as autoridades oficiais. Então, o Presidente da República, o governador do Estado, tem um papel à maneira de Deus.
Ele exerce uma autoridade cuja origem está na natureza e, portanto, é divina. Ele exerce essa autoridade sobre o público, sobre os súditos. Não se trata de saber aqui se eles pessoalmente são dignos dessa autoridade.
Eles a têm e têm o direito de mandar. E quem obedece a eles, na linha do poder que eles têm, obedece a Deus. Por exemplo, se há uma ordem da Prefeitura de não depositar o lixo no meio da rua e uma pessoa deposita, essa pessoa, de fato, não obedece a Deus.
Porque Deus quer que haja cidade, Deus quer que haja Prefeitura e quer que as ordens dos prefeitos sejam seguidas pelos munícipes. Então, desobedecer ao prefeito é desobedecer a Deus. O prefeito de uma cidade pode ser um ateu, pode ser até um comunista.
Pouco importa, enquanto prefeito, ele mandando coisas que são na linha de sua missão e próprias a ordenar a cidade para seu fim, ele deve ser obedecido, por vontade de católico. Mas não se trata apenas disso. Aqueles que têm uma situação social mais alta, aqueles que têm mais cultura, mais educação, mais tradição, que, portanto, espelham certas qualidades naturais muitas vezes ilustradas e iluminadas e reforçadas pela graça, esses são, para os que não têm, também eles como que imagens de Deus na terra.
Quer dizer, eles têm a obrigação de ter qualidades mais excelentes e têm a obrigação de manifestar essas qualidades aos que são menos, de maneira que os que são menos admirem, e admirando, se elevem. Não se elevem para imitar, mas se elevem para assimilar, o que é uma coisa diferente de imitar. A esse respeito, creio já ter falado aos senhores quanto eu sou contrário a essa organização do urbanismo moderno, que divide a cidade em bairros com classes sociais diferentes.
Então, por exemplo, Higienópolis, Jardins, Pacaembu, Sumaré, Pinheiros, só uma determinada classe; caminhos de Itaquera, só outra classe, ou quase só outra classe. Eu acho que isso evita que os que são menos conheçam os que são mais e os que são mais conheçam os que são menos; e que essa permeação de qualidades dos que são mais para os que são menos se opere normalmente. Eu fui criado no bairro dos Campos Elíseos, que era o melhor bairro de São Paulo naquele tempo.
Em frente à minha casa havia uma fileira de casas operárias. Era uma casa de esquina e, do outro lado, havia casas de minúscula burguesia, quase operária. Em diagonal, havia uma das casas mais ricas e grã-finas de São Paulo.
Tudo misturado. E assim as várias categorias se conhecem, têm oportunidade de assimilar cada uma as qualidades da outra. Qual é a diferença que vai daqui entre assimilar e imitar?
Os senhores imaginem que desfila, garboso, um batalhão pela rua. Imaginem os couraceiros desfilando. As pessoas veem aquilo e ficam animadas; elas assimilam aquele espírito.
O que quer dizer assimilar? Algo da decisão, da força, da disposição para a luta, da compenetração daquilo que é reto, direito, próprio a uma tropa militar que passa, isso é assimilado por aqueles que não são militares. Eles não vão comprar uma couraça e tomar ônibus de couraça; seria uma imitação ridícula.
Eles tomam. . .
de disfarce. E há um outro modo que é o modo justo, que consiste em tratar os operários com dignidade, mostrando a eles a grandeza que pode existir em sua condição atual, e que deve ser nurturada para que possam se elevar e, ao mesmo tempo, respeitar a hierarquia social que existe, pois cada um possui seu lugar e função dentro da sociedade. É uma hierarquia que não deve ser vista como opressão, mas sim como uma organização natural das coisas, que permite a vida em sociedade funcionar harmoniosamente.
A verdadeira justiça social não está em igualar todos, mas em dar a cada um aquilo que lhe é devido, respeitando as diferenças e as capacidades individuais. Assim, a classe mais alta, ao exercer sua função educativa, ajuda a formar e elevar as outras classes, criando uma sociedade mais coesa e equilibrada. E, por isso, devemos prezar sempre pela educação, pela cultura e pelo respeito entre as diferentes camadas sociais, para que possamos construir um futuro mais harmonioso e próspero para todos.
De mentira recíproca. Eles fingem que não percebem a desigualdade e os que são superiores fingem que não percebem também. Isso é uma hipocrisia, em que cada parte sabe que a outra está mentindo.
E, sobretudo, é um erro de doutrina, como se ambas as partes concordassem que a desigualdade é ilegítima. A desigualdade é um bem; a desigualdade harmônica, proporcionada, é justa, é um bem e devem amá-la os que são inferiores, porque eles são guiados a Deus pelos superiores. E devem amá-la os superiores, porque eles têm a alegria de representar a Deus junto aos inferiores.
E, portanto, ela deve ser vincada, deve ser marcada. Marcada como entre nós é marcada a superioridade dos sacerdotes. Se tivéssemos a alegria e a honra de ter um Cardeal entre nós, nós o trataríamos com toda a veneração que se deve às Eminências.
Mas com alegria, não é disfarçando. E se ele fosse ter camaradagem conosco e se pôr como qualquer um de nós, ele decairia em nossa consideração imediatamente.