Você não vai achar nada disso em noticiário nenhum, nem em ocorrências policiais, nem em nenhuma lista de desaparecidos, nenhuma filmagem. Já procurei, já tentei, mas eu sei o que eu vi. Eu vivi aquilo e tanto faz se você acredita em mim ou não.
Eu só quero que essa história exista em algum lugar. Preciso que alguém saiba o que aconteceu naquela noite, porque eu não acho que eu devia ter sobrevivido. Visitei minha namorada no fim de semana.
Ela morava há umas duas horas ao norte de onde moro. Então, a gente não conseguia se ver todo dia, mas eu ainda me esforçava para dedicar o máximo de tempo que eu podia a ela. Não tenho certeza se devo dizer onde moro.
Para garantir o anonimato, só vou te dizer que o terreno por aqui é variado. Algumas partes são chão seco que fica até rachando. enquanto outras são matas densas.
Estava escuro naquela noite de domingo e meu humor não era melhor do que péssimo. A gente tinha ido ver um filme e ele acabou durando muito mais do que eu esperava. No dia seguinte, eu acordaria cedo para o trabalho.
Ao olhar o GPS, antes de sair, vi que eu não ia chegar tão cedo em casa. Acontece que deu um problema com um avião durante um voo na região naquele dia e o piloto teve que fazer um pouso de emergência numa rodovia próxima. O engarrafamento era enorme.
Minha viagem de 2 horas mais que dobrou. Foi então que recebi uma notificação, um alerta de uma rota mais curta. Frustrado e desesperado, tive que seguir as instruções e sair da rodovia.
Meu GPS me levou por estradas que eu nunca tinha visto antes. Passei por ruas longas e estreitas até achar a rota principal que o GPS sugeriu. Quase chorei de frustração.
Ao chegar lá, percebi que o trânsito estava tão ruim quanto na rodovia. Só que agora era uma estrada de mão única. Aparentemente todo mundo teve a mesma ideia.
Pela janela pude ver porque eu nunca tinha estado ali. Era uma estrada vicinal muito arborizada. Galhos retorcidos e baixos bloqueam minha visão do céu, escondendo qualquer luz que as estrelas ou a lua pudessem oferecer.
Eu estava há umas 2 horas de casa e não é como se voltar fosse fazer a viagem ficar mais rápida. Então fiquei sentado, liguei meu podcast favorito e tentei aproveitar ao máximo uma situação ruim, mas meio que não dava para relaxar, a mata em volta dificultava. Era assustador, tipo como estar dentro de um jogo de terror com neblina e tudo.
Uns 30 minutos depois, do nada as caixas de som do carro pararam de funcionar. Eu estava convencido de que literalmente nada mais poderia piorar minha noite. Fiquei tão puto que riva.
Foi aí que o rádio ligou sozinho, um chiado alto, depois silêncio, depois chiado de novo. Eu tentei girar o botão, mas ele girava solto na minha mão. Tentei abaixar os vidros, mas isso também não funcionou.
Houvi um clique, eram as travas. Mexi nos botões das travas sem sucesso. Puxei as maçanetas das portas, mas elas não se moveram.
Absolutamente sem nenhum motivo. O motor do carro acelerou completamente sem meu controle. Meu carro e todos os carros naquela fila de trânsito seguiram sozinhos como carrinhos numa montanha russa.
Olhei para frente e para trás e vi os rostos dos que antes eram motoristas, agora apenas passageiros como eu, de cada lado. Estavam tão confusos quanto eu. A primeira criatura estranha apareceu depois de uns 20 minutos.
Era basicamente só uma boca. Eu realmente não sei como descrever de outra forma. Saiu do meio da floresta, uma boca babando com dentes pontudos e um milhão de perninhas embaixo, carregando o seu corpo circular em direção à estrada.
Tinha três braços, um em cada lado, esquerdo e direito, e um acima do lábio superior, saindo de suas costas. Ele saiu das árvores e se aproximou de um carro vermelho. A porta do carro abriu sozinha.
A pobre mulher lá dentro não teve chance. Eu, junto com todo mundo por perto, assisti o impotente, enquanto aquela boca abria 180º e mordia a mulher ao meio pela cintura, levando a parte superior de seu corpo primeiro. Depois, ele sugou as pernas dela como macarrão.
A floresta explodiu em gritos, pessoas batendo nas janelas de seus carros, chutando as portas. soluçando, implorando, o espetáculo horrível daquela situação impossível tinha reascendido nossas tentativas desesperadas de escapar. Não sei se o som do pânico é o motivo pelo qual todas as outras criaturas apareceram depois disso, ou se o cheiro de sangue as atraiu.
Mas mais vieram das árvores, dúzias de monstros de todos os formatos e tamanhos. Um homem sem pelos de seis pernas do tamanho de uma girafa se aproximou de uma minivã rastejando como um inseto. Ele alcançou o teto solar e pegou a família lá dentro, um por um, do mesmo jeito que você come pipoca de um saco.
Outro parecia um cavalo andando nas patas traseiras com as costas grotescamente encurvadas. A boca dele estava deformada, os dentes eram enormes e os olhos frontais inchavam do crânio. Onde suas patas dianteiras deveriam estar, havia dois membros como um louva a Deus.
Ele os usou para rasgar uma caminhonete como manteiga e fez o mesmo com o passageiro, jogando os restos de lacerados na estrada antes de pastarem suas entranhas como uma vaca na grama. Outro ainda apareceu como uma massa de vermes se contorcendo ou talvez tentáculos. Não sei se algo estava conectando tudo aquilo.
Os vidros de um carro esportivo se abriram. Aparentemente sem o consentimento do motorista, e a coisa se espremeu para dentro como um polvo. Os vidros se fecharam novamente.
Tudo que ficou visível foi a massa se contorcendo lá dentro. Eu me lembro de pensar algo estranho. Eu assisto a muitos programas sobre animais.
Eu sei que predadores têm métodos. Um guepardo persegue uma gazela. Lobos perseguem suas presas até que elas desmaiem.
Jacarés flutuam antes de atacar. Isso não era assim. Essas coisas não estavam caçando.
Elas nem estavam com pressa. Elas simplesmente saíram das árvores, foram até o carro que quiseram e se serviram. Isso não era uma caçada, era uma fila de bifet.
E então foi a minha vez. Meus vidros baixaram sozinhos. Eu ouvi antes de ver ruídos deslizantes, molhados e barulhentos vindo das árvores à minha esquerda.
Algo enorme se arrastando pela vegetação rasteira. Era uma sangue suga enorme, facilmente com 3 m de comprimento. Na frente, se é que aquilo era ao lado da frente, havia uma boca redonda e enrugada, cercada por fileiras de pequenos dentes triangulares.
Ela se ergueu pela minha janela como uma cobra prestes a atacar. Eu pude ver sua garganta. Era um buraco negro sem fim.
Era a morte. Ela se ergueu. Aquela boca circular brilhando e se contraindo, abriu mais do que eu achei possível.
Eu pensei que a morte ia me visitar naquela noite. Eu não tinha nada a perder. De qualquer maneira, me joguei pela janela.
Eu não acho que a sangue suuga esperava isso, se é que ela era capaz de pensar. Ela fez um chiado, um grito que eu ainda ouço em meus pesadelos. Eu tinha interrompido seu ataque e ela teve que torcer seu corpo deslizante, desajeitadamente, para que sua boca me alcançasse.
Eu a derrubei, caindo no asfalto ao lado dela. Um entorpecimento se espalhou pela minha escápula esquerda. Não doía, mas eu sabia que ela tinha me mordido.
Apenas uma mordida de raspão. Suas presas só me arranharam. Mas eu sabia que eu só tinha um momento para escapar.
Ou a próxima mordida ela não erraria. Eu me levantei e corri. Eu não sabia para onde estava indo.
Só corri até não ouvir mais gritos. Passei por outras dessas coisas enquanto corria. Mais criaturas monstruosas caminhando, galopando ou correndo perto de mim.
Elas não se importaram comigo porque elas iriam gastar energia caçando um homem quando uma fila inteira de vítimas presas ainda estava tão perto. Eventualmente eu cheguei de volta à rodovia principal. Eu parei um caminhoneiro, meu corpo coberto de lama, galhos e sangue.
Meu ferimento não tinha parado de sangrar, nem tinha diminuído. Ele me levou para um hospital onde os médicos conseguiram estancar o sangramento. Eu falei para eles sobre os monstros na floresta, mas óbvio que não acreditaram em mim.
Eu só parecia algum viciado louco. Ninguém que eu contei acreditou em mim. Eu verifiquei as notícias, vasculhei a internet, procurei nos jornais, nada.
Procurei no meu celular tentando encontrar aquela rota novamente no GPS, mas nada aparece. Não sei como tantas pessoas podem morrer e ninguém perceber. Alguém precisa saber disso, porque eu não tenho muito tempo, eu acho.
Tenho um braço crescendo nas minhas costas. Até a próxima. Obrigado.