Nicolas Ferreira passava pela Avenida quando viu um pai de família ajoelhado implorando para não perder seu sustento o que ele fez mudou tudo o sol já castigava Belo Horizonte antes mesmo das 8 da manhã o calor subia do asfalto Como Uma Onda invisível fazendo o ar vibrar ao redor da movimentada Avenida Afonso Pena para Carlos aquele era apenas mais um dia na batalha diária pela sobrevivência ele acordara às 5:30 da manhã como sempre preparando tudo para sair beijou a testa dos filhos que ainda dormiam abraçados em um colchão no chão do pequeno barraco onde moravam
sua esposa Ana tentava disfarçar a preocupação ao lhe entregar a sacola com as garrafas de água que ele venderia Cuidado meu amor ela sussurrou que Deus te acompanhe Carlos apenas sorriu tentando transmitir uma segurança que não sentia ele sabia que dependia daquele dia as contas estavam acumuladas a comida na despensa já escassa e os pequenos Gabriel e Sofia não entendiam porque ultimamente o prato de comida parecia menor seguiu para o centro caminhando rápido desviando dos ônibus e das pessoas apressadas quando chegou a Afonso Pena achou um bom ponto e começou sua rotina água gelada água
mineral bem geladinha anunciava com entusiasmo segurando as garrafas em uma caixa de isopor já meio gasta pelo tempo o movimento era intenso pessoas engravatados compravam outros sequer olhavam para ele cada moeda que recebia era uma pequena Vitória e ele precis de muitas para garantir um jantar decente naquela noite por volta das 11 da manhã quando o sol estava no auge Carlos sentiu uma sombra projetar-se sobre ele ao virar-se encontrou dois guardas municipais se aproximando senhor tem a licença para venda ambulante perguntou um dos guardas com um olhar frio Carl sentiu um aperto no peito Sabia
que não tinha há tempos tentava regularizar sua situação mas eram altas demais Senhor eu só estou tentando trabalhar ele disse mantendo a calma tenho dois filhos pequenos em casa isso aqui é meu sustento os guardas trocaram olhares e um deles soltou um suspiro impaciente não podemos permitir o comércio irregular vamos ter que confiscar sua mercadoria Carlos sentiu o chão desaparecer sob seus pés pelo amor de Deus não suplicou segurando firme a caixa de isopor isso aqui é tudo que eu tenho um dos guardas puxou a caixa bruscamente fazendo algumas garrafas caírem no chão e se
espalharem pelo asfalto quente Carlos ajoelhou-se recolhendo com mãos trêmulas por favor meus filhos Eles vão passar fome hoje se eu não vender sua voz embargou mas os guardas mantiveram a expressão impassível a multidão em volta apenas olhava alguns com pena outros indiferentes ninguém fazia nada foi então que uma voz firme cortou o ar isso está certo para vocês Carlos levantou a cabeça ainda de joelhos e viu um homem aproximando-se ele era jovem vestia uma camisa social e olhava diretamente para os guardas com um semblante sério algumas pessoas ao redor começaram a murmurar reconhecendo era ncolas
Ferreira engoliu seco sem saber o que esperar os guardas hesitaram por um momento Nícolas cruzou os braços observando a cena com atenção esse homem só quer trabalhar vocês realmente acham justo tirar o pouco que ele tem por que não apenas adverti-lo os guardas pareceram desconfortáveis sabiam que estavam sendo observados por muitas pessoas agora um deles pigarreou e finalmente disse tudo bem dessa vez vamos devolver mas ele precisa se regularizar Carlos não acreditou no que ouviu o guarda devolveu a caixa de isopor com as garrafas e ele as agarrou como se fossem seu maior tesouro as
lágrimas vieram sem que ele pudesse impedir Muito obrigado muito obrigado repetiu mal conseguindo respirar Nícolas se abaixou ao lado dele como é seu nome Carlos senhor Carlos apenas devolverem a sua mercadoria não é suficiente você precisa de algo melhor Carlos piscou confuso Nícolas então estendeu a mão venha comigo quero te oferecer algo que realmente Mude a sua vida Carlos hesitou por um segundo ainda processando tudo o que acontecera mas então vendo a sinceridade nos olhos de Nicolas segurou sua mão ele ainda não sabia mas aquele dia que começara como um dos piores de sua vida
estava prestes a mudar para sempre Carlos seguiu Nicolas Ferreira sem hesitar seu coração ainda batia acelerado não pelo medo mas pela estranha sensação de que algo estava prestes a mudar caminharam pelas ruas de Belo Horizonte enquanto o burburinho do centro da cidade ficava para trás Carlos segurava firme sua caixa de isopor como se temesse que que tudo não passasse de um sonho e a qualquer momento alguém pudesse arrancá-la de suas mãos novamente Depois de alguns minutos chegaram a um prédio simples mas bem organizado na entrada uma placa dizia Centro de Apoio ao pequeno empreendedor Carlos
nunca ouvira falar naquele lugar Nicolas abriu a porta e indicou que ele entrasse aqui Carlos ajudamos pessoas como você a saírem da informalidade e conseguirem trabalhar sem medo lá dentro algumas pessoas assistiam a palestras enquanto outras preenchiam formulários em mesas espalhadas pelo salão o ambiente era organizado com cartazes incentivando pequenos empreendedores a se formalizarem Carlos olhou em volta incerto ele não estudara muito e nunca mechera com burocracia eu não sei como isso funciona sentindo-se um intruso ncolas sorriu você não precisa saber nós vamos te ensinar uma mulher de terno azul se aproximou Deputado bom vê-lo
por aqui novamente disse cumprimentando Nícolas depois voltou-se para Carlos seja bem-vindo como podemos te ajudar Nícolas passou a mão no ombro de Carlos homem trabal duro para sustentar a famía mas foi impedido de vender na rua porque não tem autorização O que podemos fazer para mudar isso a mulher sorriu compreensiva podemos ajudá-lo a se cadastrar como microempreendedor individual mei ele vai poder vender sem medo de apreensão e se precisar também temos cursos gratuitos de gestão e atendimento ao cliente Carlos arregalou os olhos mas eu não tenho dinheiro para isso ncolas riu Eu sei é por
isso que vamos te ajudar antes que Carlos pudesse responder ncolas puxou o celular do bolso e fez uma ligação rápida Anderson você está no centro agora Preciso que traga um kit de ambulante aqui no escritório é para um novo empreendedor Carlos não entendia direito mas sentia algo crescer dentro dele Esperança ele não sabia que tipo de kit era aquele mas qualquer coisa já era melhor do que acordar todos os dias sem saber se conseguiria vender sem ser apreendido enquanto esperavam a mulher do Centro Comunitário trouxe alguns papéis e comeou a explicar tudo com calma Carlos
ouviu atentamente tentando absorver cada informação formalizar-se significava pagar um pequeno imposto mas em troca teria direitos não seria mais visto como um criminoso por trabalhar meia hora depois um homem de jaqueta jeans entrou pela porta carregando um carrinho de vendas novinho em folha o objeto reluzia com um espaço próprio para bebidas um compartimento térmico e até um pequeno toldo para protegê-lo do Sol Carlos se levantou sem acreditar no que via Ah isso isso é para mim perguntou com a voz embargada ncolas assentiu não dá para um novo caminho carregando uma caixa velha de isopor não
acha Carlos tocou o carrinho com as mãos trêmulas o metal gelado sob seus dedos parecia confirmar que aquilo era real ele piscou várias vezes tentando segurar as lágrimas eu eu não sei como agradecer Não precisa agradecer só prometa que vai fazer isso dar certo Carlos apertou os lábios lutando contra a emoção então com toda a sinceridade que havia em seu coração olhou para Nicolas e afirmou Eu prometo os dias seguintes foram diferentes de tudo que Carlos Já tinha vivido pela primeira vez ele não acordou com a angústia de ter sua mercadoria apreendida ou de voltar
para casa de mãos vazias agora ele tinha um carrinho novinho uma licença para trabalhar e até um curso básico de vendas que o ajudava a lidar melhor com os clientes no início ele ainda sentia medo o trauma dos anos na informalidade fazia com que olhasse para os lados toda vez que via um guarda municipal se aproximando Mas aos poucos essa insegurança foi se transformando em confiança Carlos já não vendia apenas água com o novo carrinho conseguiu incluir refrigerantes sucos e até alguns Lanches simples o movimento aumentou seus clientes passaram a reconhecê-lo e em pouco tempo
ele se tornou uma figura conhecida no centro de Belo Horizonte hã Carlos Guarda uma água gelada para mim hein brincava um dos funcionários de um escritório próximo hoje vou levar um sanduíche também tô com fome dizia outro cliente fiel o dinheiro começou a render mais pela primeira vez em meses Carlos voltou para casa com sacolas cheias de compras quando abriu à porta e viu os olhos de Ana se encherem de Lágrimas ao ver comida suficiente para a semana inteira ele soube que estava no caminho certo os dias se transformaram em semanas as semanas em meses
e a vida foi tomando um rumo que Carlos jamais imaginou ele conseguiu alugar um pequeno ponto fixo próximo a um prédio comercial onde montou sua própria barraca de lanches agora não precisava mais empurrar o carrinho pela as ruas seus filhos começaram a se alimentar melhor a casa antes escura e apertada foi sendo reformada aos poucos Ana que sempre sustentou o lar com preocupação agora sorria mais mas Carlos nunca esqueceu de onde veio certa tarde enquanto preparava um suco para um cliente ouviu uma confusão alguns metros à frente ele ergueu os olhos e sentiu um aperto
no peito ao ver um ambulante ajoelhado no chão exatamente como ele estivera meses antes dois guardas municipais seguravam sua mercadoria enquanto o homem implorava por favor não levem eu só tô tentando trabalhar a multidão olhava como sempre fazia alguns cochichavam outros simplesmente desviavam o olhar Carlos sentiu um nó na garganta olhou para o próprio negócio para tudo que havia conquistado e sem pensar duas vezes largou tudo e caminhou até a cena sua voz ecoou forte na Avenida isso está certo para vocês os guardas Pararam o ambulante ainda De Joelhos levantou os olhos confuso a multidão
pareceu se movimentar reconhecendo a frase dita em um momento parecido meses atrás Carlos encarou os guardas com firmeza esse homem só quer trabalhar Será que não existe outra forma de ajudá-lo um dos guardas pigarreou estamos apenas cumprindo ordens então cumpram de outro jeito Carlos rebateu deem uma advertência orientem ele a se regularizar mas não tirem o pouco que ele tem o silêncio pesou as pessoas ao redor começaram a murmurar em concordância os guardas trocaram olhares e pressionados pela situação devolveram a mercadoria ao ambulante o homem Caiu em prantos segurando seus produtos com mãos trêmulas Carlos
estendeu a mão para ele exatamente como Nicolas fizera um dia vem comigo quero te oferecer algo melhor o ambulante olhou para ele hesitante mas quem é você Carlos sorriu só alguém que já esteve exatamente onde você está agora e naquele momento ele percebeu que sua vida não havia mudado apenas para ele e sua família ele agora era parte de algo maior a ajuda que recebera não terminava ali era a sua vez de retribuir