[Música] Olá! Sou o professor Kevin Daniel dos Santos Leyser e estarei com vocês falando sobre a terceira Unidade do Livro de Estudos Contexto Histórico-Filosófico da Educação. Muito bem, vamos primeiro falar sobre os objetivos desta Unidade para que você possa entender o que será visto no livro. Depois, focarei em um dos objetivos que Esta Unidade contempla. A partir desta Unidade, você será capaz de: [leitura na tela] Bem, aqui vamos falar um pouco sobre essa última parte da Unidade, a qual apresentará para vocês os principais pensadores brasileiros e sua contribuição, tanto no pensamento pedagógico, quanto na epistemologia
e também em sua contribuição para a metodologia pedagógica. Acompanhe comigo essa primeira tendência Do pensamento pedagógico brasileiro: o pensamento brasileiro liberal. Um dos grandes representantes desse pensamento liberal é Fernando de Azevedo, cuja imagem aparece no slide. Fernando de Azevedo viveu entre 1894 em 1974, foi um educador, sociólogo e humanista brasileiro, nasceu em São Gonçalo do Sapucaí, em Minas Gerais e faleceu em São Paulo. Foi professor de Sociologia na Universidade de São Paulo, de cuja faculdade de Filosofia foi diretor. Como diretor do Departamento de Educação do Estado de São Paulo, promoveu várias reformas pedagógicas. É conhecido
exatamente por essas reformas promovidas por ele. Foi membro de diversas associações científicas brasileiras e estrangeiras também. Fernando de Azevedo atuou como especialista da UNESCO para a educação na América Latina. Em 1967, ele foi eleito para a Academia Brasileira de Letras. Estava inclinado, inicialmente, Aos estudos clássicos e firmou isso depois de sua reputação como sociólogo e educador, especialmente a partir da reforma do sistema escolar do Rio de Janeiro. Ao pensar um projeto de reconstrução nacional, ele viu na democratização da educação um meio eficaz de conquistar tal fim, e, para tanto, as transformações seriam de dois níveis:
uma transformação interna no próprio sistema educacional, que Deveria valorizar a ligação da escola com o meio social; e outra que se daria no sistema econômico em que estaria, portanto, a base de todo o planejamento social. Ao pensar na possibilidade da educação como fator de transformação, suas ideias conduziram a questões importantes, como os vínculos entre a educação e a sociedade e a correlação entre o velho Humanismo e a pedagogia clássica, da qual ele era especialista. Ele abandonou o tabu do Humanismo Clássico, substituindo-o pelo Neo-Humanismo, que visava a preparar o homem para uma contribuição social eficaz e
transformadora da sociedade. Então, ele tinha uma visão otimista do século XIX, diferente de outros pensadores que eram mais pessimistas. Encontrava, portanto, no conhecimento científico aquilo que levaria a uma verdadeira mudança na educação. Ele era um intelectual de uma época Em transição, na verdade, seu pensamento reflete a ambiguidade de nossa realidade em mudança, portanto, ele tratava sobre a industrialização e sobre o processo de revolução que aconteceu na década de 30, quando foi estabelecido o Estado Novo, entre outros processos. Sua produção intelectual mais importante se situa bem nessa década, final da década de 20 (1926), até meados
da década de 60. Essa época compreende grandes ideias Sobre a educação; a Marcha para o Oeste, o esforço pela territorialização, na visão megalópica e global da da sociedade brasileira e seus problemas. É nesse sentido que Fernando de Azevedo acreditava que uma 'revolução de mentalidades' (essa expressão é utilizada em suas obras) aconteceria por meio da educação e seria o passo fundamental para as mudanças das estruturas sociais. Do contexto de suas ideias surgem os vetores que parecem conseguir o Cerne da revolução educacional realizada por ele, por volta de de 1928, quando ocupava o cargo de diretor de
Instrução Pública do Distrito Federal. Evidentemente, não podemos deixar de de mencionar aqui o "Manifesto dos Pioneiros", que foi redigido por ele. Então, primeiro ele trata sobre a necessidade de uma mudança nas mentalidades, como referido anteriormente, e também aborda uma constatação De que o problema da educação é de ordem filosófica e política. A transformação das mentalidades, sobre a qual ele comenta, é vinculada ao ideal de um novo Humanismo e a possibilidade de se fazer da escola um elemento ativo e dinâmico da sociedade. Além disso, ele sugere que deveria ser abandonada uma concepção social já vencida da
escola, sem sentido, que seria a produtora e reprodutora de um 'status quo'. Então, Fernando de Azevedo concorda com o teórico sobre o qual falamos na unidade anterior, Antônio Gramsci, que faz críticas a respeito da escola tradicional, disse o seguinte: "A escola tradicional é instalada para uma concepção burguesa, que mantém um indivíduo na sua autonomia isolada e estéril e é resultante de um tipo de individualismo libertário". A crítica dele também é voltada para toda cultura verbal que estaria muito Afastada do concreto, cheia de retórica e poesia, sendo em demasia desdenhosa das realidades humanas e sem esse
contrapeso científico necessário tão profícuo da época. O que o autor, na verdade, almejava era nada menos que uma revolução educacional, tal como ele mesmo disse, com uma participação do povo, até então alijado do processo educativo. A contribuição original de Fernando de Azevedo não está apenas em ter incorporado Ao seu pensamento os ideais da Escola Nova, mas por ter colocado como finalidade primordial do sistema educacional a concepção de vida. Então, a educação, para ele, devia ser uma reação categórica contra a velha estrutura artificial e verbalista. Para Azevedo, portanto, a educação passava a ser um problema político,
pois exigia uma mudança de mentalidade que tinha como consequência a mudança na estrutura da sociedade como um todo. Além de Azevedo entender a educação como um problema político, ele também traz uma concepção da escola de trabalho, na qual apresenta a função da escola como eminentemente social, no sentido de preparar para a vida, em que o trabalho tem um papel fundamental. Assim, a ideia de Azevedo era uma educação profissional que visasse a dotar os alunos de uma capacidade técnica e incentivar a prática através De um ofício. A Revolução Industrial, nas décadas de 20 e 30, trazia
à tona essa necessidade, ou seja, a urgente preparação de técnicos de todos os níveis até operários qualificados. Outra concepção que não podemos deixar de mencionar, que o autor traz, é sobre a escola-comunidade, na qual ele destacou, mais uma vez, a importância da formação do indivíduo, que deveria atingir o nível máximo de desenvolvimento. Então, segundo ele, a escola não tinha apenas que preparar para o trabalho, mas também para a convivência em sociedade e para a solidariedade, que, segundo o autor, é a primeira entre as virtudes do cidadão de uma democracia ativa e livre. Assim, o grande
papel da escola não é de se adaptar ao meio, perceba bem, mas de premunir e de fortificar-se contra ele, de preparar homens que sejam capazes de reagir contra ele e assim modificá-lo. Bem, esse foi o pensamento de Fernando de Azevedo. Agora vamos passar a um outro pensador, também dessa tendência do pensamento brasileiro liberal. Manoel Bergstrom Lourenço Filho, que viveu entre 1897 a 1970, nasceu em São Paulo e faleceu no Rio de Janeiro. Em 1922, foi comissionado diretor da instituição pública e realizou uma reforma geral no ensino por solicitação do governo do Ceará, sendo essa reforma
considerada Um dos movimentos pioneiros da Escola Nova. Em 1927, o Liceu Nacional Rio Branco foi fundado por ele, no qual organizou e dirigiu a escola experimental. Participou da fundação da Sociedade de Educação e do Instituto de Organização Racional do Trabalho. Em 1938, Lourenço Filho foi convidado pelo ministro Gustavo Capanema para organizar e dirigir o INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais). Em 1940, publicou o livro "Tendências da Educação Brasileira", uma excelente obra. Em 1941, presidiu a Comissão Nacional de Ensino Primário; organizou e secretariou a primeira Conferência Nacional de Educação. Em 1944, ele fundou, no
INEP, a Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos. Em 1947, ocupa, pela segunda vez, a direção do Departamento Nacional de Educação; organizou e dirigiu a Campanha Nacional de Educação de Adultos, primeiro movimento de educação Popular, que tinha iniciativa do Governo Federal. Em 1948, presidiu a comissão designada para elaborar o anteprojeto da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. A marca importante do pensamento e de ação de Lourenço Filho é aquela da inovação. Muitas vezes, ele foi o pioneiro, por exemplo, assinou o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, em 1932. Destacadamente, foi um reformador, não só inovador,
também modernizador. Em seu pensamento, desde os anos 20, O ensino primário sempre foi sua preocupação central. Entre suas obras, podemos destacar: "Introdução ao Estudo da Escola Nova" (1929), "Tendências da Educação Brasileira", (1940) e "Organização e Administração Escolar", (1963). Com os amigos, o baiano Anísio Teixeira e o mineiro Fernando Azevedo, sobre o qual comentamos anteriormente, Lourenço Filho idealizou a Escola Nova, que era um projeto que defendia a ideia da escola sob medida, ou seja, Mais preocupada em adaptar-se a cada criança a encaixar todas elas no mesmo molde. Ele julgava que o interesse e as atividades dos
alunos tinham um papel determinante na construção de uma escola ativa. As ideias que defendia sobre a Escola Nova também eram ideias de pensadores tal como os autores sobre os quais falamos na unidade anterior, o suíço Claparède e o filósofo norte-americano John Dewey, do pragmatismo. A Escola Nova, para Lourenço, Era de grande importância, não só porque ele via aprendizagem dentro dos limites da sala de aula. As classes, para ele, deixavam de ser locais onde os alunos estavam sempre em silêncio ou sem qualquer comunicação entre si, para se tornarem pequenas sociedades que imprimissem nos alunos atitudes favoráveis
ao trabalho em comunidade. Então, uma de suas maiores preocupações era a de que os alunos tivessem Oportunidades iguais em todos os lugares do país e, para isso, era preciso que os métodos fossem unificados, não as pessoas. Ele foi questionando esses moldes da educação na sua própria organização social, onde ele via a possibilidade de uma melhoria na educação. Para Lourenço Filho, faltava emancipação técnica, além dos princípios racionais e científicos na escola. Essas preocupações o fizeram promover Modificações nas formas educacionais nos vários cargos públicos que ele ocupou. Algumas das várias teorias em que o educador esteve à
frente foram de suma importância para o desenvolvimento dos métodos de ensino e sempre se aplicavam também à psicologia, como parte integrante de seus preceitos. Vale destacar, por exemplo, o movimento dos testes em que era medida a escala métrica, a inteligência, com provas breves e objetivas na forma de questionário. Também os psicotécnicos, método em que a orientação profissional é direcionada a uma melhor adaptação entre profissão e aptidão. Também os testes "ABC', que tinham como intuito a verificação da maturidade necessária para a aprendizagem da leitura e escrita. E a organização dos testes 'ABC', que era a criação
de uma esfera técnico-pedagógica separada da administração. Por fim, Lourenço Filho defendeu a necessidade da elevação dos níveis de Instrução de toda a população, como condição para o desenvolvimento econômico da nação. Então, para ele, a educação deveria ser um conjunto de técnicas relativamente desligadas da ideologia e de uma influência de regras históricas. Em suma, a educação, para ele, era amor ao ser e ao seu país. Um outro pensador que já foi mencionado brevemente aqui, também da tendência do pensamento Brasileiro liberal, é Anísio Teixeira. Viveu entre 1900 a 1971. As ideias dele influenciaram todos os setores da
educação no Brasil, inclusive na América Latina. Entre outras contribuições, pode-se citar o Centro Educacional Carneiro Ribeiro, em Salvador, na Bahia, como a primeira experiência no Brasil, visando a promover a educação cultural e profissional de jovens. Anísio Teixeira nasceu em Caieté, na Bahia E foi inspetor geral de ensino e diretor-geral da Instrução Pública da Secretaria do Interior e também Justiça Instrução Pública da Bahia. Esteve nos Estados Unidos, pesquisando sobre educação nesse país. Formou-se em educação na Universidade de Columbia. Tornou-se discípulo do filósofo norte-americano John Dewey, que era seu amigo. Em 1935, ele se tornou Secretário de
Educação e Cultura do Distrito Federal. Lançou um sistema de educação global, do primário à universidade. Foi, ainda, membro do Conselho Federal de Educação e reitor da Universidade de Brasília, a UNB. Recebeu o título de professor emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro, cidade onde faleceu. As principais obras deste autor, podemos mencionar aqui: "Educação Pública, Organização e Administração" (1935); "Educação Não é Privilégio", Clássico do autor (1956); "Educação é um Direito" (1967) e "Pequena Introdução à Filosofia da Educação", que tem várias edições, sendo a primeira lançada em 1978. Anísio Teixeira é considerado o o principal idealizador
das grandes mudanças que marcaram a educação brasileira no século XX. Foi o pioneiro na implantação das escolas públicas de todos os níveis, que refletiam seu objetivo de oferecer Educação gratuita para todos. Como teórico da educação, não se preocupava em defender apenas as suas ideias, muitas delas foram inspiradas em John Dewey. Dewey era um filósofo, um pensador da educação que a considerava uma constante reconstrução da própria experiência, da própria vivência, da própria vida. Essa ideia do pragmatismo da Universidade do Estado do Rio de Janeiro impulsionou Anísio a projetar-se para além do papel Gestor das reformas educacionais
e atuar, também, como um filósofo da educação. A marca do pensador Anísio era uma atitude de inquietação permanente, ele ficava sempre inquieto diante dos fatos e considerava que a verdade não era algo definitivo, mas que sempre necessitava de uma busca contínua e constante. Então, para o pragmatismo, o mundo em transformação requer um novo tipo de homem, consciente e bem preparado para resolver Seus próprios problemas, acompanhado de uma tríplice revolução da vida atual. Do que se trata essa tríplice revolução? Primeiro, a revolução intelectual, pelo incremento das ciências. Também, a revolução industrial, pela tecnologia. Por último, a
revolução social, pela democracia. Essa concepção exige, segundo Anísio Teixeira, uma educação e mudança permanentes ou seja, Permanente reconstrução. As novas responsabilidades da escola eram, portanto, educar em vez de instruir. Olhe só... formar homens livres em vez de homens dóceis, preparar para o futuro incerto em vez de transmitir um passado claro, ensinar a viver com mais inteligência, mais tolerância e mais felicidade. Então para isso, seria necessário reformar a escola, começando por dar a ela uma nova visão da psicologia infantil. Assim, o próprio ato de aprender, Já afirmava Anísio, durante muito tempo, significou simples memorização e, depois,
seu sentido passou, inclusive, à compreensão, à expressão do que tinha sido ensinado. Por último, ele envolveu algo mais: ganhar um modo de agir. Desta forma, só aprendemos quando assimilamos uma coisa de tal jeito que, quando chegamos a um momento oportuno, sabemos agir de acordo com o aprendido. Para o pensador, portanto, não se Aprendem apenas ideias ou fatos, mas também atitudes, ideais e senso crítico. Claro, desde que a escola disponha de condições, evidentemente, para exercitar isso. Portanto, uma criança só pode praticar a bondade em uma escola onde haja condições reais para desenvolver tal sentimento. A nova
psicologia da aprendizagem trazida por esses pensadores, nesse caso, por Anísio Teixeira, no Brasil, obriga a escola a transformar-se num local onde se vive, e não em um centro preparatório Para a vida. Então, como não aprendemos tudo o que praticamos, mas sim aquilo que nos dá satisfação, o interesse do aluno deve orientar o que ele vai aprender, portanto, é preciso que ele escolha suas atividades. Por tudo isso, na escola progressiva, as matérias escolares, como Matemática Ciência, Artes etc., são trabalhadas dentro de uma atividade escolhida e projetada pelos alunos, fornecendo a eles Formas de desenvolver sua personalidade
no meio em que eles vivem. Nesse tipo de escola, o estudo é o esforço para resolver um problema ou executar um projeto e ensinar é guiar o aluno a uma atividade. Quanto à disciplina, Anísio afirmava que o homem educado é aquele que sabe ir e vir em segurança, pensar com clareza e querer com firmeza, assim como agir com tenacidade. Numa escola democrática, mestres e alunos devem trabalhar em liberdade, Promovendo a confiança mútua e o professor deve incentivar o aluno a pensar, a julgar por si mesmo, ou seja, estamos passando de uma civilização baseada em uma
autoridade externa para uma baseada na autoridade interna de cada um de nós. Ele afirmou isso em seu livro "Pequena Introdução à Filosofia da Educação". Como preparar o professor para essa tarefa hercúlea da escola de hoje? Ocupada por tantos alunos, que não se Contentam em aprender apenas as técnicas e conhecimentos mais simples, mas querem aprender também as últimas conquistas da ciência e da cultura? O que fazer quando eles exigem informações, até mesmo sobre tendências indefinidas, e problemas sem soluções? Para responder a tantas questões, os educadores do mundo todo precisarão de novos elementos, de um novo sistema
de cultura, de estudos e de recursos. Anísio Teixeira propõe que, Na prática se instalam novos recursos para os professores, ele dizia que "só assim que os mestres conseguirão renovar a humanidade para a grande aventura da democracia, que ainda não foi tentada". "Para ser eficiente, a escola pública para todos deve ser de tempo integral para professores e alunos", como a escola-parque, que ele fundou em 1950, em Salvador e, mais tarde, inspiraria os Centros Integrados de Educação Pública, (CIEPS), do Rio de Janeiro, e as demais propostas de escola de tempo integral integral que a sucederam. Cuidando desde
a higiene e saúde da criança, até a sua preparação para a cidadania, essa escola é apontada como solução para a educação primária no livro "Educação Não É Privilégio". Além de integral, pública, laica e obrigatória, ela deveria ser, também, municipalizada, para atender aos interesses de cada comunidade. Então, o ensino público deveria ser articulado em uma rede, até a universidade. Anísio propôs, ainda, a criação de fundos financeiros para a educação. Porém, mesmo com o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação, o FUNDEB, os recursos são insuficientes para sustentar os
modelos propostos por Anísio Teixeira. Agora vamos abordar um outro pensador, Também muito importante: Roque Spencer Maciel de Barros, que viveu entre 1927 a 1999 e também faz parte dessa tendência do pensamento brasileiro liberal. Nasceu no interior de São Paulo, onde fez os estudos primários e secundários. Cursou Filosofia na Universidade de São Paulo e foi nessa instituição que passou praticamente toda sua vida profissional como professor das áreas de História e Filosofia da Educação, até aposentar-se, em 1984. Além de professor, escreveu para o Jornal O Estado de São Paulo, com o qual se ligou e se identificou
profundamente. Foi chefe do Departamento de Educação, Diretor da Faculdade de Educação e membro do Conselho Universitário. Participou da reforma da USP e da reforma universitária, ambas ocorridas em 1968. Participou ativamente da campanha em defesa da escola pública, em 1959. Rock Spencer foi um pessimista em relação à educação brasileira. Ele afirmou que a decadência qualitativa do ensino, a falta de educação dos estudantes, a mediocridade e os movimentos grevistas levaram-no à aposentadoria mais cedo. Em palestras, reuniões públicas e artigos na imprensa, foi incansável na defesa da escola democrática, laica e gratuita. O que o situou de um
modo muito especial nessa luta foi o fato de ter escolhido como tema principal de combate o princípio da liberdade de ensino. Veja bem, o professor Roque que, desde sua adolescência, era um cultivador da tradição clássica da filosofia política-liberal, tinha a clara consciência de que a evocação do conceito de liberdade de ensino para combater a escola pública era, no mínimo, de um indisfarçável oportunismo político, sem raízes nos clássicos do liberalismo. A propósito, disse ele em um dos seus artigos que "teriam razões os que Imaginam que o projeto de diretrizes e bases da educação nacional, como fez
o deputado Carlos de Lacerda, institui, em nosso país, a liberdade de ensino, sendo, nesse sentido, uma espécie de carta magna do liberalismo e matéria pedagógica". A resposta à questão só poderia ser dada depois de uma análise do próprio conceito de liberdade de ensino, o qual está longe de ser unívoco, segundo ele, podendo ser tomado em diferentes acepções. Então, o projeto tomou uma dessas definições, o qual identifica a liberdade de ensino como a faculdade a todos concedida de abrir escolas, praticamente sem ingerência do Estado. Perceba bem, é como se esse conceito de liberdade fosse único, ou,
pelo menos, se correspondesse, mais adequadamente, à essência do ideal pedagógico liberal que se invoca, o que, como iremos ver, não é exato. A concepção de liberdade de ensino Compreendida como faculdade indiscriminada de abrir escolas (exigindo, como ideal remoto, o abandono pelo Estado de sua função educadora), de acordo com Roque Spencer Marcelo de Barros, está intimamente ligada à doutrina da livre concorrência. Ou seja, é ligada aos princípios do liberalismo econômico, mas, no momento em que se formula essa concepção de liberdade de ensino, em termos de livre concorrência e abstenção estatal, Limita-se o seu alcance e restringe
sua significação, já que se compreende que não é possível submeter aos interesses privados a questão vital da formação de cidadãos livres. Nessas passagens das obras em que Maciel de Barros critica essa concepção de liberdade, o professor expõe as principais ideias que orientaram a sua intransigente defesa da escola pública. Então, ele desmantela o jogo conceitual Que pretendia embair os incautos ao propor a questão da liberdade de ensino como um aspecto da livre concorrência no mercado, daí decorrendo da necessidade de abstenção do Estado. Segundo o professor Maciel de Barros, na linha do liberalismo clássico como doutrina ética,
o conceito central é o de liberdade de consciência, não de concorrência. Seu significado define os próprios limites da ação estatal em educação, ou seja, a ideia de liberdade de ensino Deve servir a um propósito ético, e não pode ser confundida com uma mercadoria sujeita aos interesses da livre concorrência de mercado. Ele utiliza, por exemplo, o filósofo Stuart Mill para dizer que ele não pensava de outro modo quando Stuart Mill afirma que, "em questões de educação, é justificável a intervenção do governo, porque o caso não é daqueles nos quais o interesse do consumidor seja garantia suficiente
da bondade de mercadoria". Então, nessas condições, ao Estado democrático cabe assegurar liberdade de ensino, não em termos de interesses mercadológicos, mas para garantir a liberdade de pensamento, isto é, a liberdade de cátedra, para quem ensina, haja a independência de opinião, e para quem aprende, haja, em todos os assuntos sujeitos, uma liberdade de controvérsias. Daí, decorre a ideia de que, em uma autêntica democracia, o Estado deve ser eminentemente educador, porque somente Ele pode conduzir a educação sem a preocupação do proselitismo ideológico ou confessional e sem a ambição do lucro. Então o, quadro educacional de hoje tem
fortes semelhanças com aquele de quarenta anos atrás, quando essas críticas foram realizadas, em que se apresentou essa 'confusão' conceitual induzida que confunde, então, a liberdade de ensino com uma desregulamentação permissiva. Principalmente no ensino superior, então, Confunde-se o papel do Estado como educador, com o de simples provedor de recursos, para interesses que não são os públicos e, por fim, confunde-se a qualidade da educação com uma suposta satisfação do consumidor, simplesmente aturdido pela insegurança do futuro de seus filhos. Essa é uma grande contribuição oferecida por Maciel de Barros. Ao morrer, de maneira inesperada e lamentável, em 1999,
o professor Roque nos trouxe A oportunidade de recordar que a luta pela escola pública precisa ser retomada, principalmente nesse momento, em que se procura fazer crer, em nome de um hipotético progresso, que o Estado deve ser desmontado, até mesmo naquelas funções nas quais sua ação tem um profundo significado ético, como é o caso da educação nacional. Muito bem, mais um pensador importante, central para o pensamento brasileiro progressista é Paschoal Lemme. Ele nasceu no Rio de Janeiro e lá colaborou, entre 1927 e 1930 na administração de Fernando de Azevedo no projeto educacional da cidade. Entre 1931
e 1935, trabalhou com Anísio Teixeira e Lourenço Filho na direção da Instrução Pública do mesmo estado. Em 1932, ele já então no Conselho Diretor da ABE, Associação Brasileira de Educação, juntamente com outros educadores e intelectuais, lançou o "Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova". Documento ao qual já nos referimos anteriormente, era um projeto de educação dirigida ao povo e ao governo, propondo uma reestruturação do ensino no país. Defendeu, na Assembleia Constituinte de 1933 e 1934, ideias liberais e democráticas que procuravam assegurar ao cidadão a educação como um dever do Estado, acessível e igualitário para todos, em
oposição à facção católica, que procurava designar a escolha da Educação à família. Com ele, podemos dizer que se iniciou o que chamamos de 'pensamentos pedagógicos progressistas', embora autores, como Antônio Cândido citem, também, como iniciadores dos ideais progressistas na educação, Fernando de Azevedo e Anísio Teixeira, sobre os quais já falamos, que tiveram, evidentemente, grande influência no pensamento de Paschoal Lemme. A tese central de suas obras é a de que não há educação democrática, a não ser Em sociedades verdadeiramente democráticas. Suas principais obras são: "A Educação na União Soviética" (1956), "Problemas Brasileiros de Educação" (1959), "Educação Democrática
e Progressista" (1961), e "Memórias" (1938), obra de três volumes. Paschoal Lemme pode ser considerado precursor de uma corrente de análise da educação que não se confunde com aquela representada por outros nomes significativos do movimento da renovação educacional no Brasil. Têm-se observado que foi o primeiro a assumir, entre os renovadores educacionais, uma posição intelectual de esquerda e a trabalhar com forças políticas correspondentes. Veja bem, uma das marcas da construção do pensamento de Paschoal (como ele próprio observa no segundo volume de sua obra "Memórias") parece indicar, já nos anos de 1930, uma forte identificação com o ideário
socialista, o que será melhor explicitado em estudos e trabalhos posteriores, Como os realizados entre 1950 e 1960 em correspondência com Fernando de Azevedo. Entre outros estudos que merecem destaque por apresentar uma síntese do pensamento desse educador, ressalta-se a proposta apresentada por ele à direção da Federação Internacional Sindical de Ensino, a FISE, por solicitação dessa e como subsídio ao simpósio que foi realizado em Moscou, em 1958. Dos textos, destacamos quatro princípios Dos vinte e cinco que ele apresentou. O primeiro deles é o princípio fundamental de uma educação verdadeiramente democrática, que deveria ser contínua e a igualdade
de oportunidades para todos deveria ser ressaltada, isto é, a possibilidade do acesso de todos, a todos os aspectos e níveis de educação, de instrução e de cultura. O segundo princípio levantado por ele é que a educação, a instrução e a cultura deveriam estar ao alcance de Todos, sem quaisquer restrições de ordem econômica, racial, religiosa ou quaisquer outras e com as únicas limitações do desejo da vocação e da capacidade de cada um. Aqui, podemos perceber um elemento também liberal em seu pensamento. O terceiro princípio seria a educação democrática; só será atingido aquele limite ideal da igualdade
de oportunidades para todos, quando a sociedade estiver, afinal, organizada de tal maneira que Torne possível o acesso a todos os bens culturais a todos os indivíduos, sem quaisquer restrições. Por último, ele sinaliza a democratização da educação, ou seja, afirmando que é um processo que se define em cada momento e em dada situação concreta, pela luta que estiver travando em direção àquele limite ideal da igualdade de oportunidade para todos. Em 1982, retornando à discussão sobre esses princípios, em um texto sobre Educação e democracia, Lemme observa que "dizer que educação e ensino são necessidades fundamentais de todas
as pessoas humanas, significa que se trata de problemas político-sociais, antes de serem questões apenas de caráter pedagógico, de didática ou de técnica de ensino". Nesse mesmo estudo, ele assinala que somente mediante uma distribuição mais equitativa da renda nacional é que torna possível a adoção de um modelo de desenvolvimento econômico Que corresponda aos verdadeiros interesses da maioria do povo brasileiro e que poderá, portanto, corrigir tal situação, tão profundamente injusta. Na época, ele já identificava que a situação ecônomica estava afetando várias classes, vários indivíduos, milhares de famílias estavam entrando em desespero. Passadas quase três décadas desse diagnóstico
proposto por Lemme, podemos perceber que ainda estamos vivendo uma situação precária, de agravantes e Repercussões dessa situação. Agora passamos a um outro pensador muito importante também para o pensamento brasileiro progressista, essa tendência do pensamento educacional brasileiro, Álvaro Vieira Pinto. Viveu entre 1909 e 1987, nasceu no Rio de Janeiro, formou-se em Medicina e foi autodidata no campo da Filosofia. Chegou a ser exilado em 1964 e viveu na Iugoslávia e depois no Chile, onde trabalhou com Paulo Freire, que também Estava exilado no Chile nessa época. Fez várias conferências, organizadas pelo Ministério da Educação. O pensamento pedagógico de
Vieira Pinto supõe que a educação implica na modificação da personalidade, e é por isso que é tão difícil de se aprender. A educação modifica a personalidade do educador e, ao mesmo tempo, vai modificando a personalidade do aluno. Ainda que a educação reflita essa totalidade cultural que a condiciona, Ela também é um processo autogerador de cultura. Vieira Pinto, que morreu aos 78 anos, deixou uma herança inúmera de obras, por exemplo: "Consciência e Realidade Nacional"; "Ideologia e Desenvolvimento Nacional"; "A questão da Universidade"; uma obra especial para a educação de adultos que é "Sete lições sobre Educação de
Adultos" (1982); "Ciência e Resistência"; entre tantas outras obras muito importantes desse autor. Para ele, a educação pode ser constituída de intencionalidades e deve ser pensada a partir de uma concepção prévia de homem. Perceba, a compreensão da realidade, para Vieira Pinto, está intrinsecamente relacionada ao posicionamento, aos valores de uma consciência que uma determinada sociedade expressa. Assim, uma 'consciência aberta' como ele defendia e fazia referência, atendia a uma realidade, assumiria não somente os valores de um grupo e da sociedade, Mas dos grupos e sociedade da qual participa. Vieira Pinto define o homem a partir dos aspectos da
história natural e usa histórias do homem enquanto produtor de cultura. A característica da história natural, por exemplo, assume uma dinâmica evolutiva do ser vivo, que constitui o desenvolvimento do homem enquanto ser cultural e, o homem, ao realizar uma atividade produtiva, ele mesmo cria a cultura. Então, o processo de criação da cultura Supera o evolutivo. Disso é que vai decorrer que a linguagem e os instrumentos de trabalho, por exemplo, as normas criadas pelos homens, identificam-no como um ser cultural. O humano-social aqui criado, em suas relações consigo mesmo, com os outros e com a natureza é quem
produz a própria cultura. Então, para Vieira Pinto, a construção da cultura pela ação do homem implica também na reconstrução desse próprio homem. Uma vez que ele, ao ser criador da cultura, cria, simultaneamente, a si mesmo e insere no legado do processo cultural outra forma de ser e estar no mundo. Assim, podemos dizer que o homem, para Vieira Pinto, é produto da cultura e também um produtor de sua existência e de seus meios de sobrevivência para si e para as gerações futuras. Pela ação produtiva, o homem se origina enquanto ser homem, ou seja, o trabalho é
a atividade mediadora entre O mundo e sua existência no âmbito do mundo cultural. Ao criar a cultura, o homem cria a linguagem que constitui o veículo mediador de comunicação do sujeito e objeto do homem com outros homens e, por fim, dele com a realidade social. Assim, o ato de agir sobre o mundo é o que vai possibilitar ao homem desenvolver e ampliar suas próprias capacidades cognitivas e criativas. Na dinâmica de uma sociedade determinada, Vieira Pinto diz que tudo está para ser feito. Então o homem, para ele, é aquele que se encontra determinado pelas condições culturais,
econômicas e existenciais da realidade brasileira. O trabalho constitui, assim, o ser deste homem, amplia sua percepção da realidade existencial e forma sua consciência e, consequentemente, promove o ser deste homem em situação. Perceba bem: 'o homem em situação'. A necessidade, as aspirações de se criar uma condição melhor de vida. Desses homens, das massas populares que se origina a ideologia do desenvolvimento nacional, de acordo com Vieira Pinto. Assim, pensar o homem é pensá-lo a partir de sua condição existencial real. Daí decorre que o homem, para o autor, deve ser entendido como um ser 'em situação'. Essa expressão
exprime o ser do homem como algo que se confunde com o meio e o trabalho. Contrário a isso, a consciência, (a qual o autor denomina 'consciência ingênua'), que elaborava a representação da realidade E não captava a realidade na sua objetividade, concebia o homem também de forma abstrata, idealizada. Portanto, a educação, por ser uma atividade essencialmente humana, ela deve compreender o homem como ser concreto, social, existencial. Assim, a educação para Vieira Pinto, é vista como sendo um produto das relações do homem com o seu meio social concreto; e é dessa relação social que emergem os desafios
e os Saberes a serem aprendidos e apreendidos pelos membros da sociedade. Vieira Pinto nos apontou que o entendimento acerca do desenvolvimento nacional não se processa em separado à consciência do próprio homem, visto que essa consciência deve acompanhar o processo de formação da realidade em que ele vive. Para tanto, antes de anunciarmos os parâmetros do desenvolvimento nacional autônomo, precisaríamos, primeiramente, Discutir que tipo de homem deve-se formar. Essa é a questão: que tipo de homem deve-se formar? Nesse sentido, é que a questão educacional não pode e não deve proceder de forma abstrata, porque isso seria impreciso, genérico,
descolado do contexto histórico-social existencial do educando. Procedendo-se assim, Vieira Pinto compreende como estando assentada no plano do pensar a consciência ingênua, aquela a que nos referimos anteriormente, por essa reduzir, Dos males da sociedade aos defeitos da própria instrução, por exemplo. A educação, que se processa dessa maneira, para Vieira Pinto, precisa superar o seu caráter abstrato, pois está desvinculada do contexto histórico-existencial e se torna, portanto, uma educação elitista. Ao pensarmos na educação, devemos, antes de qualquer coisa, compreendê-la a partir da concepção de homem que devemos formar; isso deve estar no fundamento de qualquer prática Pedagógica. O
conteúdo dessa educação deve emergir das condições materiais e existenciais das massas populares, bem como a ideologia do desenvolvimento nacional deve ser uma expressão do fenômeno das massas populares. Em suma, Vieira Pinto, ao anunciar a questão do desenvolvimento nacional, disse que essa não se processa separadamente do processo educacional, mas acompanha-o, simultaneamente. Então, evidenciar a questão educacional em Álvaro Vieira Pinto é concebê-la como totalidade, objetividade, concreticidade e historicidade, as quais se realizam, tanto no processo do desenvolvimento nacional, que visa à autonomia tanto da nação em relação aos países centrais, quanto à consciência dos homens, que lutam em
prol dessa possibilidade. Veja bem, essa é uma concepção crítica da educação, que conduz à mudança Da situação do homem e da realidade a qual ele pertence, uma vez que possui uma tarefa eminentemente social no sentido de que nada está isento dela. Por outro lado, pelo fato da realidade processar-se ao longo de toda a vida do indivíduo. Por isso, para Vieira Pinto, o ato de educar para o desenvolvimento não se reduz à transmissão de conteúdos particulares de conhecimento, nem tampouco o ensino que determinadas Matérias, é muito mais do que isso. Trata-se de preparar o educando para
um novo modo de pensar e de sentir a existência em face das condições nacionais com que se defrontam. É dar ao educando a consciência de sua constante relação com o país que precisa do seu trabalho pessoal para modificar o estado que evidencia um atraso, por exemplo. E também fazê-lo receber tudo quanto lhe é ensinado por um novo ângulo de percepção, tudo que ele deve Saber deve contribuir para o empenho coletivo de transformação desta mesma realidade. Muito bem, é uma contribuição maravilhosa de Álvaro Vieira Pinto, filósofo, autodidata, um pensador extremamente profundo da educação. Agora, vamos falar
sobre outro pensador muito reconhecido também como um dos que mais contribuiu para o pensamento da educação brasileira: Paulo Reglus Neves Freire. Faz parte também do pensamento brasileiro progressista. Nasceu em 1921, faleceu em 1990. Natural de Recife, no estado de Pernambuco. Foi professor de Português, de 1941 a 1947. Quando se formou em Direito, na Universidade de Recife, no entanto, sem seguir a carreira. De 1947 a 1956, foi assistente, e, depois, diretor do Departamento de Educação e Cultura do SESI de Pernambuco. Ele desenvolveu suas primeiras experiências com a educação de trabalhadores e o Seu método acabou ganhando
uma forma, em 1961, com o Movimento de Cultura Popular de Recife. Entre 1957 e 1963, lecionou História e Filosofia da Educação nos cursos da Universidade de Recife. Esse fato é importante para essa disciplina, ele tem esse 'background', esse 'pano de fundo' de contato com disciplinas relacionadas com a qual nós estamos aprendendo. Além de possuir experiência com a história da filosofia da educação, Em 1963, ele presidiu a Comissão Nacional de Cultura Popular e coordenou Plano Nacional de Alfabetização de Adultos, a convite do Ministério da Educação, em Brasília, no governo de João Goulart. Foi a época do
MEP — Movimento de Educação Popular, que isso tudo ocorreu. Como diretor do Serviço de Extensão Cultural da Universidade do Recife, desenvolveu um extenso programa de educação de adultos, ficando Muito conhecido por esse tipo de programa. Em 1964, infelizmente, a ditadura militar obrigou-o a 15 anos de exílio. Foi para o Chile, onde ficou até 1969. Assessorou o governo democrata-cristão de Eduardo Frei em um programa de educação popular. Na Suíça, com um grupo de exilados, acabou fundando e manteve o IDAC (Instituto de Ação Cultural), assessorando o governo de vários países em programas educacionais, como Nicarágua, São Tomé
e Príncipe e Guiné-Bissau. De 1972 a 1974, lecionou na Universidade de Genebra. De 1970 a 1979, quando ele acaba voltando do exílio, trabalhou no Conselho Mundial de Igrejas, sediada em Genebra, Suíça e lecionou na Universidade Católica de São Paulo. Em 1980, ele acabou recebendo um prêmio Rei Balduíno da Bélgica e, em 1986, o prêmio Educação para a Paz, da Unesco. Paulo Freire foi Secretário de Educação municipal de São Paulo, entre 1989 e 1991. Em 1998, ele assessorou programas de pós-graduação na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e na Universidade Estadual de Campinas. Toda sua obra
é voltada para uma teoria do conhecimento e aplicada à educação. Ela é sustentada por uma concepção dialética, na qual educador e educando aprendem juntos, como uma relação dinâmica, na qual a prática orientada Pela teoria reorienta a própria teoria, em um constante processo de aperfeiçoamento. Paulo Freire foi considerado um dos maiores educadores, marcando o pensamento pedagógico do século XX. Sua principal obra, "Pedagogia do Oprimido", foi já traduzida em mais de dezoito línguas. Podemos destacar, no que diz respeito ao pensamento de Paulo Freire: sua contribuição muito profunda à teoria dialética do conhecimento, Especificamente, aquela voltada ao processo
educativo, em que a melhor maneira de refletir é pensar a prática e retornar a ela, para transformá-la. Portanto, para Paulo Freire, deve-se pensar no concreto, na realidade, e não somente limitar-se a pensamentos. A 'categoria pedagógica da conscientização', um conceito bastante comum nas obras freireanas, criado por ele, visa, através da educação, a formação da autonomia intelectual do cidadão para intervir Sobre a realidade, ou seja, é a partir do próprio indivíduo e de sua conscientização, que essa prática libertária ocorreria; não de outro; mas a partir do próprio indivíduo e da sua autonomia. Por isso, para ele, a
educação não é neutra, é sempre um ato político. As principais obras em que nós podemos perceber essas propostas teóricas, pedagógicas e práticas metodológicas de Paulo Freire São as seguintes: "A Educação como Prática da Liberdade" (1967), "Pedagogia do Oprimido" (1970), "Ação Cultural para a Liberdade" (1975), "Extensão ou Comunicação" (1971), "Educação e Mudança" (1979), "A Importância do Ato de Ler", uma excelente obra também, (1983), "A Educação na Cidade" (1991), "Pedagogia da Esperança" (1992), uma espécie de síntese de suas ideias. Agora, abordarei outro educador, Também bastante conhecido no Brasil. Conhecido não só no ciclo de discussão, a partir
da teoria do conhecimento, do pensamento pedagógico, mas que acabou rompendo algumas barreiras da academia, em direção a uma linguagem mais estética, atingindo, portanto, pessoas de várias outras áreas, que também, direta ou indiretamente lidam com educação. Esse autor é Rubem Alves. Nasceu em 1933, em Minas Gerais e faleceu há pouco tempo, em 2014. A falência de seu pai o levou para o Rio de Janeiro e, em sua solidão, a cidade o tornou um religioso e amante da música. Quis ser médico, pianista e teólogo. Passou por um seminário protestante, foi pastor em Lavras, Minas Gerais; acabou fazendo
mestrado em Nova Iorque, (1962 a 1963) e, quando voltou para o Brasil, em 1964, percebeu uma situação um tanto quanto complicada e acabou voltando para os Estados Unidos E continuou seu doutorado em Princeton. Escreveu uma obra, como tese, "A Teologia da Esperança", na qual iria atribuir um outro título, mas esse foi mantido, ficando "Teologia da Esperança", por ser um termo muito utilizado na época, proposto por Moltmann. Na verdade, foi uma obra dessa época, da Teologia da Libertação, que estava nascendo na América Latina. Em outra obra, "Tomorrow’s Child", Ele trata sobre o triste destino dos dinossauros
e da sobrevivência das lagartixas. É muito interessante, ele utilizava metáforas para concluir que os grandes e fortes pereceram, enquanto os mansos e fracos herdaram a Terra. Aqui, podemos perceber uma característica de sua abordagem sobre a vida e a educação, o brincar com as palavras, o gosto pela poesia, pela musicalidade, uma forma diferente de ver a vida, ver a educação e a relação Entre as pessoas. Ele também escreveu alguns livros voltados à Teologia, como: "O Enigma da Religião", "O que é Religião"; e também obras voltadas à teoria do conhecimento, como: "Filosofia da Ciência: introdução ao jogo
e suas regras". Uma obra extraordinária, com linguagem muito fácil de se compreender. Ele foi criado em uma tradição calvinista, mas também lutou contra o que ele costumava chamar de 'obsessões da pontualidade E do trabalho', companheiras de suas insônias e úlceras. Dois pequenos livros são muito conhecidos pelos educadores brasileiros, valem ser citados, se você não os leu, sugiro a leitura: "Conversas com Quem Gosta de Ensinar" e "Estórias de Quem Gosta de Ensinar". Além de ter exercido a profissão de psicanalista (possuía formação em psicanálise), Rubem Alves escreveu também vários contos para crianças, Dos mais variados temas possíveis
e extraordinários. Para Rubem Alves, "é preciso reaprender a linguagem do amor, das coisas belas e das coisas boas, para que o corpo se levante e se disponha a lutar". Esse era um dos focos principais de sua visão pedagógica, filosófica e de vida. Além de escritor, foi educador, teólogo, psicanalista e professor, como falamos anteriormente. Chegou a produzir mais de 120 livros, Teve uma produção profícua, a maioria sobre religião e educação, além da série de obras infantis. Sobre a paixão pela educação, ele escreve o seguinte: "Educar não é ensinar Matemática, Física, Química, Geografia e Português. Essas coisas
podem ser aprendidas nos livros e nos computadores. Dispensam a presença do educador. Educar é outra coisa". De acordo com Rubem Alves, "A primeira tarefa da educação é ensinar a ver[...]. Quem vê bem nunca fica entediado com a vida. O educador aponta e sorri — e contempla os olhos do discípulo. Quando os seus olhos sorriem, ele se sente feliz. Estão vendo a mesma coisa. Quando digo que minha paixão é a educação, estou dizendo que desejo ter a alegria de ver os olhos dos meus discípulos, especialmente os olhos das crianças". É assim que o Rubem Alves se
referia À educação, uma relação de amor. Ele defendia que a educação no Brasil deveria passar por mudanças. Na educação, é inútil, na relação do professor com o aluno, dar respostas, o que você tem que fazer é provocar a curiosidade e a pesquisa. Nos campos da Filosofia, da Ciência e da Educação, podemos destacar duas obras: "Por uma Educação Romântica" e "A Pedagogia dos Caracóis", além de uma outra obra, que é muito importante Também citar, "Escola com que sempre sonhei sem imaginar que pudesse existir". Essa obra trata sobre a experiência que ele teve com a Escola da
Ponte. Pela Edição Loyola, Alves publicou dois importantes livros, centrados na tensão entre o conceito, a ciência e a sabedoria. "Entre a Ciência e a Sapiência: o dilema da educação" (1999) e "Filosofia da Ciência" (2000). Na primeira, ele faz uma crítica à educação baseada na aprendizagem científica. Ele é defensor, na verdade, da pedagogia focada no estímulo à criação e invenção de sonhos. Ele chegou a escrever a seguinte: "As escolas se dedicam a ensinar os saberes científicos, vistos que sua ideologia científica lhes proíbe lidar com sonhos, coisa romântica. É assustadora a incapacidade das escolas de criar sonhos".
Penso que isso resume muito bem a sua proposta pedagógica. Já na obra "Filosofia da Ciência", Ele faz uma desmistificação da persona do cientista, como detentor do conhecimento e de verdades absolutas. Antes de mais nada, ele disse: "É necessário acabar com o mito de que o cientista é uma pessoa que pensa melhor do que outras". Rubem Alves foi responsável pela publicação de vários 'best sellers', como "Variação sobre o Prazer", da Editora Planeta, que emitiu uma nota oficial enaltecendo o compromisso do Autor com o ensino, dizendo o seguinte: "Alves nasceu para transmitir sabedoria e conhecimento. Ele era
muito mais que um escritor, era um sábio, um filósofo que compartilhou textos, experiências e caminhos para sermos felizes e entendermos um pouco mais a vida". De fato, em suas crônicas, poesias e livros infantojuvenis, Alves compartilhava apreço semelhante ao do poeta Manoel de Barros, pelos elementos desimportantes ou banais Da vida e defendia que a experiência poética não é ver coisas grandiosas que ninguém mais vê, é ver o absolutamente banal que está bem diante do nariz, sob uma luz diferente. Então, em seu legado, podemos destacar uma importante lição para o educador que lida com diversos níveis dos
saberes, desde o senso comum aos saberes especializados e que devem ser traduzidos para uma linguagem simples e coloquial, ilustrada com exemplos Cotidianos, que, habilidosamente, misturam saber com o sabor. Outro pensador brasileiro progressista é Maurício Tragtemberg. Nasceu em 1929 e morreu em 1998. Um dos principais pensadores anarquistas, na verdade, um dos poucos pensadores anarquistas atuais, preocupados com a escola. Maurício Tragtemberg representa, hoje, uma importante corrente de pensamento e ação política-pedagógica, cujas raízes estão em Bakunin, Kropotkin, Malatesta e Lobrot. O pensamento de Tragtemberg na educação mostra os limites da escola como instituição disciplinadora e burocrática e as
possibilidades da autogestão pedagógica como iniciação à autogestão social. De acordo com ele, a burocracia escolar é poder, repressão e controle. Portanto, ele critica tanto países capitalistas quanto socialistas, que desencantaram beleza e riqueza do mundo E induziram à racionalização sem sentido humano. A burocracia, de acordo com o autor, perverte as relações humanas, gerando o conformismo e a alienação. As propostas de Tragtemberg mostram as possibilidades de organização das lutas das classes subalternas e de participação política do trabalhador na empresa e na escola, visando à reeducação dos próprios trabalhadores em geral e dos trabalhadores da educação em particular.
As principais obras deste autor são: "Administração, Poder e Ideologia" (1980), "Sobre Educação, Política e Ideologia" (1982), "Burocracia e Ideologia" (1974). Para finalizar, abordarei um pensador também brasileiro progressista, Demerval Saviani, que é formado em Filosofia e professor de ensino superior desde 1967 e hoje leciona Filosofia da Educação no mestrado e doutorado na Universidade de Campinas. Em suas obras, o autor destaca A necessidade de se elaborar uma teoria educacional a partir da prática, e de tal teoria ser capaz de servir de base para a construção de um sistema educacional. Ele realça a necessidade da atividade sistematizadora da
prática educativa e se refere aos cinco metódos principais: lógico, científico, empírico-logístico, fenomenológico e dialético e as diferentes correntes pedagógicas: materialismo, pragmatismo, psicologismo Naturalismo e sociologismo. Saviani acredita que, para uma reflexão ser filosófica, torna-se necessário cumprir três requisitos básicos: a radicalidade (a reflexão em profundidade), o rigor (métodos determinados) e a globalidade (contexto na qual se insere). As principais obras deste autor, podemos citar aqui: "Educação Brasileira: estrutura e sistema" (1973), "Educação: do senso comum à consciência filosófica" (1980) e "Escola e Democracia" (1983). Muito bem, esses são os principais pensadores da contemporaneidade e suas contribuições para o pensamento
educacional brasileiro. Iniciamos a Unidade 3, espero que você estude o Livro da disciplina Contexto Histórico-Filosófico da Educação. Quero enfatizar para você a importância de se acessar a trilha de aprendizagem, no AVA, participar do fórum, acessar os links do material de apoio e realizar Os exercícios que estão dispostos no seu livro. Sucesso na construção dos conhecimentos e compreensão sobre este assunto. Qualquer dúvida, estamos à disposição no telefone 0800 642 5000 ou no ambiente virtual. Muito obrigado por sua atenção! Bons estudos!