Um casal procura lugar numa hotelaria. A mulher está grávida, mas não havia lugar para eles. Eles, então, vão até um estábulo.
E ali ela dá à luz uma criança, envolta em faixas e colocada na manjedoura. Um acontecimento banal, diria até um acontecimento infeliz porque, claro, se eles tivessem ficado na casa deles de Nazaré, é verdade, a casa era pobre, mas tinha um pouquinho mais de estrutura, havia ali pelo menos ao redor famílias amigas que poderiam amparar aquela mulher que dava à luz pela primeira vez. E, no entanto, num lugar inóspito, num lugar de solidão, de frieza, não somente climática, frieza humana, nasce aquela criança, numa pobreza muito maior do que seria de se desejar.
E, no entanto, o Céu está alegre; e, no entanto, Deus envia mensageiros, Deus envia uma multidão de anjos para cantar, cantar uma alegria porque Deus exulta de alegria. E por que é que Deus exulta de alegria naquela miséria? Por que é que Deus exulta de alegria naquele presépio?
Por que é que Deus exulta de alegria na pobreza e no aniquilamento? Porque Deus é amor. Deus é amor, e o amor se inclina do alto do Céu para vir até a nossa miséria.
Deus é amor, e o amor quer se doar. E ele se doa. E ele se entrega.
E esta é a alegria de Deus, esta é a felicidade de Deus. A felicidade de Deus é de se entregar, é de se doar. Nós talvez nunca, nunca entenderíamos a verdade da manjedoura, do presépio, da noite de Natal, se não colocássemos lado a lado aquela noite com o Calvário.
Sim, para nós entendermos o mistério do Natal, nós temos que ir trinta e três anos depois, para a cruz do Calvário, para ver Deus que se aniquila, a que ponto Deus se rebaixa por amor a nós. No Natal, Deus se fez homem; na cruz, Deus deixou de ser homem porque, como diz o profeta Isaías, o seu aspecto era terrível, e Ele estava tão deformado, homem das dores, que não tinha sequer aparência de um ser humano. O mistério do Natal é o mistério de Deus que se aniquila.
“Ele, sendo igual a Deus, não se apegou ciosamente a essa igualdade, mas se esvaziou a si mesmo”, se esvaziou, exinanivit, em latim, ekénosen, Ele, sim, na sua kenósis, Deus se fez homem e se fez homem para nos amar, esta é a lei de Deus. A lei de Deus aqui nessa história, na nossa história, na nossa história humana. A lei de Deus é a seguinte: quando Deus triunfa, Ele triunfa sim, mas não no esplendor, não num triunfo externo, aparente, não.
Deus triunfa escondido. O triunfo de Deus, a alegria de Deus, a salvação de Deus acontece escondido na aparência de fracasso, do fracasso da cruz, no fracasso daquela noite miserável, humanamente falando, a noite do Natal. Sim, quantos fracassos naquela noite!
Nas portas batidas e fechadas na cara em Belém. Na solidão de uma virgem que dá à luz o seu primeiro filho, sem nenhuma assistência humana. Quantos fracassos naquela noite no coração de José, que tinha muito pouco para oferecer ao seu filho adotivo e à sua esposa.
Ali, escondido no fracasso, o triunfo de Deus, a alegria do Céu. Para que ficasse bem claro, Deus precisava revelar, Deus precisava transmitir, Deus precisava transbordar a sua alegria, então Ele envia seus mensageiros e os seus anjos para naquela noite cantar: Glória a Deus nas alturas e paz, paz a essa humanidade, a essa humanidade que vive na luta, na luta de uns com os outros ou, o que é pior, na luta de si consigo mesmo. Paz!
Chegou a paz. Chegou o Príncipe da Paz. Naquela criança envolta em faixas encontra-se o Rei glorioso dos céus que veio nos salvar.
“Eu vos anuncio uma grande alegria: nasceu para vós um Salvador, um Salvador. ” E no entanto a salvação, ela se manifesta nesta lei, e aqui está o mais importante que eu gostaria de transmitir para você nesta mensagem: a lei de Deus em nossas almas é a lei de Deus na história. Na história, Deus triunfa escondido no fracasso; em nossas almas, Deus irá triunfar da mesma forma.
Como é que você está vivendo esse Natal? Talvez esse Natal esteja bem diferente daquilo que você sonhava. Talvez seja um Natal de solidão, o Natal onde você não teve sequer coragem de montar a sua árvore de Natal, ou de montar o presépio; Natal onde você esteja em dívida, quem sabe você não teve dinheiro para comprar o seu peru de Natal e a única coisa que lhe resta é abrir uma lata de sardinha; o Natal em que talvez, envergonhado, você não tenha presentes para dar aos seus filhos, a não ser um abraço, um beijo, ou até pior: o Natal em que você esteja longe da sua família, e nem sequer o abraço e o beijo você possa dar.
Como é esse Natal? Como você vai vivê-lo? Se esse Natal está escondido atrás do fracasso, saiba: você está vivendo o Natal como ele foi vivido a primeira vez.
Na aparência de um fracasso humano, um triunfo divino. Sim, mas para que esse triunfo divino aconteça na sua alma, é necessário transformar esta dor em amor, é necessário que o amor seja doação, que você se entregue como Ele se entregou, Ele se entregou por nós, Ele veio, se fez homem e veio se entregar. Meu irmão, minha irmã, o Natal chegou.
E Ele chegou. Não existe mais solidão. Emanuel, Deus conosco, Deus conosco.
Embora você sinta solidão, você crê na presença. Ele está conosco. E está conosco triunfando.
Talvez você não tenha tido a graça de, como aqueles pastores, escutar a voz dos anjos que cantava, aquela sinfonia extraordinária de glória e de paz, de glória a Deus e de paz aos homens, talvez você não tenha tido essa experiência, mas você, na escuridão da fé, você pode ter a certeza de que Deus age assim. Não se espante, se você segue a Jesus e a sua vida segue também os fracassos dele. Porque a graça nos visita exatamente assim.
Essa é a lei de Deus na vida de Cristo, é a lei de Deus na sua alma ao doar a graça, e é a lei de Deus na história da Igreja. Quantas vezes páginas terríveis da história da Igreja nos fazem duvidar da assistência divina! Quando o pequeno barquinho da Igreja parece soçobrar, onde as ondas impetuosas invadem este barco, e nós dizemos: Mas por que Jesus dorme?
Por que Ele não vem em resgate da sua esposa? Por que Ele demora? Por que, embora a Igreja, aquele pequeno resto, aquele pequeno resto dos fiéis, que diz com o Espírito Santo: “Vem, Senhor Jesus”, embora a esposa diga: “Vem, Senhor, onde te escondes?
”, embora nós peçamos a vinda dEle, Ele parece se esconder, Ele parece dormir. Tudo parece fracassar. Mas, se a Igreja é verdadeiramente Corpo de Cristo, ela precisa seguir as leis do Corpo de Cristo.
Sim, do presépio até a cruz, o fracasso foi o caminho do triunfo. Não nos espantemos de ver a Igreja crucificada, ou até mesmo empobrecida e pequenina, envolta em faixas nesta noite de Natal. Se tantos fecham as portas rejeitando a Igreja, se ela recebe tanta indiferença, não nos espantemos.
O triunfo da Igreja não virá no modo humano, não virá através de um triunfo histórico, virá seguindo os passos do seu divino Esposo, porque a lei de Cristo é a lei das almas, é a lei da Igreja. Somente assim este Natal será feliz. Este Natal será feliz se você fizer um ato de fé.
Se, no meio de tantos fracassos, de tanta miséria, de tanta confusão, de tanta perplexidade, de tanto escândalo, você erguer os olhos e, mesmo sem ver, abrir os seus ouvidos e, mesmo sem escutar, abrir o seu coração e, crendo, ouvir o canto dos anjos e ver que o Céu se alegra. Sim, porque Deus se doa mais uma vez. Na Eucaristia de que nós iremos participar na noite santa, quando a Hóstia divina se erguer nas mãos do sacerdote, mesmo na mais recôndita capela, na mais miserável e pobre das igrejinhas, quando aquela Hóstia se erguer, Deus estará transbordando o seu amor mais uma vez sobre a humanidade.
Será Natal! Sim, será Natal porque Ele estará conosco, será Natal porque não seremos abandonados, será Natal porque, embora o fracasso humano esteja aí abundante, existe uma alegria no Céu porque Deus se doa, e se doa à sua alma. Creia nisto!
Creia! Mas não creia como uma espécie de autoajuda: “Ah, eu preciso crer, faz de conta que Deus se doou”. Não, creia!
Porque no ato de fé você é visitado, no ato de fé Ele ressuscitado e triunfante toca você. Apesar do fracasso humano, o triunfo divino. Assim o Natal será feliz.
Será um feliz Natal. Sim, os mensageiros de Deus anunciarão a felicidade, embora as páginas dos jornais não noticiem o triunfo da Igreja, embora as páginas dos jornais só tragam más notícias. Há mensageiros invisíveis que dizem: Não parece, mas Ele está triunfando em cada ato de fé, em cada fiel que, apesar de tudo, diz: Ele reina, Ele chegou, o Príncipe da Paz.
Meu irmão, minha irmã, que a Virgem Maria lhe dê esta fé, para que você tenha um feliz e santo Natal! Cante com os anjos a verdade invisível do triunfo de Deus. Um feliz e santo Natal!