Olha, se você quiser ser bem feliz, infeliz, passe a vida inteira buscando a felicidade, que você vai ver que é bem mais complicado do que parece, né? Mais ou menos como aquele tipo de pessoa que planeja as férias, as férias são inferno e no meio das férias ela tá querendo voltar pro seu dia a dia, pra sua casa, pro seu sossego. Não é tão fácil assim.
E devo dizer que nem sempre a filosofia viu a felicidade do mesmo jeito, né? E eu vou exemplificar um pouco para depois chegar nesse grande problema contemporâneo, que é em que medida a obsessão pela felicidade é uma grande causa da infelicidade. Olha, na filosofia antiga está pensando gente como Platão, Aristóteles, né?
Mesmo se você pensar em romanos como Cícero, Políbios, que era grego, mas vivia em Roma. Ah, há uma preocupação grande com a felicidade em relação à política. Mas como falam os americanos, hold your horses, hã, segure seus cavalos.
Com isso, eu não tô querendo dizer a preocupação que se tem com a política hoje ou a ideia de que a política vai fazer você feliz, que é um dos baratos mais furados que a humanidade entrou desde o século XVI. Não, eu fiz essa pegadinha de propósito usando a palavra política. Para os antigos, política significa o convívio coletivo na cidade, tá?
A reflexão, até onde a gente sabe, nasce em Atenas, na polis, como os gregos falavam. Daí vem a palavra política, né? Ou seja, como fazer com que o convívio na pólis não degenere, não fique pior do que já está, que tem uma mínima ordem.
Portanto, vincular a felicidade, então, à política para autores antigos, gregos e romanos não tem nada que ver com a ideia de que se você votar no partido X, ele vai produzir uma felicidade social, que inclusive não tinha nem partido. A pergunta é, a felicidade, deixando de barato as expressões, a felicidade depende de como se arranja o atrito estrutural entre pessoas e grupos dentro de uma mesma cidade. Por quê?
Porque as pessoas tendem a violência quando encontram situações que acham que está justificada a violência. Fora os caras que se matam por gosto, né? Mas tô falando eh de violência justificada de alguma forma.
Então você nós tivemos que estabelecer alguns parâmetros. Quem manda, quem obedece, ah, quem pode ter direito de fazer o outro e fazer outra coisa, né? E na antiguidade, por exemplo, existiam escravos.
Os caras estavam se perguntando sobre felicidade e vida na pól, mas ninguém duvidava que quem lava os pratos são os escravos. Porque se você não tiver quem lave os pratos, o que será de você? Não é?
Porque você vai ter que ficar passando a vida lavando o prato. E quando você fica passando a vida lavando o prato, você não pode se entregar as atividades superiores do espírito, digamos assim. Então, mas na antiguidade, felicidade tava vinculada a duas coisas muito importantes.
Uma era o convívio na polis, portanto a política, a o esforço para fazer da pólv razoavelmente convivível, certo? Vinculada à ideia de que, portanto, a ordem política, o que ela fazia era manter a vida razoável. Ninguém na antiguidade tinha ideia.
O Platão escreveu o livro República, que foi um delírio dele e tal, que é uma utopia. Quando ele tentou pôr em prática e Siracusa, deu muito ruim, ele quase mataram ele. Então, os antigos todos pensavam que a política era uma ferramenta da felicidade na medida que ela tornava a vida mais convivível dentro da pólice.
Uma outra referência importante que a gente encontra, por exemplo, muito em Aristóteles, é a ideia de que a felicidade tá ligada a capacidade que se tem de autocenção e do exercício de boas práticas, que ele vai chamar de virtudes, aretê, que alguns traduzem como excelência. Então, se você se esforçar para ser excelente em ter coragem, excelente em ter disciplina, leia-se, tenha virtude para excelente em ter disciplina, excelente ser generoso, você será uma pessoa melhor para se conviver. E se muita gente fizer isso dentro da pól, o convívio fica melhor, entende?
Então, a felicidade na antiguidade não está ligada à realização de desejo, que é o que a gente pensa muito hoje. Felicidade ligada à realização de desejo. E é aí que a porca torce o rabo, né?
Porque o desejo, por definição, é insaciável. E quando você dá alguma coisa para ele, depois de um tempo, ele pode se entediar, né? Aliás, o capitalismo só existe por conta dessa dinâmica da natureza humana com desejo.
Então assim, naquele momento da antiguidade, ah, e isso vale também pros estoicos que andam na moda por aí, né? Tem gente que transforma estoicismo em mindset, pelo amor de Deus, né? O estoicismo é uma filosofia antiga, né?
É difícil você pegar assim e aplicar ipsices líteres. Os estoicos afirmavam que a felicidade passa primeiro por aceitar que a maior parte de coisas das coisas da vida, você não tem controle. A felicidade do mundo contemporâneo tá muito ligada à noção de que você tem que ter controle sobre todo.
E isso tá mais ou menos justificado, porque a modernidade tá baseada na noção de técnica e controle, né? Então, digamos, tem um certo sucesso nessa fórmula, na ciência e na tecnologia, e que então as pessoas tentem passar esse controle pra vida. O que eu quero dizer com isso é que querer controlar as coisas não faz de você um idiota, faz de você uma pessoa moderna, né, que tá nesse ambiente em que o controle paga, como se fala em inglês, né?
Paga no sentido de você ter alguns resultados, mas deixa você bem neurótico, né? bem ansioso, tipo toque. Então assim, portanto, não há, inclusive, se você eh voltando aos estoicos, né, tô fazendo essa diferença para ficar claro que a a filosofia não tem uma compreensão única de felicidade, né?
Qualquer pessoa que penseo sobre felicidade sabe disso. Eh, no estoicismo, então, você ser feliz significa você saber diferenciar aquilo que você controla daquilo que você não controla. E o que você não controla é muito maior.
E você tem que aprender a lidar com isso. Por exemplo, pessoas que você ama morrem, você mesmo. Portanto, você não deve ter nenhuma grande ilusão com relação ao futuro.
Hum. É bom que você faça o que você tem que fazer agora, porque o futuro a ninguém pertence. Com certeza você não.
Se você compara com o mundo moderno, o mundo moderno tá fincado na ideia de que o controle é resultado da sua engenharia pessoal com relação à gestão da sua própria vida, não é? Não, né? Então, eh, o estoicismo e o mundo contemporâneo são quase antípodas.
Por outro lado, o historicismo entende que você pode ser feliz, por exemplo, se você aceitar de uma vez por toda que ah, a vida é breve, né? ah, não ficar se apegando ao que passou, tampouco ficar se apegando ao que ainda não aconteceu, portanto, se concentrar mais no presente. Essa ideia muita gente gosta de falar hoje em dia, mas hoje é muito difícil você se concentrar no presente, porque a rigor o presente não existe.
O presente passado não vale nada e o presente só existe enquanto ele prepara o futuro. Vivemos para o futuro porque a gente sabe que o futuro vai nos acontecer. E o futuro significa dinheiro, né, para você lidar com esse futuro.
Por outro lado, o picurismo, que também é antigo, esse lida com desejo. Muita gente confunde porque fala de prazer, hedonismo, não sei o quê, mas para os epicuristas, né, ou epicureus, como alguns falam, ah, na realidade, a relação com o desejo é o seguinte: é fundamental a gente realizar os desejos básicos necessários. tem uma diferença, mas eu não vou entrar nela.
Mas esses desejos são importantes, mas uma vez que eles estiverem satisfeitos, pare de desejál. Oscuristas tenham duas concepções de felicidade. Uma é não sentir dor.
Às vezes vai ficando raro, né? E o a outra é justamente a se satisfazer com os desejos realizados, básicos e necessários. E você não ficar, por exemplo, desejando ter poder sobre o mundo.
Ah, inclusive a ideia em Epicuro de que se você tem pão e vinho, você tá igual aos deuses, né? Imagine como isso tá distante da nossa concepção de felicidade. Hoje o prazer pro Epicuro é você não desejar demais.
É o contrário do que se pensa hoje. É você Ah, agora veja, reza a lenda que o Epicuro viveu com duas prostitutas. É difícil dizer porque a palavra em grego não faz muita diferença, né?
Não se fazia muita diferença. Aí que tá, né? ah, entre companheiras na vida, companheiras sexuais e o que se chamaria de prostituta.
Evidentemente, supondo que o dinheiro estaria sempre envolvido, a condição material sempre envolvida na na relação, mas supostamente ele teve duas companheiras a vida inteira e, portanto, não é que o Ipicuro tava dizendo que você tinha que ser celibatário, tá? O desejo sexual era alguma coisa entre eles da sede, da comida, de dormir bem. eram são desejos que devem ser preenchidos, com certeza.
Mas você não deve ficar, por exemplo, querendo, falando de sexo do ponto de vista dopicuro, homem, você não deve ficar a vida inteira querendo todas as mulheres do mundo, entendeu, né? Porque isso daí só vai deixar você insatisfeito, insatisfeito com aquilo que você tem naquele momento, seja lá o que for. Aí vamos pular, né?
Vamos pular pro mundo atual. Por que que a felicidade gera frustração hoje? Primeiro porque você tem que postar e ver que você é feliz.
Mais do que ser feliz, você tem que parecer feliz. A mulher de César não bastava ser honesta, tinha que parecer honesta. Você não basta ser feliz, você tem que parecer feliz.
Porque se você não parecer feliz, de repente não arruma emprego, parece deprimido, não parece envolvido com a coisa, né? Você o tempo inteiro é estimulado ficar comprando coisa e achando que você tem já tá velho. E de fato, muitas vezes está.
A própria tecnologia joga na cara o fato de que o progresso é inevitável, não para, avança, seja isso na medicina, seja isso na aviação, seja isso na informação, seja isso na comunicação, seja isso na computação, seja isso na inteligência artificial, que é um bom exemplo. Você vai lá, faz um MBA, inteligência artificial durante um ano, no primeiro mês que você tá fazendo o MBA, o que você estudou já tá ficando velho, né? Então a modernidade ela, entre aspas, foi feita para te frustrar, não foi feita por ninguém, tá?
Eu tô usando como metáfora, não é que tem alguém querendo te frustrar. O próprio sistema dela baseado em revolução industrial, em avanço tecnológico, em busca cada vez de coisas mais novas, controle sobre quase todas as variáveis, isso daí vai lhe frustrar inevitavelmente. Em algum momento isso vai fracassar, né?
E se você transformar isso numa obsessão, você ficar olhando para ver como todo mundo fez, o que que se fez, o que deu certo, o que não deu certo, catalogando e chegando numa espécie assim de existência positiva, tentando replicar formas que deram sucesso na sua vida ou na vida de pessoas que você conhece, dos seus semelhantes, aí você vai produzir uma enorme obsessão, achando que você vai conseguir repetir comportamentos que às vezes funcionar numa situação e não funciona mais, inclusive porque de repente você nem é a mesma pessoa, né? Por isso que eu falei que a modernidade parece ter sido feita para te frustrar. Quanto mais você quiser, quanto mais você foi insaciável, quanto mais você acreditar na ideia que você vai poder controlar tudo na vida, mais você vai se frustrar.
Agora, se você resolver largar isso tudo de mão, deixar isso tudo de lado e viver segundo a fortuna, provavelmente você vai se danar muito feio. Então não tem propriamente saída para esse problema. M.