[Música] biblioterapia que história é essa eu escuto essa pergunta muitas vezes eu poderia responder de diversas maneiras mas eu prefiro fazer isso através de um poema do ferreira gullar que se chama muitas vozes e diz assim estamos todos nós cheios de vozes que o mais das vezes mal cabem em nossa própria voz e tudo isso em ti se deposita e cala até que de repente um susto uma ventania que o poema dispara chama esses fósseis a fala meu poema é um tumulto um alarido basta apurar o ouvido esse poema está no livro que se chama
muitas vozes que dialoga com essa imagem que é dividir diz k weiss no livro teste com a eth e que mostra o quanto de nós fica submerso pela falta de expressão eu sou uma psicóloga que cuida das pessoas através da literatura apesar de pouca gente conhecer esse termo ele é muito antigo e ele consta no código brasileiro de ocupações sob a responsabilidade da biblioteconomia apesar dele ser aplicável a várias outras áreas como a psicologia à educação à saúde a cultura literatura e muitas outras de uma certa forma eu acredito que cada um já tem uma
certa intimidade com a prática e o contato isso através de duas perguntas a primeira você já teve a impressão que um livro funcionou como verdade quero terapeuta pra você ele acolheu você num momento de dificuldade no meio suas angústias mostrou perspectivas que você ainda não considerava e provocou uma verdadeira transformação na sua vida a segunda pergunta é conversando com alguém de vez em quando que atravessam um pensamento eu acho que essa pessoa precisava letal livro e aí você recomenda ou prescreve ou compra idade presente ou empresta se você respondeu sim a qualquer uma dessas perguntas
é sinal que você já vivenciou na pele o processo da biblioteca a pia é hoje trabalho com a bíblia terapia de duas maneiras principais uma individualmente no consultório onde eu tenho estantes de livros que eu chamo da minha farmácia e outra coletivamente através de rodas de leitura que eu chamo de círculo de biblioterapia que acontecem semanalmente desde julho de 2011 até os dias atuais e eu vou dar exemplos de como é que isso funciona para que vocês percebam a dinâmica desse trabalho no consultório por exemplo eu recebi um paciente que tinha 25 anos e sofria
de convulsões quando essas crises se manifestavam ele ficava extremamente agressivo e ele quebrava tudo colocando em risco a própria segurança das pessoas que estivessem próximas a ele por conta dessa condição a família o mantinha com a liberdade cerceada e ele cresceu assim já dizia a nise da silveira que o melhor tratamento que existe a liberdade imagina você não ter liberdade talvez por isso a agressividade se manifestasse nas crises diante dessa situação o que é que o biblioterapia alta faz ele na verdade é um relações públicas entre as pessoas o contexto que elas estão vivendo e
os autores dos livros que possam dialogar com aquela pessoa naquele momento então eu peguei o notas do subsolo do dostoievski e nessa edição de bolso que vende no jornaleiro leu um trecho pra ele e perguntei se ele gostaria de levar pra casa pra conhecer um pouco melhor e para me contar como é que tinha sido esse encontro na semana seguinte na semana seguinte eu perguntei como foi você gostou do livro ele começou a sacudir o livro fala se o que que é isso aqui eu fiquei com medo eu achei que ele ia quebrar o meu
consultório todo comigo lá dentro mas para minha surpresa ele disse assim pra mim parece que fui eu que escrevi quando eu escuto isso eu fico com um alívio muito grande porque eu sei que a pessoa não está mais sozinha ela encontrou alguém com quem conversar com alguém que vai poder nomear angústia que ele está sentindo e para nossa surpresa ao ler a biografia do autor ele descobriu que o 2o e heves que sofria de epilepsia e que isso não impediu e provavelmente até contribuiu para que ele se tornasse um escritor universal imortal e por conta
disso esse paciente começou a escrever sobre a beleza da dor num outro exemplo eu recebi uma pessoa uma mulher passando por uma situação muito difícil de vida ela estava num processo de separação de um casamento de mais de 40 anos e sofrendo tanto que isso reverberou não sintoma porque o sintoma também é uma voz é uma narrativa que a gente precisa ouvir o que está dizendo o corpo já que as palavras não vem e ela teve um rompimento do intestino ela teve procedimentos cirúrgicos que deixaram ela face a face com a finitude com a morte
ela se sentiu extremamente fragilizada como se tudo tivesse desmoronando a literatura tem um manancial inesgotável para acolher essas situações por exemplo a florbela espanca tem uma por um poema chamado ruínas que diz assim se é sempre outono ruir das primaveras castelos 1 a 1 deixa os cair que a vida é um contínuo de ruído de palavras do rei das quimeras e deixa sobre as ruínas crescer eras beijar as pedras e florir que a vida é um contínuo de ruir de palácio de renda as quimeras deixa tombar teus ruth dos castelos tenham ainda mais sonhos para
erguê los mais altos que as águias pelo há sonhos que tomba derrocada louca são como beijos de uma linda boca deixa-os tombar e nesse trabalho são muitas as vozes porque o autor chama outro florbela chamou cora coralina eu sou o caule dessas trepadeiras sem classe nascida na áfrica das pedras bravias renitentes indomáveis pisadas maltratadas e renascendo cora coralina chama cecília meireles aprendi com as primaveras a deixar me cortar ea voltar sempre inteira ea cada poema a gente vai se regenerando vai vendo que não está só cada poema tem uma energia por exemplo a clarice lispector
nesse contexto também ajuda muito mas percebam como energia muda na primeira página do paixão segundo gh a clarice diz assim eu perdi uma terceira perna que me impedia de andar mas que fazia de mim o tripé estável estou diz organizada porque eu perdi o que eu não precisava isso é de tirar o fôlego não é isso é um tratado filosófico e dentro desse processo a literatura utilizada não só para a nomeação angústias mas também para abrir novas perspectivas e nesse sentido a escrita ela é muito incentivada no processo até inspirada por adélia prado que escreveu
ao buscar palavras com que narrar minha angústia já respira melhor a uns deus quer doentes a outros escrevendo então essa paciente foi incentivado a escrever está com raiva tá com medo tanto angústia escreve sem compromisso com o valor literário compromisso com a expressão pra expurgar isso pra arrancar isso de você e num segundo momento a escrita ficcional vamos inventar um novo personagem o que você quer resgatar da sua vida o que está aí submerso se você fosse faria essa mulher que nova mulher seria essa escreve o que ela estaria fazendo dizendo e esse processo resultou
na publicação de um livro que se chama escritas libertária de ano de ângela pupin que me deu alegria de estar aqui nesse nesse público hoje [Aplausos] nesses dois exemplos é a gente percebe que a escassez está muito próxima da abundância e tem uma frase do saramago no ano da morte de ricardo reis que diz assim todos nós temos uma doença todos nós somos uma doença digamos assim por causa dela somos tão pouco mas também por causa dela conseguimos ser tanto então é esses foram exemplos de um atendimento individual com biblioterapia mais conforme eu contei em
julho de 2011 começarão os círculos as rodas de leitura nem sempre foi assim tão cheio de gente no início às vezes iam duas pessoas três pessoas mas isso não importa porque se eu fizer um convite pra vocês pensa naquela primeira pergunta que eu fiz qual a ficou foi o livro que já funcionou como um terapeuta pra você que a impressão que você teve não era que você estava lendo o livro mas o livro estava lendo você pega esse livro que você lembrou imagina que você vai ler esse livro vai marcar trechos que foram mais importante
pra você e vai lançar um convite para os seus amigos para interessados que você vai fazer uma roda de leitura com esse livro chega no dia do encontro imagine a situação você vai está em mais uma leitura cada vez que a gente lê uma um livro que nos afetou é como se a gente ficasse raízes a gente vai ficando mais é forte consistente ao partilhar essa leitura com outras pessoas o que acontece é uma bunda de perspectivas elas vão ver coisas que você nunca sequer imaginou então aquela leitura que foi tão significativa para você ela
vai se expandir como países existem várias mágicas que acontecem o que considero essas rodas de leitura como revoluções sensíveis porque a gente se ausenta do caos que a gente está vivendo é um espaço para respirar é um espaço pra alimentar o sonhar o gastão bacelar fala que imaginar el zentani arce lançar se a uma vida nova e essas rodas de leitura elas foram também muito inspiradas nessas antropólogos francesa chamada michele petit que ela tem esse livro a arte de ler ou como resistir à adversidade essa pesquisadora percorreu o mundo nos países onde tinha mais escassez
campos de refugiados lugares de extrema pobreza assolados por guerras e ela foi conversar com os mediadores de leitura desses lugares e o que eles relatavam era justamente esses que esses lugares representava uma forma de recuperar a casa perdida num lugar que a gente possa se alimentar de beleza o bartolomeu campos de queirós ele diz que viver sem esperança é como ter casa sem janela nessa perspectiva a gente tá aí com um nível de depressão muito alto de medicalização muito alto não é o que é a depressão a pessoa só vê uma saída ela é insuportável
então ela deprime no ponto de vista da bíblia terapia quer dizer que esse repertório atrofiado é preciso ampliar esse repertório então o fernando pessoa no livro do desassossego ele diz que sonhar é procurarmos nos e que ler é sonhar pela mão de outrem e nesses espaços a gente tem algumas premissas para favorecer o acolhimento da diversidade opiniões porque é isso que nos enriquece então o saramago ele diz que a tentativa de colonial tentativa de convencer o outro é uma tentativa de colonização do outro então nós fazemos um exercício de cada um ter o espaço para
falar a sua opinião e depois calar para que o outro também têm essa oportunidade depois se alguém quiser mudar de opinião é com cada uma decisão pessoal e nesse percurso eu descobri que na inglaterra um pesquisador chamado neu fru ndi conseguiu comprovar que fazer rodas de leitura substitui antidepressivo isso incentivou que o governo adotasse políticas públicas de saúde num programa que se chama buxom prescription como nós temos farmácias do sus lá eles têm bibliotecas do sus e fazem as rodas de leitura e que resgatam isso que é tão ancestral das relações face-a-face intercambiando experiências intercambiando
até nossas fragilidades assim se faz uma partilha do sensível e se fortalece as relações e as coragens e nesse percurso que começou em 2010 2011 as experiências são tão ricas que eu publiquei o livro em 2014 chamado vivências em biblioterapia práticas do cuidado através da literatura porque isso tudo já estava transbordando uma coisa muito boa gente tem vontade que todo mundo fruto daquilo tem uma frase do valentino dell maza que diz compartilhar um gesto sem cálculos de duas mãos abertas que já não sabem se estão dando ou recebendo a partir da publicação desse livro várias
pessoas me procuraram porque tem esse chamado tenha-se amor aos livros e à vontade de contribuir para um lugar melhor pra gente viver e eu chamo essas pessoas de bíblia família então já foram quinze cursos e eu tenho orgulho de dizer que a gente conhece uma árvore pelos seus frutos e essas pessoas já estão espalhadas pelo brasil fazendo as suas próprias rodas partindo do seu próprio universo como um poeta me ajudou abre eu vou chamar o o leminski para me despedir o poema se chama contra narciso em mim eu vejo o outro e outro e outro
enfim dezenas vagões cheios de gente centenas ou outro que há em mim é você você e você assim como eu estou em você eu estou nele em nós e só quando estamos em nós estamos em paz mesmo que estejamos a sós gratidão [Aplausos]