Sejam todos bem-vindos e bem-vindas neste nosso novo encontro! E hoje vai ser uma delícia, com certeza, conversar com a Elsa Tortello. A Elsa Tortello sempre acreditou na arte como sendo uma das melhores coisas que há no ser humano. Por isso mesmo, trabalhou em várias escolas de Sorocaba, como a OSE e o Irapuru, dedicando-se com sensibilidade, competência e construindo uma carreira brilhante como professora e coordenadora de Artes Visuais e Teatro. Ela nasceu, morou e ainda mora em Sorocaba, onde teve seus três filhos, que considera suas melhores obras de arte. Estudou na Escola Panamericana de Artes
em São Paulo, ilustrou e publicou vários livros, considera-se uma artista autodidata e participou de várias exposições e interferências artísticas com o Grupo Soma. Desde 2002, ela resolveu ser mais feliz ainda e abriu o seu próprio ateliê, onde passou a realizar suas próprias produções e a ministrar aulas de Artes Visuais para adultos, jovens, crianças, vestibulandos e vestibulandas. Nesse espaço, que ela está até hoje, o espaço se chama Tier Arte, onde oferece aulas de desenho artístico, aquarela, pastel seco, acrílico sobre tela, óleo sobre tela, colagem e também prepara para provas específicas de arquitetura, moda, design e artes.
Ela fez duas exposições individuais com a série chamada "Por um Fio" na Galeria Escarpa e na Fundec de Sorocaba, e tem várias séries já executadas, como "Náufragos" e "Marujos". Atualmente, trabalha em uma série inédita em andamento nomeada "Descomeço". No "Descomeço", era o verbo, segundo Manuel de Barros. Ela tem algumas frases, por exemplo: "Não vejo sem a arte. A arte é uma ligação em toda a formação do ser humano. Ela passa pela mente, pelos olhos, pelo coração e pelas mãos. Eu acredito no traço. A vida não é fácil, mas é bela." Ela gosta muito também de
Fernando Pessoa. Para vocês saberem, uma das séries dela fundamentou-se em um dos pensamentos dele: "Não há saudades mais dolorosas do que as das coisas que nunca foram", do livro "O Desassossego". Eu tenho uma alegria muito grande, pois eu fui aluno do pai dela, o João Tortello, e professor dos seus irmãos, Paulo Tortello e Pedro Tortello. O Pedro, inclusive, mandou um abraço para você hoje. E tem a sobrinha, Ana Carolina, que também foi entrevistada. A penúltima entrevista foi da Ana Carolina, que atualmente está dando aula de português exatamente na escola onde dava português quando eu era
efetivo lá na OSE Salvo Mendes e está desenvolvendo atividades teatrais lá. É muita felicidade! Bom, mas eu também tenho para contar para vocês, mas depois ela vai contar bem mais a respeito disso, que foi ela quem indicou o Zé Henrique de Paula quando ele tinha apenas 23 anos para dar aulas na OSE Irapuru. Em 1993, ele assumiu as aulas de iniciação teatral para alunos desde a quinta série até o terceiro ano do ensino médio. Foi então que apresentaram juntos o "Velório de Adriano Lopes", "O Fantástico Mistério da Feiurinha", do Pedro Bandeira, "A Gata Borralheira", da
Maria Clara Machado, e "A Menina e o Vento", da Maria Clara Machado. Ele diz que, além disso, houve muita participação dos pais, ajudando, principalmente, nos cenários e figurinos, colaborando nas realizações. Para quem não sabe, é o Zé Henrique de Paula que foi aluno do Getúlio Vargas, participou do festival de Getúlio Vargas atuando vestido de noiva quando ele tinha apenas 15 anos, vestido de noiva de Nelson Rodrigues. No ano seguinte, apresentou "Esperando Godot", de Samuel Beckett, uma peça dificílima, e ele foi brilhante. Ele dirigia, atuava e fazia toda a parte de cenário e figurino. Incrível! Bom,
mas na verdade, quem vai contar essas coisas todas para vocês é a Elsa Tortello. Então, Elsa, seja bem-vinda! Fique à vontade para nos contar sobre essa sua viagem maravilhosa que você tem feito na sua vida. É um prazer enorme estar com você aqui hoje! Então conta para nós, absolutamente, desde lá, quando você nasceu, onde você morava, onde você estudou e por aí afora. Daí eu vou fazendo algumas perguntinhas para você, ok? Olha, eu tive o privilégio de nascer num berço de muita cultura que meu pai nos proporcionou a nós cinco filhos. Minha mãe também lia
demais e a gente teve, como uma vez já comentei com você, naquela homenagem que foi feita ao meu pai, o privilégio de termos em casa a cultura completamente aberta através de muitas histórias, muitos livros, muitas conversas sobre a mesa, com conversas sobre cultura. Eu achava que isso daí era uma coisa que existia em todas as famílias. Depois de muitos anos, percebi que aquilo lá era próprio da minha família. A gente se reunia para almoço, para jantar, e conversava sobre poesias. Meu pai lia as coisas que os alunos traziam para ele nas redações, ele escolhia as
melhores, ele perguntava o que cada um de nós achava. Depois, ele lia também algumas poesias e a gente se envolvia daquilo. A cultura era uma coisa diária, um cotidiano entre a minha família. Então, eu nasci nesse berço esplêndido, costumo falar. Tanto que nós cinco temos nomes que são de dois nomes e dois sobrenomes, e meu pai fazia questão de colocar musicalmente nosso nome, através do número de sílabas e a métrica. Era tudo nessa base na minha família. Então, foi uma família pródiga nesse sentido, com cultura e trazendo assim, mesmo, a literatura. Meu pai nunca deu...
Muito, nem minha mãe também. Eles nunca deram muita importância na parte social. A gente nunca foi social, a gente era intelectual. Ensinavam a gente a pensar, a refletir sobre as coisas. Então, isso favorece grandemente, e acredito muito nisso. Por isso, eu me tornei o que sou hoje, né? Esse embalar de uma pessoa ou das pessoas com sentimento, né? Vamos olhar para isto e vamos entender o que é isto, e não apenas sugar aquilo e comprar pronto. A coisa não vamos pensar: isso é bom, isso não é bom, isso vale a pena. O que quis dizer,
isso, isso foi a minha vida inteira. Então, meus irmãos, cada um do seu jeito foi se encaminhando para esse ou aquele evento, mas todos com essa intenção na cabeça. O Paulo era um fantástico poeta, inteligentíssimo, que é o meu irmão mais velho, né? Sim, e os outros também são nossos espetaculares, né? Alguns foram mais do lado da música e tal, e eu, por minha vez, nunca me achei tão boa na parte do português, porque quando eu era criança, eu falava algumas palavras erradas e na minha casa não podia falar errado, né? Era motivo de muita
crítica: você falava errado, todo mundo dizia: "ah, tá falando errado", né? E às vezes eu soltava umas pataquadas assim e era criticada, porque era criança. E como eu era uma criança mais observadora, eu desenhei muito rápido. Muito pequenininha, eu já desenhava e desenhava bem, impressionantemente bem, e eu percebi isso. Também demorei para perceber isso. Então, quando eu entrei na parte da adolescência, eu era muito quieta. Depois, na minha parte não tão quieta assim, mas depois, assim, na adolescência, né? E aí, quando eu resolvi entrar para a escola, eu não sabia direito o que eu queria;
eu só queria ser artista, queria ser desenhista, queria trabalhar com artes plásticas, né? Mas filha de professor, geralmente, é professora, é uma coisa que puxa, né? Porque daí, quando você vê, já está dando aula. E como eu, então, eu fiquei na OSE, né? Estudei na OSE e a OSE, naquela época, deve ser ainda hoje, não sei mais, mas naquela época que eu trabalhei, estudei na OSE, era magistério que nem existe mais, né? Então, também éramos muito acolhidos. Eles incentivavam a gente a fazer shows, teatrinhos, e a minha classe era muito unida, e a gente fazia
muito, então eu gostei muito de fazer isso. E quando eu vi, assim, quando terminei o magistério, lá mesmo na OSE, já me convidaram para dar aula. Eu tinha só 20 anos e fiquei chocada porque, na verdade, né? Porque hoje nem existe fazer isso. Naquela época, podia. Nem hoje, tem que ter diplomas e tal, né? E eu fui dar aula de artes, né? E para uma turma que era do magistério, contabilidade, fui dar aula à noite para pessoas que eram muito mais velhas do que eu. Sofri, inclusive, né? Porque ninguém me respeitava, porque eu era muito
menina, era mais nova que alguns alunos e tal. Mas que escola que era na OSE, lá no centro, na OSE mesmo, entendi? E também eu era aluna da mina Elia Tala. Você conhece? Sim, foi minha professora também de português. Legal isso! E ela também incentivava o teatro, sim. E ela era muito respeitada na OSE naquele momento. Eis que, numa época, o Pedrinho Salomão, junto com B, sem mais quem, começaram a fazer um festival estudantil de teatro em Sorocaba, e foi uma coisa assim que todo mundo amou. E as escolas particulares com suas peças… as escolas
públicas, o Biá. Eu lembro que também levava peças muito boas lá nesse festival. E aí, nesse ano, eu estava lá dando aula, né, como isso não recreativo, né? Que era o festival. Não é como que é o festival? Era no Recreativo, que era no Recreativo Centro, isso lá. Mas enchia, lotava, era muito disputado. E aí, na época, a Mina também dava aula lá na OSE e eu, né, como professorinha, também dava aula lá. E ela resolveu, a Mina, chamar alguns alunos, muitos alunos, e fazer "Morte e Vida Severina". Sei! E eu falava assim que queria
fazer uma comédia. Eu peguei Martin Pena, né? Peguei a comédia "Judas em Sábado de Aleluia", que é bem antiga, inclusive, né? E li o livro, o texto, achei incrível e trouxe para a época que seria assim de 73 a 76. Em 1973 a 1976, eu tinha 20 anos e reuni uma galerinha lá que eram os mais maluquinhos da classe, né? Tinha duas meninas e uns meninos, uns três, quatro meninos, e a gente se divertia muito. Isso que eu gosto do teatro na escola: o teatro traz energia, energia de positividade, de alegria, de garra. Isso é
o teatro que traz para a escola e a valorização do ser humano, né? Pega aquele adolescente e fala: "Você pode, você vai, você consegue. Vamos! Olha que legal!" E além de tudo, a gente vai se divertir. E a gente começou. Eu fiz o texto, refiz o texto inteirinho, trazendo para a época que era 1973 até 76, por aí, e gostei do texto, dei para o pessoal lá, e a gente ria muito nos ensaios. E a gente começou a se dedicar a isso e os meninos foram ótimos. Eles eram tudo malucos, tudo doido. Minha turminha ali.
E aí, a peça da Mina, ela era mais considerada, né? Lógico, né? Ela era uma professora mais tarimbada, tinha muita gente envolvida na Morte e Vida Severina. E aí então, a escola deu muito assim apoio à peça. Dela pra cenografia e tal, a nossa cenografia era de papel. Nós me mastic lá, nos era uma loucura e fizemos os nossos figurinos e tal. E quando a peça já tava em adiantado processo de treino e tudo, de ensaio, eu chamei um amigo meu que, na verdade, ele era meu irmão de leite, que é o Ardelio Del Cítia,
que hoje é o Crispim Del Cítia. Ele repete o nome, não é o Hélio, né? Você falou? Não entendi, não, Carlos. Eh, primeiro nome, Delícia. Ardelio, Ardelio, Ardelio. Carlos, dizia: "Aham". Ele era, na época, já era músico e tal, mas estava aqui em Sorocaba ainda. Depois, ele ficou, ele é o sovo, porque depois ele foi trabalhar com Elis Regina e passou por toda aquela parte do Falso Brilhante com ela e tudo. Ele foi longe, é verdade. Nossa, ele é muito famoso até hoje, ele é músico, sei. E ele era meu amigo e minha mãe falava
sempre que eu tinha sido a irmã de leite dele, né? E que eu nasci prematura e tal. A gente tem mais ou menos a mesma idade e ele era muito meu amigo. Eu sabia que ele trabalhava com música. Eu chamei ele e falei assim: "Ah, você não pode fazer a música da minha peça, Judas em Sábado de Aleluia?" Ele falou: "Ah, quero ver o ensaio". Daí, quando foi ver o ensaio, ele se divertiu muito e levou um amigo dele que trabalhava com som, que nem lembro o nome do amigo certo. Aí, ele criou um som
incidental pra minha peça, sei, junto, acoplado com esse amigo que também fazia a iluminação, pra fazer a peça crescer. E aquilo deu uma energia dia, no povo, que a gente começou a ficar muito bom. E na hora que a gente foi apresentar essa peça no festival, a nossa peça tirou em primeiro lugar! Que legal! Passou, inclusive, “Estal do Morte Vida Severina” e a gente ficou sem ação, porque a gente ganhou um monte de troféus. Ó, eu peguei a melhor pesquisa porque eu que tinha feito o texto, melhor iluminação, melhor sonoplastia, melhor ator, melhor direção. Assim,
nossa, a gente nem acreditava de ver o que deu nisso. E agora eu fico pensando: por que uma micro professora que eu era, né? Muito novata, só com a vontade de brincar seriamente, mas brincar nesse sentido assim de, sim, vamos curtir esse momento, uns alunos que eram uns alunos que nem eram assim tão disciplinados, que compraram a ideia porque também aceitaram essa proposta, se sentiram valorizados. Que veio o meu amigo, que é um gênio na música, que eu nem sabia que era tão gênio, e que levou essa peça a um patamar de muita... ficou muito
engraçado, porque daí ele fazia os passos da pessoa, né? Tudo ao vivo ali, e a peça faturou. Ganhou meu coração, no sentido de que o teatro deve existir nas escolas. E a partir daí eu não parei mais. Sabe, eu trabalhei, eh, uma época, lá pro 87, 89, eu trabalhei no Diário de Sorocaba e lá eu fazia um jornal infantil, um suplemento infantil que eu inventei ele inteirinho, desde o nome, que se chamava Faz de Conta. Teve 80 publicações, onde eu criei uns personagens. Então, daí já vem a parte Elsa, desenho, Elsa, ilustradora, né? Uma personagem
que se chamava Joaninha, aí que ela tinha um bichinho esquisitinho chamado Bidu. Enfim, esses personagens agitavam essa página infantil, né? Esse suplemento infantil. Fazia histórias, fazia entrevistas, fazia tudo o tempo todo com o jornalzinho inteiro, minha publicação. E teve uma época que eu fiz um concurso de desenho, dentro desse processo do jornalzinho, com as crianças, para animar a criançada lá e tal. E eu me fantasiei do personagem que eu inventei, que era a tal da Joaninha, que tinha um cabelinho todo espetadinho e tal, uma roupinha toda pintadinha, vermelhinha de bolinha branca. E para dar o
prêmio eu chamei muito metido o Zélia, irmão do Giraldo, que ele também era cartoonista e tal. Ele aceitou, ele veio para Sorocaba para dar o prêmio e, no dia da premiação, eu participei como atriz, né? Que eu era a Joaninha, pus uma pessoa que eu nem sei quem que era, o tal do Bidu, para dar os prêmios e tal. Eu também tava me divertindo muito, sei, engraçado, né? A vida deve ser vivida assim, né? Divertidamente mesmo, né? E aí, quando terminou tudo, o Zélia me chamou e falou assim: “Eu já namorava o meu, então queria
ser meu marido e pai dos meus filhos.” E ele falou assim: “Eu quero você, vai para São Paulo. Você vai arrasar no teatro infantil. É só você falar para mim quando você vai que eu vou abrir as portas para você.” Eu levei um susto porque eu não esperava que uma pessoa assim, famosa, fosse me chamar, né? Mas na época eu tava assim, totalmente voltada à ideia de casar e tava namorando sério já e tal, e não abri essa aspas. Depois eu ficava pensando assim: nossa, mas como seria diferente a minha vida, né? Se eu tivesse
ido, sei lá, quem eu seria, né? Será que eu iria casar com alguém? Será que ia ter filhos? Se eu tivesse ido estaria trabalhando hoje. Tá, Henrique? É, tá toda... Eu fui nessa coisa toda e depois, assim, saí do jornal e voltei a dar aula, na h. Eu acho que nem saí da aula lá na Ose. Eu sei que lá na Ose foi assim um campo muito, muito grande para muitas peças, né? Eu dava. Quantas peças mais ou menos você chegou a montar? A Na Ose eu devo. "Deixa eu ver na Ose, acho que foram
umas 50 peças." Nossa, maravilha! Mas assim, algumas peças eram peças de minha autoria ou então adaptações. Foram mais de 60 textos que eu fiz com certeza ali na Ose, né? Então primeiro eu trabalhava só com os alunos da quarta série, tipo, para final de ano. Assim, daí esses da quarta série queriam que eu continuasse, daí eu fui para a quinta, oitava série, que seria o nono ano hoje, né? Sexto ao nono ano fundamental. E aí depois eu fui para o Ensino Médio lá na Ose, mesmo dando aulas de teatro. E aí eu... E aí eu
usava o método da Viola Spol, certo? Era aquele teatro improvisacional, isso que eu amava! Eu amava, eu fui fundo nessa coisa do teatro improvisacional. A gente fazia muita coisa junto, a gente criava os textos juntos, eu e meus alunos lá na Ose, e já era o ó urapuru, né? Era envolvida assim totalmente. Chegava no final do ano, não sabia falar "não", não sabia pôr limites. Quando vi, eu estava atolada no meio de muitas peças, muitas apresentações, ficava esgotada, mas isso também me fazia vibrar. Daí, quando eu saí da Ose e fui para o Objetivo, o
Objetivo, tanto o Portal, que agora é só Portal, quanto também o Objetivo Centro, que ainda é Objetivo Centro, eles não tinham nada, nada de arte, nem de teatro. Então eu fui colocada lá para justamente inserir a área de artes plásticas e teatro dentro da escola, no projeto Cérebro, que era o que o Objetivo estava trazendo como uma novidade na época, né? Então, seria lá por 1997, mais ou menos, 1997. E aí, nessa daí que tinha teatro também nesse projeto, teatro também direto, direto. Eu fiquei chocada porque o Objetivo tinha muitos alunos, e quando abriram a
inscrição de teatro eu vi a galera que entrou! Nossa, mas era tanta gente interessada. Aí eu fiz uma equipe de teatro, onde tinha a... formou junto comigo a Vanessa Molina, a Andreia Garcia, a de Simas, ah, é a Naia! Naia também trabalhou comigo lá no Objetivo. E aí eu fiz uma equipe de teatro e uma equipe de artes plásticas. Fiz assim, a primeira amostra de teatro tinha 10 peças. Lá no Objetivo eu fiz 97 peças de teatro. Nossa, que beleza! Era muita coisa, né? Então eu fazia Coordenação Geral, eu fazia cenografia, eu adaptava os textos,
né? As mostras de teatro, a primeira, a segunda mostra de teatro, por exemplo, tinha 17 peças. A quinta amostra de teatro lá no Objetivo tinha 26 peças, uma coisa assim. E a gente apresentava no Teatro Municipal. Na quinta amostra, quantas peças tinham? Tinha 26 peças sob a minha Coordenação Geral, e a cenografia também. Puxa vida! Aí eu dava também oficinas de... Isso foi em 1997, mais ou menos, 97, 98, 99. Eu fiquei lá até 2001. Sei que foi do Objetivo, que foi até 2001. O Objetivo começou em 1997, na primeira amostra, e foi até 2001,
na quinta amostra de teatro, sempre com muitas peças, muitas peças. E eu entrava assim de cabeça, tudo! E o que mais enchia meu coração era ver a conquista dos adolescentes através do teatro, porque não era só o fator de apresentar a peça que eu tinha esse compromisso, né? No final do ano apresentar a peça que eu estava ensaiando, mas também as aulas de teatro. E isso era, nossa, maravilhoso! Quando eu estava lá na Ose, realmente aconteceu isso de que eu tinha que ter pessoas para me ajudar, né? Foi aí que eu chamei o Zezinho. Zezinho
veio assim, maravilhosamente bem, encheu ali um espaço, preencheu de uma maneira encantadora, porque ele é fantástico. E também essa outra equipe que eu fiz lá no Objetivo também foram professoras que, algumas, estão até lá até hoje. Duas delas estão. A Naia saiu, né? Mas assim, a Vanessa Bolina, não é Molina, é Bolina, tá? A Vanessa Bolina, ela hoje é professora de português lá, mas antes de ser professora de português, ela era professora de teatro da minha equipe de artes. E também a Andreia Garcia, ela tá, se eu não me engano, lá em aquela cidade perto
de Campinas, é entre Campinas e Sorocaba, aqui, que não, Indaiatuba! Indaiatuba, é Indaiatuba. Ela dá aula lá até hoje de teatro. Então, por que eu parei de dar aula de teatro e porque eu optei para me voltar mais às artes plásticas? Porque o teatro, ele suga, além de sugar as suas energias na totalidade. Como tudo na vida, tem a sua parte boa e sua parte não tão boa assim, né? Principalmente porque eu ficava muito desgastada, que era muita peça, né? Geralmente o teatro é trabalho de grupo, né? Ou em grupo. Então um ator depende do
outro ator no sentido de você estar no lugar certo no palco, de você decorar suas falas, de você trazer seus figurinos. E não é isso a realidade que ocorre dentro de uma escola. Às vezes tem mãe super dedicada e que leva os figurinos e tal, assim como tem mães que, por exemplo, chegavam no dia da apresentação da peça e a criança ou adolescente chegava e falava: "Minha mãe não fez a minha roupa!" Assim, eu não entendi o que é da roupa, o figurino. Sei lá, não gostou do figurino? Cada um fazia o seu, né? Falava
aquilo e os pais faziam os figurinos de acordo com as minhas indicações, mas tinha muitas vezes pais que não levavam... A sério, mandavam o aluno sem o figurino, assim, tipo, no dia da peça. Certo? Então eu tinha que me virar, né, tipo, dar um jeito de caracterizar aquele personagem. Ou então, algum aluno que não decorava o texto tinha que ficar soprando o texto. Um aluno que tinha faltado tinha que entrar no lugar do aluno. Às vezes, uma vez, uma professora de música falou que ela não ia bem no dia da apresentação porque estava gripada. Eu
falei: "Mas, como, meu Deus? Dia da apresentação, você não pode faltar!" Ela falou: "Eu não vou." Tive que fazer praticamente a peça sozinha, ali, né? Pii, etc. Sim, para não perder o jeito. Mas, assim, foi fantástica essa experiência que eu tive com o teatro. Eu tenho certeza que eu ajudei muita criança, muito adolescente, até mesmo adolescente já maduro, em nível de Ensino Médio. Até hoje a gente vê esses alunos e eles lembram. Teve um dia que eu estava até almoçando num restaurante assim por quilo e eu vi que tinha um moço, assim, olhando, falei: "Meu
Deus, eu acho que deve ser meu aluno, né? Porque com tanto aluno assim, né?" Eu também... Ah, tal. Daí, ele falou assim: "Ô, professora, você não tá me reconhecendo?" Eu, assim, não. Aí, desculpa, mas eu não tô te reconhecendo. Ele falou assim: "Eu sou o leão do Mágico de Oz." Ai, que belezinha! Mas ele falou, parece que a carinha dele virou aquela carinha, sabe, o leão, né? E assim, como eu fiz muitos e muitos teatros, né? "A Bruxinha Que Era Boa", "A Gata Borralheira", "Menino e o Vento", "A Viagem de um Barquinho". Foi fantástico! Até
hoje eu tenho amizade com esses alunos que fizeram a viagem do barquinho, que a gente criou a música e tal. Foi muito legal. Tem assim, "Circo de Cavalinhos", "Concurso de Bolo". Assim, tem muitas, muitas peças. "O Fantástico Méo de Feiurinha" que foi junto já com o Zezinho, né? Tem uma peça que a gente pôs o nome de "Maionese", uma coisa que não parece séria e a gente que fez o texto. Eu e meus alunos, muito legal! "O Mágico de Oz", também fizemos um "Caçador de Borboletas", "Os Escarpan da Princesa", "Os Saltimbancos". Fiz várias vezes "Saltimbancos",
muito legal com crianças. E a viagem... Nossa, teve muitos, muitos. Algumas vezes as peças foram levadas em concursos em São Paulo pelas próprias escolas e tivemos muita... Eu lembro que quando eu comecei no Objetivo com criançada, eu não os conhecia e tinha muita criança. Eu fiquei meio atrapalhada porque geralmente você conhece os alunos para você dar, né? Olha, você vai ser tal coisa. O que você acha de ser tal coisa? Distribuindo os papéis, né? E ali eu não conhecia os alunos, e eram muitos alunos, né? E eu era novata lá dentro, tinha acabado de entrar
na escola. Eu nunca imaginei que tanta criança fosse querer fazer teatro. Não imaginei mesmo! Tanto que eu tive que correr, arrumar uma equipe de artes e teatro. E tinha um menininho lá, uma gracinha, devia ter, o quê? Uns 7 anos assim, ruivinho. E uma das peças tinha um que seria o apresentador. Ele entrava no palco, era o primeiro a entrar no palco, luz nele, só nele, ele sozinho. E ele ia falar: "Vou contar para vocês uma história..." Porque tinha um texto lá para ele falar, né? E aí eu falei: "Decore o texto tal." E a
gente começou a ensaiar e tal. No que eu fui ver, o menininho tinha vergonha. Ele entrou no teatro, ficou lá no meio do palco e foi falar: "Vou contar, vou contar para vocês uma..." Ele não falava direito. Falei: "Jesus, o que que eu fiz? Como que eu vou fazer agora?" Ele estava se achando, só que não falava direito e tinha um monte de dificuldades de fala. Eu falei assim: "Que se dane, nem que seja para ele falar isso desse jeito." Mas ele não falava desse jeito, ele falava bem nessa hora. Não, ele falava assim: "Tutelato,
eu tô falando tutelato, porque eu não sei falar 'ti'." Ele falava errado. Hum... Aí eu falei: "Não vou tirar esse gosto desse menino. Esse menino vai se enfrentar agora." Aí eu chamei a mãe e falei assim: "Olha, o texto dele é pequeno, é esse daqui. Ele tá com dificuldade na fala." Você está sabendo? "Ah, não, ele faz fono." Eu falei assim: "Então, vamos fazer uma coisa: vamos treinar esse texto aí com ele na fono." Era um texto curto porque era uma criança de 7 anos, né? Mas ele era impactante porque ele era o primeiro a
entrar, só ele no foco de luz e ele teria que falar o texto. Roberto do céu! Bem no dia da apresentação eu falei: "Jesus, e agora? Quero ver." Pois ele entrou, valente, entrou no foco de luz certinho, não fez um erro, olha, perfeita a fala dele, mas foi bem treinado daí, né? Isso que é importante, né? Então, isso que eu vejo assim no teatro escolar, sabe? E ele que queria fazer apresentação, ele queria. Isso é fantástico, né? Então, não foi forçado, pelo contrário. Acho que se eu tirasse esse gosto dele, derrubaria esse garoto. É, agora,
as crianças, elas se inscreviam. Não era obrigatória essa participação, não era fora do período. Cada um ia se quisesse participar, mas era assim, muita gente interessada, é muito... Mas é importante, é isso. Quer dizer, vai a criança interessada, não está? Forçada não é obrigada a fazer, porque nessa fase muito inicial, é escado, né? A criança aqui, ah, muito, mas a gente tinha muitos jogos antes, né? Exercícios, você chegava a usar aquele fichário da Viola Spolin ou não? Não, eu li o livro e, a partir do livro, eu não tinha fechado, só tinha o livro. Eu
criava as aulas que tinham mais a ver ali com o que eu buscava, né? Mas, por exemplo, eu usava muito esse negócio: tipo, "escute a minha voz". Eu, como diretora, né? Mas não olhe para mim. Entra em cena, o telefone está tocando. Vá atender, quem está entrando agora é a sua mãe. Então, se é a mãe, ela tem que agir. A pessoa é a mãe, aí a mãe vai falar e eu falo para a mãe: entre e fale tal coisa, comunique algo. Então, a improvisação era muito legal. Entendi, então quando eles estavam... E a Viola
me ensinou muito, porque ela falava assim que, quando a gente entra no palco, só fica sem graça aquilo que não sabe que vai fazer. No palco, se você tem uma função, um motivo, um porquê, acabou a sua vergonha. Porque, Roberto, entre em cena, Roberto, apague a luz e reclame do preço da gasolina. É isso que você vai fazer, pronto. Legal, muito bem. Entendeu? Você não tem que ficar: "Ai, meu Deus, como que eu vou falar isso?" Não, você pode falar do seu jeito. Pode falar: "Está tudo muito caro nesse mundo. Olha o preço da gasolina!"
E não esqueçam a luz acesa, por exemplo. Então, daí entra outra pessoa, aí vai colocando as pessoas no palco, sim, né? Então, sabe que esses livros da Viola Spolin... Quem fez a tradução? A Ingrid D'Oliveira? Ah, foi professora da Uniso no curso de teatro. Um ser humano maravilhoso. E eu já, também, né? Quando estava desenvolvendo o trabalho lá na USP, né, as narrativas a respeito do festival de teatro Getúlio, já também fui ler esses livros, né? De repente, encontro a Ingrid dando aula na Uniso. Emocionante! Muito! Que incrível! Que incrível! Fantástico! Eu adorei, assim, quando
eu vi esse livro, foi um encontro. E eu acho, assim, sabe, deveriam, não só os professores de português e de teatro, mas de educação física, porque tem jogos ali importantíssimos e são jogos folclóricos, jogos de rua, de brincadeira de rua, de criança. O pessoal imagina quanto é importante, né? Agora eu quero que você fale uma coisa. Você começou a falar a respeito da importância, né? Você falou assim: "A conquista do adolescente." Qual é essa conquista do adolescente fazendo teatro? Então, o adolescente, né? Que seria o adolescente que eu quero dizer, assim, já no ensino médio,
né? No ensino médio, o adolescente, esse pequeno jovem, né, em formação, ele tem muitos questionamentos e sempre teve assim, era assim, é, né? Então, são pessoas que lidam com o próprio corpo em transformação, eminente, a cabeça querendo ter o seu próprio raciocínio. Geralmente, é o embate entre aquilo que levei e não concorda, né? Tudo isso é uma temática que não é atual, sempre existiu. Isso existiu na minha época, quando eu era contestadora, e existe hoje. Que eu tenho alunos nessa faixa de idade, né? Que são os que estão se preparando para o pré-vestibular e tal.
Então, eu vejo como a cabeça do jovem, ainda mais o de hoje, é incrível, né? Eles sabem tudo, eles são conectados, têm as opiniões, e o teatro ajuda muito nessa conquista dele se comportar. A palavra não é se comportar, dele se colocar corporalmente em um espaço, vencer as suas barreiras e proclamar as suas ideias, porque daí ele pode falar, ele pode, através do personagem dele, mostrar o que ele pensa, mostrar o que ele é, sentir-se à vontade. Com poder, sim. Parou um pouquinho aí, não sei, agora tá voltando. É com poder. Parou? Não. Com poder,
é. Ele pode ser, ele pode se apropriar do poder que ele tem e ser quem ele é, né? Dentro de uma situação social, porque se você está no teatro, você está dando sua cara para bater. Sim. Só que você faz o seu personagem. Eu gostava muito de trabalhar textos que eles mesmos faziam para colocar no teatro, porque era a voz deles, né? O que eles querem falar, vamos falar disso. Então, vamos falar. Eu lembro uma vez, lá na Osesp, que era... Eu tinha um texto lá que meio que foi vetado, que os alunos fizeram e
os professores não gostaram. Nossa, mas eu lutei tanto! Pena que eu não lembro e eu não tenho aqui. Eu fiz a... Por que foi vetado? Foi vetado porque acharam que ele era um pouquinho... tinha umas partes assim mais censuradas, assim, sexualmente falando, sabe? Assim, não que tivesse um sexo, longe disso, mas para a época, né? Para a época não tinha muita coisa que não podia falar, coisas de, sei lá, de ser gay ou sei lá o quê, de criação de filhos, de ter filhos fora do casamento. Tudo isso era mais tabu na época. Não era
falado assim como é hoje. Nossa, hoje tudo vale, né? E aí acharam que não era legal os adolescentes trazerem essa temática, e eu lutei. "Não, mas eles são adolescentes, eles que fizeram o texto!" Então vai ter essa temática. E aí? Não. Sim, vencemos! Isso é conquista! Aí vocês passaram, levaram adiante? Passamos! Passamos! Porque, assim, não, mas... mas você assume. O que o que eles vão falar? Eu falei, claro que assumo, nós fizemos juntos, sim. Então, eu me colocava sempre assim, junto com o pensamento do jovem S, lutando por aquilo que eles queriam apresentar, por aquilo
que eles queriam ser, lutando pelas crianças que tinham mais timidez, sabe? É se superar. Eu acho que o teatro na escola é superação, o teatro na escola é criação, é energia, é alegria, é... é isso daí. São umas palavras que me vêm assim: a conquista, a raça, sabe? O suor, a verdade, um trabalho intenso de criar e de ser aquilo que a gente é. Essa coisa não tem para ninguém, porque, como você já trabalhou em teatro, você sabe que cada vez que a gente vai apresentar uma peça, é uma coisa diferente. A plateia também interage
com a gente, né? Sim. Teve uma época da minha vida que eu e mais duas pessoas — uma amiga e um amigo, Búfalo — sabe? Sabe o Búfalo? Lembra do Búfalo? O Búfalo que era advogado, ele já faleceu. É que tem dois Búfalos; os dois trabalhavam em teatro. Tem um Búfalo que é vivo ainda, que também trabalha em teatro, e tem esse outro Búfalo que já faleceu, que é um Búfalo um pouco mais velho desse que tá aí, né? Ainda. E a gente fez um grupo de três pessoas para animar a festa infantil. Isso tinha
lá pros meus 18 anos, assim, e a gente bolou um esquema de showzinho. Éramos os bobos da corte e a gente animava as festinhas aqui em Sorocaba. Começamos pequenininho. No fim, a coisa foi tomando... era primeiro três amigas, depois saiu uma amiga, entrou esse Búfalo, e a gente fazia teatro, teatro de fantoche e mágicas. A gente ia para São Paulo, pegava mágica para apresentar, a gente cantava, a gente brincava, a gente fazia tudo em festa infantil. Então, por exemplo, a história era essa: seu filho ia fazer aniversário, você contratava os bobos da corte, só que
você não falava para ninguém. Era surpresa da festa. Em determinado momento, a gente já entrava cantando; tinha violão, chocalho, bumbo. A gente entrava já com roupas de bobo da corte mesmo. E aí a gente se trocava, a gente fazia teatrinho. Era uma coisa... aí fui tomando um rumo, um sucesso. Tudo isso, por isso que eu falo que depende tanto das pessoas que assistem, a energia do ator ou da atriz, né? E conforme a festa que a gente ia, a nossa era muito vibrante, né? E o pessoal amava. Aí chegamos a ir para São Roque, Itu,
Itapetininga, essas cidades vizinhas todas. São Paulo foi uma festa. Aí uns japoneses nos contrataram lá de São Paulo e amaram. A gente aprendeu músicas japonesas para apresentar lá com eles; foi demais. Nós paramos também nessa época, aí que a gente começou a se casar. E aí já nossos filhos nunca viram isso. Mas a gente também se divertia muito, muito, muito. O casamento acabou com o grupo. O casamento acabou com o grupo, mas assim, sempre fiz questão absoluta de tá bem, assim, participando nas apresentações das peças, quando vocês levavam o pessoal da escola, né, para São
Paulo, né? Às vezes, participar... você falou de concurso, né, que seria de festival dentro de escolas mesmo. Ah, é dentro de escolas mesmo, e eram crianças. A escola com escola, crianças, não eram esses adolescentes. Ah, os adolescentes, tá bom, é, entendi. Que bom, né? Que maravilha! Que delícia! Essa é, assim, uma viagem mesmo, sabe? Assim, o fato da gente estar conversando agora sobre o teatro na escola me trouxe muita lembrança boa. Muita lembrança boa. E era uma coisa que praticamente eu tinha me afastado. Tem praticamente... Não, realmente eu me afastei, porque agora operei, justamente porque
o teatro é uma coisa que suga muito. E as artes plásticas ou visuais, agora melhor falando, você pode fazer sozinha. Ela pode ser solitária. Sim, ela pode ser mais intimista. E chegou num momento da minha vida que eu falo assim: não quero isto. Eu quero me expressar sempre através da arte, mas eu quero me expressar através das artes visuais. E aí comecei todo esse meu trabalho, e aí eu vi o quanto eu queria isso e quanto me afastei disso por conta de ser professora, porque o professor não tem tempo para nada, não ser para ser
professor. E eu queria tanto desenvolver esse lado, sabe? Do meu desenho, das minhas descobertas... outras, né? Sim. Sempre fico pensando. Sou uma pessoa que pensa antes de executar o trabalho de arte, sabe? Se eu me embo... em coisas, entendi em textos, em leituras. Eu leio demais, leio demais. Então, eu acho que assim, eu definitivamente... e para a gente fechar essa parte do teatro, eu quero que você fale um pouco mais do seu ateliê e depois eu quero que você conte sobre aquele quadro lá atrás. Mas antes, só para fechar essa parte: como você vê, consegue
ver, né, Sorocaba naquela época em que vocês fizeram tudo isso e hoje? Você consegue perceber alguma coisa, pensar em termos de teatro? Eu acho que antes a gente tinha mais do que hoje. Mais do que hoje, mais do que hoje, porque você sentia algum preconceito dos pais? Em relação a...? De jeito nenhum! Eu sempre caminhei muito bem nessa parte como professora, educadora, né? Porque, quando você pensa em teatro, você pensa naquele ator alienado, doidão, não sei o quê, né? Só que dentro da escola eu não era isso. Sei, dentro da escola, do pai, por exemplo,
do filho se profissionalizar. Dentro do teatro, ah, eu tive os meus filhos dentro disso aí, né? Eles também fizeram muito teatro comigo, sei, e eles quiseram se profissionalizar, dois, né? Aí não saem, né, porque é difícil você entrar nesse meio, profissionalmente falando, como o Zezinho entrou, sei. Então, isso você percebia, é uma outra etapa. Uma coisa é o teatro como função educação, isso, função educ. Vamos resgatar esse adolescente; vamos mostrar para ele a arte que ele contém, a expressão que ele pode estar usando a partir das peças de teatro, o caminho que se abre, as
conquistas que ele vai ter com ele mesmo e como grupo, dentro de um elemento escolar onde ele é seguro, onde não tem as coisas que a gente vive e vê através do teatro, que são pessoas muito, eh, soltas, né? O teatro tem isso, no teatro verdadeiro ali, né? Ninguém é casado, todo mundo é juntado, ninguém é partes, eh, você pode ser o que você quiser. Um dia você está homem, outro dia você já está mulher, outro dia você está trans; é bem assim. Tem a questão da droga, é tudo muito livre, livre, livre, né? Essa
é a questão do Teatro dos Artistas. Assim, é difícil você ter um, né, um... Agora, na escola, você não pode trazer isso. Na escola, você tem que trazer o teatro. Educação é diferente. Então, por que eu nunca tive problema com os pais? Porque antes de ser professora de teatro eu era uma educadora, né? Então, eu tinha o cuidado com esses jovens, com essas crianças, com esses adolescentes, sempre assim, orientando. Se vinha alguma conversa, vamos conversar isso num lugar, isso aqui, estamos dentro de uma escola. Tanto que para você montar uma equipe de teatro com profissionais
bons, como, de repente, o Zezinho, e levar para dentro da escola, você tem que saber quem você leva, muito bem, muito bem. Bem lembrado, exatamente! Não é assaz, e botar a loucura dentro, né, da escola? Não é isso exatamente. Imaginar que são seres em formação, que você não pode dar uma orientação que não seja uma orientação adequada. Isso não quer dizer fechada, adequada. Ensinar a pensar; vamos refletir sobre isso! Não, gente, isso dentro de uma escola você não pode fazer. Nós estamos dentro de uma escola. Muito bem. Não tá lá? É, né? Agora fala sobre
o seu ateliê um pouquinho. Sobre meu ateliê, então, daí, depois que eu parei de dar aula no Objetivo, que foi em 2002, né? Já me aposentei. Aí eu fui... Bom, agora, como eu já estava mais voltado... Porque quando eu saí do Objetivo, eu já não estava mais dando aula de teatro, já tinha uma equipe que dava aula de teatro; eu só coordenava e eu dava aula de artes plásticas também, que dentro da escola é uma outra coisa do que você dá dentro de um ateliê. Dentro da escola, a aula de artes você tem que saber
isto e muito mais, para você dar isso, porque você tem que conquistar esse aluno. O que mais a gente escuta dentro de uma sala de aula, como professora de artes, é "que eu vou fazer com isso?", porque "é artes", imagina, né? Então, você tem que fazer com que os jovens comprem a ideia, que é a que eu acredito, que a arte está em tudo, sim, está no ser humano. E se você vai ser um médico, que médico que você vai escolher ser? Um médico dentro da caixinha ou um médico inovador que vai olhar tudo como
criação, como uma especulação? Deixa eu ver, um Dr. House. Vai, hum... Quem você vai querer ser? Que seja seu médico, né? Então, de repente, a arte também está aí. Você não precisa ser um ótimo desenhista, um ótimo pintor, dentro da sala de aula, mas você precisa reconhecer que a arte é inerente ao ser humano e que ela perpetua o nosso ânimo e é o melhor de nós em todas as suas concepções, seja ela musical, seja ela plástica, seja ela literatura, poesia, eh, [música], teatro... Qualquer tipo de arte é válido, porque é o que melhor nós
somos. Muito bom! Que delícia, Elsa! Agora, antes de terminar, nós queremos saber a respeito do seu quadro lá atrás. Aquele você fez? Mostra pro pessoal isso. Assim, dá para ver? Conte, conte sobre ele pro pessoal. Esse quadro, eh, é que eu tenho... A minha mãe tinha quatro irmãs, então, eram cinco mulheres muito, muito unidas. Eu vi, durante a minha vida inteira, elas se reunirem todos os finais de semana em lanchinhos. Eram os lanches das tias, e a gente brincava ali do lado delas. E elas sempre se reuniram às cinco. Elas se conheciam demais uma das
outras, e essas mulheres foram fantásticas e muito marcantes na nossa vida. E aí teve uma época que a minha... Essas são as cinco, aqui, irmãs, né? A minha mãe é essa daqui, tá aqui. Esta é a minha tia mais velha, Maria Teresa, Maria Helena, Maria Celina, Maria Elsa e Maria Aparecida. Todas as Marias. E aí, um belo dia, eu resolvi fazer esse quadro que, na verdade, é uma ilustração. Não tem a especificidade do rosto ser fiel ao que elas são, mas sim a personalidade de cada uma. Então, eu fiz em aquarela, e esse quadro é
grande, sabe? Parece pequeno, mas ele é bem grande. Acho que tem mais de 1 m, assim, de ponta a ponta, deve ter um pouco... E aí, quando foi interessante, olha que legal, elas se reuniam para tomar café da tarde todo domingo. Aí, quando eu fui fazer, eu pus esse papel, que é próprio para aquarela e tudo, eu tava tomando... Eu pus. Um café, mas não tinha posto açúcar, não tinha posto nada. E, sem querer, eu batia assim a minha mão e escorreu o café de ponta a ponta. Daí, na hora, eu falei: "Meu Deus, o
papel é caro, desses de Aquarela!" Bom, aí né, eu peguei o pincel, assim, um pouco mais de água, espalhei o café que não tinha doce, não tinha nada, e ficou aquela cor de café perfeita, sei, perfeita. Elas tomam um café, elas gostam de tomar café, elas vão se desenhadas em cima do café. E aí eu entrevistei cada uma delas com perguntas específicas para que elas dissessem o que achavam delas mesmas e de cada uma delas. E, para minha surpresa, elas eram muito esclarecidas no que eram e no que cada uma era, porque as respostas foram
individuais. Eu fui pra casa de cada uma, não foi junto, aham. E elas respondiam coisas que todos achavam a mesma coisa sobre a pessoa e tal. E, a partir disso, eu fui fazendo essa decoração. Aí, né, mostrando, por exemplo, essa minha tia aqui, ela segurava as lágrimas, ela não mostrava que chorava, mas todo mundo falava que a representação dela, se fosse um animal, era um cisne escuro num lago e assim por diante. Né, aqui a minha mãe, que todo mundo falava que ela tinha uma infantilidade, por isso o patinho, e que era uma pessoa que
era um vidrinho, qualquer coisa... ui, olha só que interessante. E assim sucessivamente. Essa daqui, ela mesma falou; todo mundo falou que ela era mais atormentada, que ela era mais difícil de gênio, e ela era muito engraçada. E ela falou assim que ela tinha uma coroa de espinhos como Jesus. Essa daqui, que é transformada numa... numa, eh, flor, né, que não é lírio, é orquídea. Uma orquídea, orquídea, sim, então, porque ela é mais serena, mais contida, mas é a pessoa que não fala o que pensa, sei. E essa última aqui é aquela que não quer ver
o defeito dos outros, porém as florzinhas que têm na cabeça dela, aqui, todas as florzinhas estão em cada uma das irmãs, porque, como ela, ela é muito coração, e ela é mesmo. Só essas duas estão vivas. As florzinhas dela, o pouquinho de coração dela, vai em cada uma das irmãs. Linda história, que coisa! Aí, quando eu fiz esse quadro, e, eh, para quem estava viva, só a primeira que tinha morrido. Elas amaram, se emocionaram porque elas se viam no quadro, aham. E aí, essa minha tia mais nova fala assim: "Ai, dê para mim o quadro,
dê para mim!" Eu falei: "Ai, meu Deus, não queria dar, na verdade, porque eu tinha feito para mim." Aí eu falei assim: "Tá bom, vai, então fica com você. Aí, um dia, quando você for morrer, se for morrer antes de mim, você, seus filhos, me devolvem." E tal. Só que foram morrendo as irmãs, ei. E aí, essa daqui ficou muito deprimida porque as irmãs estavam morrendo. E um dia, ela me ligou. Eu já estava morando aqui nesse apartamento. Ela falou: "Olha..." Ela me chama de El; eles me chamam de El, né. Eu falei: "Ah, El,
você não quer de volta o seu quadro? Não consigo mais olhar, eu choro muito." Eu falei: "Oh!" Ah, quero! Que história linda, viu. É isso, você é uma história linda, né? Tudo que você traz, tanto em palavras, né, como em imagens, né, traços, cores. Muito bom! Olha, nós ficaríamos aqui muito mais tempo. Uma delícia, porque a gente sabe que tem muita história ainda para contar. Mas eu queria, agora, só para fechar, que você falasse alguma coisa que queira, que você ache que não falou ainda, gostaria de falar. Olha, eu acho que eu falei tudo o
que eu gostaria de falar. Mas o que eu gostaria, assim, de deixar para as pessoas é que elas reservem para elas na vida um tempo de se perguntar em termos artísticos, porque quando a gente faz essa volta à nossa individualidade profundamente, a gente é capaz de mostrar ao mundo a importância de sermos humanos. Eu acredito muito nisso, sabe? Nessa busca até espiritual. Até Kandinsky tem o "Espiritual na Arte." Ele tem um livro que se chama "Kandinsky" porque realmente a arte está muito envolvida com o verdadeiro ser que somos. E, quando a gente acessa esse caminho,
é para sempre, não tem fim. Uma por isso que eu acho que essa plantinha da arte, desde que a criança é nova para a vida toda, até você poder ter o prazer, a emoção de você estar lá com 70 anos e saber ser tão nova ainda, porque tem tanto a dar, em função de que é uma fonte inesgotável. E aí, então, fechou? Para todo mundo, é onde a gente se encontra. É isso. Obrigado por essa aula belíssima aqui, viu? Que coisa deliciosa! Que delícia mesmo! Eu adorei também falar com você, não sabia que a gente
tinha tantas coisas em comum. Tem mais coisas ainda, mas vamos conversar também. Vamos! Obrigada, viu, pela oportunidade de estar falando aqui. Eu que agradeço. Benção! Você, toda essa energia, essa vida, essa família incrível. E nem falamos ainda que a sua filha, né, uma grande professora na área de Letras, fez o curso de Letras na Unicamp, depois foi fazer mestrado, depois doutorado, foi fazer na Federal do Rio de Janeiro, e é professora no Colégio Pedro I, literatura brasileira. Quer dizer, muito bonito tudo isso, né? Que benção! É isso, né? Porque eu acho que essa situação de
você, assim, na família ter esse acolhimento parece que perpetua. Minha filha mais nova trabalha comigo. Ela é uma marca maravilhosa! Sim! E assim vai. Assim, minha neta, ela tem 4 anos, ela desenha, ela questiona... Fica rico, né? É que, Bena, mas isso conquista, né? Você, com estou, né? Uma grande história, uma história muito linda, e essa energia toda que causa esse brilho todo, né? Deus abençoe você, viu? Muito obrigado e até breve! E, para vocês que estão nos ouvindo, a nossa gratidão, viu? Muito obrigado por vocês estarem conosco. Obrigado, Elsa, até qualquer hora dessas! Deus
abençoe você, amém! Obrigada, forte abraço! Deus abençoe a todos e a todas também. Tchau, tchau, tchau! Obrigado!