Tradutor: Elena Crescia Revisor: Maurício Kakuei Tanaka Há três anos, eu fui convidada para falar num festival de ideias. E aí, eu perguntei: "Qual é o tema? " Me responderam: "Você pode falar sobre o que você quiser".
E eu falei: "Bem, então eu vou falar sobre algo que tem me habitado há algum tempo e que eu chamei de escrita afetuosa". Me colocaram para falar logo depois do almoço, e eu falei: "Não vai aparecer ninguém". E daí, eu pedi para o meu marido ir, para, pelo menos, que ele estivesse ali, para que eu não falasse para um monte de cadeiras vazias.
Para minha surpresa, não só a sala lotou, como meu marido precisou se levantar e segurar as divisórias que estavam ameaçando cair. E aí, eu comecei a ter a percepção de que aquilo não fazia sentido só para mim, de que fazia sentido para o outro. Vocês devem estar se perguntando: "Mas o que é a escrita afetuosa?
" A escrita afetuosa não fala sobre cartas de amor, mas sobre o amor que existe em cada palavra. A escrita afetuosa é a percepção de que existe alma em tudo o que você escreve. Você busca dentro de você, coloca no mundo, e o mundo te devolve nesse gesto grande.
É a percepção de que, na sua escrita, está você, a forma como você está, como você está no mundo, quem é você, como você enxerga o mundo, e o que você traz dentro de você. A escrita é primordialmente um encontro, só que a gente se esquece disso. E isso nasceu muito da minha percepção, porque eu escrevia textos, e as pessoas mandavam mensagens.
"Parece que você está conversando comigo! " E eu comecei a pensar: "Qual é a diferença entre um texto que conversa com o outro, e outro texto que a pessoa esquece um minuto depois? " E eu percebi que isso tinha a ver com entrega, com o quanto você se colocava na sua escrita.
Só que a gente escreve um e-mail, e acha que aquilo é só técnica, faz um e-mail frio, esquece que tem você ali. . .
Pior de tudo, você esquece que tem uma outra pessoa do outro lado. E aí, a gente não promove o encontro. Por que a gente tem tanta dificuldade em escrever com tanta alma?
Porque dá medo. Porque, quando a gente coloca a gente na escrita, a gente está nu, a gente se mostra, e a gente não quer se mostrar. Eu costumo dizer que a escrita é como uma piscina, em que você pode colocar só o seu dedo ali, para sentir a temperatura, você pode ir até a beirada e mergulhar, ou você pode ir até o trampolim mais alto e pular.
Eu gosto muito desse tipo de escrita, das escritas que promovem o mergulho profundo. Eu costumo dizer que a escrita tem cheiro, tem som. E aí, as pessoas me questionam: "Mas é possível fazer um texto de escrita afetuosa sobre economia, política, esporte, sobre chacina?
" E eu falo: "Claro! Quem está escrevendo é um robô ou é uma pessoa? Porque, se é uma pessoa, eu sinto muito, mas tem você ali".
Só que a gente nunca se dá conta disso. Eu lembro que tinha uma aluna que me questionava muito sobre isso, porque ela falava que o editor dela queria ver números, taxas no texto. E eu falei: "Quem está se escondendo?
" Você está se escondendo atrás dos números, você não está se mostrando. Texto é vida, e a gente perde a chance de contar essa história quando a gente se esconde atrás da palavra. A palavra tem força.
Eu gosto muito de escrever textos sobre comida e a relação disso com a vida, com as minhas memórias, em que eu conto muito sobre como a minha relação com a minha mãe foi sendo moldada e construída através da cozinha e dos cheiros que vinham da cozinha. E hoje a gente está muito acostumado só com livros que trazem receitas ou que trazem modos de fazer. De novo, é automatismo: a gente não entra nas camadas, a gente fica na superfície.
Quando tem alguém que fala sobre saudade, sobre amor, sobre história através de uma panela de barro, uma geleia de jabuticaba, o outro se reconhece ali. Os textos mais viscerais foram aqueles em que eu senti que eu mais encontrei o outro, porque eu entrei nele, e ele se enxergou ali, e aquilo voltou para mim. Eu me lembro de uma pessoa que me escreveu para falar que, inspirada nas minhas narrativas, teve a ideia de pedir para a mãe ensiná-la a cozinhar, a mãe, que estava passando por um processo de depressão profunda.
E aí, a mãe foi até a cozinha, pegou os cadernos de receita, e as duas cozinharam juntas. E ela me disse: "Depois de muito tempo, foi a primeira vez que eu voltei a ver a minha mãe sorrir". Se isso não é poderoso, eu não sei o que é.
A palavra é de uma força impressionante, e o mais triste é que a gente está desperdiçando a palavra todo dia. Todo dia a gente desperdiça no nosso automatismo. Eu vejo muito, e vocês devem experimentar isso na "timeline" do Facebook de vocês, palavras de força, palavras de histórias fortes como empoderamento, disruptivo, economia criativa, sustentabilidade.
Essas palavras são fortes. Mas a gente esvazia, quando a gente deixa de contar as histórias. A gente tem que contar as histórias das mulheres que estão em estado de risco.
A gente tem que contar as histórias. As histórias estão pedindo para serem contadas. A escrita é um reflexo da vida que você leva todo dia, só que você acha que ela só mora no extraordinário, que você só vai poder escrever um texto incrível quando você fizer o caminho de Santiago de Compostela, quando você tirar o seu sabático, ou quando você fizer uma viagem incrível para a Ásia.
E eu vou te falar que o extraordinário está no ordinário, na vida que você leva todo dia, porque, quando você desliga o despertador, uma história acabou de acontecer. A maneira como você coloca os livros na sua mesa de cabeceira conta histórias sobre você, histórias sobre saudade, sobre escolhas, sobre amores. E por que a gente não está contando essas histórias?
De novo, porque a gente tem medo de se mostrar, porque a gente fica se camuflando. E sabe o que a gente está fazendo? A gente está desperdiçando vida.
A palavra tem que ser intensa, porque a vida tem que ser intensa. A mídia adora falar de envelhecimento, gosta de falar dos cabelos brancos, da liberdade de usar a roupa que você quiser. Hoje, dia 12 de agosto, meu pai está completando 81 anos.
Está sendo muito difícil para ele envelhecer, e para eu vê-lo envelhecer. E eu sinto que o que ele quer saber é como ele faz para se despedir da vida sem tanta dor. A percepção de que a vida é finita traz isso pra gente.
E sabe o que mais? A gente não está contando essa história, porque, toda vez que a gente mergulha numa história e conta como ela pede para ser contada, isso dói, porque isso a gente tem que tirar de dentro e tem que encarar as nossas próprias dores e os nossos medos. É por isso que a gente não é intenso com a escrita.
Só que, para mim, a escrita é sempre um encontro e uma relação com o outro. Sou eu em você, você em mim. É a percepção de que eu existo em você, e, se isso não é uma relação de amor, eu não sei mais o que é.
De novo, escrita é uma relação de amor profundo e de humanidade na sua essência. A escrita afetuosa é isso: é o encontro com o outro, o encontro através da palavra. Escrita afetuosa é semente.
Hoje, sei que não posso mudar políticas, mas eu posso transformar a vida das pessoas pela escrita. Então, que a gente siga se encontrando na palavra e que a gente siga espalhando amor por aí. Muito obrigada.