O meu artigo fala da integração da África nas finanças internacionais e suas consequências políticas. A integração financeira é uma das principais tendências que marcaram a relação da África com a economia global no século 21. Mas, ao mesmo tempo, o que temos visto na África é uma estagnação do progresso, dos avanços democráticos que vimos nos anos 1990, por exemplo.
No artigo falo brevemente sobre o histórico da integração financeira africana, pois a maioria dos países africanos ficaram independentes na década de 1960, e nesse momento a integração financeira era baixa, os níveis eram baixos, os sistemas políticos eram dominados pelo Estado, eram em sua maioria autoritários e, como consequência, o sistema financeiro também era dominado pelo Estado e utilizado para manter o controle político. A partir do final dos anos 1970, nos anos 1980, os países africanos entraram em crise e, nesse momento, passaram a depender muito do financiamento externo das instituições de Bretton Woods, o Banco Mundial e o FMI. O Banco Mundial e o FMI incluíram condições para os seus empréstimos para salvar as economias africanas e as condições, na sua maioria, pediam a liberalização das economias e dos setores financeiros dos países africanos.
Um pouco mais tarde, nesse processo de chamado ajuste estrutural, nos anos 1990, vimos uma democratização da maioria dos países africanos que eram autoritários. Nesse contexto, houve uma forte integração das economias africanas no sistema financeiro internacional. A crescente importância do sistema financeiro para a economia, para a política africana, incentivou os Estados, os governos africanos, a manterem um quadro institucional mais estável.
Então, isso foi positivo para a democracia, pois a institucionalidade é um certo incentivo para a gestão mais previsível da coisa pública ajudou no fortalecimento da democracia. Mas, por outro lado, as liberalizações dos anos 1990, a integração bancária e financeira dos anos 2000 e 2010 não foi acompanhada por uma democratização, digamos, uma expansão, uma redistribuição do poder político e econômico. Então, muitas das elites que já estavam no poder durante as primeiras décadas de dependência se mantiveram no poder.
Inclusive, um dos efeitos negativos da integração financeira foi o acesso que ela permitiu ao sistema offshore, ao sistema financeiro offshore, um mundo de mecanismos, de provisão de serviços que permitem elites africanas exportar os capitais, se manterem imunes a sistemas de taxação e uma forma também de facilitar a corrupção. A integração financeira acompanhou a integração da África no mundo offshore, o que isola as elites da pressão popular, reduz os incentivos a uma boa governança e também permite que Estados continuem a ser mal governados e que as elites agora mais internacionalizadas não paguem tantas consequências por isso. Por outro lado, frente a esse contexto socioeconômico pouco alterado, as instituições da democracia têm um peso real.
Nós vemos que, apesar da crescente desigualdade ou da manutenção da desigualdade nos países africanos, movimentos de oposição e de sociedade civil têm aprendido cada vez mais como utilizar os mecanismos da democracia, para montar campanhas mais robustas de oposição a governos, mesmo quando as eleições ocorrem de forma iniciada, em que não há igualdade de condições para os dois lados. Então, eu diria que essa tendência oferece esperança para movimentos democráticos no continente e também acho que uma análise da integração financeira africana também nos mostra que não só atores dentro dos países africanos têm meios de contribuir para a democratização, como atores internacionais, porque cabe à comunidade internacional inibir o acesso de governos cleptocráticos aos mecanismos offshore, à exportação de capitais, à lavagem de dinheiro. Isso ajudaria também a fortalecer a democracia, além de também ajudar no desenvolvimento do continente africano.