20 anos depois de ser retirado do poder pela coalizão liderada pelos Estados Unidos, o Talibã volta a controlar o Afeganistão. As imagens desesperadoras de afegãos se pendurando em aviões mostram a dimensão do medo que esse grupo desperta em parte da população. Mas o que é o Talebã?
E o que eles querem? Eu sou Nathalia Passarinho, repórter da BBC News Brasil aqui em Londres, e hoje eu vou falar sobre como Talebã surgiu, o que ele defende, como se financia, e quem são os seus aliados internacionais. Primeiro, como surgiu o Talebã?
O cenário que abriu caminho para esse grupo fundamentalista islâmico é o de um Afeganistão mergulhado em conflitos armados. Por dez anos, de 1979 a 1989, o país foi governado pelos soviéticos num clima de guerra. Grupos rebeldes islâmicos, os chamados Mujahedeens, financiados pelos Estados Unidos, tentaram derrubar o governo durante todo esse período, numa disputa que matou pelo menos um milhão de pessoas.
Com o fim da Guerra Fria e da União Soviética, o governo comunista caiu, em 1992, abrindo caminho para uma intensa guerra civil. É nesse contexto de disputa e divisão, que surge o Talebã. O grupo foi formado em 1994 por estudantes de seminários religiosos no norte do Paquistão.
Essas escolas, financiadas pela Arábia Saudita, promoviam uma versão bastante conservadora do islamismo sunita. Exemplo disso é que ouvir música é proibido, e mulheres não podem estudar. No principal idioma falado no Afeganistão, o pashtu, talebã significa “estudantes”.
Em pouco tempo, os talebãs ampliaram sua esfera de influência, para além da fronteira do Afeganistão com o Paquistão. Eles entraram na cena política afegã como insurgentes, com a promessa de restaurar a ordem, a paz e a segurança no país, em meio ao caos provocado pela guerra civil. Também prometiam instaurar, quando assumissem o governo, a sua própria versão da Sharia, a lei islâmica.
Em 1995, conseguiram derrubar o regime do presidente Burhaniddin Rabbani, um dos fundadores dos Mujahedeens, que, como eu falei agora há pouco, resistiram à ocupação soviética com o financiamento dos EUA. Em 1998, o Talebã controlava quase 90% do Afeganistão. Inicialmente, eles foram bem recebidos pela população, cansada de tantos conflitos e instabilidade.
O principal apelo do grupo na época era o combate à corrupção e ao crime. Mas isso era feito com métodos violentos, como execuções públicas de pessoas acusadas de homicídios e adultério, e amputação de uma mão de quem furtasse ou roubasse. Até a aparência dos homens e das mulheres era ditada pelo Talebã.
Eles tinham que usar barba e elas, a burca, cobrindo todo o corpo e o rosto. O Talebã também proibiu televisão, música, cinema e que meninas com mais de 10 anos frequentassem a escola. Além disso, o regime deu cobertura a grupos radicais que defendiam ataques a potências do Ocidente.
Entre eles estava a al-Qaeda, criada por Osama Bin Laden, e responsável pelo maior ataque terrorista em solo americano, a derrubada das Torres Gêmeas em Nova York, em 11 de setembro de 2001. Na época, o Talebã se negou a entregar Osama Bin Laden, e os Estados Unidos responderam bombardeando o Afeganistão e dando início a uma guerra que duraria 20 anos. Mas quem apoiou o Talebã quando o grupo assumiu o poder pela primeira vez, em 1996?
Paquistão, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos foram os únicos três países que reconheceram o regime talebã, chamado Emirado Islâmico do Afeganistão, que durou de 1996 a 2001. Ainda que negue oficialmente, o Paquistão é considerado o aliado mais próximo do grupo. Depois da invasão dos Estados Unidos ao Afeganistão em 2001, vários líderes talibãs se refugiaram no Paquistão e, de lá, coordenaram operações para retomada dos territórios perdidos.
Em 2011, Osama Bin Laden, que a gente já disse ter recebido apoio e proteção do Talebã, foi localizado pelas forças americanas na cidade de Abbottabad, no Paquistão. Ele estava vivendo num complexo que ficava bem ao lado de uma academia militar paquistanesa quando foi morto pelas forças americanas. Um ano depois, um ataque do Talebã em território paquistanês chocou o mundo.
A estudante Malala Yousafzai, que defendia o direito das meninas à educação, foi baleada na cabeça à caminho de casa, na cidade de Mingora, em outurbo de 2012. Malala, que tinha 15 anos na época, precisou passar por um cirurgia delicada num hospital militar do Paquistão e depois foi levada para tratamento na Inglaterra, onde vive até hoje. Na época, o Talebã declarou que ela tido sido alvejada por “defender a educação secular”, não-religiosa.
Ou seja, o Talebã se manteve atuante, ditou regras em algumas províncias e promoveu ataques sangrentos tanto o Afeganistão quanto no Paquistão mesmo depois de ser expulso de Cabul pelas tropas americanas em 2001. Agora vamos falar um pouco sobre como o Talebã consegue se sustentar financeiramente. A ofensiva americana no Afeganistão nunca conseguiu extinguir a influência do Talebã.
O grupo continuou a controlar algumas áreas rurais ao sul e regiões montanhosas. Mas de onde vem o dinheiro usado para armar os combatentes? Pesquisa de 2018 da BBC mostrou que o orçamento do Talebã chegava a 1,5 bilhão de dólares.
Segundo o governo americano, 60% vem da produção de drogas. O Afeganistão é o maior produtor do mundo de ópio, matéria-prima da heroína. E a maior parte das fazendas e laboratórios estava em áreas controlados pelo Talebã.
Eles também ganhavam dinheiro com pedágios e taxas sobre energia elétrica em áreas ocupadas. Cobravam dos moradores uma tarifa em troca de garantir a segurança. Algo que lembra o esquema operado por milícias em algumas cidades do Brasil.
Com o dinheiro das drogas e dos pedágios, o Talebã, embora inicialmente enfraquecidos pela ofensiva americana, manteve ataques a civis, militares e forças estrangeiras durante os 20 anos de duração da guerra. E ficou à espera de uma oportunidade para voltar ao poder. Em 2020, essa chance ficou mais clara no horizonte, quando o então presidente americano Donald Trump firmou um acordo com o Talebã que previa a retirada das tropas dos Estados Unidos do Afeganistão.
Em troca, os militantes não atacariam forças estrangeiras e se comprometiam a combater grupos extremistas, como a al-Qaeda e o Estado Islâmico. Soldados americanos de fato foram poupados no último ano, mas o Talebã continuou a atacar civis e soldados afegãos. Poucos meses atrás, o correspondente da BBC no Afeganistão Secunder Kermani perguntou o por quê disso para um alto integrante do Talebã, Haji Hekmat: O atual presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, resolveu manter o acordo e retirar as tropas americanas até o final de agosto.
Poucas semanas depois de a maioria dos militares estrangeiros deixarem o país, o Talebã reassumiu o controle do Afeganistão, tomando a capital, Cabul no dia 15 de agosto. Sem o apoio dos militares americanos, soldados afegãos entregaram as cidades ao Talebã sem oferecer resistência, e então presidente, Ashraf Gani, fugiu do país sob a justificativa de querer evitar um banho de sangue. A pergunta agora é: o Talebã vai operar um regime tão conservador e violento quanto o do período em que esteve no poder entre 1996 e 2001?
Mulheres vão perder todos os seus direitos? Em entrevista ao vivo, por telefone, à apresentadora da BBC Yalda Hakim, um porta-voz do Talebã, Suhail Shaheen, disse que mulheres vão poder estudar e trabalhar, desde que se cubram. Na primeira coletiva desde que assumiu o poder, o Talebã disse que não vai se vingar das pessoas que trabalharam para forças estrangeiras e que as mulheres vão poder trabalhar e estudar dentro das estruturas do novo regime.
Não deu detalhes do que isso significa. Eu conversei com um diplomata que morou diversos anos no Paquistão e no Afeganistão e ele disse que é possível que o Talebã adote uma postura pragmática para receber algum apoio internacional, principalmente da China, Rússia e Irã, novas forças que devem. ganhar com a saída dos EUA do Afeganistão.
Mas as memórias do último governo Talebã deixam margem para duvidar dessa promessa. É isso por hoje, espero que vocês tenham gostado desse vídeo. Se tiverem dúvidas ou comentários, é só escrever aqui!
Até a próxima!