A internet é reflexo do que nós somos. Ela não vem de nenhuma região espacial, ela vem da humanidade. Por trás disso tem um elemento muito interessante, Igor, que é primeiro lugar a pessoa saber que ele não é dono da verdade e querer chegar mais próximo da verdade, acreditar que existe uma verdade universal, tá?
E querer chegar nela. Essa é uma outra coisa que o pessoal relativiza. O que é verdadeiro para mim, não é verdadeiro para você, não.
O universo tem leis. A lei da gravidade, se você duvida dela, atire-se de uma janela baixa, de preferência para você checar. Ou seja, tem certas coisas que são absolutas, tá?
Então, queria chegar a uma verdade a respeito do que é o universo, do que eu sou, do que é o outro, acreditando que existem verdades, que existiriam ainda que a humanidade não existisse. Se a humanidade não existisse, o Sol estaria aí, os planetas estariam aí, os vegetais e as coisas têm uma verdade. O que a gente pode chegar é percebê-las ou não, mas que elas estão aí, estão.
A idade média todo mundo achava que a Terra era plana. A terra não tava nem aí pra opinião das pessoas, ela era geoide. A opinião humana ela conforma a verdade.
E eu ao perceber isso, eu querer chegar essa verdade, eu querer [música] me aproximar disso. Se eu não tenho isso, eu quero impor a minha opinião a qualquer preço. Imagina a seguinte situação.
Eu perdi a carteira aqui em algum lugar do estúdio. >> Uhum. >> Aí peço para você me ajudar a encontrar.
Eu acho que perdi lá no térrio. Vou lá procurar. Mas você vi me viu andando aqui nesse andar e você acha que eu perdi aqui e encontra aqui.
Quando você me entregar, eu vou ficar feliz porque achei a carteira ou chateada porque você contrariou a minha opinião de que estava no térrio? Você percebe que a minha opinião nesse momento é secundária porque a carteira é muito importante. Agora, se fosse a verdade eu preferia não achar, mas não admitir que você sabe mais do que eu, tá?
Porque a carteira tem um valor absoluto, a verdade não vale nada pra gente. >> Então, ainda que eu perceba que o argumento do outro é mais sensato, eu insisto no meu, porque eu não vou admitir que você sabe mais do que eu, isso deixa a gente freiado, não crescemos. Queria saber, amar o mistério do universo, saber o que ele é, tá?
Fazerse filho do mistério, né? querer saber o que ele é, querer se aprofundar na realidade das coisas e não o meu reflexo em cima das coisas, o reflexo dos meus interesses. Parece que tudo reflete eh o meu retrato, os meus interesses, a minha personalidade, tudo é distorcido por isso.
Não, eu quero tirar o meu reflexo das coisas e ver o que elas são em si, tá? Eu sei que eu não sei e eu quero chegar mais próximo da verdade das coisas. que aí se você me diz uma direção que contraria a minha, eu vejo que você sabe mais do que eu, que ótimo que você entrou na minha vida.
Você me aproximou da verdade. Agora, se eu não tenho amor nenhum, a verdade é bate boca. >> Eu vou querer impor minha opinião, por muito que eu até saiba >> que ela não leva a lugar nenhum.
Fico perguntando nesses discussões, nesses debates que existem hoje em dia, será que as pessoas não sabem que a posição delas não leva lugar nenhum ou elas estão iludidas de que realmente aquilo é a verdade? Quem que tá preocupado com verdade hoje em dia? Verdade é aquilo que atende ao seu interesse, as suas conveniências, tá?
Então é muito complicado a gente crescer nesses termos. Você acha, professora, que esse é isso que isso daí faz parte daquela alienação que a gente tava falando lá no começo, não faz no assim, falta a a gente como sociedade a gente age dessa forma porque a gente não percebeu que a gente devia tá caminhando em direção a uma evolução ou ao ao conhecer nós mesmos e, portanto, conhecer Deus, como a gente já tava falando aqui. É, e esse é o maior problema da humanidade hoje, não é?
É essa alienação que tem todos esses essas ramificações perversas no fim das contas, não é? É, no final das contas, o que você percebe é que seres humanos que não estão no momento de despertar sempre existiram na história. >> Agora, o que coloca Platão é que as pessoas que estão buscando, que já despertaram os homens de boa vontade, né, como diz a tradição cristã, deveriam ajudar esse pessoal, conduzir.
Agora, quando você coloca diante da sociedade os mais alienados que tem, aí é complicado, né? Porque aí vão puxar na direção do que eles são. Porque a gente não pode querer que a humanidade inteira desperte para querer saber o segredo do universo da noite pro dia.
Todo mundo tem o seu processo, tem o seu tempo. Todo mundo vai despertar, mas todo mundo tem o seu tempo. Agora, quem vai na frente deveria ser uma pessoa que tá incentivando para isso, né?
>> Mas tem gente que sai do verde pro podre direto também, não tem? >> Isso é uma frase inclusive da alquimia medieval. Há certas certas.
>> É por isso, né? [risadas] você é danado. Existe isso aí mesmo.
>> Mas não é assim, eh eh não é que eu cansei de conhecer gente assim, mas assim, na minha experiência já já vi eh pessoas que tem muito daquilo que você falou lá no começo da nossa conversa, que é o o imutável, o cara que é colérico e para sempre será colérico, porque ele acredita que se ele é assim, se nasceu assim, vai morrer assim e tudo mais. Eh, então essa ideia de eu já vi essas pessoas e que, portanto, é que você falou que todo mundo despertará. E será que todo mundo despertará >> em algum momento?
Sim, isso tá no no DNA da humanidade. Em algum momento despertará. Agora se você imagina, tem uma frase de epiteto, um estoico, que ele diz que as sementes de grandeza no homem necessitam de uma imagem para florescer e germinar.
Eu sou uma pessoa que tô acomodada com a minha cólera, com as minhas implicas, com o meu egoísmo. Mas se quem me conduz lá na frente, se os personagens que são tomados como modelos pela sociedade são pessoas que estão lutando e eu tô vendo que estão se tornando melhores, opa, não é bem assim. Olha, eles estão mudando.
Alguma dúvidazinha não vai dizer que eu mude muito rapidamente, porque o ritmo quem dá sou eu. Mas alguma dúvidazinha, alguma inquietud, isso vai despertar em mim. Agora, os nossos modelos são modelos de pessoas que não crescem nem querem crescer e tem raiva de quem cresce, né?
Verdade. >> Então você olha, você não acredita, porque você não tá vendo uma vitrine de pessoas assim como referencial dentro da arte, dentro da política, pessoas que você tá vendo, olha, fulano >> tá melhor do que ele era antes, tá crescendo, é humilde, tô vendo que ele tá se corrigindo, tá se tornando melhor. Então esses referenciais geram uma uma sementinha de dúvida que vai germinando ali, em algum momento vai rachar aquela convicção, aquela inércia.
Agora a gente fica sem referenciais e sem referenciais é muito complicado. >> É, ou como você disse com referenciais esquisitos, né, assim, que estão de fato puxando pro outro lado. É, e assim esquecendo os referenciais, mas mesmo assim olhando para como é como estamos vivendo hoje em 2025 e aí a humanidade mesmo, eh, a gente tá cada vez mais preso às a essas cada vez mais eu não sei, mas a gente tá bastante preso a algumas ideias que fazem com que a, se a gente for falar, por exemplo, de política, eh, ideias que se não concorda comigo é o meu inimigo e eu não tô disposto nem a conversar.
Eu não tô disposto a ouvir o que tem para dizer e eu não tô disposto a estar perto. Eu quebro as relações que existiam antes com as pessoas que eu não sei se amava, né? Porque se você é capaz de fazer esse tipo de coisa assim, não sei se você ama para valer.
Mas quebro relações e deixo de falar e deixo de me relacionar com pessoas porque elas não se encaixam na minha vou chamar de ideologia. E isso daí para mim é uma é um dos sinais mais claros que a gente tá eh cada vez mais egoísta e cada vez mais focado no num caminho que é o da que é o que se nos distancia da verdade. Porque a gente tá abrindo mão de conversar ou de ou de se expor ao contraditório.
Eu gosto de acreditar que o contraditório é uma das coisas que mais faz com que a gente evolua. Por quê? Não porque faz a gente mudar de ideia imediatamente, mas porque pode inclusive ajudar a gente a reforçar nossas próprias ideias.
Eh, quando a gente é posto de frente com alguma coisa que a gente não necessariamente concorda, isso faz com que a gente pense naquilo que a gente tá, naquilo que a gente tem como ideia. Não funciona assim? O contraditório não é uma um certo tipo de alavanca pra gente evoluir?
>> Sim. Agora, existe um fenômeno chamado fanatismo. >> Hum.
A gente acha que isso só existe na religião. Na verdade, filosoficamente, a gente diz que existe um apoio, duas, quatro linhas de evolução básicas da sociedade, que são a religião, a política, a arte e a ciência. >> E a gente pode dizer que existe um pouco de fanatismo dentro de cada uma delas.
Eu tinha uma certa dificuldade de ver, por exemplo, dentro da ciência, eu tive uma conversa, uma ocasião com um cientista, um cientista de renome no Brasil, onde ele me mostrava nos bastidores da ciência posições muito fanáticas, tá? E aí eu falei: "Puxa, então também tá aí >> e na arte, >> então na arte demais, >> então na política demais, na religião demais". O fanatismo ele tem uma característica, ele substitui a identidade que você não tem.
Então você não se define como um buscador, você se define em cima de uma crença. Uhum. >> Você acha que já achou a verdade.
Aquilo ali é a verdade. E qualquer coisa que contraria isso, não vai contrariar uma ideia, vai contrariar a tua própria identidade. É como se tivesse te destruindo, tá?
Porque você apoia toda a identidade sua em cima daquilo. Eu sou quem? Eu sou a pessoa que acredita nisso.
Portanto, se esse negócio falhar, eu não sou ninguém. Ele não tem uma identidade humana apoiada em valores. Ele tem uma identidade apoiada em cima de um conjunto de ideias, um conjunto de de visões relativas que ele cristalizou aquilo ali e disse: "Eu sou isso".
Portanto, ele não tem possibilidade de admitir qualquer contraditório porque seria uma rachadura nessa identidade. Seria quase que um suicídio. É uma dor física.
Eu tô deixando que um vírus penetre em mim e rache aquilo que eu sou. e mas não percebe que é isso que faz que que o faria evoluir evoluir no sentido de eh caminhar eh em direção ao que é a verdade no fim das contas, que é o que a gente devia estar fazendo, né? >> Me recordo que uma vez eu conversava com uma pessoa e discutia um pouco com muita suavidade as bases dogmáticas que ela tinha.
Ela chegou para mim e me disse: "Você tá me puxando o tapete? " E essa frase me chocou muito, porque eu entendi, essas pessoas, elas precisam de um negócio parado, estagnado debaixo dos pés. >> Uhum.
>> Enquanto que o filósofo, buscador, ele se alimenta exatamente de não ter uma coisa parada debaixo dos pés, de tá crescendo, de tá mudando, de hoje não sei exatamente o mesmo que era um ano atrás. Eu costumo falar das fotos do ano novo, né? Você tem que olhar para as últimas fotos do ano novo e dizer: "Eu não sou exatamente aquele ser humano".
Então esse processo de crescimento, de renovação, é a base paraa consciência do filósofo. Mas tem certas pessoas, não, que elas precisam de um chão parado debaixo do pé dela. >> Elas não precisam, mas acreditam que precisam.
Então, se você começa a questionar, às vezes ficam com problemas, realmente enlouquecem, porque você questiona uma coisa que para ela é a única identidade que ela tem, a base. Então, você tá puxando o meu tapete, você tá me desmontando. Cuidado, tem que ter cuidado aí, porque você não tira aquilo que a pessoa tem se você não tem certeza que pode colocar alguma coisa melhor no lugar.
você desmonta essa pessoa, tem que ir com muito cuidado, levando ela a um processo onde ela mesmo vai encontrando ranhuras nessa sua base e se dispondo a construir alguma coisa melhor, né? Tem que ter muito cuidado para você não desmontar psicologicamente uma pessoa quando você puxa algo, ela não tem condições de colocar outra coisa no lugar. Verdade.
>> É, eh, também é interessante que assim, eu eu tava eu li outro dia uma frase que é maneira, que é muito é assim, uma das coisas uma das coisas mais eficientes para fazer você não aprender é você achar que você já sabe. >> Humum. >> Sentirse dono da sabedoria te impede de aprender qualquer coisa.
Eu costumo dizer que isso é o chamado universo kittinnete. Universo kitnet significa que a pessoa imagina que o universo é desse tamanho e que dentro dele ela sabe muita coisa, porque quem vislumbra o tamanho do universo sabe que não sabe nada. Você lembra o Sócrates dizendo só sei que nada sei?
Uma pessoa para dizer um negócio desse com seriedade, com convicção, ela tem que ter vislumbrado o tamanho das coisas que ela não conhece. Eu costumo brincar e dizer que eu só sei que nada seja porque o Sócrates disse, porque senão nem isso não saberia, né? Porque não é fácil você dizer isso.
Não é fácil. Quem acha que sabe muito, às vezes intelectualoid, uma coisa desse tipo, quem acha que sabe muito, para mim o sintoma é claro, universo Kitnet, o universo dele é um kit estúdio. Ele faz.