O inferno são os outros. Sartre, você já ouviu essa frase? Provavelmente num post de alguém que estava irritado com o chefe ou em alguma legenda de foto de alguém que não aguenta mais gente falsa.
E é exatamente por isso que ninguém entende o que que Sartre realmente quis dizer. Essa frase não tem nada a ver com odiar pessoas. Nada.
Não tem nada a ver com isso. Se você acha que Sartre estava reclamando do vizinho barulhento, senta aí, porque a conversa vai ser mais desconfortável do que você estava imaginando. A frase vem de uma peça chamada Entre Quatro Paredes de 1944.
O cenário é simples. Três pessoas mortas são trancadas num quarto. Não tem fogo, não tem demônio com tridente, não tem nada.
Só um quarto com três cadeiras e três pessoas que vão passar a eternidade juntas. E o inferno não é a convivência em si. O inferno é que cada uma dessas pessoas depende das outras duas [música] para saber quem ela é.
Uma delas, Stelly, precisa desesperadamente de um espelho. Não [música] tem espelho no quarto. Então ela precisa dos olhos dos outros para se enxergar.
E é aí que a bomba explode. Porque Sartre não estava falando de um quarto no inferno. Ele estava falando da sua vida, da minha, de todo mundo que já acordou de manhã e a primeira coisa que fez foi pegar o celular para ver quantas curtidas recebeu.
Pensa comigo, quando foi a última vez que você fez alguma coisa? qualquer coisa [música] sem pensar no que alguém ia achar. Você escolheu essa roupa que você tá usando agora.
Por quê? [música] Porque tu gosta ou porque sabe como vai ser percebido com ela? Você postou aquela foto porque achou bonita ou porque queria que os outros achassem?
Sartre chamava isso de o olhar do outro e não é um conceito abstrato. É o mecanismo mais poderoso de controle social que existe. Você não precisa de correntes quando tem olhos em cima de você.
E aqui a história fica interessante. Jeremy Benton, no final do século XVI, projetou uma prisão chamada Panóptico. A ideia era genial e perversa, uma torre central cercada por celas em círculo.
O guarda da torre [música] podia ver todos os presos, mas os presos nunca sabiam se estavam sendo observados ou não. O resultado os presos começavam a se comportar como se estivessem sendo vigiados o tempo todo. Não precisava de punição.
A possibilidade do olhar já era a prisão. Foucault, quase 200 [música] anos depois, pegou essa mesma ideia e disse: "Isso não é uma prisão, isso é a sociedade inteira, escolas, hospitais, escritórios, redes sociais, você vive dentro de um panóptico e nem percebe. " Agora, junta as duas coisas.
Sartre te diz que você precisa do outro para construir sua identidade. Fou te diz que esse outro te vigiu o tempo todo. E o que que sobra?
Só para você performando uma versão de si mesmo 24 horas por dia. Sartre tinha um nome para isso. Mafé é quando você finge que não tem escolha.
[música] Quando você diz, "Eu sou assim como se fosse um fato da natureza". Quando na verdade é uma performance que você escolhe porque era mais fácil do que enfrentar a liberdade absurda de poder ser qualquer coisa. O mais irônico de tudo é que Sartre passou o resto da vida tendo que explicar que a frase não significava o que todo mundo achava.
Em 1965, numa gravação, ele literalmente disse: "O inferno são os outros foi sempre mal compreendido". As pessoas pensaram que eu queria dizer que nossas relações com os outros são sempre infernais. Não é nada disso, mas ninguém ouviu.
É muito mais conveniente você usar essa frase para justificar o seu antissocialismo de estimação do que encarar a verdade. O inferno não são os outros. O inferno é que sem os outros você nem sabe quem você é.
Você olha para dentro e não tem nada lá. Só um vazio esperando ser preenchido pelo próximo like, próximo elogio, pela próxima validação. Então, antes de você usar essa frase com alguém no trânsito, lembra do que que o Sartre diz?
O problema não é o outro. O problema é que você entregou a chave da sua identidade para ele e agora tá com raiva porque ele não tá cuidando bem dela. Bem-vindo ao quarto.
Não tem saída. O homem é um animal político. Aristóteles.
Você se acha independente. Você tem suas opiniões próprias, seu estilo próprio, seu jeitinho especial de ser. Certo?
Aristóteles olharia para você com aquela cara de quem já viu tudo e diria: "Não, você é um bicho de bando". E a parte que dói não é essa. A parte que dói é que ele estava certo há mais de 2400 anos e você ainda não aceitou.
Quando Aristóteles escreveu que o homem é um animal político, ele não tava fazendo elogio à democracia, nem sugerindo que você deveria votar com consciência. A palavra político aqui não tem nada a ver com eleição, partido ou Brasília. Vem de Polis, a cidade grega.
E Polis não era só um lugar geográfico, era a condição básica da existência humana. Para Aristóteles, viver fora da pól não era uma opção filosófica, era uma patologia. Ele disse com todas as letras: "Quem vive fora da cidade ou é um deus ou é uma best".
E como você provavelmente não é nenhum dos dois, senta que o recado é para você. O que ele tava dizendo é brutalmente simples. Você não funciona sozinho.
Não é que você prefere companhia, é que sem o grupo você colapsa, sua linguagem você aprendeu com os outros. Suas ideias sobre certo e errado vieram do grupo. Sua noção de quem você é construída inteiramente pela relação com outras pessoas.
Tira tudo isso e o que sobra para você? Nada. Um organismo biológico sem identidade, sem linguagem, sem moral, basicamente carne que respira.
E antes que você diga que isso é exagero, olha o que que acontece quando a sociedade resolve testar a tese de Aristóteles na prática. O ostracismo ataniense era isso. A cidade votava para expulsar alguém por 10 anos sem julgamento, sem crime específico.
A comunidade simplesmente decidia que você não pertencia mais e não era preciso te matar. Te tirar do grupo já era castigo suficiente. Você perdia tudo.
[música] Identidade, proteção, propósito. Os atenienses entendiam uma coisa que a gente finge não entender. Exclusão social não é desconforto, é destruição.
Thomas Hobbes, 2000 anos depois chegou na mesma conclusão por um caminho diferente e mais sombrio. No estado de natureza, sem sociedade, sem lei, sem grupo, a vida humana era, e essa é talvez a frase mais honesta já escrita, solitária, pobre. sórdida, brutal e curta.
Hobbes não estava sendo dramático. Ele estava descrevendo o que acontece quando você remove a estrutura coletiva. Não sobra o indivíduo livre e soberano que você imagina.
Sobra o caos, sobra o medo, sobra a violência como única moeda de troca. E a ciência moderna confirmou isso de um jeito que Aristóteles provavelmente acharia óbvio demais para precisar provar. Estudos com prisioneiros em confinamento solitário mostram que o isolamento prolongado causa alucinações.
Paranoia, colapso cognitivo. O cérebro humano privado de contato social literalmente começa a se desmontar. Não é metáfora, é neurologia.
Você foi biologicamente projetado para viver em grupo. Seu [música] cérebro trata a exclusão social com a mesma resposta química que trata a dor física. Ser rejeitado dói.
Não figurativamente. Dói no mesmo circuito neural que uma queimadura. Agora pensa na ironia moderna.
Vivemos na era da independência. Todo mundo quer ser autossuficiente, morar sozinho, não depender de ninguém. O discurso é lindo.
A realidade é uma epidemia de solidão, ansiedade e depressão que faz os números dispararem em todo o país industrializado do planeta. Você está mais conectado digitalmente do que qualquer geração anterior e mais sozinho do que qualquer geração anterior. Aristóteles não teria dificuldade nenhuma em diagnosticar o problema.
Você saiu da póliz. Você está tentando ser o deus ou a besta da equação e não tá funcionando. A verdade que ninguém quer ouvir é que a sua individualidade é um produto coletivo.
Cada pedaço que você chama de eu foi construído em relação a um nós. E quando o nós desmorona, o eu vai junto. Aristóteles não estava fazendo filosofia abstrata, ele tava descrevendo uma condição biológica, social e psicológica da qual você não escapa.
Você é um animal político, não porque escolheu ser, porque não existe alternativa. O único lugar onde o indivíduo autossuficiente existe é em propaganda de banco e legenda do LinkedIn. No mundo real, ou você pertence a algo ou você desmourona.
Aristóteles sabia disso. Hobbies sabia disso. Seu cérebro sabe disso, só que você ainda tá fingindo que não.
A vida não examinada não vale a pena ser vivida. Sócrates. Essa frase está em caneca, [música] em quadro de escritório, tá em post de coach que nunca leu uma página de Platão na vida.
Virou decoração. E essa é a piada mais cruel da história da filosofia. Porque o contexto que Sócrates disse isso não tem nada de decorativo.
Ele disse isso enquanto estava sendo condenado à morte. Não era reflexão de fim de tarte. Era [música] o argumento final de um homem que olhou pros juízes e disse: "Podem me matar, eu não vou parar".
Se você escuta essa frase sem sentir o peso de um homem escolhendo morrer por ela, você não entendeu nada. Atenas 399 anes de. Crist, Sócrates [música] tem 70 anos.
Está em pé diante de um júri de 500 cidadões atenienses. As acusações são duas: corromper a juventude e não acreditar nos deuses da cidade. O que ele realmente fez?
Passou décadas andando pelas ruas de Atenas fazendo perguntas, só perguntas. Chegava num general e perguntava: "O que é coragem? " O general respondia e Sócrates desmontava a resposta [música] em 3 minutos.
Chegava num político e perguntava: "O que que é justiça? " Mesma coisa. Ele desmontava.
Um por um, [música] os homens mais poderosos e respeitados de Atenas eram expostos como pessoas que não sabiam do que estavam falando. E Sócrates fazia isso em público, em praça aberta, na frente de todo mundo. Os jovens adoravam, os poderosos queriam ele morto.
E quando chegou a hora do julgamento, ofereceram a ele uma saída. Na tradição ateniense, o réu podia propor uma pena alternativa. Ele podia sugerir exílio, ir >> [música] >> embora, viver tranquilo em outra cidade, calar a boca e sobreviver.
Aí o que Sócrates fez? Primeiro ele sugeriu que Atenas deveria alimentá-lo de graça no Pritaneu, o mesmo lugar onde os heróis olímpicos eram honrados. Basicamente [música] disse: "Vocês deveriam me agradecer".
Depois, quando pressionado, ele ofereceu [música] pagar uma multa ridícula. Ele não tava negociando, ele tava cuspindo na cara do tribunal. Não por arrogância gratuita, porque aceitar o exílio significava aceitar uma vida não examinada.
E isso para ele era pior que a cuta. Agora pensa no que ele realmente quis dizer com vida examinada. Não é introspecção de diário, não é meditar 10 minutos por dia.
É o processo constante, [música] incômodo e socialmente destrutivo de questionar tudo. Suas crenças, suas certezas, os valores que você herdou sem pensar, as opiniões que você repete. Porque todo mundo repete.
Sócrates não tava propondo um hobby intelectual, ele tava propondo um modo de existência que te coloque em guerra permanente com o conforto da ignorância. E a maioria das pessoas, honestamente, prefere a ignorância. Ela é quentinha, segura, não te leva a julgamento nenhum.
Hann Arendit entendeu [música] isso melhor que quase qualquer pessoa do século XX. Quando ela cobriu o julgamento de Adolf Akman em Jerusalém [música] em 1961, ela esperava encontrar um monstro. O que ela encontrou lá foi um burocrata medíocre, um homem que não pensava, que seguia ordens, que nunca examinou nada.
Arendit chamou isso de banalidade do mal. E a conclusão é arrepiante. O mal mais devastador da história [música] não veio de gênios diabólicos, veio de gente que vivia no piloto automático.
Gente que nunca fez a si mesmo uma pergunta básica. O que que eu tô fazendo? E por quê?
Ak organizou o transporte de milhões de pessoas para campos de extermínio [música] e sua defesa era: "Eu estava cumprindo ordens, estava fazendo meu trabalho, vida não examinada em escala [música] industrial". Heidegger, por outro caminho, chegou num diagnóstico parecido, chamou de Dasman, o a gente. A gente faz assim, a gente pensa assim, a [música] gente vive assim.
É o modo padrão da existência humana. Você terceiriza suas escolhas pro coletivo anônimo e chama isso de normalidade. Heidegger dizia que a maioria das pessoas vivem em inautenticidade, não porque elas são más, mas porque é assustador demais assumir a responsabilidade de examinar a própria vida.
É mais fácil você seguir o fluxo e o fluxo te leva para onde todo mundo vai, que se Sócrates e Arend te estiverem certos, não é um lugar bonito. Então, quando você vê essa frase de uma caneca e acha ela bonita, lembra que o homem que a disse morreu por ela, não metaforicamente. O cara literalmente bebeu veneno porque se recusou a viver de outra forma.
E aí, você tá examinando a sua vida ou tá só deixando ela acontecer enquanto checa as notificações [música] do seu celular? Torna-se o que se é Niet. Se você já viu essa frase numa build Instagram entre um emoji de fogo e uma foto sem camisa, parabéns, você testemunhou um assassinato de uma ideia, porque tornar-se o que se é não é sobre autoconhecimento bonitinho, não é sobre encontrar seu verdadeiro eu.
Niet vomitaria se visse o que fizeram com essa frase. O que ele estava descrevendo é um dos processos mais violentos e mais solitários que um ser humano pode enfrentar. E a maioria das pessoas que repetem essa frase não sobreviveria nem ao primeiro passo.
A frase aparece no subtítulo da autobiografia que Niet escreveu em 1888, meses antes dele colapsar mentalmente numa rua de Turim. O livro inteiro é um acerto de contas. Niet revisava toda sua obra e basicamente diz: "Tudo que eu escrevi foi sobre isso, sobre o processo de arrancar de si mesmo tudo que foi colocado ali por outros.
Família, religião, moral, cultura, expectativas sociais. Cada camada de identidade que você carrega e acha que é você, é, na verdade uma roupa que alguém vertiu em você antes que você pudesse recusar. Tornar-se o que se é significa tirar tudo e encarar o que sobra, se é que sobra alguma coisa.
E aqui é onde a coisa fica brutal, porque Nid não era um otimista disfarçado. Ele não achava que embaixo de todas as máscaras existe uma essência pura e bonita esperando para florescer. Isso é papo de coach.
O que Nits propunha era que o processo de se desconstruir não tem garantia de resultado. Você pode arrancar todas as camadas e descobrir que o que sobra é desconfortável, feio, contraditório e que tornar-se o que se é não é chegar num destino, é aguentar o caminho sem a muleta de uma identidade emprestada. Ele desenvolveu isso melhor em assim falou Zarathustra com as três metamorfoses do espírito.
Primeiro, você é Camilo, carrega o peso dos valores que te deram. Deves fazer isso, deve ser aquilo. A moral da família, da religião, da sociedade, você obedece porque nem sabe que existe alternativa.
Depois você se torna leão, se revolta, diz: "Não para tudo, destrói os valores antigos". Mas o leão é só destruição. Ele sabe o que não quer, mas não sabe o que quer.
E então, se você sobrevive ao processo, vem a criança, que não é inocência no sentido fofo, é a capacidade de criar valores novos a partir do nada, sem referência, sem manual, sem a aprovação de ninguém. A maioria das pessoas morre camelo, alguns viram leão e ficam presas na raiva eterna. Quase ninguém chega na criança.
E Nit sabia disso na própria pele. Olha a vida do cara. Ele abandonou a carreira acadêmica aos 34 anos.
Vivia em quartos alugados baratos na Suíça e na Itália. Ele tinha enxaquecas devastadoras, quase cego, praticamente sem amigos. Os livros dele não vendiam nada.
Ele mandou exemplares de Zarathustra pros poucos conhecidos que ele tinha e a maioria nem respondeu. Richard Wagner, que ele admirava profundamente, rompeu com ele. Lou Salomé, a mulher por quem ele se apaixonou, rejeitou ele.
O cara viveu a própria filosofia. arrancou todas as máscaras, recusou todos os consoles e o preço foi uma solidão que a maioria de nós não aguentaria por uma semana. E aí veio o Turim.
Janeiro de 1889, N viu um cochoeiro chicoteando um cavalo na rua, correu até o animal, abraçou o pescoço do cavalo e chorou. Depois disso, nunca mais foi o mesmo. Passou os últimos 11 anos da vida em estado de colapso mental, cuidado pela mãe e depois pela irmã.
O homem que escreveu sobre o Ubermch, sobre superar si mesmo, sobre a força de criar os próprios valores, terminou sem conhecer o próprio nome. Se isso não é a ironia mais trágica da história do pensamento, eu não sei o que é. Mas aqui tá o ponto que ninguém quer encarar.
Niet nunca disse que o processo seria bonito, nunca [música] disse que ia dar certo. O conceito de amorfate, amar o próprio destino, não é aceitar só as partes boas, é olhar para tudo, a dor, o fracasso, a solidão, a loucura e dizer: [música] "Isso também sou eu. Isso também faz parte".
Tornar-se o que se é não é um slogan, é um risco. É apostar a própria sanidade na possibilidade de viver sem mentiras. E a vida de Niet é a prova de que essa aposta pode custar tudo.
Então, da próxima vez que você colocar essa frase na Bill, pergunta para si mesmo. Você está disposto a pagar o preço ou só que a frase bonita, sem a fatura? A existência precede a essência.
Sartre, cinco palavras. Parece inofensivo, parece até chato, até coisa de prova [música] de filosofia do ensino médio. Mas essa frase é provavelmente a coisa mais aterrorizante que alguém já disse sobre a condição humana.
E o motivo pelo qual você nunca sentiu o terror dela é porque nunca parou para entender o que ela realmente significa. Antes de Sartre, o mundo funcionava de um jeito relativamente confortável. A ideia era simples.
Tudo que existe tem uma essência que vem antes da existência. Uma faca existe para cortar. Alguém pensou, preciso de algo que corte.
E aí criou a faca. [música] A essência, o propósito, veio antes do objeto. Com seres humanos, a lógica era a mesma.
Deus pensou no ser humano, definiu o seu propósito e aí te criou. Você nasceu com um manual de instruções, uma natureza humana, uma essência fixa, [música] um destino. Podia ser religioso ou filosófico, mas o conforto era o mesmo.
Alguém ou algo [música] decidiu por você está aqui. Seu trabalho era só descobrir o quê. Sartre pegou, olhou para isso tudo e disse: "Não, a existência precede a essência.
Você apareceu primeiro, sem manual, sem propósito embutido, [música] sem natureza pré-definida. Você é jogado no mundo como um objeto sem função e só depois, pelas suas escolhas, vai construindo o que é. Não existe natureza humana que te justifique.
Não existe destino escrito, não existe [música] nenhuma força externa que dê sentido à sua presença aqui. Você tá sozinho com a sua liberdade. E essa liberdade não é um presente.
É um peso que a maioria das pessoas passa a vida inteira tentando devolver. Ele apresentou isso formalmente numa palestra em Paris em 1945, que virou o texto: "O existencialismo é um humanismo". A sala tava lotada, a Europa tinha acabado de sair da Segunda Guerra.
Deus, para boa parte daquela geração, estava definitivamente fora do jogo. As grandes narrativas, progresso, civilização, razão, tinham produzido Auschwitz [música] e Hiroshima. E Sartre subiu no palco e disse basicamente: "Não vai aparecer ninguém para consertar isso.
Vocês estão sozinhos. [música] Cada escolha que vocês fazem define o que o ser humano é. Não tem álibe, não tem desculpa, [música] não tem.
Eu tava seguindo ordens que resolvam o problema. E foi aqui que Sartre cunhou um dos conceitos mais incômodos da filosofia moderna. A angústia não é ansiedade comum, não é preocupação com conta para pagar, é a vertigem que vem quando você percebe de verdade que nada te obriga a ser o que você é, que você poderia agora mesmo nesse segundo fazer qualquer coisa, alargar tudo, mudar completamente e que a única razão pela qual você não faz isso é porque você construiu uma prisão de hábitos e [música] rotinas e chamou de vida.
A angústia existencial é olhar pro abismo da própria liberdade e perceber que não tem grade de proteção. Kirkegard já tinha farejado isso quase 100 anos antes. Chamou de vertigem da liberdade.
Disse que a angústia [música] é o que sentimos diante da possibilidade, não diante do perigo concreto. Isso é medo. Angústia é diferente.
É a tontura de perceber que você pode, que nada te impede, que as barreiras são todas inventadas. Queard era religioso e encontrou refúgio no que chamou de salto de fé. Sartre não tinha essa saída.
Para ele, o salto de fé era justamente o que ele chamava de má fé, a tentativa desesperada de fingir que existe algo maior que você decidindo as coisas. Deus, destino, natureza, signo, propósito cósmico, tudo a mesma coisa. Anestesia para quem não aguenta a liberdade.
E é aqui que a frase atinge você diretamente, porque pensa no que você faz todo dia. Você segue uma rotina, vai trabalhar, paga as contas, segue um caminho que alguém traçou antes de você. E no fundo, quando alguém pergunta por que que você faz isso, a sua resposta é alguma variação de porque é assim que funciona.
Sartre diria que isso é máfé pura. Você tá fingindo que não tem escolha, porque a alternativa admitir que cada segundo da sua vida é uma escolha sua e você é literalmente responsável pelo resultado é insuportável. É mais fácil ser uma faca, ter uma função definida, um propósito claro dado por alguém de fora.
Mas você não é uma faca, você é um ser humano. E a diferença, segundo Sartre, é que a faca não precisa decidir o que é. Você sim, todo dia, toda hora, sem folga, sem manual e sem ninguém para culpar quando dá errado.
Bem-vindo à liberdade. Ninguém disse que seria agradável. Sobre aquilo de que não se pode falar, deve se calar.
Vitenstein. Essa é a frase que encerra um dos livros mais estranhos e mais importantes do século XX. E todo mundo que cita ela acha que Vitgenstein estava sendo místico, profundo, quase zen, como se fosse um monge austrico pedindo silêncio contemplativo.
Não, Vit Sty estava fazendo algo muito mais radical e muito mais grosseiro. Estava dizendo que a maior parte do que a humanidade discutiu nos últimos 2500 anos de filosofia é lixo. Não tá errado, não tá incompleto, é lixo.
São combinações de palavras que parecem significar algo, mas não significam nada. E ele tinha os argumentos para provar. O livro é o Tractatus lógicofilosóficos, publicado em 1921.
Vitgeninstein tinha 32 anos e as circunstâncias em que esse livro foi escrito [música] importam tanto quanto o conteúdo. Ele não estava no escritório em Cambride fumando algum cachimbo. Ele estava nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial.
Serviu como soldado voluntário do exército austro-húngngaro. Viu gente morrer. Ele quase morreu.
Carregou o manuscrito na mochila durante toda a guerra. Enquanto a Europa se despedaçava ao redor dele, Vitgeninstein estava tentando resolver um problema que parecia absurdo naquele contexto. Qual é o limite daquilo que a linguagem pode dizer com sentido?
E a resposta dele foi devastadora. A linguagem, segundo o tractos, funciona como uma espécie de mapa da realidade. [música] Frases com sentido são aquelas que descrevem fatos do mundo, coisas que podem ser verdadeiras ou falsas.
Está chovendo lá fora. Isso tem sentido, pode ser verificado. Agora, qual é o sentido da vida?
Parece uma pergunta profunda, mas Vit Genstein diria que não é uma pergunta, é um ruído linguístico. É como perguntar qual é o cheiro da cor azul. A gramática permitiu a frase, mas a frase não aponta para nada no mundo.
Não pode ser verdadeira nem falsa. não descreve nenhum fato, é tecnicamente sem sentido. E isso não se aplica só as perguntas de boteco às 3 da manhã, se aplica a metafísica inteira.
Deus existe? Sem sentido. O que é a beleza?
Sem sentido. Existe livre arbítrio? Sem [música] sentido.
Não porque as respostas são difíceis, mas porque as perguntas mesmas são defeituosas. São máquinas linguísticas rodando no vazio. E a filosofia, segundo Vitgeninstein, é basicamente uma coleção melenar dessas máquinas defeituosas.
Gerações de pessoas brilhantes discutindo com paixão sobre perguntas que não significam coisa nenhuma. O círculo de Viena, um grupo de filósofos e cientistas que incluia nomes como Rodolf Carnap e Morit Silik, pegou essas ideias e correu com elas nos anos 20 e 30. Desenvolveram o positivismo lógico, que basicamente dizia: "Se uma afirmação não pode ser verificada empiricamente, ela não tem conteúdo cognitivo.
Não é que ela tá errada, é que não diz nada. jogaram ética, estética, teologia e metafísica inteiras para fora do campo de conhecimento legítimo. E a base de tudo era o Vitgeninstein, o cara que escreveu um livro de 75 páginas e achou que tinha resolvido todos os problemas da filosofia.
E o mais insano largou a filosofia depois disso. Ele foi ser professor primário em vilarejos na Áustria. Porque se ele tinha, porque se ele tinha resolvido tudo, não tinha mais nada para fazer.
E a base de tudo era o Vitgeninstein. O próprio Vitgeninstein percebeu depois que tinha ido longe demais. Anos mais tarde, ele voltou para Cambridge e passou o resto da vida desmontando o próprio livro.
Nas investigações filosóficas publicadas depois da morte dele, ele basicamente disse: "A linguagem não funciona como um mapa, funciona como um jogo, ou melhor, como milhares de jogos diferentes, cada um com regras próprias. O significado de uma palavra não é o objeto que ela representa, é o uso que se faz dela. Vitgeninstein refultou o Vitgeninstein.
O que se você parar para pensar é a coisa mais honesta que um filósofo já fez. E a frase final do tractos sobrevive a tudo isso. Porque mesmo depois de destruir o próprio sistema, o ponto central permanece.
Existe um limite, existe um muro que a linguagem não atravessa. E do outro lado desse muro estão as coisas que mais importam para você: sentido, amor, morte, beleza. E você não consegue falar sobre elas com precisão, só consegue apontar, só consegue circundar.
E talvez o ato mais corajoso não seja tentar colocar tudo em palavras, mas admitir que algumas coisas ficam do lado de lá. Vitin está em escrever um livro inteiro para chegar numa única conclusão. Cala a boca.
E a ironia de ter precisado de 75 páginas para dizer isso, talvez seja a maior prova de que ele estava certo.