Você sabia que muitas mulheres autistas acabam sofrendo por muito tempo antes de chegarem ao diagnóstico real? Pois é, em fevereiro deste ano saiu uma matéria na revista de neurociências da Universidade de Cambridge falando sobre a lista de possíveis diagnósticos mais usuais para meninas antes delas alcançarem o diagnóstico verdadeiro de autismo. Então, esse é o nosso assunto de hoje, e o objetivo não é criticar os médicos nem os psicólogos, até porque nós sabemos que os estudos sobre autismo em meninas e mulheres ainda são muito precários.
Por isso, a nossa meta aqui não é julgar ninguém; aqui, o nosso objetivo sempre é divulgar as novas fontes de dados e facilitar a vida tanto dos profissionais quanto das nossas queridas neurodivergentes, porque a repercussão cognitiva do sofrimento psíquico é muito forte quando a pessoa não sabe quem ela é. E, infelizmente, muitas mulheres autistas não chegam a conhecer o seu potencial na escola e no trabalho, porque os neurônios delas entram em pane nesse período de confusão. Bem, antes da gente entrar nessa lista de diagnósticos equivocados, que são três os principais, eu sinto que é importante falar sobre as causas desses equívocos, né, dessa dificuldade para os profissionais.
Então, por que os sinais do autismo nas meninas podem passar despercebidos na sociedade? Primeiro, porque as meninas autistas podem realmente ter um jeito diferente de manifestar os sinais do espectro. A gente já conversou sobre isso, e por isso elas não costumam receber o diagnóstico tão cedo quanto os meninos.
E, quando o quadro é leve, elas podem ser apenas rotuladas, né, como chatas, frescas, tímidas, muito sensíveis. Uma outra razão para essa dificuldade do diagnóstico é que as meninas tendem a não ter muitos comportamentos repetitivos e mais externalizantes na infância; elas talvez não façam tantas birras, né, e não tenham estereotipias nítidas. E, além disso, nós sabemos que elas se especializam na arte de camuflar as manias delas, as estereotipias.
E mais um ponto é o gosto pela socialização: as meninas tendem a ter muito mais motivação para estar com as pessoas. E, por essas e por outras razões, elas podem ser vistas na infância como uma criança típica, apesar de algumas peculiaridades. Acontece que os estudos indicam que, apesar da menina autista não apresentar tantas dificuldades no início da vida, quando vai chegando à adolescência, essas questões psicológicas costumam ser até mais graves se comparadas às dos meninos.
Então, é nessa fase em que as demandas psiquiátricas surgem e também as dificuldades para fechar o diagnóstico de autismo, porque ela não era autista antes e aí aparece com esse sofrimento psíquico. Então, os psiquiatras, né, os médicos, vão pensar mais nisso. Ok, e agora que você já sabe um pouquinho sobre as principais causas dos equívocos, nós vamos falar sobre os diagnósticos que as meninas ou as mulheres autistas mais costumam receber antes delas saberem que são autistas.
Lembrando que o artigo não é baseado em dados da realidade brasileira, mas nós sabemos que esse problema acontece no mundo todo. Então, vamos lá: o primeiro diagnóstico relatado é a anorexia nervosa. Por quê?
Simplesmente porque a menina pode assumir os seus hábitos alimentares como os comportamentos restritivos clássicos do autismo. Além disso, o fato dela ter sensibilidade intestinal ou sensibilidade a texturas, por exemplo, pode fazer com que ela evite muitos alimentos. Ou seja, essa geralmente é a demanda mais forte da família, porque assusta muito ver uma criança ou um adolescente desnutrido.
Às vezes, também pode acontecer de não ser anorexia, mas os profissionais percebem uma ortorexia. Como assim? Se o hiperfoco da mulher for a alimentação, ela talvez fique muito obsessiva com o tema da nutrição saudável ou vegana, low carb, seja lá qual for o tipo.
Enfim, o comportamento repetitivo e restritivo, que é o segundo critério do diagnóstico do DSM-5, pode aparecer como essa paixão pela saúde e um perfeccionismo extremo. O segundo diagnóstico bastante comum é o de transtorno de personalidade borderline. Isso não significa que a pessoa não tenha esse diagnóstico; na verdade, ela pode ter os dois, mas é que as duas condições, tanto o transtorno de personalidade borderline quanto o autismo, principalmente no sexo feminino, podem apresentar traços muito semelhantes.
Tem uma interseção grande, por exemplo: a dificuldade para compreender o que o outro está pensando ou vivenciando pode estar presente nas duas condições. Dificuldade para regular as próprias emoções, uma reatividade muito grande, maior sensibilidade aos estímulos do ambiente, podem também apresentar explosões de raiva que, no autismo, a gente vai chamar de "meltdown". Podem ter uma tendência maior a fazer automutilação e ter uma dificuldade para encontrar sentido na vida.
No artigo, eles vão mostrar duas tendências: no caso dos pacientes borderline, eles podem ter características semelhantes compatíveis com as do autismo, e os autistas, por outro lado, tendem a ter uma maior chance de desenvolver quadros limítrofes. Por quê? A hipótese é de que os autistas sejam mais vulneráveis ao trauma, e esse parece ser, né, o componente mais significativo para a formação dessa personalidade, da personalidade borderline.
Tem um livro muito interessante que fala sobre esse assunto. O título é "A Criança Orquídea". Nele, o autor compara as crianças mais sensíveis a orquídeas que, se estiverem em um ambiente adequado, bem iluminado, com a sombra, a quantidade de água certas, vão florescer lindas, fortes e resilientes.
Mas se o ambiente for frio demais, invalidante, né, no caso das crianças da orquídea, se não tiver o que elas precisam de verdade, provavelmente elas vão sofrer. E esse sofrimento pode aparecer como hipervigilância, baixo desempenho escolar; a criança tira notas baixas, não consegue prestar atenção, não consegue memorizar, instabilidade emocional, não consegue administrar as próprias emoções e pode levar a problemas de socialização. E, mais uma vez, esses comportamentos disruptivos tendem a chamar muito mais atenção do que os próprios traços do autismo e, por isso, claro, eles vão ser atendidos.
Antes, o terceiro diagnóstico é o de transtorno de sintomas somáticos, que é o que Freud chamou de histeria. Então, a paciente pode ser poliqueixosa, ter muitos sintomas físicos, muitas dores pelo corpo, zumbido, cansaço, enxaqueca, exaustão, tudo sem motivo físico aparente, né? Sem uma causa médica conhecida.
Então, ela parece exagerar, sensível demais, hipocondríaca, e os tratamentos farmacológicos nem sempre trazem o alívio que ela espera. Imagine o desespero dessa pessoa! O artigo até cita que as queixas somáticas também podem estar associadas aos eventos traumáticos que nem sempre as autistas são capazes de revelar, né?
De expressar, porque talvez elas nem tenham processado a situação como um trauma. Ou seja, elas talvez tenham dificuldade real para expressar o sofrimento psíquico. Um outro detalhe, que nós já até mencionamos em outro vídeo, é que às vezes a autista é muito inteligente, muito racional, mas pode ter dificuldade para processar e nomear os estímulos sensoriais.
Então, como bem dizem os psicanalistas lacanianos, a angústia surge quando o afeto está desligado da palavra. Ou seja, se a autista não tem repertório verbal para ligar, né? Para dar sentido às suas experiências sensoriais e conectar as duas coisas, tudo que ela sente – a luz, a textura, o barulho – tudo isso é vivido como pura angústia.
Além disso, ela pode ser realmente uma paz, uma pessoa altamente sensível. E aí eu falo por mim: eu, de fato, sinto mais incômodo do que as pessoas que eu conheço. E vocês sabem que minha mãe me chamava até de Maria das Dores, porque até um grampinho no cabelo me machucava.
Incomodava: as roupas, as etiquetas… E não era frescura, doía de verdade. E agora eu sou mais resiliente, aguento até dois grampinhos, graças a Deus. Bem, mas, resumindo, os três diagnósticos que aparecem nesse artigo como os mais frequentes antes do diagnóstico real de autismo são: primeiro, os distúrbios alimentares; segundo, os transtornos de personalidade borderline; terceiro, o transtorno de sintoma somático.
E claro, existem outros diagnósticos que podem vir com o autismo e também tendem a funcionar, às vezes, como confundidores, como o TDAH, pânico, transtorno obsessivo-compulsivo, que é muito comum, a depressão, que também é muito frequente em autistas, e a ansiedade, claro, né? Que está presente em todos esses diagnósticos e pode ser um diagnóstico específico também. Mas a questão é que os novos estudos tendem a facilitar a descoberta, né, das causas do sofrimento psíquico, porque em geral, quando o diagnóstico não foi preciso, o tratamento também tende a ser mais superficial e pode não ser eficaz.
Então, a nossa esperança é de que essa realidade, claro, melhore em breve. E cada um de nós pode contribuir para que esse processo ocorra mais rápido, para que a gente evolua como sociedade, não criticando as pessoas que são mais sensíveis, facilitando o florescimento das suas lindas orquídeas, que são as nossas meninas neurodivergentes, e claro, ampliando a consciência dos nossos amigos e dos nossos colegas. Por isso, por favor, compartilhe o vídeo com os educadores, com profissionais da saúde que você conhece e, claro, com muitas mulheres neurodivergentes que precisam dessa mensagem e que precisam acelerar também o seu processo de autoconhecimento.
Então, um grande abraço e até breve! Tchau, tchau!