Mas aqui no Brasil essa construção de identidade negra com a soma de pessoas né que se autod declaram pardas e pretas ela é muito importante pra gente pensar população pra gente pensar demografia pra gente pensar o acesso a direitos mas também no plano individual para eu conseguir mergulhar na minha história na minha trajetória com menos Vergonha Sem achar que eu tenho culpa individual por qualquer coisa mamilos mamilos mamilos Mam leiros e mamil sejam bem-vindos ao nosso espaço de diálogo de peito aberto eu sou a Juva Laer eu sou a Cris barts e a gente tá
aqui essa semana para ter um papo que tem memória tem sabor tem muito cheiro Juliana quem tá com a gente aqui hoje Bianca Santana seja muito bem-vinda ailos Eba muito obrigada tô nervosa mas feliz vamos apresentá-la para vocês para quem ainda não conhece ela nasceu em São Paulo em 1984 é jornalista mestre em educação e Doutor em ciências da informação seu trabalho vem transformando a forma de contar histórias e promover o diálogo sobre identidade e justiça social com uma carreira marcada pela sensibilidade e também pela ousadia ela constrói narrativas que refletem as complexidades e riquezas
da experiência negra no Brasil a sua obra inclui o livro Quando Me descobri Negra que foi premiado com o prêmio Jabuti na categoria ilustração e É uma prova do seu olhar apurado para as histórias e realidades ela também se dedica à valorização da cultura Negra liderando iniciativas como a casa Sueli Carneiro que a gente já foi convidada para aí que é um espaço de formação e memória que fortalece o legado das lutas por igualdade Hoje a gente vai conhecer de perto essa trajetória super inspiradora vamos mergulhar na sua história e vamos começar falando de como
é que você se descobriu negro Como tá no livro aqui com 20 anos você deixa de se identificar como morena e passa a se nomear Negra Como foi esse processo de descoberta de afirmação dessa identidade eu sempre soube que não era Branca né porque às vezes fica essa sensação de mas não tinha espelho na sua casa tinha sabia disso mas não ser branca né se definir pelo negativo é muito diferente de poder se afirmar Negra numa ção de identidade positiva Com referências que não tem a ver com querer se separar ou se apartar mas se
apropriar de raiz para conseguir ficar firme né E aí sim conviver com pessoas não negras também mas de um lugar mais firme eh eu fui colecionando experiências na infância que me indicavam um lugar de Negritude que ao mesmo tempo era negada para mim e eu conto algumas dessas histórias no livro então muitas vezes a minha avó prendia o meu cabelo assim bem Para trás e falava é para não parecer essas [ __ ] quando ela falava isso eu pensava mas eu não sou essas [ __ ] mas eu também não não continuava a conversa deixava
assim mesmo e e nesses pequenos episódios que eu não conseguia nomear que eu também não mergulhava eu tinha ali alguma sensação de que algo faltava E aí quando já na universidade eu ouço pela primeira vez Ah vai ser muito bom que os alunos aqui desse cursinho comunitário possam se Identificar com uma professora negra a hora que eu ouço Negra foi um presente de um nome para aquele lugar que eu ocupava na sociedade brasileira que não tinha sido nomeada nomeada até aquele momento então foi um presentão é como se essa palavra tivesse aberto para mim possibilidade
de buscar mais sobre mim sobre a minha família agora por que que é tão importante essa afirmação o que que você sentiu de transformação na sua vida quando você se Apropria dessa identidade e o que que você vê porque eu acredito que no seu entorno nas suas andanças você também acompanhou muita gente abraçando essa identidade O que que você vê de transformação na vida de uma pessoa quando ela passa desse lugar eu gostei muito jogo de palavra né Eu não sou O negativo disso eu sou o positivo dessa afirmação o que que muda muda a
possibilidade de se sentir pertencer então É como se eu não Pertencesse a algo que eu nem sabia exatamente o que era essa esse negativo né o não branco não branca é como se isso me alije uma coisa que eu nem sabia exatamente o que era e quando eu ouço a palavra Negra É como se um repertório de possibilidade se abrisse então Putz A a partir do momento que eu ouvi que eu era Negra eu fui atrás e li lélia Gonzales li Sueli Carneiro porque elas estavam falando sobre o que é a mulher negra numa formulação
que é social e política E que elas fizeram com muita consistência nos anos 70 e 80 aqui no Brasil mas eu não sabia disso uhum e elas pegam por exemplo é muito bonito ouvir a Sueli falar de quando ela ouviu Lelia Gonzales pela primeira vez ainda nos anos 70 que ela diz que a lélia pegou Todas aquelas imagens estere padas que desqualificava mulheres negras e trouxe pro positivo então falavam Ah porque a bunda grande o dançar não sei quê e tudo aquilo paraa lélia era Ressignificado como uma coisa maravilhosa então o cabelo que tantas vezes
precisa ser Domado ficar baixo não a gente pode deixar ele para cima e fazer um black power isso é poder né também diálogo que tava com o que tava acontecendo com o restante do mundo mas é bonito a gente pensar nisso porque a identidade ela não é fixa né e E aí quando você me pergunta Cris ah nessas andanças como é que é a hora que eu entendi sou negra e escrevi um texto Quando me descobri Negra um tempinho depois eu tava na universidade e eu fui estudar na França e aí eu chego lá me
sentindo Negra e lá as pessoas me tratavam como Francesa e eu não entendia como aquilo era possível até entender quanta gente argelina do norte da África vivia em Paris e que fazia todo sentido que eu parecesse muito argelina então em muitos lugares mundo as pessoas acham que eu sou do norte da África pelo tom da minha pele e aí aquilo também foi uma Outra descoberta lá ninguém tinha dúvida lá ninguém tinha dúvida mas era uma experiência muito diferente da África subsariana de quem era preto então eu obviamente não era Branca eu obviamente né era uma
pessoa de cor um termo que a gente não usa no Brasil eh de origem africana mas não subsariana argelina o que aqui pra gente não faz muito sentido Uhum aí quando eu chego sei lá na Etiópia tem algumas etnias etps que tem o meu exato tom de pele e a Minha maçã de rosto olho puxado eu pareço muito etip então as pessoas falavam am Mari que eu comio como se eu fosse tiup eu falava Gente o que o que tá acontecendo né mas aqui no Brasil essa construção de identidade Negra como a soma de pessoas
né que se autodeclaram paras e pretas ela é muito importante pra gente pensar a população pra gente pensar demografia pra gente pensar o acesso a direitos mas também no plano individual para eu conseguir mergulhar Na minha história na minha trajetória com menos Vergonha Sem achar que eu tenho culpa individual por qualquer coisa antes de eu mergulhar nessas autoras negras eu tinha certeza de que a minha família era um grande equívoco Então eu tinha nascido no lugar errado na família errada minha vida era toda errada e tudo aquilo era ruim porque uma família certa era uma
família que tinha pai mãe crianças dentro de casa que as pessoas tinham trabalho numa Determinada empresa de um determinado jeito Esse era o jeito correto de levar a vida eu morava numa casa com a minha mãe meu tio materno irmão dela e a minha avó mãe dos dois o meu pai já não morava com a gente desde que eu tinha do meses de idade e o meu pai era bicheiro que é um outro Capítulo da minha história e eu falo sobre isso no livro e meu pai morreu Quando eu era muito nova né eu tinha
11 anos foi um mês antes de eu fazer 12 e Essa perda muito violenta porque meu pai morreu com um tiro na cabeça uma violência tremenda eu tinha certeza de que essa violência tinha a ver com o fato da minha família ser toda errada e de eu tá ali numa situação errada uhum quando eu começo a compreender o lugar destinado às pessoas negras no Brasil desde a abolição nem vou voltar antes no período da escravidão mas quando eu começo a entender o projeto de morte destinado à População negra eu entendo que o meu pai é
uma expressão de um projeto social e político que obviamente ele fez escolhas individuais e que nem todo mundo fez as mesmas escolhas que ele só que essas escolhas elas não estão separadas do que é o Bras então entender o que é o Brasil me permitiu me reconciliar com a imagem que eu tinha do meu Pai a não sentir tanta raiva não sentir tanta mágoa ter mais compreensão e a ressignificar esse amor Dentro de mim a ser grata pelo que ele conseguiu fazer então essa junção do que é pessoal e do que é coletivo ela veio
para mim de presente com a descoberta da negritude então Eh aproveitando mais Desse pessoal e coletivo eu queria voltar um pouco no que você falou da sua avó penteando seu cabelo que ela também tá trazendo um contexto Ela não tá falando com você ela tá repetindo alguma coisa que ela veio então como é que a gente faz esse passo de olhar de novo Porque tava dado do que é feio do cabelo do nariz da pele enfim como é que a gente olha para isso E ressignifica como é que você cria em você mesmo na sua
trajetória e na sua atuação política uma outra estética ter referência é uma coisa muito importante então quando eu comecei a soltar o meu cabelo eh eu não via tantas imagens assim de mulheres com cabelo afro solto então e eu tinha muitas imagens de trança de rastafari que é Lindo maravilhoso incrível e muito mais imagens de alisamento e pouco cabelo crespo natural né isso há muitos anos então eu também sou muito grata por ter visto na rua essa mudança acontecer e eu não sei se em qualquer período da história as pessoas conseguem ver mudança a a
Olhos Nus viver a história e saber que tá vivendo exatamente consegui ver na rua então entrar no metrô de São Paulo era uma experiência de cabelos Alisados de repente você começa a ver mais cabelo natural e mais e mais e mais você começa a ver black power com num intervalo relativamente curto de poucos anos aí você olha a farmácia a Perfumaria você não tinha produto para cabelo crespo e cacheado depente começa a ter produto mais barato mais caro não sei o que já at as Americanas ficam falando dos nossos produtos porque a gente tem de
fato e nos Estados Unidos eles viveram né as Americanas viveram Algo importante com cabelo lá nos anos 70 black power Angela Davis mas me parece que isso ficou um pouco restrito no tempo uhum hoje a gente tem uma maioria de norte-americanas que alisam o cabelo ainda eu tive na Jamaica recentemente elas usam cabelo alisado ou peruca né lcia aplique muito comum e o meu cabelo era algo que espantava assim fazia tempo que eu não era vista com espanto mas no Brasil sei lá 15 anos eu lembro Uma vez eu tava num ônibus na Zona sul
e um menino gritou alguma coisa do lado de fora ah esse cabelo horrível prende esse cabelo e era uma fala que que que tinha a ver com o olhar assim as pessoas olhavam com estranhamento mas agora ninguém me olha mais com estranhamento pelo cabelo aí quando eu chego na Jamaica e e lembro desse olhar eu Nossa no Brasil era assim também né agora eh eu queria entrar um pouquinho nessa história de o que você vê te leva a escrever né Eh a sua infância você Falou um pouco da sua família da sua trajetória da sua
identidade o quanto disso influencia você se tornar escritora isso que você tá acompanhando no metrô dentro de casa na viagem o que que isso te leva a falar Quer saber vou começar a registrar eu tenho uma hipótese de que todas as pessoas alfabetizadas elas escrevem sobre as suas vidas sobre as suas experiências a gente escreve para desabafar a gente escreve para lembrar a Gente escreve quando a gente precisa tirar da gente mas não quer compartilhar olhar com outra pessoa e a gente escreve e num guardanapo e joga fora ou guarda a gente escreve no rascunho
do e-mail a gente escreve no grupo de WhatsApp pra gente mesmo e essa minha hipótese de que todo mundo faz isso ela serve também para mim então eu era uma criança quieta eu eu fui ficando falante adulta e aí tinha coisas que eu não queria contar para Ninguém então eu escrevia mas eu não tinha intenção de tirar essas coisas dos meus cad dos meus papéis nenhuma intenção essa coisa de já eu era criança e sonhava ser escritora um dia não é sobre mim não eu amava os livros mas os livros para mim eram histórias muito
diferentes das que eu vivi a primeira vez que eu leio quarto de despejo da Carolina Maria de Jesus eu fico ofendida porque eu tinha a sensação de Que ela colocou em livro num livro Histórias Que não eram de livro eram histórias de casa eram histórias para você contar na cozinha eram histórias para você contar pras vizinhas não era para escrever em livro então eu me senti ofendida porque os livros contavam as histórias da Europa do norte do mundo da classe média alta Branca brasileira então livro eu gostava muito deles mas os livros para mim eram
outra coisa aí quando eu vou lidando né com esse Incômodo de ler Carolina entender que o errado era não ter mais Carolina e não escreveu e vou tomando também consciência né da das coisas eu vou lidando com conflito interno não era uma coisa tranquila para mim Eh mesmo porque a maior parte do que eu escrevo escrevo em primeira pessoa Uhum E por que alguém faz isso eu estudo isso eu me pergunto isso eu trabalho isso em oficina de escrita porque é uma tentativa de elaboração Individual que é também coletiva e você partilhar Isso é uma
exposição enorme mas também uma possibilidade de elaborar coisas que eu acho difícil elaborar sem a primeira pessoa porque tem algo que fica genérico existem pessoas que no Brasil é diferente falar olha isso aqui aconteceu comigo para quem lê é uma coisa diferente mas fazer isso também não é um movimento tranquilo a baita de uma exposição né eh e e eu fui lidando com isso como uma Orientação espiritual é mesmo mesmo 2013 eu fui jogar Búzios E aí tinha ali uma orientação de escrever e publicar toda semana eu tá sou jornalista eu eu tinha já Enfim
tudo bem eu já faço isso não não não o que você faz coisas que você viveu que você pensou que você sonhou suas experiências o quê isso não vai acontecer né errou Que pena Nossa eu deixaram erra mas dessa vez errou sinto muito eu saio desse jogo de busos 10 dias depois um amigo me Escreve que o huffing post estava vindo pro Brasil e tinha blogs Né tava vindo com editor Abril não sei o que na e ele me chamou para ter um blog lá e eu sabia que não era pago e eu já tive
blog pago no Abril a a primeira coisa era dizer não é lógico que não e lembrei da orientação dos buzos aí respondi para ele olha mas se eu for fazer mesmo eu vou faz eu vou escrever coisas diferentes eu vou escrever sobre as minhas experiências sobre os meus sonhos Que eu vivi tentei reproduzir as palavras e ele falou não não é isso mesmo você pode fazer isso se você quiser eu não acredito agora vou ter que fazer não acredita que eu eu meti dessa E aí fui no tempo assim aí e eu não sabia o
que fazer eu tinha sei lá três meses para entregar o primeiro texto porque eles ainda estavam desenhando o projeto mas na semana seguinte eu trabalhava muito mais com educação nessa época eu tava Fazendo consultoria para uma instituição grande de ensino eu tinha um livro cem coautoria com outras pessoas tenho ainda sobre recursos educacionais abertos era uma coisa de Educação e Tecnologia tava fazendo essa consultoria eu chego um dia trabalho lá o dia inteiro tudo certo eu percebi os olhares mas eu já tava assim meio vacinada para eles e na hora de ir embora gerente do
projeto fala para mim nossa Bianca que corajosa você vir aqui com esse turbante Hum eu nem sabia a Cris adora essa expressão que corajosa Nossa Poisé Pois é que corajosa eu não sabia assim sabe quando abre aquele buraco no seu estômago você não tem muito o que fazer com ele porque eu não queria falar disso com ninguém porque eu queria que isso nem tivesse acontecido não queria falar disso com ela aí eu cheguei em casa e escrevi escrevi o que aconteceu quando eu terminei de escrever eu me dei conta de Que sempre que aparece essee
buraco no meu estômago eu escrevia e eu pensei será que é isso aqui que eu tenho que fcar falei não não é possível não é possível que seja isso isso aqui é só para eu tirar de mim iG aí e outro desafio desafio profissional né Porque eu trabalhava ainda eu queria continuar nesse projeto aí eu escrevo para ela uma mulher muito bacana tal explico Olha eu tenho certeza de que você não quis me ofender não Temuma dúvida sobre isso mas eu escrevi esse texto eu queria te mostrar mandei a passam-se vários dias ela Bianca me
desculpa real já mais imaginei que coisa obrigada por ter compartilhado comigo enfim aí eu respondo Olha que bom que você recebeu bem e tal mas é óbvio que eu não vou falar nem seu nome nem da instituição mas eu vou publicar esse texto e de novo ela demorou falou olha é difícil é duro mas lógico né a sua escolha tal e aí eu entendi que aquele Era o primeiro texto que eu ia publicar naquele blog Deixa eu só aproveitar para fazer uma uma liga com a sua formação uhum eh o jeito acadêmico né você é
Doutora na área o jeito acadêmico é fazer um estudo mostrando quantas pessoas olham o turbante tem uma relação X em comparação a relação Y porque eu tenho dados porque aí quais são os seus autores para dizer se esse turbante deve ou não ser usado aqui o seu jeito de escrever em primeira pessoa ele é E isso aconteceu comigo como que a gente faz para que as narrativas individuais ganhem o alcance coletivo com um respeito que os estudos colocados pela academia e aí a gente tá falando basicamente da academia Branca né que até então foi assim
agora a gente tá colocando um pouquinho de pantone ali mas ainda muito branca como pode uma pessoa que vem com cwi discutir com uma pessoa que tem anos estudando muitos autores e com muitos números Amei a sua Pergunta me dá a possibilidade de falar sobre algo que eu nunca falei porque os dados quantitativos eles são importantes e esse é um tipo de pesquisa pesquisa qualitativa pode trazer pra gente informação que também é científica a partir né da história de uma história de poucas histórias né Tem muitas metodologias para olhar para isso o que eu acho
interessante é que que tem uma parte dessa academia Branca bastante arrogante que diz trabalhar com dados Quantitativos falando com cinco pessoas na venida Paulista entendeu sim falando com Nossa tenho aqui uma amostra muito significativa de 50 pessoas e por isso eu posso afirmar que Uhum E eu olho para isso com um espanto eu falo mas não é possível que essa gente se acha séria porque isso não é sério quando eu tava fazendo minha pesquisa de doutorado e eu agradeço muito ao Marco Antônio Almeida meu orientador um homem branco Generoso situado muito consistente teóricamente Que me
incentivou a buscar coisas que realmente faziam sentido para mim então num primeiro momento eu queria estudar redes sociais Então eu queria uma ir para uma abordagem quantitativa olhar pros dados do que as pessoas estavam falando sobre o cabelo Ele olhou para mim e falou Bianca você já oferece oficinas de escrita para mulheres negras Você tem uma relação enorme com essas mulheres Você tem muitos textos por você Não analisa o que mulheres escrevem oficinas eu por isso não é método de pesquisa uhum el Mas você pode propor esse método de pesquisa e eu fiquei brigando com
ele que tava me incentivando a fazer algo que realmente tinha sentido para mim então orientadores orientadores F ser fundamentais quando te orientam a achar o seu caminho e não querem impor o caminho deles né então nessa generosidade do Marco eu fui tentando Entender se as oficinas de escrita podiam ser método de pesquisa então Além de eu escrever o que aconteceu comigo eu posso olhar o seu texto sobre o que aconteceu com você e de tantas outras pessoas e entender se a partir daí há algo que a gente possa interpretar e afirmar sobre a gente no
coletivo e aí eu enfim mas com quem eu vou fazer isso mas quem vai topar ah tal fui pra Marcha das mulheres negras de São Paulo movimento tão importante que tem aqui Expliquei a situação para elas e perguntei vocês querem vocês topam eu dou oficina de escrita para vocês mas aí vocês me entregam os textos para eu analisar anonimizado todo mundo e elas super toparam então a gente pegou lá um mês de Julho Julho das pretas eu escrevia pra revista Cult na época e dava algumas oficinas no espaço Cult e Daisy e Fernanda super generosas
abriram o espaço Cult para eu oferecer as oficinas lá e aí eu fiz alguns Encontros Com essas mulheres um grupo de 20 ou 25 mulheres eu não me lembro cada uma me entregou um número de textos Então eu tinha uma amostra que não era uma amostra tão pequena assim de textos para analisar E aí além desses textos eu analisei outros que eu chamei de textos clássicos de mulheres negras lá com um monte de critério mas também é um jeito de olhar pro dado qualitativo H tentando apreender ali daquela narrativa que é individual o que tem
Dela que fala também sobre o coletivo mas sem essa pretensão de falar sobre o país Todo sobre a verdade do mundo entendeu sabendo que você tá lidando com uma amostra nesse caminho de estudar mesmo de se aprofundar para compreender fenômeno você chegou em uma das intelectuais mais importantes brasileiras que é a Sueli Carneiro que você conseguiu escrever a biografia dela Como foi essa aproximação esse trabalho Para ela te deixar contar a história dela e como foi fazer ela contar a história dela eh essa se junta muito a sua pergunta Ju com que eu eu deixei
de responder a pergunta da Cris que porque tem autoras que me permitem fazer essa análise Então se antes as mulheres tinham que se apoiar nos textos dos homens ou das pessoas do norte do mundo das pessoas brancas felizmente a gente tem agora um assim uma uma quantidade enorme de Referências que já dialogam com esse pensamento que a gente tá conversando aqui então eu tinha su Carneiro para ser meu principal referencial teórico ela dialogou com Foucault ela dialogou com Boaventura ela dialogou com um monte de gente para produzir um pensamento original e aí ela virou a
minha giganta sobre quem eu posso subir nos ombros para para analisar qualquer coisa então eu falei cara que presente imenso e de novo né jilia cripa Professora da ECA eu apresentei uma primeira versão ali de uma coisa na pós--graduação com um monte de autor Branco Ela falou o que que você tá fazendo Você tá falando das mulheres negras quem são esses autores Por que que você tá fazendo isso e eu já li a su Carneiro Eu já li a Lelia González Eu já li a Bell hooks quando ela perguntou o que que você tá fazendo
eu falei não mas porque esses textos são os textos que eu uso fora da academia os textos da Academia são esses aqui ela falou não você tem que acabar com isso esses textos são os textos da academia uma mulher branca italiana a Que Eu Sou muitíssimo grata então eu trago pra Minha tese essas autoras que eu já Lia que faziam sentido para mim mas que eu não tinha lido na universidade e tudo bem elas serem o meu referencial E aí nessa de elaborando fui me encantando cada vez mais pelo pensamento da Sueli Na época eu
fazia entrevistas eu Entrevistava mulheres pra revista Cult E aí tinha uma coisa de ah tentar uma capa não sei o que e todo mundo Fi Carneiro F Carneiro gente a f não dá entrevista ela dava poucas entrevistas naquela época falei sabe bom vou tentar aí escrevi para ela ela falou olha isso foi logo depois do golpe né de 2016 ela falou a minha geração não tem nada mais para falar não vou dar entrevista nenhuma só que aí a explicação que ela me deu foi assim me liga então ela me Deu a explicação pelo telefone a
explicação que ela me deu pelo telefone de por ela não podia falar é era uma entrevista falei su deoga deixa eu publicar isso aqui entendeu Aí vai vai vai eu falei para ela olha só a revista Cult é uma revista impressa que é vendida nas bancas jornais do país a gente naquele momento isso é 2017 a gente não tem tantas mulheres negras em capa de revista Muito menos intelectuais negras eu acho que é Muito importante ter su Carneiro numa capa de mas eu aprendi isso com você ocupe esse espaço então assim olha Ora ora Você
que disse eu falei então ass não tenho como justificar isso para você porque eu aprendi isso com você se você não acha importante tudo bem ela venha emg tal dia tal hora para entrevista saco exat depois ficou me acusando de ser manipulador é uma pessoa horrível tá certa Sueli não é a verdade eu trabalho Com fatos bom aí fizemos essa entrevista e era assim não confim jornalistas jornalistas só fazem bobagem não sei que é lógico que você não vai fazer nada que preste bom fui eu com as minhas permas achei fácil escrever depois disso foi
com as minhas perguntas tranquila fiz a entrevista só que a sua ela fala tão bem você nem tem muito o que editar Então foi uma entrevista que eu editei pouco aum das perguntas Maravilhosa então a ordem das perguntas já fazia sentido tô mexi pouco quando ela leu ela falou nossa hum não ficou ruim tem que ser o que você disse se você não gostar e você discute no analista né E aí foi foi foi e a gente eu já encontrava a Sueli nos espaços e a reconhecia e ela não me reconhecia depois essa entrevista ela
começou a me reconhecer nos Espaços a gente começou a ficar perto e as pessoas Bianca Porque você não faz uma biografia da suelio Aham Porque não que eu faria exatamente que coisa Sueli escreve se ela quiser ela vai escrever bom aí a vida vai andando andando andando eu já tinha um contrato de livro assinado com a companhia das não não tava assinado não mas eu tinha um livro combinado com a companhia das Letras eh que é o livro né Depois do cor me descobr Negra mas que ia ser outra coisa era um livro de contos
era outro livro naquele 14 de Março de 2018 quando A Maria el é assassinada uhum e eu acho que muitas de nós assim a gente foi rasgada de um jeito né assim a minha vida mudou de um jeito muito violento a partir daquele dia eh eu interrompi uma série de trabalhos eu queria parar para pensar no que fazer eh não tava bom e eu escrevi pra Rita matar que hoje é minha Editora na fósforo mas que era a minha Editora na companhia escrevi Rita Desculpa eu não vou mais fazer o livro Um beijo tchau ela
assim não calma Vamos Alçar um dia o que que tá acontecendo eu contei conversei com ela tal falei não mas tudo bem você pode fazer outro livro que livro faria sentido para você agora olha não sei para mim o que faz sentido hoje é entender como eu contribuo com a organização das mulheres negras Isso já é algo que eu tentava fazer antes mas não era o meu foco principal não era o meu foco profissional era algo periférico na minha vida ali em 2018 eu senti uma Urgência imensa de se eu principal Uhum aí eu falou
tá então escreve sobre isso mas o qu eu falou por você não faz uma biografia da C carneira Olha aí aí eu falei até você aí eu voltei pra casa é um complô é um complô voltei pra casa e falei Sueli é você que quer que eu escreva a sua biografia Tá bom vou fazer Já que todo mundo só me fala dis vem aqui na minha casa sábado de manhã aí eu chego na casa dela a gente fala sobre a vida o mundo Aí chegou uma hora eu então sei e a biografia ela me pergunta
você quer fazer a minha biografia na hora que ela faz essa pergunta bem brava bem séria olhando bem no meu olho eu sabia eu sabia que era um momento importante e eu falei para ela eu quero no caminho nas dificuldades Ela olhava para mim e falava quem quis fazer foi você é muito você sabia onde você tava entrando entrou mesmo né exatamente muito bom o livro vem e na sequência o Paralelo a isso a gente começa com a casa su Carneiro conta pra gente desse projeto conta de onde nasceu o projeto conta o que ele
representa hoje Quais são as atividades a o que se propõe a casa eu tava ao mesmo tempo fazendo essa tese de doutorado sobre a escrita e que eu não sabia exatamente o que era né eu fui Desenhando no caminho e aí Fui lendo mais Sueli Sueli conversando com focou sobre biopoder e resistência como resiste a biopolítica aí eu cheguei nas Tecnologias de si escrita de si entendi Minha tese de doutorado então era a escrita de si de mulheres negras memória e resistência ao racismo então eu tava estudando memória memória memória tem outra professora maravilhosa da
ECA Lúcia Xavier com ela eu fui aprendendo eh memória né E aí tava escrevendo a biografia da Sueli e fui com ela paraa casa onde ela viveu por 40 anos que naquele momento estava fechada lá no Butantan mas naquela casa ainda tava a Maior parte dos livros da Sueli e os arquivos eu falei Sueli O que você vai fazer com essa casa elá eu não sei exatamente é complicado porque ainda tem minhas coisas não sei o quê Você já pensou em transformar num espaço de memória é eu e minha filha Luanda a gente já pensou
nisso mas não sabe exatamente como fazer falei eu também não sei mas se você quiser quando eu acabar o livro eu posso ajudar E aí foi acabamos o livro começamos a Pensar um projeto do que seria um espaço de memória ali na casa onde ela viveu por 40 anos e a gente foi desenhando a casa Sueli Carneiro num primeiro momento eu Luanda Carneiro filha da Sueli Natália Carneiro sobrinha dela e a Ana Letícia Silva que é facilitadora de processos muito em diálogo com a própria Sueli E aí isso foi sendo desenhado E aí a gente
fundou uma organização em dezembro de 2020 a gente captou recurso para comprar a casa porque era o único Patrimônio da Sueli ela morava né num apartamento algado aqui assim não dá para uma mulher negra doar o único patrimônio que ela tem é muito diferente de você fazer uma instituição eh de uma família 400 na Paulistana né mas aí a gente conseguiu as doações suficientes para organização comprar o imóvel E aí começamos a casa do s carneiro que tá linda agora de portas a gente reformou a casa inteira cuidou do acervo da Sueli esse acervo ele
pode ser consultado Digitalmente a biblioteca física pode ser consultada tem lá Ionara que cuida do acervo da biblioteca é só ligarem D visita mandar e-mail e tá linda a casa já de portas abertas há um ano muito lindo vamos falar de outra intelectual importantíssima e brasileira esse livro aqui a rud né é uma coletânea de textos seus né e num deles você fala da Léia Gonzales e você afirma que quem quer conhecer o Brasil tem que ler a lélia Gonzales Por Quê a lélia Ela estudou antropologia história psicanálise né E ela fala que a gente
tem essa negação do Brasil né e é linda a palavra negação porque tem Neo ali no meio junto né esse país que não consegue olhar pra própria história Então o jeito como a gente olha interpreta analisa a história do Brasil ou o jeito como a gente olha o nosso presente conectado com o passado ele tá muito equivocado então quando a gente olha a concentração fundiária no Brasil Conflito Agrário a gente não é capaz de compreender que em 1850 existiu uma lei de terras extremamente racista que afirmou pessoal todos os brancos a elite agrária que ganham
ganham terras sem pagar nada por isso e tem aí o seu papel na mão tá tudo certo para vocês tá tá garantido Mas a partir de hoje se esses Imigrantes pobres e se essa pretal quiser comprar quiser acessar Terra não pode de graça tem que comprar e vai custar caro e Ainda tem uma série de critérios então é uma lei racista é uma lei também para proteger a elite agrária feita quando se debatia a abolição então assim já que a abolição vai vir como é que a gente protege as terras dessas pessoas e aí quando
a gente olha a maior parte da população brasileira sem acesso à Terra isso não é acaso isso é projeto Então esse é o Resultado positivo bem sucedido de um Projeto bem desenhado e bem executado E aí quando a gente vai discutir conflito Agrário a gente ouve dessa mesma Elite agrária né descendente desses que nunca pagaram pela terra dizendo a Terra é minha não pode invadir a terra porque esse bando de blá blá blá blá opa opa opa não não tem aí um ped da nossa história que não tá contada Então a gente tem que ler
lélia Gonzales para conseguir entender a realidade Brasileira hoje conectada à nossa História porque a gente precisa reconhecer as violências a gente precisa reparar as violências e as desigualdades infelizmente eu sinto que a gente tá longe de reparar mas a gente precisa reconhecer agora quem sabe isso agiliza o reparar falando em reconhecer e em conhecer eu gosto do título desse livro porque o livro na verdade é um monte de terços que inclusive eu já tinha lido vários separados nos veículos que você publicou mas amarrar com a Hudig né explica porquê um dos textos chama hudig né
que foi um texto escrito na pandemia quando a eu tava assim num dia muito baixo astral como todo mundo viveu muitos dias na pandemia e ali eu tava né num apartamento e E aí eu olho a varanda e vejo as minhas ervinhas e pego algumas delas e preparo um banho com a rud Gé E aí saio desse banho em outro estado e escrevo sobre essa tecnologia ancestral que eu aprendi com a minha avó que a gente aprendeu com as nossas avós Que tá tão perto da gente que a gente pode recorrer né para melhorar esse
estado para espantar as coisas para atrair outras boas e enfim aí eu vou escrever um pouco sobre a Guiné né um dos nomes da Guiné é a Mansa Senhor e tem esse nome porque mulheres escravizadas usavam esse chazinho para lidar com os estupradores da casa grande porque quando as mulheres se defendem de abusadores Elas podem fazer isso usando diferentes meios Inclusive a Mansa Senor Guiné e eu escrevo isso nesse texto eh e aí eu eu vou tem muitos textos sobre muitos temas e eu insisti um pouco com a fó as editoras elas não gostam muito
de publicar coletânia não sei se vocês sabem disso mas para mim era muito importante eh olhar esses textos em conjunto porque eles foram escritos entre 2017 então 2016 teve o golpe 2018 teve o assassinado da Marielle e 2022 teve eleição Quando sai o bolsonaro por isso Que tem muita história então para mim era muito importante reunir textos desse período pra gente conseguir olhar para ele na minúcia no detalhe e conseguir pensar mais sobre ele a gente ainda não pensou o suficiente porque também fica parecendo que a possibilidade de eleger um presidente que que elogia torturador
veio do nada ela não veio do nada uhum isso tava ali em 2016 17 não lembro o ano exato 2016 da votação em que a pessoa vai ao microfone e dedica o voto A um um torturador como é que neste momento a gente não para a sociedade brasileira e diz que aquilo é inaceitável a gente não fez isso então contar aconteceu isso depois aconteceu isso depois aconteceu isso depois aconteceu isso essa possibilidade de olhar o todo para que não se repita uhum e colocar uma rud gué para que a gente se proteja no futuro muito
ótimo você junta essa produção intelectual de pensar as coisas com muito fazerum e Principalmente nesse momento histórico que a gente tá que a gente tem muita militância digital que é uma militância que não se envolve no cotidiano eh nessa coisa frustrante que é o fazer do movimento ativista na rua eh qual a importância que você acha de você estar fazendo além de pensando essa separação de algumas pessoas pensam outras pessoas pessas fazem Ela é bem no Ocidental Eurocêntrica ou muita gente só fala e algumas poucas pessoas fazem se você preferir podemos fazer assim é pergunta
se você preferir pode ser assim mas mas e aí dá pra gente olhar pra história da Europa só a gente nem precisa olhar pra história do mundo todo não era assim na Europa também desde sempre a Silvia federi é uma historiadora que eu amo Recomendo muito que todo mundo lei o cali b e a bruxa ela mostra como ali na Europa medieval você tira os pobres tal Mas ali as pessoas faziam homens e mulheres faziam e tinha algum equilíbrio de poder quando a gente olha PR a cidade moderna iluminismo renascimento o que tá acontecendo ali
na Europa naquele momento você tem uma divisão sexual do trabalho que coloca as mulheres para trabalhos que não são remunerados e agora o dinheiro ganha centralidade e ali tá a raiz do capitalismo e a raiz do capitalismo a revolução Industrial de onde vem o dinheiro pra Revolução Industrial Que história é essa de acumulação primitiva do capital é quando a Europa consegue executar uma ideia que parecia muito boa quer invadir o mundo matar as pessoas que viviam nas Américas trazer pessoas do continente africano escravizadas para trabalharem sem receber nesse novo continente eles iam ter dinheiro sobrando
para investir nessa maravilhosa revolução Industrial e a Europa Conta essa história como modernidade iluminismo e Renascimento e a gente cai nessa falácia nesses termos ainda hoje eu esqueci porque eu t te falando isso porque eu tava perguntando a importância de uma pensadora se envolver na materialidade das coisas eu gosto dessa desse desvio que você deu a gente pode trazer para isso né a gente afastou o fazer eu acho que se eu eh Criei um movimento online para falar do turbante Por por exemplo eu já fiz a minha minha atuação Tá feito entende qual a importância
que você vê de você se filiar a movimentos eh que são não são virtuais que você tem que ir em reunião e falar com as pessoas passar votação coisa chata sabe assim a própria frustração de criar um instituto uma casa de memória tem burocracia tem que captar recursa tem que lidar com goteira né tem que a materialidade da vida para aquilo que Você tá pensando se tornar algum alguma realidade perfeito lembrei que eu dei a volta porque essa ideia de separar ela vem deste mesmo período porque aí eu separo isso aqui é religião isso aqui
é Ciência isso aqui é trabalho isso aqui é fazer isso aqui é filosofia como se não fosse possível ter tudo isso ao mesmo tempo numa mesma vida numa mesma comunidade então tem essa ideia que me parece muito equivocada de o meu papel é pensar o mundo e não necessariamente eu Preciso fazer alguma coisa nesse mundo então assim é é muito comum né a gente ouvir um discurso sobre desigualdades sociais de alguém que tá ali sentada produzindo com alguém limpando a privada servindo o café deixando tudo pronto pra pessoa poder fazer o papel nela dela no
mundo que é pensar as desigualdades e denunciar as desigualdades eu acho isso assim isso de novo dialoga com a lélia com a lélia da psicanálise que assim é uma coisa muito cindida né assim é é é Esquizofrênico né E ela fala dessa esquizofrenia brasileira que a gente pode ver hoje nessa ideia de Já fiz o meu papel tô aqui então a rede social que é de um homem branco do Vale do Silício que tá fazendo coisas que a gente acha terríveis a gente lá nesse lugar dá um dinheiro para ele colocando a nossa ideia é
a melhor entrega que a gente pode fazer pro mundo e a minha própria cabeça é o Parâmetro da Verdade Puxa vida movimento social é lidar na coletividade com aquilo que é importante para o coletivo você acha que esse caminho aqui tá errado defenda a sua ideia para este coletivo argumenta você precisa ganhar uma disputa política para que isso de fato seja tomado por todo mundo como o caminho para onde ir as mudanças que a gente tem acompanhado na história elas acontecem a partir de movimentos coletivos não de Movimentos individuais porque eu sou brilhante saiu da
minha própria cabeça só que aí a gente ouve né uma crítica muito profunda aos movimentos sociais como se fosse coisa de desocupado não tem o que fazer e não vai para lugar nem um uhum quando os nossos direitos são conquistas destes movimentos aí a gente entra nessa essa transformação que você narrou lá atrás né você vai entrando no metrô você vai vendo cabelo sendo diferente as pessoas Se tornando mais proprietárias da sua própria fala o o que era nomeando muitas experiências do passado né olhando para experiências que passou e falou nossa ele eu sofri racismo
eu nem sabia que isso existia foi dando nome pras coisas Contorno pras coisas e aí a gente vê uma chuva de denúncia uma chuva interminável de denúncias dessas pessoas que começaram a entender eh o grande esquema das coisas as pessoas foram lá muitas vezes leram a lel e falaram entendi Porque não tem terra entendi porque não tem posse entendi porque não tem educação entendi a falta de acesso Porém quando a gente e aí como qualquer e psicanálise vou trazer a lélia nesse lugar também a hora que você descobre tudo isso você olha pro mundo com
muito ressentimento com muita dor e com muita mágoa você olha e fala então eu sou fruto disto E aí o que a gente vê hoje é é uma nova cisão né É quase voltar a Desconfiar do mundo porque entendeu o que o mundo fez quando o que você tá dizendo é que é na coletividade que a gente consegue transformar o mundo então você citou nome de diversas pessoas brancas que no seu caminho acadêmico falaram não vem para cá vai para lá faz assim faz assado e te tornaram maior como para esse coletivo que entendeu essa
dor hoje pode ainda trabalhar em conjunto pode ainda confiar para que esses movimentos voltem a ganhar força e Aí a gente reivindique direitos faça as pesquisas faça uma produção acadêmica intelectual e do fazer em conjunto a sua pergunta me lembra um livro do Paulo Freire que chama educação e atualidade brasileira ele fala que no Brasil a gente não consegue ter uma democracia duradoura porque a gente não tem experiência de diálogo porque a nossa experiência é a de violência e aí nessa ideia de cordialidade eu tenho tenho uma classe Dominando outra eu tenho uma cor de
pele dominando outra na prática com um discurso de que todo mundo é irmão todo mundo é amigo e tá tudo bem Quando eu começo a ter uma tomada de consciência e não a tua a gente fala em Consciência Negra por exemplo né consciência de classe consciência de gênero quando eu tenho uma tomada de consciência Eu falo opa opa opa ó o que tá acontecendo aqui e aí a gente tem uma reação que é Nossa essa gente agressiva o Brasil nunca teve Isso tava tudo tão bem antes tava tudo também para você tava tudo tambem para
um homem branco de classe média alta tava tudo relativamente bem para mulheres brancas de classe média alta Então essa gritaria estridente que a gente tá ouvindo contra identitários quantos identitários quantos identitários é eu quero voltar para os meus privilégios Ninguém fala nada sobre isso se a resposta é essa como é que conversa como é que dialoga e eu sou uma Pessoa do Diálogo eu quero dialogar eu quero conversar Deixa eu perguntar uma coisa é possível a gente fazer uma crítica A método e a estratégia sem jogar fora todo esse trabalho que foi feito de conquista
de proposição de tomada de consciência que é importante não só para as pessoas desses grupos mas pra nossa sociedade como um todo e sem entrar nesse maniqueísmo de se eu questionar qualquer coisa então obviamente é porque eu quero voltar para Lá uhum porque tem um tanto eu acabei de ler o a esquerda não é w e eu não gosto de algumas coisas mas alguns pontos eu acho interessantes como que a gente pode fazer essa discussão de Putz Talvez o o caminho do julgamento sumário do cancelamento não seja um Talvez isso e com isso Não concordo
e com outras coisas eu concordo é possível fazer esse diálogo porque você tá falando disso precisa ser possível ou não tem o futuro Possível para ninguém eh se a gente de fato acredita que a democracia é o melhor modelo que a gente tem a gente precisa aprimorar essa democracia então a gente precisa aprender a dialogar a proposta freiriana de sentar em roda para aprender junto e todo mundo junto se olhando no olho tem esse princípio de que eu preciso te escutar mesmo que eu não Concorde com você e ao te escutar eu vou refletir sobre
isso eu vou estudar sobre isso eu Vou entender como isso funciona na prática e vou repensar e devolver para você Possivelmente esse nesse processo eu saio transformada E você também todo mundo se transforma é a tal da reflexão eh as calma teoria reflexão ação não lembro mais os termos exatos mas tem algo né que vem dessa premissa de educação popular que é educar para o diálogo e o diálogo entre diferentes eu dou aula na universidade privada de classe média Alta e começam a chegar alunos prounistas e uma das minhas alegrias é sentar em roda com
essa turma toda e propor que a gente discuta temas temas muito difíceis muito sensíveis sem veto sem cancelamento sem censura com verdade Inter respeito não é na internet porque o algoritmo do Vale do Silício não quer promover diálogo quer promover conflito quando você briga na internet você bomba na internet o algoritmo podia ter Escolha oposta o algoritmo podia privilegiar as publicações que buscam diálogo Não é esse o objetivo não a gente sabe então sem tá em roda mas isso também é um processo educativo Eu Acredito que quando eu sente com adultos informação Nessa proposta de
método mesmo que esse não seja o conteúdo da minha aula o método é também o conteúdo de Educar pro diálogo e pra Democracia é fácil ouvir quem Pens ser diferente da Gente é lógico que não é mas para eu conseguir ouvir a a premissa é o respeito e o que eu acho que tá acontecendo que é muito complexo é que o desrespeito e a violência entram como impedimento do Diálogo então assim eu tenho muita disposição ao diálogo mas quando alguém olha para mim e fala identitária você quer destruir tudo como eu vou conversar com essa
pessoa se ela cravou em mim um identitária a minha busca é por compreender a complexidade e O complexo que também habita em mim então não existem pessoas boas e pessoas más pessoas certas e pessoas erradas mulheres são boas homens são ruins pessoas negras são boas pessoas brancas são ruins isso a bobagem ninguém tá dizendo isso é um reducionismo extremo Então mas mas é eu acho que isso já é parte da crítica quando você já parte disso a gente já caminhou Monte uma parte das pessoas que tá falando que tá incomodada tá falando gente mas é
muito Reducionismo eu ser vista em uma dimensão só porque todos nós somos multidimensionais né Eu não quero entrar em uma discussão sentar nessa mesa reduzida a uma a uma coisa minha só então assim eu não trago só mulher pra mesa quando eu sento eu não trago só branca na mesa quando eu sento então eu não quero ser vista assim e eu não quero te ouvir desse lugar se a gente consegue já falar de Pô a gente já andou bastante quando você fala que a gente tem que Partir do respeito eu e Cris a gente fala
muito disso que assim e respeito ele é compreendido e manifestado por diferentes pessoas de formas diferentes então é muito difícil quando a gente pede numa conversa e a gente faz muito isso com a nossa consultoria faz muito a roda de conversa em empresa e aí a pessoa fala eu só quero que me trate com respeito mas meu amigo o que é respeito para você então que a gente possa dar vários passos para Trás e antes de entrar em qualquer conversa complexa a gente estabelecer alguns parâmetros né perfeito o que que é respeito pra gente aqui
o que que é importante para mim do lugar que eu tô partindo nessa discussão específica quais são os Marcos que a gente não pode ultrapassar a partir disso com boa vontade e inteligência a gente consegue construir juntos não certamente e quando a gente pensa nas redes sociais por exemplo um bom pacto um bom combinado Pode ser a constituição que tal não ferir a Constituição Brasileira vamos conversar para Elí porque se eu não posso entende assim tem aí ó Foi aprovado 1988 no Congresso se a gente não tem essa regra combinadinha para todo mundo não tem
como dar certo porque tem um aspecto do respeito que é subjetivo mas tem aspectos que são objetivos eu não tô falando sobre opinião política de alguém eu tô falando sobre acusar alguém de algo que a pessoa Não fez isso não pode é proibido pela lei não é difícil saber que é proibido mas as pessoas fazem intencionalmente sabendo que é proibido E nada acontece depois e esse para mim é um grande problema porque a gente não se reduz a ser mulher ou a Ser branco ou a ser negra Mas isso também é parte de quem a
gente é e ter segurança para ser quem a gente é no debate público é muito importante o que a gente tem visto no Espaço público e aí a gente vê isso na direita a gente vê na esquerda não tá dividido no espectro político do jeito que parece a gente vê muitas vezes o que uma mulher fala ser Detonado pelo fato de que ela é uma mulher e a gente vê os manuais clássicos de como detonar uma mulher no debate público que você fala É verdade que isso tá acontecendo e de novo e quem detona é
homem mas também pode ser mulher e quem apoia é homem mas também pode ser mulher mas eu não posso Tirar da da minha do meu bolso a cartilha quando eu estou falando eu posso falar de mim mesmo eu estou falando merda Aí vem uma pessoa a crise falar olha você não tá certo aqui não tá certo aqui você tá falando isso só porque eu sou mulher Uhum é isso acho a gente chegou num limite das coisas que elas estão eu acho que poder conversar acho muito legal a gente poder falar isso porque acho que a
Gente nunca falou no mamilos porque a gente muito comprometida com essas causas a gente nunca foi fazer uma tudo bem isso é importante mas a gente pode falar do que a gente não concorda a gente pode apontar isso não vai fazer tudo que a gente construiu desabar pelo contrário vai nos fortalecer pra gente poder ter fôlego para ir por outros caminhos eh a gente compreender tem umas premissas óbvias que a gente esce né uma Das premissas é todos os seres humanos erram todas as pessoas erram todas e a gente precisa de parâmetro para as pessoas
conseguirem reparar os próprios erros porque quando eu erro eu fico me sentindo muito mal com isso e eu quero além de me desculpar conseguir reparar de algum modo porque eu erro assim como todos os seres humanos Então essa dinâmica de eu não erro e só Você erra ela é perversa não faz nenhum sentido e do mesmo né acabei de falar não tem não É toda mulher que é boa então tem mulher que fala Ah vou usar isso aqui que é do feminismo para me dar bem É lógico que tem isso é a maioria se a
gente olhar os dados de feminicídio no Brasil a gente vai ver que não porque as mulheres realmente elas são mortas elas são violent e elas são impedidas de alcançar os mesmos lugares que os homens então não é porque tem mulher que faz isso que eu vou generalizar e dizer que nada D o movimento não faz sentido nenhum o que eu preciso fazer é criar parâmetro criar repertório sempre com muita tranquilidade mas olha você tava falando da nossa história que ela é toda galgada em violência né e a gente foi pro diálogo há muito pouco tempo
não dá para quem já tava aqui dialogando há muito tempo e já criou parâmetro e já sabe fazer isso esperar que quem esteja entrando na conversa agora saiba jogar esse jogo os excessos vão existir sempre A gente não vai eliminar os excessos a gente Talvez vá conseguir dar um pouco menos de importância para eles para que a gente possa realmente se para focar e para conversar sobre o que a gente precisa mudar porque se eu dou são demais pro excesso perito eu também vou começar a generalizar e vou falar que o movimento todo tá ruim
e eu vou para esse mesmo caminho que eu tô condenando isso assim gente excesso sempre vai ter gente que não sabe dialogar sempre vai Ter a gente é uma sociedade extremamente carente de educação Você é professora sabe disso nas suas rodas acredito que você tem que refinar muito o método para que essas conversas possam acontecer aí é óbvio que eu vou esperar mais de quem já de mais tempo mais paciência mais cautela mais e honestidade intelectual com quem chegou agora porque vai se refast nunca falou tá falando pela primeira vez vai ter excesso então assim
acho que quem tá mais tempo a gente tem Que exigir mais mesmo adorei olha vamos encerrar a nossa conversa aqui o tricô já foi lugar veio voltou a gente quer saber dos seus projetos para breve tem livro para lançar tem menino para criar você tá fazendo muita coisa hoje em dia conta um pouquinho Qual é a próxima vez que a gente vai se encontrar em novembro porque eu vou lançar um livro novo eu tô tão feliz tão feliz quando eu fiz o rud gué com a fósforo A ideia era assim tudo Bem a gente faz
a coleta que a gente não quer mas aí tem a gente assinar no mesmo contrato um livro novo me dis diálogo negociação isso É ISO pois é tudo bem E aí eu tava fazer rir não é e eu tinha que entregar o livro em 2025 E aí i entregar um livro né Tem uma e a gente atrasa aí você não quer encontrar o editor no supermercado é um horror né então tentei me organizar para não chegar esse momento e aí eu consegui tirar uma semana em janeiro enfim eu tô Trabalhando nesse livro há 10 anos
desde antes do contrato existir mas eu consegui me organizar para ter uma primeira versão e eu já mandei eu tô muito feliz e aí as editoras maravilhosas já me mandaram propostas incríveis né de melhoria e eu pretendo trabalhar nelas rapidinho e a gente já sabe que o lançamento é Novembro mas gente pode saber do que que é lógico que pode eu cheguei aqui hoje e a Ju falou da bolsa que eu tô usando que é uma Bolsa de couro muito bonita né assim um Couro Caramelo que eu comprei em Bom Jesus da Lapa no Sertão
da Bahia e eu comprei essa bolsa em 2022 quando eu levei minha mãe meus né minha filha e meus dois filhos acompanhada do meu ex-marido para conhecer a terra onde minha avó nasceu que é Sítio do mato perto de Bom Jesus da Lapa e eu fiz essa viagem em 2022 pensando no livro porque eu tô nessa busca a gente achara que ela tava de Férias é não é tava TR porque essa busca por origem ela me motiva anos a gente tá aqui falando sobre isso né E aí na biografia da Sueli eu fui atrás os
documentos da família dela então em algum momento eu pensei em fazer isso com a minha família também mas aí eu não achei tudo que eu esperava e tem uma autora saidia hartman uma autora norte-americana que fala em fabulação crítica saia maravilhosa eh tá lá na Minha tese também a Gabriela Gaia que que me apresentou e eu fiquei nessa ideia de fabulação crítica mas eu já tinha um texto de ficção antigo que partes dele eu quis usar E aí eu fui pra ficção falei olha agradeço a inspiração da saidia agradeço a trajetória de jornalista aprendi muito
mas é uma ficção em duas vozes e são duas vozes em primeira pessoa ah ansiosa para ler a minha avó pulu e a minha própria voz mas o livro chama pulu que legal bora bora Trabalhar aí ó V entregar isso a que receber Bianca é muito bom te ouvir que você eu ouviria as piores notícias dos seus indos lábios né Porque fala sorrindo você fala nem tá doendo mas tá muito obrigada muito bom volte sempre já tá com a chavinha maravilhosas M obrigada é só voltar gente muito obrigada por quem ficou com a gente até
agora e Vocês ouviram a conversa o algoritmo não vai entregar isso PR as pessoas porque aqui não tem um Jornalismo inflamatório que vai te fazer odiar as pessoas Então seja você o algoritmo que você quer ver no mundo compartilhe a gente coloca os cortes no Instagram e no tiktok do mamilos no YouTube também você pode pegar o cortezinho daquela parte que você adorou do que a Bianca falou e mandar para quem precisa ouvir para quem precisa participar dessa conversa beijo até a semana que vem mamilos mamilos mamilos mamilos