[Música] A ânsia de ter e o tédio de possuir se tornaram um dos sentimentos mais comuns hoje em dia. Isso porque desde cedo somos programados a querer, não por necessidade, mas por uma promessa invisível. A promessa de que ao conquistar aquele objeto, aquele status, aquela imagem ideal, finalmente vamos nos sentir completos.
É como se o mundo inteiro sussurrasse aos nossos ouvidos que algo nos falta e que esse algo está lá fora esperando para ser comprado, alcançado, vencido. A cada novo desejo acende-se uma centelha no peito. O coração acelera, os olhos brilham, a mente fantasia.
Criamos em nossa imaginação um futuro onde tudo é melhor, mais leve, mais feliz. Desejo se torna umbustível potente, mas também é traiçoeiro, porque enquanto não temos, imaginamos e enquanto imaginamos, sofremos, mas sofremos com esperança, como quem caminha no deserto e vê um oasis à frente, mesmo que seja só uma miragem, essa é a promessa do desejo, o amanhã mágico que a maioria das vezes nunca se concretiza como esperávamos e mesmo assim seguimos desejando, porque o vazio que sentimos dentro de nós se encontra no desejo de uma ilusão de sentido. E a ilusão, por um breve momento, parece suficiente.
Todos nós já vivemos presos a uma corrida invisível, uma maratona silenciosa, onde ninguém sabe exatamente onde é a linha de chegada. Só sabemos que não podemos parar. O tempo inteiro estamos sendo empurrados por comparações, algoritmos que gritam: "Você precisa disso".
por vidas editadas em redes sociais que nos fazem sentir atrasados, insuficientes, pequenos até. Existe uma ansiedade constante no ar, como se houvesse uma escada infinita em que cada degrau alcançado revela mais mil à frente. Nunca é o bastante, nunca é agora.
Estamos sempre mirando no próximo celular, no próximo carro, o próximo título, como se a felicidade estivesse no próximo pacote, na próxima conquista, e nunca no presente. Essa corrida não tem juiz, não tem regras e o mais cruel não tem fim. E o que nos mantém nela é a ideia de que parar seria fracassar, que desacelerar é perder.
Mas o que perdemos mesmo é o contato com nós mesmos, com o momento, com a verdadeira essência da vida. No esforço de ganhar tudo, deixamos para trás o que realmente importa. E nem percebemos, já que corremos tanto, é preciso conseguir algo, conquistar.
Afinal, esse é o verdadeiro objetivo. E então, quando menos esperamos, chega o momento. Aquilo que foi tão desejado, sonhado, mentalizado, finalmente está em nossas mãos.
O pacote é aberto, o contrato assinado, a meta é batida. Por alguns instantes, tudo parece fazer sentido. O coração vibra, a respiração acelera, o sorriso surge quase involuntário, mas é uma euforia frágil que dura pouco mais que um suspiro.
Logo depois, o que era conquista vira rotina, o objeto vira decoração, a realização vira lembrança e o que deveria ser um ponto final se transforma em uma vírgula, porque logo outro desejo aparece para tomar o lugar. É nesse ciclo que descobrimos a grande armadilha. A conquista não preenche como imaginávamos.
O vazio permanece às vezes até mais intenso, porque agora ele tá do lado da frustração silenciosa de termos conseguido e mesmo assim não termos encontrado paz. O que parecia o auge se revela como mais um degrau e ao invés de comemoração nasce uma pergunta incômodada. Era só isso?
Sem dúvidas, esse é um sentimento cruel. Depois da euforia da conquista, o silêncio, aquilo que um dia foi obsessão, agora reposa num canto qualquer, esquecido, banalizado pelo tempo e pela repetição. O que antes fazia o coração disparar, agora já não provoca reação.
É como se, ao possuir algo, a magia evaporasse. E o que resta é apenas a matéria fria desprovida de encantamento. Esse é o tédio de possuir, momento em que o desejo se desfaz e o objeto, antes símbolo de felicidade se revela incapaz de sustentar aquilo que projetamos nele.
É aí que percebemos que não era sobre o que queríamos ter, mas sobre o que queríamos sentir. E como esse sentimento era apenas imaginado, inevitavelmente vem o vazio. Um vazio que grita em silêncio, que sufoca sem aviso e que nos obriga a buscar mais.
Não por necessidade, mas para silenciar esse incômodo. E assim o tédio se torna combustível para um novo desejo. E o ciclo recomeça mais uma vez, sempre mais uma vez.
No meio da correria, da busca incessante, do barulho constante do mundo, dizendo: "Corra, tenha, conquiste, há algo que esquecemos. " O silêncio. Não o silêncio da ausência de som, mas aquele que vem de dentro.
Quando paramos de correr e apenas estamos, é nesse estado raro que encontramos a presença. O momento presente, simples, cru, sem filtros ou promessas, apenas sendo o que é. Aceitar que nem tudo precisa ser conquistado, que nem todo o vazio precisa ser preenchido com coisas.
É um ato de coragem, porque a presença exige que a gente olhe para dentro. E nem sempre o que encontramos ali é confortável, mas é real. E o real, por mais duro que seja, é o único lugar onde a paz pode nascer.
No agora, no instante em que respiramos fundo e percebemos que não precisamos de mais nada além do que já temos, o mundo tenta nos ensinar que felicidade está no acúmulo, mas talvez esteja justamente no apego em olhar ao redor com os olhos calmos e finalmente enxergar: "O suficiente já está aqui. O suficiente já sou eu. " Mas se você se sente completo na constante busca, não mude isso.
apenas avalie se cuide para que não deixe para trás você mesmo, sua essência, pois por esse motivo que você tem a ânsia de ter e o tédio de possuir. Por fim, talvez o maior engano da nossa era seja confundir ter com ser. Passamos a vida acumulando, buscando, desejando, como se o sentido da existência estivesse escondido atrás de cada nova conquista.
Mas o desejo quando incontrolado se torna uma prisão. Uma gaiola dourada que brilha por fora, mas não deixa de sufocar por dentro. Ser livre talvez não seja poder ter tudo, mas sim não precisar de nada para se sentir completo.
Um grande exemplo é: você quer ser uma pessoa que possui um PC bom ou você quer ter um PC bom? O que é bom para você? O que você vê na internet?
O que aquele criador de conteúdo tem? Talvez não seja isso. A verdadeira riqueza mora na consciência de que a paz não vem do que está lá fora, mas do que acontece aqui dentro.
Quando silenciamos o desejo compulsivo e aceitamos a simplicidade, descobrimos liberdade que não pode ser comprada, conquistada ou exibida. Ela apenas é. Ironicamente, é quando deixamos de correr atrás que finalmente alcançamos o que mais buscamos, nós mesmos.
Porque no fim a pergunta nunca foi o que eu quero ter, mas sim quem eu estou tentando ser. E talvez a resposta não esteja lá fora, mas no silêncio entre um desejo e outro.