Tradutor: Mônica Oliveira Revisor: Claudia Sander (Música) Zé Cardoso disse: "Aprendi a cantar sem professor Com a graça de Deus eu sou completo Você vem me chamar de analfabeto, exibindo diploma de doutor No congresso que eu for competidor vou ganhar de você de 10 x 0 Meu amigo, eu vou ser muito sincero, se eu deixar de cantar não sou feliz Ser poeta, eu sou porque Deus quis E ser doutor, eu não sou porque não quero. (Música) Bom dia, Fortaleza. (Aplausos) Eu venho de Alto Santo, no sertão do Ceará, e foi de lá, e foi de lá, que uma vez eu assistindo uma cantoria de viola, tinha um "bebo" que pediu um mote e disse: "Quanto mais sou nordestino, mais tenho orgulho de ser".
Aí eu fiz um poema que diz: "Sou o gibão do vaqueiro, sou cuscuz, sou rapadura. Sou vida difícil e dura, sou nordeste brasileiro. Sou cantador, violeiro, sou alegria ao chover.
Sou doutor sem saber ler, sou rico sem ser grã-fino. Quanto mais sou nordestino, mais tenho orgulho de ser. Terra de cultura viva, Chico Anysio, Gonzagão, de Renato Aragão, Ariano e Patativa, gente boa, criativa, isso só me dá prazer.
Por isso hoje, aqui, no TEDxFortaleza, eu quero dizer: muito obrigado ao destino, porque quanto mais sou nordestino mais tenho orgulho de ser. " (Aplausos) Bom dia de novo, meu povo. Eu sou Bráulio Bessa.
Eu venho de Alto Santo, uma cidade pequenininha, aqui no sertão do Ceará. Pequenininha mesmo, porque todo mundo é primo, tem 18 mil habitantes. E lá, eu sou conhecido como o neto de Dedé Sapateiro.
É assim que me apresento em todo canto: o neto de Dedé Sapateiro. Porque cidade pequena tem essa peculiaridade. Em toda cidade pequena a gente é conhecido pela família.
Não é assim? Quem é do interior sabe que é desse jeito. Fulano?
É Toinho, filho de Manoel do leite. Geralmente é desse jeito, não é? E lá, no meu caso, eu sou o Bráulio de Dedé Sapateiro.
Bráulio, neto de Dedé Sapateiro. E lá tem até um caso muito emblemático, de Antonio de Nilce. Nilce é a mãe dele.
Então, Antonio, que é pedreiro, Antonio de Nilce, que é pai de Carlinhos, Carlinhos de Antonio de Nilce. Mas parece uma palavra só. (Risos) E não é Carlinhos "de" Antonio de Nilce, não.
Não tem vírgula, não tem espaço, é Carlinho Dantoniodenilce. E quando você pensa que não pode piorar, nasce Gustavo. (Risos) Gustavo de Carlinho de Antonio de Nilce.
São quatro gerações. (Risos) "Que Gustavo? " "Gustavo Decarlinhodantonhodenilce", são quatro gerações no nome do menino.
Então, eu sou neto de Dedé Sapateiro. E foi lá, em Alto Santo, que aprendi, também, a amar poesia, que eu me tornei um fazedor de poesia, como o meu grande mestre e o maior poeta popular desse país, Patativa do Assaré. Eu com 14 anos, uma professora me passou um trabalho de escola, e eu não conhecia poesia.
E fui falar sobre a vida de Patativa. Eu me apaixonei, e disse: "Eu quero ser um pedacinho, o canto da unha do dedo mindinho, de Patativa do Assaré". E descobri que eu também podia fazer isso, que eu podia ser mais um guerreiro na luta pela cultura, na luta por um resgate cultural do nosso nordeste.
Matuto sim. Besta, não. Tenho essa filosofia de vida.
Não nego minhas raízes, não nego minhas origens. E digo muito: o cabra que nega suas raízes, nega a si mesmo. E quem esquece de onde veio não sabe pra onde vai.
Então, não esqueço de onde eu vim. Matuto sim, besta não. Passei a escrever poesia de cordel com 14 anos, mas eu tinha que ganhar dinheiro.
Que a gente diz muito isso, né? "Ah, completou 18 anos, o cabra tem que ganhar dinheiro. " E poesia não dá dinheiro não, velho.
E aí eu fui fazer faculdade de análise de sistemas. Uma coisa que não tinha nada a ver com a outra. Até aí.
Eu me tornei, em Alto Santo, o menino que sabia bulir em computador. (Risos) Porque em toda cidade pequena também tem aquele menino que é desenrolado. Então, tudo era comigo, o menino que sabia bulir em computador.
Eu me tornei uma espécie de "Bill Gates de Alto Santo". (Risos) Revolucionei o mundo da informática. .
. se tornou tipo um Vale do Silício. .
. (Risos) lá em Alto Santo. Inclusive, na grande Alto Santo, na região metropolitana, Alto Santo tem 18 mil habitantes, mas tem a zona rural, que eu chamo de região metropolitana, a Grande Alto Santo.
Então me tornei o menino que sabia bulir em computador. E isso foi muito importante para o meu desenvolvimento e pra minha luta hoje, pela cultura. De associar elementos; coisas que, teoricamente, não tem nada a ver.
Cultura popular, poesia matuta, com informática, com tecnologia e tal? E eu fui ver aqui, hoje, lá na frente, que tinha tudo a ver. Que foi que aconteceu?
Não confunda interior, com inferior. Eu tenho isso como um mantra. Ninguém confunde interior com inferior.
Quem é do interior não é inferior a ninguém. A informação, com a chegada da internet. .
. Eu, que vivi meus 30 anos numa cidadezinha escondida, lá no sertãozinho. .
. A informação, com a chegada da internet, chegava de forma muito democrática e rápida, na mesma velocidade que chega aos grandes centros. Com um computador conectado à internet, o cabra que está lá em Alto Santo tinha o mesmo acesso às informações e as mesmas informações que o cabra que está aqui em Fortaleza, em São Paulo, em Nova Iorque.
Ela é mundial, ela é global. Agora, com a chegada das mídias sociais, das redes sociais, aí houve uma revolução. Por quê?
Porque nós, do interiorzinho, a informação não só chegava, ela podia sair, também. Porque nós passamos a gerar conteúdo. Foi a democratização das redes.
Então, o cabra que estava lá no interior também podia falar, ele não só ouvia. E foi aí que eu, unindo minha paixão pela cultura nordestina, fui unindo à literatura de cordel e algum conhecimento em informática que eu criei, depois de ter me tornado o "Bill Gates de Alto Santo", o menino que sabia bulir em computador. Eu tive um sonho de criar um movimento pra reunir 1 milhão de pessoas pra defender, divulgar e fazer um resgate da cultura popular nordestina.
"Através de quê, Bráulio? " Através da internet. Pra mim era de graça.
E eu tinha um sonho. Eu não tinha dinheiro, mas um sonhador nunca é pobre, velho. Um sonhador nunca é pobre.
Eu não tinha dinheiro, eu não tinha amigos influentes, eu não tinha conhecimentos técnicos, mas eu tinha um computador na minha mão, em cima da mesa da cozinha lá de casa. E eu disse: "Eu vou reunir 1 milhão de pessoas pra defender o povo nordestino de tantos e tantos casos de preconceito que estavam acontecendo, na internet, principalmente, na época; de um processo histórico e doloroso, sofrido pelo nosso povo; de sair lá pra fora e ser tão agredido". Logo nós, nordestinos, que somos um povo tão receptivo, tão carinhoso.
Você chega aqui, rapaz, você pergunta. . .
o cabra vem de fora e pede uma informação, o cearense não ensina, não, ele leva você lá. Então, por que a gente é tão agredido? E eu digo: "Não, pô, a gente tem que fazer alguma coisa".
E foi quando surgiu um projeto chamado Nação Nordestina. Criei o projeto pra fazer um resgate, pra aflorar a nordestinidade, em tantos e tantos nordestinos espalhados pelo mundo, não só os que estão aqui. O projeto chegou a 1 milhão de seguidores.
Tem um impacto social e cultural em mais de 20 milhões de pessoas por mês. Resgatando a autoestima, resgatando uma cultura que estava esquecida. E de forma paradoxal.
Por que você usar, justamente, o novo, a internet, a tecnologia, que é apontada como uma espécie de vilã, num processo de esquecimento das raízes. Porque as pessoas dizem: "Ah, o menino não solta mais um pião porque tá lá mexendo no computador". “O menino não solta mais uma pipa, porque tá no celular.
" Então, por que não usar esse vilão como aliado pra estimular a valorização das raízes, num público jovem, que é a maioria do público de internet? E foi com um sonho, velho, que a gente alcançou esse objetivo. E aí, o que aconteceu?
O projeto ganhou muita força, mas muita força mesmo. E eu, essencialmente, como eu disse pra vocês, eu sou poeta cordelista, eu escrevo poesia de cordel desde os 14 anos. E aí eu parei e pensei: se a cultura nordestina, de forma global, teve uma aceitação e um carinho tão grande nas mídias sociais com o projeto Nação Nordestina, por que não o cordel também?
Uma manifestação cultural tão rica, tão bonita, e tão vulgarizada, tão desvalorizada. Onde as pessoas até tem um. .
. Por muita gente ser leiga nisso, acha que a literatura de cordel é uma poesia simples. E, pelo contrário, velho, a literatura de cordel é a poesia mais complexa de se construir.
Exige rima, métrica, tem uma série de regras. Mas ela nunca foi muito valorizada. Eu disse: "Não.
Eu vou honrar, eu vou honrar o nome de Patativa do Assaré, vou honrar o nome de Manoel Xudu, de Zé da Luz, de tantos e tantos poetas que nunca tiveram oportunidade de usar o poder das redes sociais pra levar a literatura de cordel mais longe". Eu, em casa, peguei um celular pra gravar. A literatura de cordel é uma poesia essencialmente narrada.
Não foi feita pra ser escrita e guardada. E eu, com o celular, digo: "Eu vou gravar agora meus cordéis e vou publicar na internet". Aí até me falaram: "Cara, na internet não tem ninguém pra consumir isso não, e tal não sei o quê, você vai só perder seu tempo".
E eu digo: "Pô, a produção não é tão cara. Sou eu e meu celular; eu sou o roteirista, o câmera, o editor. Então, o que é que eu tenho a perder?
" E o cordel. . .
o cordel é tudo, até poesia. Chico Anysio disse: "O humor é tudo, até engraçado". E eu digo que o cordel é tudo, até poesia.
O cordel é muito global. Você pode falar de tudo. Você pode falar de amor, você pode falar de saudade, você pode falar dos pais, das mães, de chifre.
Você pode falar de política. Você pode falar de qualquer coisa. E aí eu estava lá em Alto Santo, e uma invasão, cara, uma invasão: a chegada das drogas nas pequenas cidades, no interior.
Isso é um a problemática tão grande, porque a gente vê cidades pacatas e, de repente, com a chegada das drogas, de tráfico e tal, as cidades se tornam violentas. Aí, a gente conversando uma vez, foi o primeiro cordel que gravei e postei na internet. Nele eu fiz um protesto contra as drogas.
E eu digo: "Será que o povo vai gostar disso? " Porque eu pensei: "Mas rapaz, com tanta mulher bonita aí pra gente cheirar, os cabra cheirando cocaína". (Risos) Isso dá um cordel.
Aí peguei meu celular, botei aqui e disse: "O cordel da Cocaína versus Um Cheiro no Cangote". (Risos) Aí eu gravei, disse: "Junte dez quilos de flor, vinte perfumes dos fortes, 'one million', 'animale', de 'azarro' trago um lote, nada disso se compara com essa fragrância rara que a mulher tem no cangote É por isso que eu me admiro quando eu vejo numa esquina um cabra cheirando pó se esquecendo das meninas Desses bestas que inventa de se acabar pelas ventas com essa tal de cocaína Com tanta mulher bonita no mundo pra nós cheirar Rebola esse pó no mato toma um banho, vá se arrumar, se desate desse nó e vá procurar num forró um cangote pra cheirar" (Aplausos) Muito obrigado. Obrigado pessoal.
E aí eu gravei esse vídeo com o celular e postei na internet. Teve mais de 1 milhão de visualizações. Passou a ser exibido em escolas; palestrantes, que fazem palestras contra as drogas, declamando essa poesia.
Eu vi, olha o poder que o cordel tem. Então vou falar de tudo. E passei a gravar vídeos.
Passei a gravar vídeos com cordel, e tal, e foram se espalhando. Esses vídeos, com a literatura de cordel, já têm mais de 30 milhões de visualizações. E o que aconteceu com a minha vida?
Se pegar uma poesia tipicamente matuta, a qual, na maioria das vezes, morre nas pequenas feiras, com um poeta declamando e caindo moedas no prato, porque a poesia não é comercial. E aí a televisão viu esses meus vídeos. A televisão viu os vídeos, e eu fui fazer uma participação, falar sobre minha poesia, sobre a cultura do nordeste, no programa Encontro com Fátima Bernardes.
E aquilo foi a cara do Brasil. Hoje, eu faço parte do elenco fixo do programa, semanalmente, estou toda sexta-feira no programa Encontro "com Fatinha", né, porque. .
. pra vocês Fátima, com "Fatinha. " (Risos) Eu estou no Encontro com Fatinha.
. . E lá, eu ganhei um quadro, chamado "Poesia com rapadura", no qual, todas as sextas, sobre um dos temas do programa, eu desenvolvo e escrevo um cordel e declamo.
E isso, o poder disso, é muito grande, de você pegar uma poesia que nunca teve espaço, uma manifestação cultural que nunca teve espaço na grande mídia, e ter a oportunidade de levar a milhões e milhões e milhões de pessoas. Representando não um poeta, mas representando uma manifestação cultural, uma cultura que nasce local, mas com potencial pra ser global. Com potencial pra ser global.
Então, hoje, fico muito honrado em poder disseminar essa arte, que é tão rica e que hoje, hoje sim, chegou até as pessoas. "E aí, Bráulio, semente plantada? " Sim.
Eu sou uma semente do trabalho de Patativa. Eu me tornei poeta porque conheci a arte de Patativa. E eu disse: "Eu quero ser isso aqui também".
Eu quero ser mais um guerreiro na luta pela cultura popular nordestina. E hoje é uma felicidade, uma honra, e eu até me emociono quando eu falo disso, de estar começando também a plantar a minha semente. Aqui, é um vídeo de Natália, cinco anos, declamando esse poema que eu abri aqui.
(Vídeo) Natália: ". . .
e dura, sou nordeste brasileiro Sou cantador, violeiro, Sou alegria ao chover, Sou doutor, sem saber ler. Sou rico sem ser grã-fino. Quanto mais sou nordestino, mais tenho orgulho de ser.
Da minha cabeça chata, do meu sotaque arrastado, do nosso solo rachado, dessa gente maltratada, quase sempre injustiçada, acostumada a sofrer. Por isso, nesse padecer sou feliz desde menino quanto mais sou nordestino, mais tenho orgulho de ser. Da terra de cultura viva Chico Anísio, Gonzagão, De Renato Aragão, Ariano e Patativa, gente boa, criativa Isso só me dá prazer Por isso, eu tenho orgulho de dizer meu obrigado ao destino Quanto mais sou nordestino, mais tenho orgulho de.
. . " (Aplausos) Bráulio Bessa: E, diariamente, recebo vídeos de crianças do Brasil todo declamando cordel.
E, aí sim, eu sinto que eu também estou plantando semente. E eu já penso: "Natália vai plantar sementes, e vai colher lá na frente". Então, eu quero dizer pra vocês, deixar uma última mensagem em forma de cordel, sobre a vida, na qual eu disse: só eu sei cada passo por mim dado nessa estrada esburacada que é a vida passei coisas que até mesmo Deus duvida eu fiquei triste, capiongo, aperreado, porém nunca me senti desmotivado, eu me agarrava sempre numa mão amiga e de forças minha alma era munida pois do céu, a voz de Deus dizia assim: "Suba o queixo, meta os pés, confie em mim vá pra luta que eu cuido das feridas".
Vão pra luta, que Deus cuida das feridas. Muito obrigado, a cada um de vocês.