Nas margens do Rio Negro, no meio de floresta amazônica, existiu uma das cidades mais ricas e importantes de todo o Norte do Brasil, só que hoje em dia, a grande maioria dos brasileiros nunca nem ouviu falar nesse lugar. Isso é porque ele se transformou em uma cidade fantasma, guardada por um eremita que nem sequer é brasileiro. Quer entender toda essa história?
Então vamos conhecer o Brasil. Fala minha gente, sejam bem-vindos a mais um vídeo do Conhecendo o Brasil. Hoje a gente vai falar sobre um lugar que já foi um dos mais ricos e luxuosos de toda a Amazônia, mas que hoje está abandonado: a cidade de Velho Airão, que fica às margens do Rio Negro, a mais ou menos 180 km de Manaus, numa área que pertence ao município de Novo Airão, no Amazonas.
Pois é, se tem o Velho Airão, é porque já existe o Novo Airão, depois que a gente contar a história vocês vão entender como esses nomes fazem todo o sentido. O Velho Airão fica dentro do Parque Estadual Rio Negro Setor Norte, uma unidade de conservação que fica entre dois parques nacionais: o do Jaú a oeste e o de Anavilhanas, a leste. Mas por que um lugar desses no meio da floresta era tão rico no passado?
E o que aconteceu para todos os seus habitantes irem embora e deixarem tudo para trás? É o que a gente vai ver a partir de agora. Assim como na maior parte do Brasil, essa região era ocupada pelos povos indígenas.
Eles inclusive deixaram suas marcas no local através de pinturas rupestres e dos petroglifos, que são esses desenhos nas rochas, que segundo os arqueólogos foram feitos há mais de 5 mil anos atrás. Só que a partir do século XVII, algumas expedições vindas de São Paulo subiram o Rio Negro para capturar índios e levar para o Sudeste como escravos e isso infelizmente acabou devastando a maior parte das tribos que viviam nessa região. Mais tarde, em 1694, um grupo de missionários portugueses fundou um povoado, que foi chamado de Santo Elias do Jaú, isso porque fica próximo do encontro do Rio Jaú com o Rio Negro.
Mas a cidade não enriqueceu assim do dia para a noite. No começo, esses missionários viviam da caça e da pesca e se dedicavam a catequisar os índios que ainda restavam. Essa rotina durou mais ou menos uns 200 anos, até que no século XIX, quando a cidade já se chamava Airão, mas que ainda não era velha, o Visconde de Mauá instalou uma linha de navegação a vapor pelo Rio Negro e um porto nessa cidade, que servia principalmente para abastecer os navios com lenha.
Isso já fez com que Airão se desenvolvesse, mas os tempos áureos só chegaram no um pouco mais tarde, com o Ciclo da Borracha. A gente já falou sobre o Ciclo da Borracha em dois vídeos anteriores: o primeiro, onde a gente contou a história de Chico Mendes, e o segundo, sobre a cidade fantasma de Fordlândia. Se você ainda não viu esses vídeos, é só clicar nos links que estão na descrição assim que terminar esse aqui, ou então nos cards que aparecem aqui em cima.
Então, durante o Ciclo da Borracha, Airão virou um entreposto comercial. Eles recebiam a produção de látex toda a região do Alto Rio Negro, do Rio Jaú e do Rio Branco, e depois faziam a negociação com os comerciantes estrangeiros. Já na década de 1920, a cidade estava vivendo o seu auge, e toda essa gente endinheirada só queria ostentar, então eles começaram a construir palácios com materiais trazidos diretamente da Europa, principalmente de Portugal e da França.
Naquela época, uma das famílias mais influentes era a dos Bizerra, que tinha origem portuguesa. Eles praticamente mandavam em tudo na cidade e controlavam todo o comércio e a política. Eles tinham inclusive uma loja no centro da cidade que vendia tudo, era comida, roupas, material para trabalho no campo.
Então os moradores nem precisavam ir para Manaus, tudo que eles precisavam eles conseguiam ali naquela casa comercial. Mas como diz o ditado, tudo o que é bom dura pouco. O Ciclo da Borracha não durou muito, e assim como várias outras cidades da Amazônia, Airão sofreu um grande baque econômico.
Então, a partir dos anos 30, aos poucos os moradores começaram a deixar a cidade em busca oportunidades em outros locais. A maioria deles foi para a Vila de Itapeaçu, a 100 km de Manaus, onde hoje é a sede do município de Novo Airão. Durante esse período, o Velho Airão ainda tentou sobreviver, primeiro com a produção de castanha-do-pará, e depois apenas com uma escola para crianças de comunidades vizinhas, que ocupava o antigo prédio da câmara municipal, mas não teve jeito.
Em 1985 o último morador deixou o Velho Airão, que a partir de então foi completamente abandonada e hoje se encontra em ruínas. Só que a crise a crise econômica parece não ter sido o único motivo para a desocupação da cidade, existem outras teorias também. A primeira delas, que era a mais difundida, diz que a população estava sendo devorada por formigas de fogo, e esse fato foi até relatado no livro do historiador Victor Leonardi, que se chama “Os Historiadores e os Rios – Natureza e Ruína na Amazônia”.
Na época, um político da região chegou até a pedir ajuda para mudar a sede do município por causa dessa praga. Mas se isso foi realmente verdade ou não, a gente não sabe, o que se sabe é que a sede do município foi de fato mudada. Outra teoria diz que o motivo para o abandono do Velho Airão era que os fantasmas dos índios que foram escravizados no passado começaram a aparecer para a população.
O que vocês acham sobre essas teorias? Comentem aí embaixo que eu quero saber. Então desde que tudo foi desocupado, a Marinha começou a fazer treinamentos na região e usava as ruínas da cidade como alvo para os treinos de tiro, o que só fez contribuir para a destruição do que tinha sobrado.
Já nos anos 90 esses treinamentos foram interrompidos, e somente em 2005, as ruínas do Velho Airão foram tombadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o IPHAN. E hoje, como está a cidade mais de 15 anos depois desse tombamento? Será que virou um destino turístico?
Antes de responder essas perguntas eu peço que você que deixe o like nesse vídeo, é uma forma de valorizar nosso trabalho de reunir todas essas informações e trazer para vocês. Aproveite também para se inscrever no canal, porque assim você ajuda o projeto Conhecendo o Brasil a crescer e continuar trazendo mais conteúdo de qualidade, e não vai te custar nada, é só clicar no botão vermelho que tem aqui embaixo. Já fez isso?
Então vamos continuar. Hoje em dia, restou muito pouco da antiga cidade de Airão. Entre as ruínas, três delas se destacam.
A primeira é essa com grandes portas em forma de arco e piso com azulejos portugueses. Era aqui que funcionava a casa comercial que já citamos aqui no vídeo, onde os moradores compravam tudo o que precisavam. A segunda é o prédio da câmara municipal, que também abrigou uma escola em outro momento.
Aqui, o que mais chama a atenção é essa árvore, que praticamente segura as paredes e não deixa que elas desabem. E a terceira é essa igreja, que nunca chegou a ser concluída. Quando o ciclo de borracha terminou, ninguém mais tinha dinheiro para terminar a obra.
Lá ainda tem um cemitério, onde ainda podem ser vistas lápides de gerações completas da mesma família, e assim como o restante das estruturas, já está completamente degradado. Só que depois de vários anos completamente vazia, a cidade acabou ganhando um morador, que vive numa casa de madeira no meio das ruínas e cuida de tudo por lá. Seu nome é Shigeru Nakayama.
Ele nasceu em 1948 na cidade de Fukuoka, no sul do Japão, mas veio para o Brasil com 16 anos, durante o grande fluxo migratório dos japoneses no início dos anos 60. Quando chegou aqui, a sua família foi assentada no Pará, mas nos anos 70 ele se mudou para a região do Rio Negro para buscar trabalho e ao mesmo tempo realizar um sonho antigo que ele tinha, que era viver na Floresta Amazônica. Em 2001, quando a área onde ele morava foi desapropriada por causa da criação de um Parque Nacional, ele recebeu o convite de Glória Bizerra para cuidar do patrimônio do Velho Airão e ele aceitou.
Glória era descendente dos Bizerra que dominavam a cidade naquela época das vacas gordas. Logo que ele chegou, ele abriu caminho no mato que cobria tudo, inclusive as ruínas, e hoje ele sobrevive da caça e da pesca, além do que ele colhe em sua horta, que foi feita um pouco mais distante da cidade para não descaracterizar a área de preservação. Até com isso ele se preocupou.
E durante todos esses anos, seu Nakayama tem recebido os turistas que chegam por ali interessados pela história da cidade. Ele vai mostrando todas as construções, vai contando os acontecimento que se passaram ali, tudo bem detalhado. E ele não cobra nada para fazer isso, faz por prazer mesmo, mas de qualquer forma, alguns visitantes ainda fazem doações para ele, tanto em comida quanto em dinheiro.
Ele também montou um museu dentro de um dos quartos da casa dele, onde foram reunidos vários objetos que encontrou por lá, além de uma pintura a óleo que mostra como era a cidade nos seus tempos áureos. O museu tem até um livro de registro dos visitantes, mas infelizmente, é difícil encontrar registro de brasileiros por lá, o que mostra o quanto o brasileiro é desinteressado pela sua própria história. É triste, mas é a realidade.
Enfim, mesmo nesse estado crítico de abandono, a cidade de Velho Airão é um marco histórico na região amazônica, porque foi uma dos primeiros núcleos de povoamento nas margens do Rio Negro, tão antigo quanto o de Manaus. Então, o lugar merecia uma atenção maior do poder público, que deveria promover o turismo no local, atuar na manutenção, na sinalização, mas até agora nada foi feito. Por enquanto, só o nosso amigo Nakayama é que se preocupa em preservar esse patrimônio e ele já tem mais de 70 anos.
Desse jeito, infelizmente temos que concordar com uma frase dita pelo próprio guardião do Velho Airão: “Se eu sair daqui, a história morre”. Se você gostou de conhecer essa história, deixa o like nesse vídeo. E não se esqueça de se inscrever no canal e seguir a gente nas redes sociais, para acompanhar todo o nosso trabalho de divulgação das histórias desse país.
Assista também esses vídeos que estão aparecendo aqui do lado e vamos continuar conhecendo Brasil. Até o próximo vídeo.