[Música] Algo oculto, invisível, está corrompendo os jovens e destruindo a sociedade. De uma hora para outra, o diabo está solta. Em cada sombra, em cada esquina, basta um comportamento estranho, um rosto diferente.
E lá está o monstro que a mídia anuncia. As mãos dos pais suam de preocupação. Os noticiários se repetem.
Especialistas são convocados. Basta uma ovelha vestida de lobo para espalhar o pânico e colocar o rebanho em desespero e de repente ninguém está seguro. E então clamam as vovozinhas mais maldosas para os seus netos.
Não pensa no diabo que ele aparece. Pronto, o medo vira certeza, transformando sombras em demônios. E a coitada da criança que não dorme nunca mais.
Satanás, Lúcifer, o príncipe das trevas, nos recantos mais obscuros da mente medieval. Ele era real e está entre nós. Nas sombras das catedrais, nas florestas escuras, ele espreitava, esperando pelo momento certo para corromper as almas dos vulneráveis.
Pronto, é o pânico satânico. >> Opa, suave, tranquilo por aí? Hoje a gente vai desenterrar uma história pesada, cheia de mística, medo e muito, mas muito delírio coletivo.
Bora entender de onde veio a história do pânico satânico e do pânico moral que transforma um boneco de pelúcia em história do tinhoso. A origem desse pânico e depois os casos brasileiros. Mas antes vamos começar nos Estados Unidos.
Os tempos mudam, o Sete Pele permanece. Afinal de contas, porque seas satânicas, pactos com o diabo e rituais ainda são tão vivos no nosso imaginário popular. E eu vou confessar uma coisa para vocês aqui.
A gente tá ensaiando esse roteiro de pânico satânico há muito tempo. Nós gostamos muito de falar de gurus, de seas, de lavagem cerebral aqui dentro. E agora chegou a hora de olhar a estrutura que move tudo isso, o pânico e o medo do satanás.
Chegou a hora em três atos. Eu espero que você goste dessa série. Antes da gente avançar, para, deixa o seu like, seu comentário.
Eu te espero. >> E agora sim, acenda sua vela, prepare-se, segure o seu medo e bom vídeo. >> Ato um, pânico moral.
[Música] >> O pânico satânico é um tipo de pânico moral. Pronto, acabou o vídeo. Não é sério.
Você sabe o que é pânico moral? Pânico moral é um fenômeno social, onde a partir de um chamado de mídia ou de um líder, um grupo entra em desespero desproporcional contra um comportamento de um outro grupo que é visto como uma forma de ameaça única, terrível, que cria um monstro imenso. Quem popularizou esse conceito foi o sociólogo e escritor Stanley Cohen.
Em seu livro Folk Devils Moral Panics, publicado lá nos anos 70, o Cohen identificou um padrão recorrente de exagero e de medo irracional voltado para determinados grupos da sociedade. Ele começou estudando subculturas britânicas lá dos anos 60 e percebeu que grupos como os rockers, que eram apenas jovens explorando rock and roll e brincando por aí, eram tratado pela mídia como o perigo total, o comportamento juvenil pintado como o monstro que precisava ser combatido. E o Cen percebeu que o número de ocorrências reais problemáticas desses jovens era muito menor do que o alarde que era feito sobre aquilo.
Ou seja, que a mídia inflava a ameaça ao ponto de criar histerias coletivas. O processo de pânico moral segue-se as seguintes etapas. Define-se uma ameaça, se amplifica isso como um símbolo, se gera paralisia pública, obtém alguma resposta das autoridades e, por fim, novas mudanças transformam o cenário social e a perseguição passa a acontecer.
Esse tipo de pânico moral pode se iniciar como algo pequeno, um boato, uma fofoca. E dependendo do contexto da força política ou do desejo de conter ou transformar aquilo numa coisa maior, esse pânico se estabelece. Ou seja, ele não acontece no vácuo.
Ele depende de um fator social específico daquela comunidade que dialoga com as ansiedades e os medos mais profundos daquele grupo naquele momento histórico. Esse pânico, portanto, depende de fatores objetivos de uma comunidade para disparar algum certo gatilho. Então, pra gente entender a história do pânico moral, a gente tem que observar um contexto social mais amplo.
E no caso aqui a gente precisa voltar pros Estados Unidos da América, onde toda essa zona começou. >> Uh, >> lógico, sempre começa os Estados Unidos. Então, por que os Estados Unidos foram terreno fétil pro pânico moral e satânico?
Bom, se existe algum lugar para isso acontecer, é claro que seria nos Estados Unidos. Nos anos 50 e 60, a gente começa a verdadeira caça as bruxas comunista ou o macartismo que paralisou o país naquele período. Tudo era tido como comunismo, como vermelho.
Dos movimentos sociais, como os hips, aos movimentos de luta de direitos civis, de minoria, ao ativismo de mal com ex, aos panteras negras, ao movimento LGBT. Tudo era colocado no mesmo balaio do monstro social. Famílias conservadoras sentiam que estavam perdendo os seus filhos para uma cultura que ia contra tudo que eles conheciam.
Neste período, além desses grupos ganharem força, ganharam força também os movimentos religiosos da direita cristã, que elegeram o presidente Ronald Haaram a cobrar atos mais incisivos de combate ao mal, misturando medo político, conservadorismo cultural, influência religiosa, criando todo esse ambiente de pânico. Isso vai gerar os chamados bods expiatórios ou grupos que são vistos como a personificação do mal em todas as suas formas. Você já deve ter visto por aí alguma coisa parecida você vive no Brasil, não é?
Esse medo não vai se limitar apenas às ideologias políticas, é claro. A partir de então, esse pânico moral é uma ferramenta poderosíssima para culpabilizar todo e qualquer tipo de grupo. Qualquer problema é preciso encontrar um novo culpado.
Durante os anos 80, tentativas novas de movimentos religiosos, filosofias alternativas foram surgindo, desde os Har Krishnas até os praticantes de budismo, meditação transcendental, ou até mesmo a igreja de Satã, que nada tinha a ver com Satanás, mas a gente vai falar dela um pouco depois. Elas foram misturadas a coisas estranhas. Também tava acontecendo, tipo família Manson, Johnny St, Children of God, todos esses grupos que iam contra a narrativa eram colocados como grupos do demônio.
É importante entender o papel do medo aqui. Em períodos de crise, seres humanos tendem a acreditar naquilo que mais necessitam. Isso vale para tudo.
A criação de um inimigo conforta, fornece uma sensação, uma espécie de controle. Desde a década de 70, portanto, Cohen tem bem claro como o papel do medo é o grande propulsor desses pânicos. Sabe aquela sensação de assistir um noticiário, um documentário e sair com a ideia de que o mundo tá presto a explodir, de que lá fora só tem sangue, assalto?
Esse medo não surge por acaso, ele é moldado. É preciso martelar na cabeça das pessoas essa ameaça. E quanto mais essa ameaça vai ficando clara, mais esses demônios folclóricos, essas figuras a se temer, vão aparecendo.
E é aí que entram os chamados empreendedores morais, aqueles que vão te salvar, os autoproclamados guardiões da moralidade que ganham fama e poder em meio à crise e em meio ao medo. São essas pessoas que vão pintar o outro grupo como ameaçador e ela como a única forma de escapatória. Agora, é claro, como as ameaças não são reais, esse tipo de pânico, ele é muito volátil.
Ele surge e desaparece rapidamente. Ele aparece do nada e surge do nada e desaparece do nada também. E por isso esses gurus precisam ir aumentando o nível, manipulando cada vez mais, criando histórias cada vez mais absurdas antes que você acorde pra realidade.
Na cultura pop, esse medo assume várias formas. A segurança familiar, por exemplo, é uma das mais recorrentes. O seu filho corre perigo, as nossas crianças estão ameaçadas, a família está sendo atacada, enfim, todas essas coisas que ninguém quer passar, ninguém quer atacar crianças, ninguém quer ver a sua família sendo atacada e aí você se apega a alguma coisa.
E nesse momento o guru tá ali para te oferecer a saída. Monstros não surgem do nada. Eles são sempre elementos familiares de uma certa sociedade, recombinados, fragmentados, rearranjados em novas narrativas até se tornarem ameaçadores, até serem distorcidos e tornados estranhos.
A monstruosidade social é em parte justamente daquilo que nos torna familiar. O monstro não é um outro absoluto, ele é uma versão distorcida dos nossos medos. Então, toda vez que encontramos figuras monstruosas, vale a pena se perguntar qual medo esse monstro social tá representando?
E é com essas perguntas que chegamos nele. O tinhoso, o Satanás, o sete pele, o Satã. Quem afinal se beneficia com o medo do demônio?
E quem ganha muito dinheiro com isso? Afinal de contas, entre todos os pânicos morais, talvez nenhum tenha sido tão envolvente, dramático e poderoso quanto o pânico satânico. O diabo sempre teve um papel único no imaginário ocidental.
Basta uma faísca, uma acusação, um rumor, uma reportagem sensacionalista pro medo do satanismo voltar novamente se espalhar por aí. E agora sim, vamos ao ato dois, o medo do dinoso. >> O diabo tem muitos nomes.
Satanás, Beusebu, diabo, demônio, o cão, o mochila de criança, coisa ruim, capeta, zé redondo, chifrudo, sete pele, tinhoso, rabudo, capiroto, camunhão, rainheta, o sujo, bicho preto, bode preto, Zé Tridente, Lúcifer. Mas essa figura do rabo vermelho e da pura maldade, como conhecemos hoje, nem sempre foi essa figura maligna e demoníaca. Sim, o demônio como imaginado com a ideia de pacto e tudo mais, tem uma biografia que começa em Hollywood.
Então vamos falar do nascimento, do estrelato, da queda e do revival de Satanás. O demônio é uma invenção do século X. Satanás não surgiu como uma figura potente e assustadora desde os primórdios do cristianismo.
Ao contrário, no início, ele era visto como uma figura que nem sequer dava temor. Era quase cômico, jocoso. Ele era incapaz de realmente desafiar a Deus ou desviar o homem do seu caminho.
No início dos tempos, Satanás era uma figura quase cômica. O Lúcifer dos quatro primeiros séculos de cristianismo era peculiar. existia, mas não se sabia quem ele era.
Estava lá, mas não tinha clareza do quanto de poder tinha esse demônio. Em suma, não havia a teoria do diabo pro cristianismo do primeiro momento. Essa figura de diabo surge na Idade Média e começa a ser associada à mistura de reinos em um mesmo corpo, humanos, animais e seres mágicos num só.
Essa combinação era para gerar medo, sobretudo depois que começou a misturar também a ideia de mulher e de feminilidade dentro desse demônio, o que fortaleceu na baixa Idade Média a construção da figura da bruxa como inimiga do cristianismo. >> O assunto de hoje agora é literatura e prisão. Foi detido na tarde de hoje um influenciador conhecido como Norm, suspeito de divulgar e vender livros.
A reportagem de olho na tela com o nosso repórter Pedeneiras. É isso mesmo, Perine. Boa noite.
O que a nossa reportagem averigou é que no centro da investigação tá o tal box da Darkside Books chamado Arquivos Monstros Reais. Parece que é uma coleção que reúne três livros sobre o Jeffrey Dammer, o Ed Guy e os irmãos Menendes. Os nomes ligados aos crimes mais brutais da história moderna.
Box estão em todas as partes. Estão atraindo centenas de pessoas pro tal universo da leitura. Um perigo.
São três histórias muito complicadas, segundo os especialistas que a gente consultou na reportagem. Vamos ver agora roda VT. >> É sobre isso aí.
Complicado isso aí, né, cara? Autoridades culturais alertam que a disseminação da literatura pode levar a uma séria onda de conhecimento. Segundo especialistas, o conteúdo gráfico e o acabamento luxuoso da Dark Side realmente podem ser sedutores para os fãs de True Crime.
Vamos agora falar direto com o influenciador detido na tarde de hoje, que deu uma exclusiva pra nossa reportagem. Bom, eu só queria fazer o meu momento pagar as contas para que ninguém pulasse a publicidade e unisse aí a Darkside com a gente dando cupom de 10% se elas usassem. E aí tô nessa situação aí, né, condenado por literatura.
A gente falou aqui com o delegado de acordo com as investigações da polícia, você vai utilizar o código normosa e receber 20% de desconto e ter acesso ao material de luxo do mesmo autor de anjos cruéis que o influenciador Normose já divulgou em seu canal. Os livros aqui, vamos filmar um pouquinho, pederneiras. Estes mais de mesa.
Ai aiuda aqui. >> Ele tá bem. Só me disso para saber se ele tá bem.
[Música] >> A partir do renascimento, a imagem de diabo se transforma em uma força ativa e ameaçadora. A Igreja Católica, em crise de autoridade e pressionada por movimentos como as cruzadas e a reforma protestante começa a mudar essa figura. O pacto demoníaco passa a ganhar destaque.
A barganha com o diabo era vista como sem arrependimento, mas como algo que você é vítima porque é enganado por esse demônio. O diabo então passa a ser uma justificativa para assentar a ideia de que Deus não é bom nem mau, de que Deus não está de sacanagem, de que ele te dá o livre arbítrio. Quem faz o mal é o diabo.
Há até uma linha de catolicismo que defende que o mal só existe porque Deus permitiu. Então, ou esse Deus não é onipotente ou não é exclusivamente bom. Para resolver essa questão teológica política, o cristianismo, seguindo o Santo Agostinho, desenvolveu a ideia de livre arbítrio, atribuindo as escolhas humanas ou ação de Satanás e não ao criador toda a maldade que existe.
As fogueiras começam a acender e o diabo começa a ganhar o seu lugar no imaginário cristão. E isso deu muita força pra Inquisição. Ginsburg, quando debruçou para estudar os tribunais de inquisição católica, apontou que o diabo e a perseguição à bruxaria fundaram essa fixação de imaginário coletivo que temos hoje, de magia negra, de bruxaria e coisas do tipo.
Do século XV ao XVI, entre 50 e 60. 000 1 pessoas foram executadas devido a imputações de crime de feitiçaria na Europa. Ou seja, o diabo não existiu até que a igreja precisou dele.
Isso sintetiza a invenção do diabo desse período. É claro que isso não quer dizer que o Satanás não existia antes. As religiões monoteístas sempre tiveram a figura do mal total por aí.
O que mudou a partir de então é que daqui em diante o modo de pensar e representar a figura do imaginário do demônio se estabeleceu nesse carinha vermelho com rabos e chifres. Então, vamos falar do estrelato do diabo, a ascensão ao panteão do terror. O estrelato do Satanás atingiu o seu auge durante as fogueiras da inquisição, quando passou a ser visto com a força concreta do mal que agia sobre os seres humanos.
Ou seja, você vai percebendo o quanto a criação do diabo é sobre, na verdade, a criação de um outro, de um inimigo, de alguém que você possa imaginar para culpar de todos os problemas do seu período. Laura de Mell Souza vai afirmar então que é no início da época moderna e não na idade média que o inferno realmente toma conta da imaginação do mundo. Artistas passam a dar um rosto pro diabo inspirado nas divindades pagãs que eram diabolizadas pela igreja.
Olha só que doideira. Você já tinha parado para pensar que a ideia de chifres, tridente, pele vermelha não são criações cristãs, mas são símbolos emprestados de várias outras religiões e sobretudo de divindades gregas. Sim, o tridente era de Poseidon, o deus grego dos mares.
Os chifres vem de Curos, o deus Celta da fertilidade. E os cascos eles são de Pan, o deus ligado à natureza selvagem. Já a pele vermelha simboliza a louxúria, o fogo do inferno, tão comum as religiões pagãs.
Ou seja, diabo era tudo aquilo que não era cristão. Tá começando a entender aonde a gente vai chegar? Então, o demônio era uma forma sofisticada de ver o mundo.
E não é que as pessoas eram burras, não é isso. É que elas realmente precisavam de um inimigo. Ou vai dizer que nos dias de hoje a gente também não tem inimigos simbólicos.
E aí veio o Iluminismo, que representaria o triunfo da razão sobre a superstição. Isso foi um golpe duro pra igreja. Com o Iluminismo, o diabo vai começando a perder a sua força desse imaginário que a gente tá falando até agora.
Ele já não assustava tanto depois do século XVII. Filósofos e cientistas passam a criticar a superstição e o obscurantismos que dominavam o senso comum. O secularismo passa a ganhar força e Satanás vai sendo relegado a uma figura do folclore, da cultura pop, etc.
e tal. Ele deixa de ser um símbolo de terror real para se tornar uma figura quase caricata, uma ferramenta simbólica para justificar medos, mas sem perder o poder que tinha antes. No entanto, o demônio nunca desapareceu completamente.
Mesmo sendo relegado a um papel menor, o Satanás, depois do século XVI, encontra novos espaços para atuar. Ele vai se transformando em novos símbolos de ruptura e desordem, tomando outras imagens e formas. Ou em outras palavras, o demônio é a representação do medo de uma sociedade em determinado tempo.
Por isso, a demonologia é também um estudo social, um estudo que compreende as visões de mundo de uma sociedade, suas aflições e seus medos a partir da figura de Satã. Mas isso vai dar um outro episódio só sobre demonologia lá na frente. Se você quiser, comenta aqui embaixo que a gente já entendeu os usos de Satanás.
A gente precisa voltar para assunto do nosso vídeo, o pânico satânico, que é a fase revival do demônio. Como eu já disse em alguns episódios aqui atrás, toda a teoria da conspiração, se você torcer ela direitinho, ela acaba caindo pra conspiração do judeu eterno, de antissemitismo e de perseguição dos teóricos do protocolo sabe de Sião. Sabe o que você >> aqui não foi diferente.
E quando o Estados Unidos toma de encontro essa ideia de pânico satânico, toda vez que ele mergulha em crises sociais, políticas e econômicas, ele retoma o pânico satânico e usa esse medo de Satanás para imputar Satanás no seu inimigo do momento. É o processo de banalização do demo. Nessa parte do vídeo, nós vamos falar do demônio em todos os lugares, do demônio produto.
Ele estava nas letras das músicas de Heavy Metal, ele estava nos filmes de terror, nos comunistas, nos jogos de videogame, nos latinos e agora até nos memes de internet. É como se o diabo se tornasse quase um fetiche pra cultura pop. E agora nós vamos falar de Satan, o demônio norte-americano e o pânico satânico.
Vamos pro próximo ato. >> No século XX, o diabo encontrou um novo papel, o Estrelato. E Hollywood passou a fazer dele uma grande estrela, um grande Satanás como o espetáculo global.
Como a gente falou no começo do ato, lá nos anos 50 e nos anos 60, quando os Estados Unidos começaram a trazer a figura do Satanás para pegar grupos humanos e fazer de inimigo, a partir de agora, filmes como o Exorcista vão banalizar o demônio e abrir as comportas para um outro tipo de Satanás. Uma paranoia fabricada, um retorno de um vilão perfeito, um produto da indústria cultural. Esse é o golpe final que faz do mito do diabo um objeto de consumo a serviço do entretenimento, mas também uma ferramenta de controle mental.
Faltava então só um rosto pro demônio e ele apareceu na figura de uma mulher. Michele Remembers. Um livro lançado no começo dos anos 80 que sugeria a existência de um culto satânico secreto infiltrado em comunidades familiares e em todas as igrejas.
gatilho. As próximas sessões, daqui para frente vão detalhar alegações perturbadoras. Michelle Smith, após sessões de hipnose, revelou que teria sido abusada por sua mãe aos 5 anos de idade.
Segundo Michele, sua mãe fazia parte desse culto para Satanás. O psiquiatra que a diagnosticou passou 14 meses com ela aplicando uma espécie de hipnose satânica para supostamente ajudá-la a recuperar essas memórias reprimidas. Então Michele passou a descrever cenas de tortura, sacrifício humano, alterações corporais, sendo colocado em uma gaiola com cobras e cobertas de insetos lá quando ela era criança.
Essas memórias nunca foram melhores avaliadas, melhor corroboradas. A ciência nunca olhou isso com olhar mais sério. Nenhuma evidência de que esse culto de fato aconteceu apareceu.
A eman e a mãe de Michelle sempre negaram tudo e nunca houve nenhum registro escolar que confirmasse qualquer tipo de ausência durante os supostos rituais que a criança ficaria fora por muito tempo. Então, é claro, o psiquiatra e Michele foram combatidos como charlatões, não é isso? Claro que não.
Apesar da falta de provas, a primeira edição do livro Michelle Remembers vendeu 100. 000 cópias e se esgotou rapidamente. Se tornou um bestseller nos Estados Unidos e arrecadou um valor que hoje seria equivalente a tipo 2 milhões de dólares.
E o psiquiatra passou a ser uma referência no campo de abusos satânicos ritualísticos, um termo que ele mesmo inventou. O interesse foi impulsionado pela mídia, que logo começou a fazer discussões de filme, chamar Michele pra TV, documentários e literalmente criou o filme Michelle Remembers, um filme com Dustin Hoffman, que contava todo esse absurdo, todo esse delírio e formou uma ideia de pânico satânico americano. Pouco tempo depois, paciente e médico se casaram e iam para programas de TV ganhar dinheiro em cima dessa história.
E lembra do que o Stanley Cohen dizia sobre o papel da mídia? Ela foi central nesse caso e dali pra frente o estrago estava feito. A ideia de satanismo em todos os lugares começou a aparecer.
E mesmo que as pessoas mostrassem que literalmente a história de Michelle era uma mistura do filme O Exorcista com o filme O Bebê de Ros Mary que tinha acabado de sair no cinema, não adiantava. As pessoas queriam acreditar. Qualquer um poderia ser satanista.
Seu vizinho, o dentista, cuidadora da creche, o opositor político, todo mundo. O FBI chegou até oferecer cursos sobre como identificar seas, que coincidentemente era toda aquela política que combatia os Estados Unidos. Satanistas passaram a ser lidos como comunistas.
Comunistas passaram a ser vistos como ameaças para criancinhas. E até hoje há quem acredite nessa narrativa. Satanás em todos os lugares.
E agora que o medo havia renascido, as coisas só pioravam. E o caso que vamos ver no próximo ato é ainda mais assustador. O caso McMartin e a escola satanista.
Em 1982, vale lembrar que mulheres nesse período estavam ingressando no mercado de trabalho, muitas pela primeira vez, impulsionada pela conquista de direito às mulheres, enquanto o país lutava pela recessão. Mas a direita religiosa e o conservadorismo, que ganhavam força, exaltavam a ideia de família nuclear, não queriam mulheres fora de casa e buscando direito e mercado de trabalho. E os pais que deixavam as crianças em creches encontraram a crítica perfeita para acabar com as creches e retornar as esposas para os lares.
Um boato surgiu que uma mãe que sofria de doença mental severa teria descoberto que o dono da creche abusava do seu filho durante as aulas. Essa denúncia foi aumentando. Mais mães se juntaram ao caso e ao total 350 crimes de abuso infantil.
350. As acusações eram baseadas em depoimentos extraídos de crianças de forma completamente sugestiva e manipulatória. As crianças descreviam que na escola tinha bruxas voando, passeios de balão de ar quente, túneis secretos, orgias e tubulações que levavam para aeroportos para facilitar o tráfego internacional.
Enfim, coisa de filme, de filme Michele Remembers, bebê de Rosemary. Era isso que tava aparecendo. E o governo acabou instituindo uma investigação a essa escola.
Até, veja só, Chuck Norris foi acusado de participar desses abusos na escola. Os julgamentos duraram anos, custaram 25 milhões pros cofres públicos. E adivinha?
Nenhuma evidência real. Nenhuma condenação, nenhuma prova, nem um nada, só o medo do pânico satânico. Isso não impediu que os processos destruíssem a vida e a reputação dos envolvidos, traumatizando crianças, pais, educadores e deixando cicatrizes nas famílias.
Até hoje, algumas pessoas ainda buscam pelos túneis secretos da creche, apesar de nenhuma evidência. Por causa desse fato, muitos cuidadores fecharam suas creches com medo. Muitas escolas foram abandonadas.
Muitas mulheres, especialmente da classe trabalhadora, precisaram voltar pros seus lares. E aí que tava a ferramenta política de tudo. O caso McMartin com certeza te lembra um outro caso muito conhecido aqui no Brasil, não é?
Os donos de uma escola de São Paulo são acusados de abuso sexual contra crianças de até 4 anos de idade. O IML já adiantou que uma delas foi violentada. Agora eu vou voltar para uma história que há 27 anos me atormenta.
>> O caso da escola base que aconteceu pouquíssimos anos depois e pasme é exatamente a mesma história, sem tirar nem pôr os mesmos elementos com o mesmo tipo de mãe problemática, o mesmo tipo de acusação e a mesma mídia manipulando tudo para ganhar dinheiro em cima de sangue. No próximo capítulo a gente vai falar mais da escola base, mas saiba que as verdadeiras vítimas do pânico satânico acabam sendo justamente as crianças e também os adultos inocentes que acabam virando peças de xadrez para esses pastores, esses gurus, esses charlatões ganharem dinheiro. Achou que tá o suficiente?
O pânico satânico vai piorar. Pouquíssimos anos depois, a nova vítima do pânico moral vai ser a cultura Ned e os jogos de RPG. Porque os adolescentes rebeldes se encastelavam nesses lugares contra o sistema conservador.
E aí, pronto, o sistema conservador passou a dizer que o RPG era um lugar tomado de satanismo. Mas isso é uma história pro próximo ato. >> Os quatro acusados de assassinar uma estudante num ritual macabro em Ouro Preto, Minas Gerais.
O crime ocorreu em outubro de 2001. que Ministério Público começa a cobrar a história. Não, foi um ritual, porque foi um ritual porque foi dentro do cemitério.
Foi um ritual, um ritual, um ritual. E aí o que que acontece para muita gente da própria polícia? Esse caminho que foi trilhado pelo Ministério Público acabou esquecendo possivelmente dos verdadeiros responsáveis.
>> Os jurados entenderam que não havia provas para incriminar os réus. Entre os acusados, alívio. >> A gente agora vai poder ver a nossa família e voltar às nossas vidas.
[Música] Dungeons and Drgons, DID, um dos RPGs mais populares do mundo, foi um dos primeiros a se tornar alvo dos grupos conservadores e religiosos dos Estados Unidos, que afirmavam que o jogo levava os jovens ao satanismo e ao ocultismo, junto das músicas de Heavy Metal, tipo Judas Prince, Os Osburn e toda essa galera que foi envolta de todo esse pânico, desse medo do fogo, do heavy metal que ameaçava a juventude. Mas no caso do RPG, a perseguição não era só balela, não. Foi para tribunal, virou caso criminal.
E é disso que a gente vai falar agora. Em 1993, aconteceu o chamado caso três de West Memphis, quando três jovens foram acusados de um crime terrível apenas porque gostavam de metal, filmes de terror e RPG. Vistos como estranhões diferentões do grupo, eles foram julgados em plena esfera de pânico moral.
A acusação era de que uma amiga tinha assumido. Não havia nenhuma prova, apenas uma confissão. A confissão, é claro, foi pressionada sobortura.
E apesar disso, eles foram condenados à prisão perpétua e um deles a pena de morte. Somente em 2011, com o avanço dos exames de DNA, os três foram considerados inocentes e libertados, mas o verdadeiro culpado nunca foi encontrado. >> Caso como dos três de West Memphis não foram isolados.
Em várias partes dos Estados Unidos e no mundo, adolescentes envolvidos com RPG e Reval tornaram-se alvos da sociedade em pânico. A tragédia desse pânico moral mostra como a sociedade aceita narrativas a partir de propaganda e movimentação do medo usado para controlar o comportamento jovem e reforçar normas conservadoras, sufocando qualquer desvio. Esse ciclo de pânico moral eou até em casos brasileiros, como os bruxos de Novamburgo ou o caso de Ouro Preto.
A sociedade busca monstros e destrói vidas inocentes em nome de se acalmar do próprio delírio que criou para si próprio. A tragédia do pânico moral envolvendo jogos de RPG entra nisso. Ainda que não haja nenhuma evidência de verdade.
Para ilustrar isso, há um estudo de 1994 da Califórnia que investigou 12. 000 páginas de abuso ritual. e não encontrou provas de nenhum grupo organizado que cometesse tais crimes.
Mesmo assim, veja só a abordagem da polícia na época. Esse vídeo bizarro usado pela polícia de Pennsylvânia no mesmo ano de 94 mostra que qualquer coisa pode ser qualquer coisa com propaganda. Ainda que não haja nenhuma rede secretas de cultos satânicos pelo país, que não haja nenhuma sessão de invocação ou sacrifícios acontecendo nos porões de bairros tranquilos de classe média, nem nenhum Satanás, nem nenhuma criança sendo sacrificada.
O que existe é abuso e esses abusos acabam sendo deixados de lado pelo medo. O que importa é gerar pânico. Basta olhar ao redor e perceber que ainda hoje discursos sobre combates do mal justificam preconceitos e violências.
seu filho brincando com essas cartas. O meu sobrinho não desviava o olho. Ele não disse: "Boa tarde, tio Gilberto".
Ele não disse: "Quando é assim, eu prefiro pecar por excesso. " Vocês viram a carta? O capeta tá aqui, ó, e crianças de 2 anos e meio.
O capeta está aqui, ó, e crianças de 2 anos e meio estão sendo treinadas por esse baralho. >> Dentro até de valores, né, familiares. Como que as pessoas observam isso?
Dona Adriana sabe muito bem disso. Vendo o Boa Noite Brasil e ouvindo o alerta do Gilberto sobre as cartas, ela percebeu que a discórdia entre os dois filhos tinha uma explicação. E >> nós começamos a ligar os fatos, o Gilberto falando de irmãos que nunca havia brigado, irmão menor chutando maior saindo no tapa e começou a falar das figuras que eram demoníacas.
>> A ideia de um outro como símbolo do mal nunca desaparece. apenas muda de forma. Esse impulso de buscar inimigos para justificar medos e ansiedades sempre existiu e sempre existirá, ou pelo menos existirá enquanto as pessoas não aprenderem este mecanismo e saberem identificar para não cairem na cilada.
A figura do diabo tá sempre ali rondando as inseguranças. Veja, por exemplo, os casos recentes de Kon e Pizza Gate. Duas teorias conspiratórias baseadas no nada que alimentaram o pânico satânico e mudaram a política norte-americana.
Ainda mais quando o tema é proteger crianças. Isso te dá uma carta livre para falar o que quiser. Afinal de contas, ninguém faria o mal em nome de crianças.
Não é, não? Não é. Toda a luta contra o contra a ameaça da família é apenas uma nova versão desse pânico.
Nesse momento do vídeo, você pode estar pensando: "Ah, mas isso já ficou no passado. As pessoas não acreditam mais tanto em pânico satânico >> ou será que não? " >> Bom, ao longo do vídeo nós vimos que o monstro social já mudou muito.
E se parar para pensar, o monstro já foi muitas outras coisas. Já foi o vampiro, já foi o lobisomen, já foi o Frankenstein, depois virou o invasor de corpos, nos anos 80 e 90 virou o jovem rebelde. Quando homens eram homens de verdade, eram livres para serem mulheres.
>> Foi de RPG e hoje continua assumindo novas ameaças. Vemos o renascimento do pânico moral quando Pablo Marçal tenta colocar o show da Madonna como satânico. Vemos o pânico satânico quando vemos a comunidade LGBTQ mais sendo atacada como coisa do diabo.
Não é coincidência que à medida que essas questões ganham espaços, surgam novamente os mesmos discursos sobre proteção à família e combate ao mal dos mesmos poderosos tentando enganar as pessoas e controlar os seus medos. Você que fuma maconha vai morrer antes do Natal. Esse site satânico, esse slip do satânico aí, todo mundo sabe que aqui são tem dois laranjas no Brasil que moram no Paraná.
>> Eu poderia escolher muitos exemplos ao longo desse vídeo para ilustrar aquilo que eu tô dizendo, mas eu escolhi falar de coisas como o RPG, porque ele é emblemático pelo nível de irracionalidade que tem aí. a crença de que algo é perigoso simplesmente porque desafio o estatus cor um joguinho. Basta olhar ao nosso redor e perceber como isso tá vivo dentro de nós.
Basta olhar o que foi a eleição do Trump agora ou lembrar de conspirações tipo Kanon, pizza gate que tentam convencer o sujeito de que existe um deep state numa pizzaria escondido para traficar pessoas e tudo mais. É sempre a mesma fórmula. é sempre a mesma fórmula.
Basta então medo, vontade de conquistar, uma minoria para atacar e alguém para liderar esse processo. E isso forma um jeito de contar a história, forma uma narrativa. E por isso, precisamos voltar lá no começo do episódio e falar do poder das narrativas.
[Música] E isso nos traz de volta para cá, para falar da força da narrativa, na força do desejo de acreditar, na força do I want to believe. As histórias que a gente contou nesse vídeo não estão explicando só a sociedade, o mundo ao nosso redor, mas também explicam as nossas reações a esse mundo e a essa sociedade. Quando você compartilha uma narrativa, você tá ajudando a cristalizar a realidade, moldar imaginários.
Se você acredita que um grupo é perigoso e propaga essa ideia, você tá contribuindo para que esse grupo seja destruído socialmente. A história do pânico satânico é, na verdade, a história sobre como narrativas criam, moldam, destróem as realidades. E é por isso que é tão difícil acabar com esses pânicos, esses medos, essas seitas, essas comunidades.
Porque uma vez que a narrativa tá no mundo, uma vez que ela ganha vida própria, ela alimenta-se do medo e da ignorância das pessoas e não tem mais fim, porque elas querem acreditar. Então, para compreender de fato o que tá acontecendo, a gente precisa compreender o mal local. Toda manifestação de mal depende profundamente de geolocalização de cada sociedade.
O pânico satânico dos Estados Unidos tinha como foco os valores americanos. individualismo, prosperidade, ganância, dinheiro, poder. Então, o mal é uma construção cultural, uma resposta local.
Em cada lugar, o mal vai se moldar de maneira diferente. E vivendo no Brasil, ele vai absorver as características brasileiras, vai misturar o neopentecostalismo com a nossa carga de escravidão, com a nossa carga de demonização das religiões de matriz africana. E além da americanização, os ataques a comunistas, a militantes, a ativistas, a professoras, a mulheres, todos na carga do pânico satânico.
Logo, a dinâmica do Satanás no Brasil tem uma constituição própria, uma lei própria que é indissociável da formação e da racionalidade das instituições brasileiras. A versão do diabo Brasil reflete os nossos medos locais. Por exemplo, eu tenho certeza que em algum momento da sua vida você já ouviu que Exu era um demônio do mal, de que macumba e umbanda era coisa de gente ruim.
Isso é projeto político. Isso vem com uma carga histórica de perseguição. Um livro específico, Cabôclos, Exus e Diabos, o livro proibido de Edir Macedo, que eu consegui adquirir para estudar, ler, me chocar e entender o Pânico Satânico brasileiro.
No próximo episódio, então, nós precisamos falar do pânico satânico Brasil. entender neopentecostalismo, intolerância religiosa, a adaptação satânica para cá, a ditadura militar e, é claro, os casos da Xuxa, do fofão, do bebê diabo do ABC. E aí fica a pergunta final.
Quem são os verdadeiros satanistas na história? Os que cultuam um pretenso diabo ou os que usam da sua imagem para justificar ódio e controlar populações com medo? Edir Macedo, Igreja Universal, Neopentecostais.
Eu quero falar com vocês. O próximo vídeo, Pânico Satânico, a brasileira. Você deve estar percebendo que de um tempo para cá a gente tem escrito cada vez mais episódios mais longos, divididos em partes, que é para você consumir melhor, tendo tempo para pensar.
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E aí o verdadeiro mal pode estar à sua espera. Nos vemos em breve. Fique na luz.
É nós. E falous. Pode descer um pouquinho.
Ela se perdeu ela descendo até o chão igual o té. >> É, desceu na boquinha da carraça. [ __ ] >> Dis que eu tenho que conversar com a câmera, né, Renat?
Eu sei que você deixa umas piadas. Essa aqui não tá. Você corta.
É. Oh.