Olá, olá pessoal, sejam muito bem-vindos a mais um episódio do Dialética do Pop aqui no canal Farol Brasil Jones Manuel, onde a gente vai pegar cultura pop, vira do avesso, dá um chacoalhão e quem sabe disso daí saia um pouco de filosofia, teoria crítica, marxismo, psicanálise, eventualmente um meme aqui ou aculará. A conversa hoje é importante e é sobre internet, onde a gente vai falar sobre criadores de conteúdo, enfim, a hipocrisia. Estou eu aqui falando e criticando o mundo dos criadores do conteúdo.
É isso mesmo. Mas calma lá que neste mundo inclui você. É isso mesmo.
Todo mundo nesse mundo dos criadores de conteúdo é de alguma forma, de um jeito ou de outro, criador de conteúdo. Quando seu primo faz um vídeo do seu do gato, quando você faz um story reclamando da vida, mostrando o quanto tá triste, o quanto tá mal e posta uma música e esse tipo de coisa. Quando a sua avó posta o netinho andando ou fazendo uma dancinha engraçada, tudo isso é conteúdo que tá sendo produzido e, portanto, de certa forma, esteja você em qualquer rede social, você é de um jeito ou de outro criador de conteúdo.
E eu obviamente tô aqui filosofando, brincando com a cultura pop, com microfone, luz, webcam, edição, num canal como o Farol Brasil, que é um canal grande. Ou seja, estou aqui com dor nas costas por ficar horas sentados estudando para produzir conteúdo, pensando se vocês vão gostar ou não, ansioso por conta disso, mas produzindo conteúdo e quem sabe produzindo um pouquinho de teoria também. Então vamos conversar sobre o que tudo isso tem a nos dizer, sobre esse fenômeno de que todo mundo e principalmente internet foi tomada por criadores de conteúdo que talvez a gente tenha que desproduzir conteúdo e não produzir tantos conteúdos.
Falei eu, isso aqui, produzindo algum conteúdo, a hipocrisia é incrível, né, gente? O fato é que spoiler não é sobre postar, não é sobre produzir conteúdo diretamente um indivíduo, é sobre um jeito como o capitalismo encontrou de nos fazer trabalhar para ele de graça e por vontade própria. Ou seja, a era da dos criadores de conteúdo é a era de um grande controle do capital sobre as nossas vidas.
Vamos ver como isso se dá. [Música] Antes de mais nada, vamos combinar uma coisa, né? Ninguém pediu para nascer influenciador, pelo menos na minha geração, não.
Ninguém nasceu e disse: "Caramba, eu tenho um grande sonho de ser criador de conteúdo". Isso nem passava na minha cabeça, por exemplo, possivelmente nem passava na cabeça de Jones, não passava na cabeça de um monte de gente que é da minha faixa etária de idade. Hoje em dia até há esse fenômeno, mas estamos nós aqui.
Seja você tendo um canal mais estruturado e produzindo conteúdo de maneira sistemática, como faz Jones, Laura Sabino, Rita Vonrante, Gustavo Gaiofato, eu e etc. Ou você apenas no seu dia a dia, alimentando suas redes sociais, com uma tirada espirituosa numa rede aqui, em outra rede ali, uma foto legal, um vídeo interessante e assim por diante. O fato é que nossa rotina vendendo o nosso peixe, nossa rotina no nosso café da manhã, fazendo o nosso exercício ou até nas angústias e alegrias que a gente compartilha pras pessoas próximas e que nos seguem, que nós nos trocamos informações nas redes sociais, tudo isso virou conteúdo, virou questão de conteúdo na vida, nas redes sociais.
Portanto, a vida virou uma grande timeline. Entrou um grande palco onde um monte de gente tá ali para mostrar a sua vida de uma forma ou de outra. Segundo Bung Chunan, essa é a sociedade do desempenho.
Você não ouviu falar, presta atenção nessa nesse conceito, sociedade do desempenho, que ela vai estar articulada com outros conceitos que vão aparecer daqui a pouco. Aqui não tem necessariamente para o produtor de conteúdo um patrão gritando, não tem fiscalização do tempo, não tem nem a o nível de produtividade que você tem que seguir, mas tem uma força meio que invisível dizendo pra gente postar, produzir algo, responder uma caixinha, responder o inbox, responder a notificação que aparece na tela do celular, olhar os memes, atualizar na treta numa rede social X, Y ou Z. Ou seja, a gente se explora, a gente que se coloca na posição de um sujeito produtivo, produtivo para essas dinâmicas das redes, porque afinal de contas as redes são empresas e elas precisam que as pessoas estejam dentro dela.
E se você está dentro dessas redes, está dentro dessas empresas por livre e espontânea vontade, fazendo isso porque quer, porque gosta, melhor ainda para essas redes. Então, a gente vê muito hoje em dia nas redes gente que não pode ir num açaí, não pode pedir um sushi, não pode pedir uma pizza, não pode ir num passeio, não pode conversar com um amigo, não pode ver um jogo de futebol. E tudo isso tem que ser postado.
Tem que ser postado o açaí, tem que ser postado o sushi, tem que ser postada a conversa, tem que ser postado o encontro. Você só tem existência a partir da postagem. A sua vida só ganha sentido a partir da postagem.
A viagem, você viaja, mas essa viagem só vai ser legal suficiente se você postar a viagem, se as pessoas curtirem aquela foto daquela viagem, se as pessoas verem que você tá viajando para um lugar X, Y e Z, que você tá nadando com baleias, subindo montanhas, fazendo rally, descendo de bicicleta uma montanha, se as pessoas não verem, não valeu, não existiu, não aconteceu. E para você é como se não tivesse acontecido também. E, portanto, isso entra num ciclo onde você vai se obrigando a apostar, a criar, a criar conteúdo para essas redes que precisam dos seus conteúdos para lucrar.
E não só para lucar lucrar, mas para controlar a vida minha, sua e de todos que estão à nossa volta. Apesar disso aparecer como espontaneidade, como autenticidade, como uma forma espontânea da gente registrar os momentos na nossa era, essa espontaneidade, essa autenticidade que de fato não estão excluídas desse ato, mas essa espontaneidade e essa autenticidade, elas são capturadas, coptadas pela própria lógica algorítmica e pela própria lógica de controle do capitalismo na era produção do conteúdo e do algoritmo para fazer com que isso se torne produto, isso se torne mercadoria. E sim, eu sei porque eu também tô nesse barco da maneira mais plena possível, não de uma maneira tão espontânea, muitas vezes de uma maneira bastante sistemática.
Isso se transformou num trabalho. Ou você acha que esse vídeo aqui tá aparecendo no seu feed de maneira completamente aleatória? Não, eu precisei sentar, preparar um roteiro, pesquisar sobre o assunto, ver se esse assunto era relevante, achar que o assunto é relevante e às vezes errar muito feio.
Muitas vezes você pensa num conteúdo que é que é muito legal, mas o algoritmo não entrega e vocês não vão consumir. Outras vezes você faz um vídeo bastante ruim e as pessoas adoram porque é sobre uma treta, porque é sobre um problema muito sério, porque é sobre um espetáculo que tá acontecendo, é sobre o que tá hypando nessa própria lógica e regência algorítmica da qual nós somos vítimas e partícipes diretos também. E o Biung Chunhan ele continua e ele manda uma muito interessante.
Ele diz que a gente saiu da multidão, da era das multidões, das massas, da produção dos das grandes massas, né? você tem todo um debate sobre a psicologia das massas, da produção das massas, passando por Freud, William Heich, Ortega Gé, enfim, todo um debate sobre a produção das massas adorno e assim por diante. e que a gente entrou na era do enxame digital.
Parece o nome de Rave, né? De uma festa psicodélica, tren, sei lá o quê, mas é uma espécie de tragédia do nosso tempo, de tragédia filosófica. no lugar de um coletivo que conversa, que debate, que tem conflito, que tem violência, mas que faz as coisas olho no olho e que, portanto, disso se constrói algo.
Nós temos um monte de gente falando de maneira ultra individualista, ao mesmo tempo para si mesmo e para pequenas bolhas, entrando em pânico pelo próprio engajamento e que não produz nada além do diálogo infrutífero com o seu próprio espelho, né? Com o espelho de cada um. Nós só consumimos aquilo que é espelho do que nós acreditamos.
Nós só consumimos aquilo que é espelho do da da dos nossos valores éticos, morais, políticos, econômicos e assim por diante. E não conseguimos e perdemos de maneira geral enquanto sociedade a capacidade de dialogar, de conversar e de lidar, mesmo que de maneira conflituosa, com a alteridade, com a diferença. Portanto, é como se nós estivéssemos num imenso pátio de escola, gritando todo mundo ao mesmo tempo com megga com megafones, mas esse megafone ele é conectado ao Wi-Fi.
Ninguém nos ouve porque tá todo mundo gritando ao mesmo tempo. ainda que a sensação por nós recebermos eventualmente aqui ali um like, uma palavra de elogiosa, uma confirmação das nossas opiniões, achamos que nós estamos fazendo uma grande transformação dentro desse mundo, influenciando pessoas e todo esse tipo de coisa. Isso não é comunidade, isso não é público, isso é só enxame.
é o algoritmo que, claro, adora o caos, ele ama o caos, ele precisa desse caos, ele precisa que ninguém se ouça, ele precisa que ninguém converse, ele precisa que todo mundo acredite está produzindo algo autêntico, espontâneo, quando na verdade tá produzindo só ferramentais para que esse próprio algoritmo e essa própria governança digital contemporânea produza formas de controlar a subjetividade das pessoas e controlar lá a incapacidade de das pessoas de produzir comunidade. Portanto, não importa o que você diga, não importa o que você fale, não importa o que você mostre, de certa forma no mundo digital, nada choca, nada é antiético, nada é errado, tanto que dê visualizações, o tanto que expanda a bolha, o tanto que gere hype, que gere engajamento e com tanto que alimente as pessoas a estarem cada vez mais dentro das redes sociais e assim assim por diante. Quem diria que a teoria crítica viria pedir socorro aqui numa rede social?
E esse pedido de socorro revela pra gente um problema fundamental de tudo isso. Problema que eu acredito que todo mundo de certa forma passa por ele um pouquinho, porque onde tudo parece constantemente dinâmico, acelerado, veloz, livre, solto, onde tudo que você faz depende única e exclusivamente da sua capacidade criativa e de gestão do seu próprio tempo, seja do produtor de conteúdo como eu, onde realmente tudo depende da minha capacidade criativa, da minha gestão do próprio tempo, da minha gestão de trabalho individual. puramente individual, como vai dizer Augustinho Carrara, né?
Eu sou o patrão, eu sou o meu próprio pregado de mim mesmo, né? Mas também você que tá nas redes e que tá nesse processo de de tá mergulhado por uma lógica algorítmica de certa forma e de certa forma todo mundo tá tá gente, não é somente a pessoa que fica horas e horas, qualquer pessoa que está na internet tá passando por isso. A solução, eu acho que nem passa por sair necessariamente da internet, até porque essa lógica ela tá tomando o campo da materialidade e ela só existe porque o campo da materialidade a sustenta de certa forma.
O fato é que tudo isso tem um custo. Essa liberdade falsa que que as redes nos apresentam. essa liberdade de dizer o que que puder dizer, de expor o que puder expor, de dizer qualquer valor, de dizer qualquer questão, de apontar qualquer imagem, de circular qualquer conteúdo.
Essa liberdade absoluta que a internet falsamente propaga, ela tem um custo e muito pesado. De um lado, as redes usam isso para montar formas de controle social, controle político, controle econômico, como a gente viu, por exemplo, no escândalo mais famoso sobre isso, a Cambridge Analytica, um escândalo importantíssimo onde as redes usaram exatamente a nossa interação com as redes sociais para para traçar perfis políticos e com isso induzir candidatos a da extrema direita a pautarem suas campanhas a partir desses perfis políticos gerados pelas redes. de de tecnologia digital.
Por outro lado, há um efeito subjetivo nas pessoas que consomem esse produto. A comparação constante um com o outro, a pressão de estar sempre presente, sempre se atualizando, sempre interessado, sempre produzindo, sempre informado, sempre assistindo a série do momento, sempre vendo o filme do momento, sempre por dentro do debate do momento, por dentro da rede social do momento, por dentro do reality show do momento. Ou seja, a gente tem que estar sempre o tempo inteiro atualizado, senão a gente não vai conseguir conversar com o nosso grupo de amigos porque a gente perdeu um episódio X da série ou não assiste aquela série em específico ou não viu aquele meme específico, não viu aquela publicação específica ou não viu aquele escândalo específico que rodou no X e fez daquela pessoa que antes seria execrada agora uma nova formadora de uma bolha específica X, Y Z.
O fato é que esse esgotamento não por um acaso, tem o nome em português de como se chama o burnout. Esse cansaço de produzir, esse cansaço de fazer, esse cansaço de estar por dentro, esse cansaço de est atualizado, esse cansaço de estar sempre dentro desse fluxo extremamente dinâmico, acelerado e veloz, que são as redes sociais. Além disso, essa comparação de olharmos pro lado e ver que a outra pessoa consegue se manter bonita, malhando, saudável, estudando, trabalhando, cuidando de casa, fazendo isso, aquilo, aquilo outro, ququanto você tá afundado numa cama, vendo meme, faz com que nós nos sintamos ainda pior.
Afinal de contas, vemos que talvez o problema seja nosso, ou seja, há uma reafirmação daquilo que Mark Fer chama de uma privatização do estresse. As redes sociais, elas são fundamentais para individualizarem de maneira sistemática o indivíduo. Então, se produz uma hiperindividualização a partir da lógica das redes.
O sofrimento de hoje, esse sofrimento que se conecta com essa cultura digital, que se conecta com o mundo virtual, que se conecta com essa regência algorítmica, ele tá ligado a um tipo silencioso e ansioso de existência do ser humano. A nossa existência nesse mundo algorítmico da qual trancamos o quarto e não postamos nada, nós sentimos de maneira profunda isso. É uma forte ansiedade silenciosa.
Não sabemos dizer porque sofremos, mas sabemos apenas sofrer sem dizer nada. O sofrimento de quem se sente, portanto, invisível com 1000 seguidores, com 1500 seguidores, com 900 seguidores. E ninguém tem 900 amigos.
Ninguém precisa de 900 amigos, de 900 colegas para ter uma vida boa, recheada de pessoas e de pessoas incríveis que vão nos acompanhar nos melhores e piores momentos da nossa vida. E quem faz vídeo chorando, mas com uma trilha sonora pop de fundo, para poder fazer com que esse desabafo desse sofrimento seja instagramável, seja moldado pela regência algorítima de alguma forma. A gente então nem a dor vive mais, a gente dita a dor, a verdadeira dor que a gente sente somente sentado na cama, deitado, afundado no sofá, sem conseguir se levantar, essa é completamente silenciada e essa é talvez a verdadeira dor do nosso tempo.
Eu que, enfim, tenho formação e muito ligada à psicanálise, posso dizer, não existe filtro que esconda um sintoma. Por mais que você tente expor nas redes sociais uma forma de lidar com o sofrimento muito madura, se você efetivamente tá afundado nessa lógica de sofrimento ansioso e silencioso que consome o mundo contemporâneo, não vai ter filtro que dê jeito. Mas a gente não pode falar nada disso sem falar do verdadeiro grande influencer por trás de tudo isso, o capitalismo com Wi-Fi.
Você precisa falar de dinheiro, falar de grana para que a gente entenda como é a questão da lógica algorítmica. Você se esforça, você cria conteúdo, você estuda, você posta, você toma cuidado com a estética, você toma cuidado com a imagem, você toma cuidado com o que vai falar, você cria o universo para ser postado, para ser instagramável. E as bigtechs, como Google, Meta, TikTok X, etc.
não leva tão a sério sua produção. O que elas querem de você é a informação do que essas postagens, do que suas interações na redes sociais visam produzir. Elas não querem seu conteúdo, elas querem você.
Elas querem você como produtor de informação. E isso é o fundamental. O que eu tô fazendo aqui que você tá fazendo aqui quando dá o like, quando curte, como quando compartilha, quando se inscreve, quando vira membro e vire e faça tudo isso, por favor, é entregar informações às redes sociais, é entregar informações que são mercadoria.
você produz uma mercadoria valiosa para essas redes, que é a informação. Eu produzo uma mercadoria que é valiosa para essas redes, que é informação. E você que assiste também, a você curtir um vídeo e não outro, a você comentar num vídeo e não no outro, a você a mostrar seus interesses por um assunto, por um, por um tipo de gosto estético, de música, de filme, de série, de, enfim, você mostra, você entrega informação.
Elas são as donas do lugar. Elas estão jogando dentro de casa para usar a metáfora do futebol. Nós estamos jogando no terreno delas.
Você faz o show, mas é elas que vendem o ingresso, é elas que têm a informação. E você falsamente acha que entrou e saiu nesse show de graça. E o mais genial que o capitalismo produziu é que você nem percebe que tá sendo explorado porque você acha que está irritando, porque você acha que tá hypando, porque você acha que tá produzindo um grande conteúdo que tá alcançando muita gente de uma forma ou de outra.
Elas não querem, portanto, o seu conteúdo. Elas querem seu dado, sua emoção, sua reatividade diante dos acontecimentos da vida, do mundo, dos gostos, das preferências e assim por diante. E, portanto, o que o capitalismo quer é produzir uma nova governamentalidade.
Apesar de não só exatamente isso que eu vou explicar, né, que Fou quis dizer quando cunhou esse termo. Gosto de dizer que governamentalidade vem de um governo das mentalidades, né, das formas como a gente produz a subjetividade. E, portanto, de certo modo, essa nova governança do capitalismo neoliberal de rede, ligado essas grandes bigtecs, elas visam criar e já estão criando de maneira muito profunda um verdadeiro controle político subjetivo das pessoas e que controla a subjetividade e a política.
Além do poderio econômico que tem, controla o futuro político, econômico e das próprias pessoas. Portanto, esse é o capitalismo performático da era digital, essa hiperperformance, onde a mínima ação em qualquer acesso da internet produzco, produz uma mercadoria que só existe pela sua presença, seja no campo digital ou não. Como tudo é cada vez mais informatizado, é cada vez mais inescapável se tornar um produtor de conteúdo.
Seja esse conteúdo uma foto, seja esse conteúdo um silencioso like ou troca de conversas que aquela pessoa super low profile e que só entra uma vez a cada 15 dias nas redes faz. E temos que fazer tudo isso, de preferência, transformando nosso sorriso, nossa dor, nosso cachorro, nossa comida, nossa viagem, pô do sol, o nascer do sol, o dia que começamos a namorar com ou a dor de terminar em informação, em dado que se torna mercantilizável e útil para essas bigtechs. Isso é disfaçado sobre uma falsa noção de autenticidade que circula nas redes.
Então, de certa forma, você já tem reparado que a autenticidade virou um produto nas erreas digitais. Hoje, as grandes campanhas de publicidade, elas não destacam necessariamente os produtos. Você não compra o microondas porque ele é melhor.
Você não compra um carro porque ele é mais resistente. Você não compra um celular porque ele é mais durável. Você compra porque ele agrega valor a você.
ele, de certa forma faz com que você se perceba como uma confirmação da sua própria identidade e, portanto, um ser humano mais autêntico. Da mesma forma que a lógica de que nas redes sociais você pode ser si mesmo, porque você pode produzir qualquer conteúdo, você pode postar o que você quiser, você pode falar o que você quiser, você pode dizer o que você quiser, você partilha o que que você quiser. Mas quanto mais isso seja tratado como uma trilha sonora, uma iluminação, um story telling, um cronograma editorial, esse eu espontâneo se torna cada vez mais uma versão 5G e monetizada da autenticidade e da espontaneidade da vida.
Basta ver o quanto tem crescido, por exemplo, os influenciadores de cotidiano. A pessoa acorda e tá lá espontaneamente escovando os dentes para acordar, espontaneamente fazendo um ovo para comer no café da manhã, espontaneamente fazendo exercício. Todos os dias a pessoa posta simplesmente a sua rotina autêntica, espantânea, como se aquilo não tivesse nenhuma preparação prévia, nenhum bastidor prévio, nenhum roteiro prévio e como se aquilo de certa forma não monetizasse essa própria espontaneidade para quem faz o produto e para quem circula o produto, que são as redes sociais.
Então você acorda todo esculhambado com um cabelo parecendo um troll dos anos 90, mas antes de postar o bom dia da vida real, o bom dia espontâneo e autêntico da vida real, você aumenta o brilho, você diminui a oleosidade da pele, você faz isso e aquilo e você chama isso de verdade, de autenticidade. O fato é que na era digital a verdade não é bem uma mercadoria. A verdade, ela não é uma mercadoria valorada.
A aparência da verdade, sim, a aparência da autenticidade, sim. A aparência da estética, sim. E, portanto, nós vivemos uma estetização da verdade, uma estetização da espontaneidade, uma estetização da autenticidade.
Afinal de contas, o objetivo não é falar a verdade, não é ser autêntico, não é ser espontâneo, é engajar até que o cansaço de sertogênico quebre aquele produtor de conteúdo. É o que o Bunch chama de individualização hiperperformática. A gente não é mais explorado, a gente se explora sozinho.
Porque num mundo extremamente precário, onde você não tem empregos, onde você não tem muitas saídas, talvez ser influencer e produzir conteúdo seja o que resta. E, portanto, para isso, você precisa de um corpo editorial, você precisa de produção, você precisa de iluminação, você precisa de edição, você precisa de roteiro, você precisa de uma série de coisas de onde a autenticidade, a espontaneidade passa muito ao largo. Essa ideia, portanto, da autenticidade como um elemento vendável, fundamental na lógica das redes, cria uma nova angústia dos seres humanos.
Não é só o medo de ser suficiente, de não ser suficiente, mas é o medo de não ser autêntico, de ser uma farça de si mesmo. E, portanto, as pessoas estão o tempo inteiro nas redes sociais tentando ser a melhor versão de si mesmas. E não à toa um sociólogo francês que estuda depressão, o Alan Arenberg, ele vai caracterizar a depressão como um cansaço de ser si mesmo.
É aquela pessoa que não aguentando mais esse imperativo de temos que ser nós mesmos, quebra, se afunda e implode. Portanto, a depressão é uma implosão subjetiva. Você precisa ser você mesmo.
É o que nos diz as redes sociais. as redes sociais diz: "Você pode ser o que você quiser, você pode fazer o que você quiser, o tanto que você seja você mesmo. " É isso que engaja as pessoas, a autenticidade, a espontaneidade.
Mas numa versão que renda engajamento, que dê like, que estimule o algoritmo a circular a verdadeira face de você, é o falso selfie versão Instagram, por assim dizer. é a falsidade de um eu espontâneo e autêntico. Pois afinal de contas, na era onde a autenticidade virou uma obrigação e a liberdade de ser si mesmo virou uma um imperativo categórico, ser você mesmo se torna uma falsidade absoluta e por isso o depressivo afunda, pois ele sabe que ele não é ele mesmo.
Mas vem uma pergunta que não quer calar nessa coisa toda. Criador de conteúdo é classe trabalhadora? questão é que depende.
O neoliberalismo, como vai dizer Foucault, ele entende de que todo mundo é uma empresa. Ele é subjetivamente uma empresa. No ator, ele vai chamar os sujeitos de empresários de si mesmo.
No Brasil a gente tem um excelente nome para isso, né, que é o nome da revista VocêSa. Portanto, você não é só você mesmo enquanto pessoa. Você é você mesmo como pessoa, mas que se percebe, que se gere, se entende no mundo, nas suas relações, como produtora de valor, produtor de algo a ser consumível, seja nas relações pessoais, seja no amor, seja no trabalho e assim por diante.
Você é um projeto, você é uma startup de si mesmo, você é um pit ambulante que o tempo inteiro precisa vender a si mesmo para converter a a atenção que você precisa angarear para existir em capital simbólico ou material. E se dê sorte, transformar esse capital material e simbólico em pigs, em dinheiro, em uma série de coisas. Você não é, portanto, explorado no sentido clássico marxista.
Você é um empreendedor de si mesmo. Você tecnicamente não trabalha para ninguém. Você trabalha para um algoritmo que basicamente toma a nossa subjetividade se transformando numa espécie de superego de nós mesmos, fazendo com que haja um chefe invisível que, apesar de aparentar a liberdade para você, julga suas dancinhas, seus conteúdos, seus roteiros, sua edição, principalmente quando não dá muito certo, principalmente quando não agrada muito, principalmente quando gera a versão das pessoas, esse juiz será muito pesado E, portanto, uma das características do sofrimento contemporâneo é justamente essa sensação de insuficiência de fazer as coisas.
O problema é que tudo isso parece liberdade, mas era só prisão, como vai dizer uma música da época, da minha época de engenheiros do Havaí. Parece liberdade, mas na verdade são só as grades da prisão. Você não trabalha, portanto, numa lógica de liberdade, mas essa liberdade, a própria noção de liberdade que circula no mundo contemporâneo, ela mesma realiza uma opressão.
E, portanto, é uma liberdade dialeticamente estranha. Ela guarda uma estranheza. Que estranheza é essa?
a estranheza de que quanto mais somos livres dentro dessa lógica, mais aprisionados nós estamos dentro dessa lógica. Ainda que a gente ache que está sendo livre, pois o que é vendido como liberdade é a liberdade desse mundo, do mundo da produção infinita, que é a produção de conteúdo impôs a gente. O problema, tanto de poder tudo, desde que se performe bem, de que se converta em dados, de que se entre no jogo, é que esse jogo não é neutro.
É ele quem define o que é liberdade, o que é bom, o que é legal, o que engaja e assim por diante. E esse ele são as bigtechs com regras feitas por bilionários de camisa preta fazendo dancinhas ridículos e se envolvendo com a extrema direita. Então sim, de certa forma, de outro ângulo, o criador de conteúdo também é um trabalhador do nosso tempo.
Ele é um trabalhador com tendência ou vocação ao burnout. mas não por uma espécie de excepcionalidade da sua atividade produtiva, mas porque ele, como todos os outros trabalhadores do seu tempo, vivem numa época em que o trabalhador vivencia essa vocação para o cansaço, para a angústia, para o sofrimento de se viver numa alta dose de exploração, de dominação, seja ela direta ou indireta. Então sim, o produtor de conteúdo é um trabalhador.
Ele acha, como os outros trabalhadores, que podem realizar o seu sonho, que pode conseguir uma saída pros seus problemas, mas no fundo ele só tá produzindo conteúdo em looping, um atrás do outro, pro deleite de uma presa de bigtech qualquer que riqu muitíssimo com tudo que tá sendo feito. Todos que participam da rede, eu, você, Jones, todo mundo tá sendo escravizado por essa lógica algorítmica. Respira.
Eu não tô dizendo que é você tem que largar tudo, que eu tenho que largar tudo, que tem que deletar suas contas e virar uma espécie de eremita virtual. Mas a gente precisa ter consciência desses problemas, criar laço, não só conteúdo, usar a rede e não só ser usado por ela para tentar subverter o que der dentro dos limites por dentro. Ainda que eu saiba que esses limites são enormes.
Traduzir conversa e não só barulho. Tanto saber ouvir e lidar com a diferença, não só com o eco da mesma opinião que nós con. Talvez o futuro seja menos em viralizar, muito mais em a gente produzir encontros, em construir espaços onde a gente possa rir, pensar, questionar, discordar, discutir, brigar, romper, voltar e quem sabe filosofar junto.
Se você ficou até aqui, então já sabe, curte, comenta, compartilha, manda um gif, solta se você já teve uma crise de conteúdo, por existência nas redes sociais, porque afinal de contas fazer esse vídeo dentro de uma rede social pedindo like é o ápice da minha hipocrisia nas redes sociais. Sim. Simbora, minha gente.