Vidas Secas romance de Graciliano Ramos diretor de dublagem Gustavo Lisboa Capítulo 13 fuga a vida na fazenda se tornara difícil sim a Vitória benzia se tremendo manejava o Rosário mexia os beiços rezando rezas desesperadas encolhido no banco do copiar Fabiano espiava a catinga amarela onde as folhas secas se pulverizavam trituradas pelos redemoinhos e os garranchos se torciam negros torrados no céu azul as últimas arribações tinham desaparecido pouco a pouco os bichos afinavam devorados pelo carrapato e Fabiano resistia pedindo a Deus um milagre mas quando a fazenda se despovou viu que tudo estava perdido combinou a
viagem com a mulher matou o bezerro morrendo que possuíam salgou a carne largou-se com a família sem se despedir do ano não poderia nunca liquidar aquela Dívida exagerada só lhe restava jogar-se ao mundo como negro fugido saíram de madrugada sem a Vitória meteu o braço pelo buraco da parede e fechou ponta da frente com a caramela atravessaram o pátio deixaram na escuridão o chiqueiro e o Curral vazios de Porteiras abertas o carro de bois que apodrecia o juazeiros ao passar junto as pedras onde os meninos atiravam cobras mortas sim a Vitória lembrou-se da cachorra baleia
chorou mas estava invisível e Ninguém percebeu o choro desceram a ladeira atravessaram Rio Seco tomaram rumo para o sul com a fresca da madrugada andaram bastante em silêncio quatro sombras no caminho estreito coberto de seixos Miúdos os meninos à frente conduzindo trouxas de roupas sem a vitória sobre o baú de folha pintada e acabasse de água Fabiano atrás de facão de rasto e faca de ponta a cuia pendurada por uma Correia amarrada ao cinturão a espingarda de pederneira no ombro o saco da Mata lotagem no outro caminharam bem três Léguas antes que a barra do
Nascente aparecesse fizeram alto e Fabiano depois no chão parte da carga olhou o céu as mãos empala na testa arrastaram-se até ali na Incerteza de que aquilo fosse realmente mudança retardar-se e repreender os meninos que se adiantavam aconselhar aos poupar forças a verdade é que não queria afastar-se da fazenda a viagem parecia ele sem jeito nem acreditava nela preparar a lentamente adiara tornar a prepará-la e só se resolver a partir quando estava definitivamente perdido podia continuar a viver num cemitério nada eu aprendi aquela terra dura acharia um lugar menos seco para enterrar-se era o que
Fabiano dizia pensando em coisas alheias o chiqueiro e o Curral que precisavam conserto o cavalo de fábrica bom companheiro a égua alazão as catingueiras as panelas de losna as pedras da cozinha a cama de e os pés deles mereciam as alpercatas calavam-se na escuridão seria necessário largar tudo as alpercatas chiavam de novo no caminho coberto de seixos agora Fabiano examinava o céu a barra que atingiu nascente e não queria convencer-se da realidade procurou distinguir qualquer coisa diferente da vermelhidão que todos os dias espiava com o coração a os Baques as mãos grossas por baixo da
Aba curva do Chapéu protegiam-lhe os olhos contra a claridade e tremiam os braços penderam desanimados acabou-se antes de olhar o céu já sabia que ele estava negro num lado cor de sangue no outro e ia tornar-se profundamente Azul estremeceu Como Se descobrisse uma coisa muito ruim desde o aparecimento das arribações vivia desassossegado trabalhava demais para não perder o sono mas no meio do serviço um arrepio corria ali no espinhaço à noite acordava agoniado e encolhia-se num canto da cama de varas mordido pelas Pulgas conjecturando misérias a luz Aumentou e espalhou-se na Campina só aí principiou
a viagem Fabiano tentou na mulher e nos filhos apanhou a espingarda e o saco dos mantimentos ordenou a marcha com uma interjeição áspera pingarda e o saco dos mantimentos ordenou a marcha com uma interjeição áspera afastaram-se rápidos como se alguém os tangesse e as alpercatas de Fabiano iam quase tocando os calcanhares dos meninos a lembrança da cachorra baleia picavam intolerável não podia livrar-se dela os mandacarusos alastrados vestiam a Campina espinho só Espinho e baleia aperrear precisava fugir daquela são inimiga os meninos corriam sim a Vitória procurou com a vista o Rosário de contas brancas e
azuis arrumado entre os peitos mas com o movimento que fez o baú de folha pintada ia caindo aprumou-se e em direitou o baú remexeu os beiços numa oração Deus nosso senhor protegeria os inocentes sim a Vitória fraquejou uma ternura imensa em shell-lhe o coração reanimou-se tentou libertar-se dos Pensamentos tristes e conversar com o marido por monossílabos apesar de ter boa ponta de língua sentia um aperto na garganta e não poderia explicar-se mas achava-se desamparada e miúda na solidão necessitava um apoio alguém que lhe desse coragem indispensável ouvir qualquer som amanhã sem pássaros sem folhas e
sem vento progredir não silêncio de morte a faixa vermelha desaparecera diluir assim no azul que enchia o céu sim a Vitória precisava falar se escalada seria como um pé de Mandacaru secando morrendo queria enganar-se gritar dizer que era forte e a quentura medonha as árvores transformadas em garranchos a imobilidade e o silêncio não valiam nada chegou-se a Fabiano amparou e amparou-se esqueceu os objetos próximos os espinhos as arribações os urubus que farejavam carniça falou no passado confundiu com o futuro não poderiam voltar a ser o que já tinham sido Fabiano hesitou resmungou como fazia sempre
que ele dirigiam palavras incompreensíveis mas Achou bom que sim a Vitória tivesse puxado conversa ia num desespero o saco da comida e o maior começavam Apesar excessivamente sim a Vitória fez a pergunta Fabiano matou e andou bem meia Légua sem sentir a princípio quis responder que evidentemente eles eram que tinham sido depois achou que estavam mudados mas velhos e mais fracos outros para bem dizer sim a Vitória insistiu não seria bom tornarem a Viver Como tinham vivido muito longe Fabiano agitava a cabeça vacilando talvez fosse talvez não fosse cochicharam uma conversa longa e entrecortada cheia
de Mal entendidos e repetições viver como tinham vivido numa casinha protegida pela bolandeira de seu Tomás discutiram e acabaram reconhecendo que aquilo Não valeria a pena porque estariam sempre assustados pensando na seca aproximavam-se agora dos lugares habitados haveriam de achar morada não andariam sempre à toa como ciganos o vaqueiro ensombrava-se com a ideia de que se dirigia a terras onde talvez não houvesse gado para tratar sim a Vitória tentou sossegá-lo dizendo que ele poderia entregar se há outras ocupações e Fabiano estremeceu voltou-se estirou os olhos em direção à Fazenda abandonada recordou-se dos animais feridos e
logo afastou a lembrança que fazia ali virado para trás os animais estavam mortos em carquilhou as pálpebras contendo as lágrimas uma grande saudade espremeu-lhe o coração mas um instante depois vieram-lhe ao Espírito figuras insuportáveis o patrão o soldado Amarelo a cachorra baleia interessada junto às pedras do fim do pátio os meninos sumiam-se numa curva do caminho Fabiano adiantou-se para alcançá-los era preciso aproveitar a disposição deles deixar que andassem à vontade sim a Vitória acompanhou o marido chegou-se ao S filhos dobrando o cotovelo da estrada Fabiano sentia distanciar-se um pouco dos lugares onde tinha vivido alguns
anos o patrão o soldado amarelo e a cachorra baleia esmoreceram no seu espírito e a conversa recomeçou agora Fabiano estava meio otimista em direito ou o saco da comida examinou o carnudo e as pernas grossas da mulher bem desejou fumar como segurava a boca do saco e a Coronha da espingarda não pode realizar o desejo tem meu arriar não prosseguir na caminhada continuou a tagarelar agitando a cabeça para afugentar uma nuvem que vista de perto escondia o patrão o soldado amarelo e a cachorra baleia os pés casos duros como cascos metidos e mal percatas novas
caminhariam meses ou não caminhariam Sim a Vitória achou que sim Fabiano agradeceu a opinião dela e acabou-lhe as pernas grossas as nádegas volumosas os peitos cheios as bochechas de sim a Vitória avermelharam-se e Fabiano repetiu com o entusiasmo o elogio era estava boa estava taluda poderia andar muito sem a Vitória Rio e baixou os olhos não era tanto como ele dizia não dentro de pouco tempo estaria magra de seios Bambus mas recuperaria carnes e esse lugar para onde iam fosse melhor que os outros onde tinham estado Fabiano estirou o beiço duvidando tinha Vitória combateu a
dúvida porque não haveriam de ser gente possuir uma cama igual a de seu Tomás da bolandeira Fabiano franziu a testa Lavínia os despropósitos sim a Vitória insistiu e dominou porque haveriam de ser sempre desgraçados fugindo no mato como bichos com certeza existiam no mundo Coisas extraordinárias podiam viver escondidos como bichos Fabiano respondeu que não podiam o mundo é grande realmente para eles era bem pequeno mas afirmavam que era grande e marchavam meio confiado meio inquietos olharam os meninos que olhavam os montes distantes onde havia seres misteriosos em que estariam pensando a Vitória Fabiano estranhou a
pergunta e rosnou uma objeção menino é bicho miúdo não pensa mas sim a Vitória renovou a pergunta e a certeza do marido abalou-se ela devia ter razão tinha sempre razão agora desejava saber que iriam fazer os filhos quando crescessem vaquejada opinou Fabiano tinha Vitória com uma careta enjoada Balançou a cabeça negativamente arriscando-se a derrubar o baú de folha Nossa Senhora os livrasse de semelhante desgraça vaquejar que ideia chegariam a uma terra distante esqueceriam a catinga onde havia Montes baixos cascalho Rios secos espinho urubus bichos morrendo gente morrendo não voltariam nunca mais resistiriam a saudade que
ataca o sertanejos na mata então eles eram bois Para Morrer tristes por falta de espinhos fixar-se iam muito longe adotaria um costumes diferentes Fabiano ouviu os sonhos da mulher deslumbrado relaxou os músculos e o saco da comida escorregou-lhe no ombro aprumou-se de um puxão a carga a conversa de sim a Vitória servirá muito haviam caminhado Léguas quase sem sentir de repente veio a fraqueza deveria ser fome Fabiano cabeça piscou os olhos por baixo da Aba Negra e queimada do Chapéu de Couro meio-dia pouco mais ou menos baixou os olhos encadeados procurou descobrir na planície uma
sombra ou sinal de água estava realmente com um buraco no estômago em direitou o saco de novo e para conservá-lo em equilíbrio andou o pedido um ombro alto outro baixo o otimismo de sim A Vitória já não lhe fazia a moça ela ainda se agarrava a fantasia Coitada armar semelhantes planos assim Bamba o peso do Baú e da cabaça enterrando-lhe o pescoço no corpo foram descansar sobre os garranchos de uma Quixabeira mastigaram punhados de farinha e pedaços de carne beberam na cuia uns goles de água na testa de Fabiano o suor secava misturando-se a poeira
que enchia as rugas fundas em bebendo-se na correia do Chapéu a tontura desaparecera o estômago sossegar quando partissem acabasse Não envergaria o espinhaço de sim a Vitória instintivamente Procurou no descampado indício de fonte se achassem água ali por perto beberiam muito sairiam cheios arrastando os pés Fabiano comunicou Isto assim a Vitória e indicou uma depressão do terreno era um bebedouro não era sim a Vitória estirou o beiço indecisa e Fabiano afirmou que Havia perguntado então ele não conhecia aquelas paragens estava a falar variedades se a mulher tivesse concordado Fabiano arrefeceria pois lhe faltava a convicção
como sim a Vitória tinha dúvidas Fabiano exaltava-se procurava em curtir e coragem inventava o bebedouro descrevia mentia sem saber que estava mentindo e sim a Vitória excitava se transmitia lhe esperanças andavam por lugares conhecidos qual era o emprego de Fabiano tratar de bichos explorar os arredores no lombo de um cavalo e ele explorava tudo para lá dos Montes afastados havia outro mundo o mundo mas para cá na planície tinha de cor plantas e animais buracos e pedras os meninos deitaram-se e Pegaram no sono sim a Vitória pediu o binga ao companheiro e acendeu o cachimbo
Fabiano preparou um cigarro por enquanto estavam sossegados o bebedouro indeciso tornar a se realidade voltaram a cochichar projetos as fumaças do cigarro e do cachimbo misturaram-se Fabiano insistiu nos seus conhecimentos topográficos falou no cavalo de fábrica e ia morrer na certa um animal tão bom se tivesse vindo com eles transportaria a bagagem algum tempo comeria a folha secas mas Além dos Montes encontraria alimento Verde infelizmente pertencia ao fazendeiro e definhava sem ter quem lhe desse a razão e a morrer o amigo lazarento e com esparadões num canto de cerca vendo os urubus chegar em banzeiros
saltando os bicos ameaçando-lhe os olhos a lembrança das aves medonhas que ameaçavam com os bicos pontudos os olhos de criaturas vivas horrorizou Fabiano Se elas tivessem paciência comeriam tranquilamente a carniça não tinham paciência aquelas pestes Vorazes que voavam lá em cima fazendo curvas testes voavam sempre não se podia saber donde vinha tanto urubu pestes Olhou as sombras movediças que enchiam a Campina talvez estivessem fazendo círculos em redor do pobre cavalo esmorecido num canto de cerca os olhos de Fabiano Se obedeceram coitado do cavalo estava magro pelado Faminto e arredondavam os olhos que pareciam de gente
pestes o que indignava Fabiano era o costume que os miseráveis tinham de atirar picadas ao os olhos de criaturas que já não se podiam defender ergueu-se assustado como se os bichos tivessem descido do céu azul e andassem ali perto não vou baixo fazendo curvas cada vez menores em torno do seu corpo de sim a Vitória e dos meninos sim a Vitória percebeu-lhe a inquietação na cara torturada e levantou-se também acordou os filhos arrumou os picoás Fabiano retomou o carrego sim a Vitória desatou-lhe a correia presa ao cinturão tirou a cuia e emborcou-a na cabeça do
menino mais velho sobre uma rodilha de mulambos em Pois uma trouxa Fabiano aprovou o arranjo sorriu Esqueceu os urubus e o cavalo sim senhor que mulher assim ele ficaria com a carga aliviada e o pequeno teria um guarda-sol o peso da Cuia era uma insignificância mas Fabiano achou-se leve pisou Rijo e encaminhou-se ao bebedouro chegariam lá antes da noite beberiam descansariam continuariam a viagem com o luar tudo isso era duvidoso mas adquiria a consistência e a conversa recomeçou Enquanto o Sol descamava tenho comido Toicinho com mais cabelo declarou Fabiano desafiando o céu os espinhos e
os urubus não é murmurou sim a vitória sem perguntar apenas confirmando o que ele dizia Pouco a Pouco uma vida nova ainda confusa se foi esboçando acomodasse iam num sítio pequeno o que parecia difícil a Fabiano criado solto no mato cultivaria um pedaço de terra mudar-se iam depois para uma cidade e os meninos frequentariam escolas seriam diferentes deles sim a Vitória esquentava-se Fabiano ria tinha desejo de esfregar as mãos agarradas a boca do saco e a Coronha da espingarda de pederneira não sentia a espingarda o saco as pedras miúdas queria entravam nas alpercatas o cheiro
de carniças que impestavam o caminho as palavras de sim a Vitória encantavam-no iriam para adiante alcançariam uma terra desconhecida Fabiano estava contente e acreditava nessa terra porque não sabia como ela era nem onde era repetia dócil mente as palavras de sim a Vitória as palavras que sim a Vitória amor morava porque tinha confiança nele e andavam para o sul metidos naquele sonho uma cidade grande cheia de pessoas fortes os meninos em escolas aprendendo coisas difíceis e necessárias eles dois velhinhos acabando-se como uns cachorros inúteis acabando-se como baleia que iriam fazer retardaram-se temerosos chegariam a uma
terra desconhecida e civilizada ficariam presos nela e o sertão continuaria a mandar gente para lá