vida seca um romance de Graciliano Ramos diretor de dublagem Gustavo Lisboa Capítulo 4 sim a Vitória a cocorada junto às pedras que serviam de trempe a saia de ramagens entalada entre as coxas sim a Vitória soprava o fogo uma nuvem de Cinza voou dos tições e cobriu-lhe a cara a fumaça inundou-lhe os olhos o Rosário de contas brancas e azuis desprendeu-se do Cabeção e bateu na panela sim a Vitória limpou as lágrimas com as costas das mãos em carquelhou as pálpebras meteu o Rosário no seio e continuou a soprar com vontade enchendo muito as bochechas
Labaredas lamberam as achas de Angico esmoreceram tornaram a levantar-se e espalharam-se entre as pedras sem a Vitória aprumou o espinhaço e agitou o abano uma chuva de faíscas mergulhou num banho luminoso a cachorra baleia que se enroscava no calor e cochilava em balada pelas emanações da comida sentindo a deslocação do ar e a crepitação dos gravetos baleia despertou retirou-se prudentemente receosa de sapecar o pelo e ficou observando maravilhadas estrelinhas vermelhas que se apagavam antes de tocar o chão aprovou com um movimento de cauda aquele fenômeno e desejou expressar a sua admiração a dona chegou-se a
ela em saltos curtos ofegando ergueu-se nas pernas traseiras imitando gente mas sim a Vitória não queria saber de elogios a renda de um pontapé na cachorra que se afastou humilhada e com sentimentos revolucionários sim a Vitória tinha amanhecido nos seus azeites fora de propósito dissera ao marido mas inconveniências a respeito da cama de varas Fabiano que não esperava semelhante Desatino apenas gronira e a minha cara porque realmente mulher é bicho difícil de entender deitar assim na rede e pegar no sono sim a Vitória andará para cima e para baixo procurando em que desabafar como achasse
tudo em ordem queixar-se da vida e agora vingava sem baleia dando-lhe um pontapé a vizinha ou se da janela abaixo da cozinha viu os meninos entretidos no Barreiro sujos de lama fabricando bois de Barro que secavam ao sol sobre o pé de turco e não encontrou o motivo para repreendê-los pensou de novo na cama de varas e mentalmente xingou o Fabiano dormiam naquilo tinham se acostumado mas seria mais agradável dormir em uma cama de lastro de couro como outras pessoas fazia mais de um ano que falava nisso ao marido Fabiano a princípio concordar com ela
mastigar a cálculos tudo errado tanto para o couro tanto para a armação bem poderiam adquirir o móvel necessário economizando na roupa e no querosene sim a Vitória responder a que isso era impossível porque eles vestiam mal as crianças andavam nuas e recolheram-se todos ao anoitecer para bem dizer não se acendiam candieiros na casa tinham discutido procurado cortar outras despesas Como não se entendessem sim a Vitória alistira bastante azeda ao dinheiro gasto pelo marido na feira com jogo e cachaça ressentido Fabiano condenara os sapatos de verniz que ela usava nas festas caros e inúteis calçada naquilo
trópica mexia-se como um papagaio era ridícula sim a Vitória ofender a ser gravemente com a comparação e se não fosse o respeito que Fabiano lhe inspirava teria despropositado efetivamente os sapatos apertavam-lhe os dedos faziam licá-los equilibrava-se mal tropeçava manquejava trepada no salto de meio palmo devia ser ridícula mas a opinião de Fabiano entristecerá muito desfeitas essas nuvens curtidos os de sabores a cama de novo lhe aparecera no horizonte acanhado agora pensava nela de mau humor julgava inatingível e misturava as obrigações da em casa foi a sala passou por baixo do Punho da rede onde Fabiano
roncava tirou do caritol cachimbo e uma pele de fumo saiu para o copiar o chocalho da vaca laranja te limpou para os lados do Rio Fabiano era capaz de se ter esquecido de curar a vaca laranja quis acordá-lo e perguntar mas distraiu-se olhando os xique-xiques e os mandacarus que a voltavam na Campina um mormaço levantava-se da terra queimada estremeceu lembrando-se da seca o rosto Moreno desbotou os olhos pretos arregalaram-se diligenciou afastar a recordação temendo que ela virasse realidade resolve o baixinho uma ave maria já tranquila a atenção desviada para um buraco que havia na cerca
do chiqueiro das Cabras esfarelou a pele de fumo entre as palmas das mãos grossas encheu o cachimbo de Barro foi consertar a cerca voltou circulou a casa atravessando o cercadinho do Oitão entrou na cozinha é capaz de ter se esquecido da vaca laranja agachou-se atuou o fogo apanhou uma Brasa com a colher acendeu o cachimbo Poxa chupar o canudo de Taquari cheio de sarro jogou longe uma cruz parada que passou por cima da janela e foi cair no terreiro preparou-se para cuspir novamente por uma extravagante Associação relacionou Esse ato com a lembrança da cama se
o corpo alcançasse O terreiro a cama seria comprada antes do fim do ano encheu a boca de saliva inclinou-se e não conseguiu o que esperava fez várias tentativas inutilmente o resultado foi secar a garganta ergueu-se desapontada besteira aquilo não valia aproximou-se do canto onde o pote ser guia numa Forquilha de Três Pontas bebeu um caneco de água água salobra Ixi isto lhe sugeriu duas imagens quase simultâneas que se confundiram e neutralizaram panelas e bebedouros encostou o fura bolos da testa indecisa em que estava pensando olha o chão concentrada procurando recordar-se viu os pés chatos largos
os dedos separados de repente as duas ideias voltaram o Bebedouro secava a panela não tinha sido temperada foi levantar o texto recebeu na cara vermelha é uma baforada de vapor não é que ia deixando a comida esturrar pôs água nela e remexeu-a com a preta de coco em seguida provou o caldo em sócio nem parecia boia de Cristão chegou-se ao geral onde se guardavam cumbucos e mantas de carne abriu a mochila de sal tirou um punhado jogou na panela agora pensava no Bebedouro onde havia um líquido escuro que bicho enjeitava só tinha medo da seca
olhou de novo os pés espalmados efetivamente não se acostumava a calçar sapatos mas o reboque Fabiano molestara pede papagaio isso mesmo sem dúvida matuto anda assim para que fazer vergonha a gente arreliava-se com a comparação pobre do Papagaio viajar com ela na gaiola que balançava em cima do Baú de folha gaguejava meu louro era o que sabia dizer fora isso aboiava remedando Fabiano e latia como baleia coitado sim a Vitória nem queria lembrar-se daquilo esquecer a vida antiga era como se tivesse nascido depois que chegar a fazenda a referência ao S sapatos abrirá uma ferida
e a viagem reaparecer as alpercatas dela tinham sido gastas nas pedras cansada meio morta de fome carregava o filho mais novo o baú e a gaiola do Papagaio Fabiano era ruim mal agradecido Olhou os pés novamente pobre do louro na beira do rio mataram por necessidade para sustento da família naquele momento ele estava zangado fitava na cachorrinha as pupilas sérias e caminhava a os tombos como os matutos em dias de festa para que Fabiano foram despertar-lhe aquela recordação chegou a porta Olhou as folhas amarelas das catingueiras suspirou Deus Não havia de permitir outra desgraça agitou
a cabeça e procurou ocupações para entreter-se tomou a cuia grande encaminhou-se ao Barreiro encheu de água o Caco das Galinhas em direito ao poleiro em seguida foi ao quintalzinho regar os craveiros e as panelas de losna e botou os filhos para dentro de casa que tinha um barro até nas meninas dos olhos repreendeu safadinhos porcos sujos como deteve-se ia dizer que eles estavam sujos como papagaios Os Pequenos fugiram foram enrolar-se na esteira da sala por baixo do caritó e sim a Vitória voltou para junto da Tramp reacender o cachimbo a panela cheiava um vento morno
empoeirado de aranha e as cortinas de puc humano teto baleia sob o Girau coçava-se com os dentes e pegava moscas ouviam-se distintamente os roncos de Fabiano com passados e o ritmo deles influiu nas ideias de sim a Vitória Fabiano roncava com segurança provavelmente não havia perigo a seca devia estar longe outra vez sem a Vitória pois se a sonhar com a cama de lastro de couro mas o sonho se ligava a recordação do papagaio e foi ele preciso um grande esforço para isolar o objeto do seu desejo tudo ali era estável seguro o sono de
Fabiano o fogo que estalava o toque do chocalhos até o zumbido das Moscas davam-lhe sensação de firmeza e repouso ou tinha de passar a vida inteira dormindo em varas bem no meio do Catra e havia um nó um calombo grosso na madeira e ela se encolha num canto o marido no outro não podiam tirar-se no centro a princípio não se incomodar Bamba moída de trabalhos deitar-se empregos Viera porém um começo de prosperidade comiam engordavam não possuíam nada se se retirassem levariam a roupa a espingarda o baú de folha e troços Miúdos mas iam vivendo na
graça de Deus o patrão confiava neles e eram quase felizes só faltava uma cama era o que aperreava sem a Vitória como já não se estasava em serviços pesados gastava um pedaço da noite parafusando e o costume de encafar-se ao escurecer não estava certo que ninguém é galinha nesse ponto as ideias de sim a Vitória seguiram outro caminho que pouco depois foi desembocado no primeiro não era que a raposa tinha passado no rabo a galinha pedrês logo a pedrez a mais gorda decidiu arrumar um mundel perto do poleiro encolerizou-se a raposa pagaria a galinha pedrês
ladrona pouco a pouco a zanga se transferiu os roncos de Fabiano eram insuportáveis não havia homem que roncasse tanto era bom levantar-se e procurar uma vara para substituir aquele pau amaldiçoado que não deixava uma pessoa virar-se porque não tinham removido aquela vara incômoda suspirou não conseguiam tomar resolução paciência era melhor esquecer o Nó e pensar numa cama igual a de seu Tomás da bolandeira se eu tomasse tinha uma cama de verdade feita pelo Carpinteiro o mestrado de sucupira alisado em Jó com as juntas abertas a formão tudo embutido direito e um couro cru em cima
bem mexicado e bem empregado ali podia um cristãos tirar os ossos se vendesse as galinhas e amarram infelizmente a excomungada raposa tinha comido a pedrês a mais gorda precisava dar uma lição A Raposa e armar o mundel junto do poleiro e quebraram o espinhaço daquela sem vergonha ergueu-se foi a camarinha procurar qualquer coisa voltou desanimada e esquecida onde Tinha a cabeça sentou-se na janela baixa da cozinha desgostosa venderia as galinhas e amarram deixaria de comprar querosene inútil consultar Fabiano que sempre se entusiasmava arrumava projetos esfriava logo e ela fazia a testa espantada certa de que
o marido se satisfazia com a ideia de possuir uma cama sim a Vitória desejava uma cama real de couro e Sucupira igual a de seu Tomás da bolandeira