O vírus do porquê quando a sua vida um TCC sobre nada. Deixa eu adivinhar. Um dia na sua vida, com certeza você tava vivendo a sua vida.
Talvez num domingo, o sol batendo na janela, o cheiro de café no ar, a playlist de vibes boas tocando bem baixinho, tudo perfeitamente medíocre, no bom sentido, é claro, nenhum boleto vencendo, nenhuma notificação de treta no seu celular, totalmente paz. E aí do nada, vindo das profundezas do seu cérebro desocupado, a pergunta pousa como um urubu na sua cabeça. Mas para quê?
Para que esse trabalho que paga as contas, mas não me preenche? Para que essa relação que é confortável, mas não parece um roteiro de Hollywood. Para que acordar amanhã e fazer tudo de novo?
Pronto, você foi infectado. E isso daí é o que eu chamo de vírus do porquê. Ele não tem sintoma físico, não te dá febre, não dá tosse, o estrago é interno.
Ele transforma cada pequena decisão numa banca de TCC. Por que eu tô comendo esse pão com manteiga? Ele nutre meu propósito final ou é só um prazer efêmero que me distrai da minha missão na Terra?
Meu Deus. É só um pão. Mas o vídeo já se espalhou.
Ele te convence de que tudo, absolutamente tudo, precisa ter um significado épico, uma justificativa que venha com Ted Talk. E o pior disso é que a gente se sente inteligente para caramba fazendo isso. A gente olha pro lado, vê nosso vizinho feliz porque conseguiu plantar umas flores no jardim e pensa com um ar de superioridade.
Coitado, vive na superficialidade. Eu não. Eu tô em crise.
Eu sou profundo. Profundo? Você não é profundo.
Você tá se afogando numa poça de angústia que você mesmo encheu. A gente romantiza a crise existencial como se ela fosse um atestado de que elevado. E não é.
É um atestado de que você tem tempo livre demais e caiu na armadilha de achar que a vida precisa de um manual de instruções assinado e carimbado pelo cosmos. A verdade é que essa busca incessante pelo porqu maior não te move pra frente, ela te paralisa. Você fica esperando a motivação divina, o alinhamento dos planetas, um sinal de fumaça do universo dizendo: "Agora vai, é seu, esse é o seu propósito.
" Enquanto isso, a vida tá acontecendo. A louça tá acumulada na pia, as oportunidades estão passando e você tá aí sentado no sofá, o grande pensador do século elaborando uma tese sobre o vazio. A sua vida não é um TCC, não vai ter uma banca examinadora no final para te dar uma nota.
O único resultado dessa paralisia é um grande retumbante não apresentado. Você se torna um especialista em prólogos, mas nunca escreve o primeiro capítulo. Então você continua aí com seu diploma de doutor em questionamentos inúteis, esperando uma resposta que nunca vai chegar.
A gente foi ensinado que essa busca é nobre, mas e se ela for só a forma mais sofisticada de procrastinação que existe? A desculpa perfeita para não fazer [ __ ] nenhuma. O buffet de propósitos prontos.
Então o vírus do porquê te deixou paralisado e faminto. E o que que uma pessoa faminta faz? Procura comida.
Mas em vez de aprender a cozinhar, você corre pro restaurante mais famoso da cidade, o buffet de propósitos prontos. A entrada é grátis, o marketing é impecável e sempre tem lugar na mesa. Então você entra e fica maravilhado.
As opções brilham sob uma luz quente e convidativa. E no começo da fila, a especialidade da casa. Sucesso corporativo ao molho de burnout.
Parece suculento. Um filé de cargo com nome em inglês, guarnecido com bônus anuais e tapinha nas costas do chefe. A promessa é clara.
Suba essa escada e lá no topo você encontrará o sentido. Você enche o prato. Afinal, todo mundo na sua rede social diz que tem um gosto delicioso.
Logo ao lado tem o Nirvana instantâneo, a Lacart. Vem numa embalagem zen com um guru sorridente estampado, prometendo p interior, alinhamento de chácaras e habilidade de falar sobre gratidão sem sentir vontade de vomitar. É exótico, é da moda.
Você pega uma porção generosa porque o barulho na sua cabeça tá insuportável. Ah, e o prato mais fotogênico de todos, a salada de descobertas em praias. A promessa de se encontrar do outro lado do mundo.
Fotos incríveis garantidas. A legenda de vendo da minha melhor versão já vem pré-pronta. Você se sente pensando que a resposta deve estar num fuso horário diferente.
E claro, não podemos esquecer da causa nobre para a adoção imediata. Salvar as baleias, o planeta, a democracia. Você escolhe uma, veste a camisa e de repente tem um inimigo claro e um propósito de manada.
A raiva te dá uma energia que você não sentia há anos. Parece nutritivo. Você senta na sua mesa com o prato transbordando.
Por quê? Porque o silêncio da sua própria mente é ensurecedor. Qualquer um desses propósitos pré-fabricados grita mais alto que o seu vazio.
É mais fácil seguir a receita de outra pessoa do que encarar a sua própria cozinha vazia e bagunçada. Mas aí você dá a primeira garfada e o gosto é de isopor. O seu cargo novo vem com mais planilhas e reuniões que poderiam ter sido um e-mail e meio.
A paz interior do retiro espiritual evapora na primeira fechada que você leva no trânsito. A viagem abalia acaba e você percebe que o seu eu perdido não estava na mala de volta. A causa nobre se revela um pântano de burocracia, ego e frustração.
O problema desse buffet é exatamente esse. A comida não alimenta, ela só ocupa espaço. Ela é projetada para precer boa, não para ser boa.
São calorias vazias de sentido. E agora você tá aí empantorrado de propósitos que não são seus e continua morrendo de fome. Fome de algo real.
Essa é a grande piada. Você fugiu da sua cozinha para um banquete de plástico. A questão é, você vai pedir a conta, voltar pra casa com Ásia e finalmente encarar a sua própria geladeira ou vai levantar e repetir o prato?
Fingindo que uma hora o isopô vai começar a ter gosto de alguma coisa? Você não é o protagonista. Vamos falar do seu filme.
Sim, seu filme. Aquele que passa na sua cabeça 24 horas por dia com você no papel principal. A trilha sonora épica sobe nos momentos de superação.
A câmera lentra entra nas suas vitórias imaginárias e tem até um vilão bem definido. Seu chefe, seu ex, o sistema escolhe um. Nesse filme, cada perrengue é só um degrau da jornada do herói.
A demissão, um chamado para aventura. O coração partido, um catalisador pro seu inevitável crescimento. Você procura por sinais em todos os lugares.
Números repetidos, uma música aleatória no rádio, uma pena que caiu na sua frente, como se o roteirista do universo tivesse te mandado dicas pra próxima cena. Você tá aí esperando a grande virada do roteiro, o momento em que sua missão especial será finalmente revelada e todos entenderão o por você sempre foi diferente, especial, o escolhido. Agora senta aí que eu preciso te contar uma coisa e não vai ser fácil ouvir.
Não existe filme nenhum. [Música] O amor como as luzes do cinema não estão acesas porque nunca existiu um cinema. Não tem uma audiência cósmica ruendo as unhas, esperando para ver o que você vai fazer.
O universo não tem um plano para você. Ele nem sabe que você existe. Eu sinto muito, mas você não é protagonista.
Você é um figurante igual a mim, igual aos outros 8 bilhões de figurantes nesse set de filmagem caótico, sem diretor e com um roteiro que ninguém nunca leu. Dói, né? O ego dá aquela morchada, todo aquele peso de ser especial e ter um destino a cumprir, se esai e sabe o que sobra no lugar desse peso todo?
Liberdade pura, absoluta e aterrorizante liberdade. Se não há um grande plano, você não tem como estragar tudo. Se você não é o escolhido, não precisa carregar o mundo nas costas.
A pressão para ter uma vida extraordinária, épica, digna de uma biografia desaparece. Você não precisa encontrar a sua única e verdadeira vocação. Você não precisa mudar o mundo.
Você pode, pela primeira vez, na sua vida adulta, simplesmente ser. Ser um figurante é a melhor coisa que poderia te acontecer. Significa que você tem a liberdade de escolher suas próprias cenas sem a tirania do enredo principal.
Você pode decidir se hoje seu papel é o do amigo que escuta, o do profissional que só quer fazer um bom trabalho e ir paraa casa, ou o do cara que vai sentar num banco da praça e não vai fazer absolutamente merda nenhuma. O roteiro não tá escrito. A farça do grande plano te vem de um destino.
A verdade da sua insignificância te devolve o volante. E agora, com essa liberdade toda na mão, a pergunta muda. Não é mais qual é o meu propósito?
Mas sim, o que caralhos eu quero fazer agora? Conserte a torneira pingando. OK.
Então não tem filme, não tem propósito cósmico, você é só um figurante num set caótico. E agora você pergunta, olhando pro teto do seu quarto, como se ele fosse a capela Crtina. Qual o sentido de tudo?
Como eu encontro no significado na minha existência finita e insignificante? Qual a minha missão na Terra? Enquanto você tá aí nessa pira de Júpiter em alinhamento com seu ascendente, tem um som vindo do seu banheiro.
É a torneira pingando de novo. E quer saber? A resposta para todas as suas perguntas transcendentais está aí.
Nesse pingo de merda que não te deixa dormir e que secretamente tá aumentando a sua conta de água. Você pergunta como eu posso deixar um legado duradouro no mundo? A realidade responde: "Começa arrumando a sua cama e ninguém confia num revolucionário que dorme num ninho de rato.
" Você grita pro vazio, "Qual é a minha verdadeira paixão? " A vida sussurra de volta. Sei lá, mano.
Mas aquela pilha de louça na pia tá começando a desenvolver um ecossistema próprio. Talvez sua paixão por hoje seja higiene básica. Você implora.
Como eu posso impactar a vida de milhões de pessoas? O bom senso te dá um tapa na nuca. Liga pra sua mãe, pergunta para ela se ela tá bem, sem pedir dinheiro, responde aquele e-mail que o seu colega de trabalho tá esperando há três dias.
O impacto começa em não ser um completo babaca no seu metro quadrado. Percebe o padrão? A gente fica caçando borboletas metafísicas com uma rede de pesca.
Enquanto a nossa casa tá caindo aos pedaços, a gente quer encontrar o sentido da vida. Antes de ter o sentido de colocar o lixo para fora na terça-feira. O jogo tá invertido na sua cabeça.
Você não encontra um propósito para depois agir. Você age em coisas pequenas, concretas e chatas. E o senso de propósito é o subtópico dessa ação.
A satisfação de consertar a merda da torneira, de ouvir o silêncio no banheiro, de saber que você resolver um problema real, por menor que seja. Essa sensação é o sentido. É o único que existe.
É tangível. Você pode ver, ouvir e sentir. Diferente do seu grande plano cósmico, que não dá nem para pagar um café.
Então para de entrevistar o universo, ele não vai te responder. Ele tá ocupado sendo, você sabe, um universo. Desliga seu telescópio mental e pega a caixa de ferramentas.
Sua crise existencial não vai ser resolvida num monastério no Tibet. Ela vai ser resolvida com uma chave de grifo, um pouco de veda rosca e a decisão de parar de ser um filósofo de pijama e se tornar um encanador da sua própria vida [ __ ] Agora vai lá consertar a torneira. A gente continua depois.
O cardápio de sofrimentos. Aprenda a escolher a dor que vale a pena. Tá.
Você consertou a torneira, sentiu aquela pontada de satisfação, não foi? Durou uns 10 minutos. Aí o silêncio voltou e com ele a velha costeira no cérebro.
E agora viver é só pular de um problema pequeno pro outro. Sim, é exatamente isso. E quem que tentou te vender a ideia de uma vida sem problemas é o maior picareta de todos os tempos?
Toda a indústria da felicidade, todo o papo de pense positivo e atrai o que você deseja te ensinou a fazer a pergunta errada. Você passa a vida se perguntando o que eu quero desfrutar? Que prazer eu quero ter.
Você quer o abdômen tanquinho, o milhão na conta, o relacionamento de cinema. Você quer o pódio, a medalha, o champanhe, mas você nunca se faz a pergunta que realmente importa. A única que define se você vai ser um frustrado ou alguém que pelo menos respeita a própria jornada.
Qual a dor que você tá disposto a suportar? Pensa nisso. Todo mundo quer ser um rockstar, mas ninguém quer passar 15 anos tocando em um bar fedourento para ninguém.
Carregando equipamento pesado e dormindo numa van. Todo mundo quer ser rico, mas poucos estão dispostos a encarar 80 horas de trabalho semanais. o risco de a falência e a ansiedade que não te deixa dormir.
Cada coisa que você deseja na vida vem com um sanduíche de merda atrelado. Não existe prêmio sem um processo de merda. A felicidade não é evitar a merda, é encontrar a merda que você não se importa de comer.
Você quer o corpo [ __ ] O recheio do sanduíche é acordar às 5 da manhã para correr no frio e dizer não pra pizza no sábado. Você quer um amor incrível. O recheio são as discussões sobre a toalha molhada na cama, a vulnerabilidade, as negociações de ego e o medo de perder a outra pessoa.
O seu propósito não tá escondido no prazer, ele tá na dor que você escolhe voluntariamente. É o que te separa dos outros. O que te torna resiliente não é sua capacidade de ser feliz, é a sua capacidade de aguentar a porrada.
Eu, por exemplo, eu escolhi isso aqui. Sabe qual que é o meu sanduíche de merda? É a dúvida constante se o que eu escrevo é genial ou um lixo completo.
É ler comentário de gente que me acha um idiota. É a frustração da página em branco. Mas quer saber?
Eu como esse sanduíche. É o meu sofrimento de estimação e ele tem um gosto muito melhor do que o sanduíche de merda de um emprego que eu odeio. Eu não escolhi a minha felicidade, eu escolhi o meu veneno.
Então para de procurar o que te faz feliz. Essa é uma caça ao tesouro de tolos. Em vez disso, olhe pro cardápio dos sofrimentos da vida.
Qual é a dor que te chama? A dor da disciplina do ata, a dor da solidão do artista, a dor da responsabilidade do pai de família. Seu propósito não tá no que você ama, tá na merda que você aguenta com mais dignidade do que qualquer outra.
Escolha o seu sanduíche e o resto é só a digestão. No fim é só sobre lambel. Lembra do nosso amigo Tolstoy, o conde russo que tinha tudo e mesmo assim resolveu ter uma crise épica.
Ele usou uma parábola para resumir a angústia dele e ela é perfeita pra gente fechar a conta. Imagina a cena, você tá fugindo de uma besta selvagem, chame de boletos ou expectativas. Desesperado, você pulou num poço seco para escapar.
Só que lá no fundo tem um dragão de boca aberta te esperando. Chama de morte ou o inevitável fim de tudo. No pânico, você consegue se agarrar a um galho que cresce na parede do poço.
Sua situação é a seguinte: Acima, a besta vai te devorar se você subir. Abaixo, o dragão vai te engolir se você cair. Seus braços estão cansados.
Você está objetivamente [ __ ] Enquanto você tá aí pendurado entre a merda e o esquecimento, você nota algo. No galho em que você se segura, existe umas folhas com pequenas gotas de mel. E aí, no meio do pavô, você estica a língua e lambe uma gota.
É doce. Toltoy, no seu desespero, viu o mel como a distração mais patética e trágica de todas. Um prazer idiota que te cega pra realidade terrível da sua condição.
Mas é aí que ele e talvez você entendeu tudo errado. E se o mel não for a distração? E se o mel foi o único ponto que importa?
Pensa comigo, todo o papo até agora foi sobre isso. Desligar o vírus do porquê. Ignorar a besta te caçando.
Ignorar a besta te caçando. Rejeitar o buffet de isopor, o mel falso e industrializado. Aceitar que você não é o protagonista.
O dragão não tá ali só para você. Ele é o fim do show para todo mundo. Consertar a torneira, escolher seu sanduíche de merda.
Tudo isso é um treinamento para uma única coisa. Aprender a identificar e saborear a merda do mel que aparece na sua frente, mesmo quando tudo ao redor é um caos. A vida não é sobressai do poço.
E spoiler, ninguém sai. O dragão vence 100% das vezes. A vida é sobre a qualidade do seu tempo no galho.
O mel é a cerveja gelada na sexta-feira. É a risada do seu amigo com uma piada idiota. É o alívio de pagar a última parcela de uma dívida.
É o cheiro de café da manhã. É o abraço em alguém que você ama depois de um dia de merda. São pequenas, insignificantes e deliciosas gotas de [ __ ] o resto.
A grande busca pelo sentido da vida é uma farácil. Não existe um grande pote de melt esperando no final. O que existe são essas pequenas gotas espalhadas pelo galho frágil da sua existência.
Então, no fim das contas, a resposta paraa sua crise é ridiculamente simples. A besta tá vindo, o dragão tá esperando e você tá aí. Você pode passar o resto dos seus dias olhando para cima com medo ou olhando para baixo com desespero.
Você pode fazer a única coisa que faz algum sentido. A única coisa que é real, estica a língua e lambe a merda do mel. Oh.