Olá, meus queridos irmãos, minhas queridas irmãs. Bem-vindos mais uma vez ao nosso programa Testemunho de Fé. A quem fala é o padre Paulo Ricardo, acolhendo você na nossa reflexão semanal a respeito do Evangelho de domingo.
Neste domingo, a Igreja nos propõe a página belíssima do Novo Mandamento. Amai-vos uns aos outros como eu vos amei. Vamos refletir, não é, neste evangelho do quinto domingo da Páscoa, essa pérola preciosa que é tão importante para o nosso crescimento espiritual.
Esses textos da última ceia, os capítulos 13 a 17 de São João, são desses textos do Evangelho que devem ser continuamente revisitados por nós, porque são pérolas extraordinárias, coisas muito importantes paraa nossa vida espiritual e que cada vez que a gente, não é, repassa esses textos, medita, contempla, a gente descobre novas luzes paraa nossa vida interior. Pois bem, vamos colocar o contexto do Evangelho desse domingo. Jesus está na última ceia com os seus apóstolos.
É um momento de intimidade, mas essa intimidade inicialmente ainda não está completa. Por quê? Porque Judas está no meio deles.
Jesus inicia a última seia lavando os pés dos discípulos. E naquele gesto de amor, aquele gesto de entrega, de doação, Jesus parece não somente manifestar o seu amor aos seus amigos, os 11 apóstolos, que ele sabia que eles o amavam, mas manifesta também seu amor a Judas. É impressionante pensar isto.
Jesus lavou os pés de Judas e, no entanto, Judas não se comooveu com isto. Judas, que não se comoove com o gesto de Jesus, vê Jesus comovido e dizendo: "Um de vós irá me trair". E o evangelista então conclui essa primeira sessão no versículo 30, dizendo: "Era noite".
Quando Judas sai do cenáculo era noite. Noite onde? Noite lá fora.
E o que que há dentro do cenáculo Jesus com seus apóstolos? Bom, ali a noite se faz clara como o dia. Por quê?
Porque Jesus começa a revelar o seu coração de uma maneira que não havia revelado até então. Jesus começa a mostrar a sua amizade para com os seus [Música] apóstolos. Ele vai chamá-los de amigos.
Ele vai dizer: "Não vos chamo mais servos, chamo-vos amigos. E esta amizade com Cristo é que explica este novo mandamento do amor, este mandamento diferente que ele irá eh revelar neste evangelho. Então, este momento de intimidade, de amizade, vamos recordar uma coisa.
Amizade significa amor em mão dupla. O amor vai e o amor vem. Não é possível você ser amigo de uma pessoa que nem sabe que você existe.
Amizade é uma dessas eh realidades de relacionamento que exige reciprocidade. É por isto que Judas, no sentido estrito da palavra, não pode ser chamado de amigo de Jesus. Jesus ama Judas, mas Judas não ama Jesus.
Jesus até um dos evangelistas eh sinóticos, quando Jesus é traído por Judas no orto das oliveiras, Jesus chama Judas de amigo, mas aquilo é quase que um convite, não uma constatação. Jesus está convidando Judas à amizade, mas Judas não corresponde. Então, é importante nós lembrarmos isto.
Por quê? Porque o amor, o amor cristão, o agape, o amor cáitas, a caridade é um amor que exige esta reciprocidade. É diferente da palavra latina amor, que em grego é eros.
Eros. É um amor eh humano de atração que não exige reciprocidade. Eu posso ter amor Eros, amor amor para com uma realidade material, física, um animal.
Ou seja, quando a gente fala amoros, as pessoas pensam imediatamente em sexo, mas não é isso. É amor humano simples, uma atração por aquela realidade. Mas não é o agape.
O agape é o amor cristão, cáritas, né? Este amor, caridade é um amor de amizade. Mas amizade com quem?
Amizade com Deus. Ou seja, não existe caridade se você não está na amizade com Deus. É importante a gente eh definir bem os termos.
Por quê? Se a gente não define, nós não vamos conseguir refletir a respeito desse novo mandamento. O novo mandamento, ele acontece exatamente porque aqui nós somos convidados a um amor de caridade, a um amor de amizade, a um amor de reciprocidade para com Deus.
E isto as pessoas não enxergam muito. Por exemplo, o que é a caridade cristã quando eu amo um pobre? Ora, só existe verdadeira caridade cristã quando eu, ao amar o pobre, amo Deus no pobre, porque aí eu estou respondendo ao amor de Deus.
Deus me amou. Com amor eterno, eu te amei. Deus me amou desde toda a eternidade.
Deus manifestou o seu amor infinito por mim na cruz. Então, eu vou respondo a este amor, amando Deus no irmão. Essa é a resposta de amor.
Então, é um relacionamento de amizade com Deus. Agora, se você simplesmente ama o pobre, ponto e acabou, e Deus não entra nessa história, isto não é cáritas, agape, amor cristão, amor caridade. Isso é filantropia, tá?
Você está tendo uma amizade com o homem, é uma filia, amizade, a antropos é homem, então você tá fazendo filantropia, você tá tendo uma, você é amigo daquela pessoa, você está querendo o bem daquela pessoa, tudo bem. Mas não é Cáritas. Só existe Cáritas se Deus for aquele a quem nós manifestamos a nossa amizade.
Então, todo cristão, quando ama o pobre, quando ama o miserável, quando ama eh qualquer ser humano, todo cristão quando ama, ama Deus naquela pessoa. E aí este amor humano que já é belo, é elevado a um nível superior, é elevado ao nível sobrenatural. Então, não existe nada de menos autêntico, menos profundo em colocar Deus num relacionamento.
Exatamente o contrário. Aí o o aquele amor natural que já é bonito em si mesmo é elevado, é guindado, é issado a um nível e muito superior, muito maior. Por quê?
Porque ali está Deus com a sua graça que nos ajuda a amar. Por quê? Porque o ser humano não é capaz de amar sem a graça de Deus.
Esse é um segundo ponto importante para nós entendermos este novo mandamento. Esta amizade com Deus entre nós e Deus, ela só existe se nós formos auxiliados pela graça. Vejam o que fez o pecado original.
O pecado original nos colocou numa situação de inimizade com Deus. Quando Deus desce na tarde do pecado, quando Adão e Eva pecaram, capítulo 3 do Gênesis, e Deus desce para passear com Adão e Eva na brisa da tarde como amigo, Adão e Eva se escondem atrás do arbusto. Ou seja, Adão e Eva ouvem os passos de Deus e interpretam a presença de Deus como uma presença inimiga, como uma presença ameaçadora.
ele se esconde. Então, esta realidade de que nós não temos amizade com Deus e nós sempre temos um um certo medo de nos aproximarmos de Deus, é uma realidade que tá inscrita no nosso coração a partir do pecado original. E essa é a nossa natureza decaída.
Nós temos medo de nos doar a Deus. Veja isso daí. Você não precisa ir do outro lado do planeta, não.
Basta você olhar dentro de você. Quando você, quando alguém diz, olha, se doe, se entregue, renuncie, tudo, né? Se jogue nos braços de Deus, aquilo parece uma crueldade.
Nossa, Deus quer tudo. Como assim? Deus quer que eu renuncie tudo?
Nossa, eu não vou dar conta, etc, etc. Tudo isso é o quê? É o homem esperneando.
É o homem que vê na entrega a Deus, na entrega de amor por Deus. vê nisto uma espécie de perda, de antagonismo, de tristeza que invade a alma de nós nos doarmos a Deus. Bom, então pra gente se doar, pra gente entrar neste amor de amizade com o Cristo, nós precisamos da graça divina.
Se não tiver o auxílio da graça, pode esquecer. Então, é isto que justifica a necessidade da oração. Ou seja, a vida de oração ela é necessária porque sem o auxílio da graça atual você não vai conseguir amar.
Você não vai conseguir amar. você vai se desesperar de você mesmo. Então você precisa humildemente, como mendigo da graça de Deus, estar lá sentado na soleira da porta do Senhor, insistentemente batendo na porta até que ele abra e te dê a graça de amar.
É isto que justifica a nossa vida de oração. Bom, colocados esses dois pontos, a definição de amor, caridade como sendo amizade com Deus e o princípio de que nós não damos conta de dar a Deus este amor se não for uma intervenção da graça. Vamos então, depois dessa longa introdução, ver concretamente o que é que o evangelho desse domingo está dizendo.
Então, o evangelho começa dizendo que Judas saiu do cináculo. Ficamos só agora os amigos de Deus, só aqueles que estão em estado de graça. E Jesus anuncia sua partida, que ele vai ser glorificado, vai ser manifestada a glória de Deus.
E aqui não é essa essa glória, toda glória é claritas, toda glória é fulgor. Deus vai manifestar o seu amor na cruz. A cruz ela tem algo, para os que não têm fé, a cruz tem algo de pavoroso, de horripilante.
Para quem olha sem os olhar da fé, a paixão de Cristo, ela é tenebrosa. Ela é como aquela nuvem do êxodo que pros egípcios era tenebrosa e pros e hebreus era luminosa. Então, e aqui é a realidade da noite de Judas que sai e do cenáculo.
Judas sai do cenáculo era noite. Noite onde? Lá fora.
Aqui dentro está o quê? A glória. Por quê?
Porque o amor vai se manifestar. Mas o amor só se manifesta para quem tem fé. E isto é uma uma verdade.
Isso é uma realidade até mesmo humana. Não sei se você já parou para refletir isso. Se uma pessoa ama você, ela dá provas de amor, ela faz atos de amor.
Se você não quiser acreditar, você nunca vai entrar em contato com o amor daquela pessoa. Por quê? Porque você pode sempre duvidar do amor.
Você pode sempre fazer uma interrogação e perguntar: "Será, será que é amor de verdade? Será que não é simplesmente um teatro? Será que não é interesse por trás?
Você pode sempre duvidar do amor. Se você não tiver fé, você não vai encontrar o amor nunca. Então, esta é a realidade que nós precisamos entender, que para nós recebermos o amor de Cristo, nós precisamos ter fé.
E aí a cruz é luminosa. A cruz é a maior proposta de amizade. Ele está disposto a pagar o preço de derramar o seu sangue para restaurar a nossa amizade.
Então o filho vai ser glorificado. Vai ser glorificado. Quer dizer o seguinte, ele irá brilhar na cruz de Cristo.
O amor de Deus irá brilhar. Mas Jesus, nesse clima de despedida e de testamento, Jesus diz: "Filhinhos, por pouco tempo ainda estou convosco. " É interessante a palavra que Jesus usa aqui, filhinhos, tecnia, quer dizer criança, tá?
Ao pé da letra, crianças. Por quê? Porque de fato os apóstolos a esta altura do campeonato, eles são crianças espiritualmente, ou seja, eles ainda não cresceram na fé.
E é por isso que Jesus diz que para onde eu vou, vós não podeis ir. Infelizmente o lecionário, ele corta o versículo e pega só o a primeira parte do versículo 33. Filhinhos, por pouco tempo ainda estou convosco.
Sei lá, a pessoa que organizou o lecionário achou que fazia pouco sentido a frase seguinte no contexto: "Vós me procurareis e agora vos digo, como eu disse aos judeus, para onde eu vou, vós não podeis ir". Por que é que os discípulos não podem ir para onde Jesus vai? Porque eles ainda são crianças.
Porque eles ainda não cresceram espiritualmente. Eles ainda não estão prontos para amar. Vamos lembrar que nós estamos aqui na última ceia e esse pessoal todo vai dar no pé.
Pedro vai trair Jesus três vezes, os outros vão dar no pé e só quem vai ficar lá é o mais criança de todos, né, que é João. Mas não se sabe se por coragem ou simplesmente pelo fato de que sendo ele giovaníssimo, né, não representava um um problema pros judeus. Então vai, ah, um moleque.
Quem que são os seguidores de Jesus? Ah, são essas mulheres aí, esse molequinho. Então, você vai o quê?
Colocar na cadeia esse povo? Evidente que não. Então, veja só, Jesus diz: "Filhinhos, tecnia, crianças, para onde eu vou ir.
" Ou seja, o amor com o qual eu irei amar, vocês ainda não serão capazes. Mas quando vocês crescerem, quando vocês crescerem na fé, esta fé vai crescendo tanto que ela irá se unir ao amor. Então nós teremos uma amizade sólida onde vocês vão poder corresponder.
E é por isso que ele diz: "Eu vos dou um novo mandamento". Essa eh doação de um novo mandamento é exatamente o lugar onde nós iremos exercitar a nossa fé e o nosso amor para chegarmos à estatura de Cristo, ou seja, para crescermos e sermos os santos que Deus quer que nós sejamos. E ele diz: "Qual é o mandamento?
Amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros". Então, veja só, essa é a primeira coisa, amar um ao outro.
Esta realidade, agapate alelus. Alelo quer dizer um ao outro recíprocamente. Este amor recíproco é o lugar concreto de nossa doação a Deus.
Veja, nós precisamos entender que a nossa vida espiritual, a nossa vida com Cristo, a nossa vida de oração, ela só é autêntica. quando ela frutifica na vida, na doação. Eu no site fico muitas vezes lá ensinando pras pessoas e como é que a gente faz para crescer na oração, as moradas, não sei o quê, etc e tal, isso, aquilo.
E às vezes aparece aí algumas pessoas perguntando: "Padre, aconteceu isso na minha vida de oração, não sei o quê, em que morada o senhor acha que eu tô? " Veja, só pela sua vida de oração, não dá para saber em que morada você tá. Por quê?
Porque aquilo pode ser tudo coisa da sua cabeça, pode ser simplesmente imaginação. O que vai dizer? Qual é o grau de amor no qual você se encontra?
Porque as moradas são isso, o grau de amor no qual você evoluiu é se você está se deixando devorar. pelos irmãos no amor e no amor muito concreto. Se você não tem tempo para você, se você é um homem, uma mulher para os outros, agora você só vai conseguir isto se você tiver uma profunda vida de oração e um profundo contato com o Cristo.
E é por isso que Jesus diz: "Amai-vos uns aos outros. " Ponto. Mas aí parece que não explicou o suficiente.
Então ele vai e explica como eu vos amei. Assim também vós deveis amar-vos uns aos outros. Esse como eu vos amei não é somente uma questão de exemplo, tá?
É exemplo também, mas não é somente isso. Como eu vos amei quer dizer o seguinte: vocês receberam amor de mim. Vocês receberam a graça.
Vocês receberam de mim um amor infinito. Agora faz o seguinte, me ama de volta. Mas como no irmão?
Porque é como Santa Catarina de Cena diz no seu seus diálogos, ela tá lá falando com Jesus, né? Jesus morreu por ela. Ah, ela quer morrer por Jesus.
Jesus salvou ela. Ela quer salvar Jesus. Jesus deu a vida para ela.
Ela quer dar a vida para Jesus, mas aí ela vê que é impossível. Ela não pode dar vida para Jesus porque Jesus é a vida. Ela não pode salvar Jesus porque Jesus é o salvador.
Como que eu faço? Jesus responde no irmão. Se você se você der sua vida pelo irmão, é a forma de você retribuir para mim.
Ué, eu morri na cruz por você. Agora vai lá e morre pelo teu irmão, porque foi a mim que o fizestes. Essa é a amizade concreta com Cristo.
Então, quando você vai pra vida de oração e você gasta o seu tempo rezando, você tem essa oração íntima com Cristo, uma oração de amizade. Essa oração, como diz Santa Teresa, que é tratar de amizade com frequência com quem sabemos que nos ama. Você ali está recebendo a graça como eu vos amei.
Ali você está recebendo o amor de Cristo. Ali você está recebendo a força. E aí você vai viver esta amizade com Cristo.
Mas como? De forma encarnada, de forma real nos irmãos. Porque se não houver isso, o seu amor por Cristo é uma grande bobagem da sua fantasia.
E aí tudo isso se transforma numa espécie de insígnia. Quando são Tomásquino comentando o versículo 35, dizendo assim: "Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos se tiverdes amor uns aos outros. " Santo Tomás diz: "Olha, quando um soldado vai paraa batalha, ele tem que carregar a insígnia do rei, ou seja, o uniforme dele que a gente tem hoje em dia, o uniforme para distinguir um soldado do outro, havia a insígnia, o brasão do rei, ele era estampado no escudo do soldado, nas vestes dele, etc.
Para saber de que exército que ele fazia parte, qual é a nossa insígnia? " S. Tomás diz: "Olha, os apóstolos já tinham recebido de Jesus um certo conhecimento, já tinham recebido de Jesus o poder de operar milagres, já tinham recebido de Jesus um monte de coisa, mas nada disso foi escolhido por Jesus como insígnia.
Por quê? Porque os homens maus também podem fazer isto. " Judas também tinha recebido certo conhecimento.
Judas também tinha operado milagres. Judas também tinha expulsado os demônios. Judas também tinha pregado em nome de Jesus.
Judas também tinha feito tudo isso, mas não tinha amor. E se não tinha amor, ele não fazia parte dos amigos. Então, vejam como a nossa vida espiritual é belíssima e como o Evangelho deste domingo nos ensina a viver profundamente esta amizade com Cristo.
Deus abençoe você em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.