Olá, pessoal! Tudo bem? Sejam todos bem-vindos.
Nós, que vivemos na era de predomínio do discurso da neurociência, sempre que estamos preocupados com autoconhecimento – conhecer a nós ou conhecer o outro, conhecer o próximo – tiramos da manga, tiramos do colete, uma série de palavras que pressupõem uma visão específica do ser humano, da natureza humana, e muitas vezes usamos essas palavras sem ter consciência de que elas estão naturalmente atreladas a uma visão específica de ser humano que não necessariamente vai ampliar a nossa capacidade de autoconhecimento. Isso também se aplica ao nosso conhecimento e ao nosso exame das chamadas personalidades disfuncionais. Por que nós nos referimos uns aos outros, muitas vezes, como tendo personalidades disfuncionais?
É um assunto sobre o qual se fala muito hoje, dos transtornos de personalidade, né? Nós sabemos que existem realmente alguns padrões de comportamento repetidos por uma série de pessoas que fazem com que a sua personalidade, digamos assim, seja algo problemático para as pessoas que estão ao redor. Os transtornos de personalidade mais conhecidos são o transtorno narcisista, o transtorno borderline, o transtorno bipolar etc.
Temos também uma série de nomes na tabela CID de psiquiatria apontando as variações possíveis das personalidades. No que diz respeito às capacidades cognitivas, temos o TDAH, entre outros, pessoas com incapacidade atencional, transtorno de atenção, transtorno de hiperatividade – as duas coisas juntas. Mas temos um enorme referencial psiquiátrico para tentar dar conta da variedade infinita, eu diria, de seres humanos possíveis no mundo, e muitas vezes não nos perguntamos o suficiente sobre a origem filosófica dessa nossa maneira de investigar o ser humano, de escrever sobre o ser humano, de nos investigar e tentar entender melhor se está tudo bem conosco ou não.
Analisar os nossos próprios comportamentos para ampliar nosso autoconhecimento, porque estamos um pouco viciados nessa nomenclatura, nessa maneira de analisar a alma humana. Hoje, eu queria apresentar para vocês uma das origens dessa maneira de falar sobre personalidade, sobre alma, sobre inclinações etc. Se você se interessa em compreender de onde veio a nossa ideia de que existem personalidades disfuncionais, considerando que disfunção é um termo associado à história da patologia, portanto, na medicina, a gente diz que por disfunção entendemos o funcionamento anormal ou prejudicado de um órgão.
Mas hoje aplicamos 'disfunção' ou 'disfuncional' à personalidade, à nossa interioridade, ao todo da nossa personalidade, e eu queria apresentar para vocês uma das origens desta visão a respeito do ser humano para que vocês tenham a chance de examinar, perceber e se perguntar se é suficiente recorrer a essa terminologia e a esse conjunto de instrumentos para ampliar o seu autoconhecimento ou o conhecimento de pessoas próximas a você. O fato de a gente usar a expressão "personalidades disfuncionais" já nos conduz a desconfiar de que a visão de ser humano por trás de uma expressão como essa seja uma visão mecânica, porque quem tem função é máquina. Quando a gente aplica disfunção, por exemplo, a um órgão, estamos tentando explicar que cada órgão tem um funcionamento que lhe é específico, que lhe é intrínseco.
Mas quando os patologistas dizem que esse órgão está com problema de disfunção, significa que ele está saindo da normalidade em relação ao padrão daquele órgão no interior de qualquer corpo humano, ou seja, no interior, no conjunto do corpo humano, que chamamos de organismo. Essa parte tem uma função específica, e essa função está comprometida. Quando falamos de personalidade, vejam como é diferente: a personalidade diz respeito ao todo de nosso ser.
A personalidade é a expressão do conjunto do que somos. A personalidade não tem a ver com corpo físico; tem a ver com a nossa alma. A partir do momento em que nos referimos a personalidades como disfuncionais, por trás dessa expressão está oculta uma visão mecânica – eu diria mecanicista – de ser humano e de alma.
Inclusive, está implícita, não é oculta, implícita a visão clássica cartesiana de ser humano, que é uma visão mecanicista que está exposta em um livro, um tratado muito famoso de Descartes, chamado "Tratado das paixões da alma", que eu sempre indico para os médicos. Ah, você, médico, trabalha com medicina, trabalha com a área de saúde? Esse é um tratado importante na história das tentativas humanas de explicarem a relação entre corpo e alma, porque todo médico sabe muito bem que existe uma relação entre o nosso ser, a nossa alma, as nossas emoções e o nosso corpo.
Sobretudo quem estuda o câncer, em algum momento, se depara com estudos a esse respeito. Mas os médicos que seguem o método científico sabem muito bem que isso é um assunto extremamente complicado, extremamente delicado, porque o conhecimento que a medicina provê é justamente do conjunto do funcionamento integrado de órgãos. É um conhecimento do corpo; já a psiquiatria é um conhecimento da alma.
É uma parte da medicina que vai cuidar das emoções, das disfunções, por assim dizer, das patologias da alma. No entanto, a psiquiatria, dependendo de qual é a abordagem, vai entender a alma usando a metáfora que Descartes usa para falar do corpo. Assim como o corpo, visto como uma máquina, a alma pode ser analisada em termos mecânicos; e mesmo a relação entre alma e corpo pode ser analisada em termos mecânicos.
Vocês devem estar pensando: “Nossa, mas do que ela está dizendo? Essa professora está falando do quê? ” Posso dar um exemplo concreto para vocês.
No "Tratado das paixões da alma", livro muito conhecido de Descartes, acabamos de receber uma nova edição da antiga e muito boa tradução do Newton de Macedo, que também traduziu o "Discurso do método" e uma série de obras. De Descartes, isso é antigo, mas é impecável. Caiu em domínio público, e a Edições Livre, que republika clássicos a um preço muito barato, republicou pela qualidade realmente do trabalho do Newton de Macedo.
Quem se interessar, vou até deixar na descrição para vocês irem atrás do livro. Preste atenção no artigo 105, que é sobre a tristeza. Descartes define da seguinte maneira: a tristeza, ele diz, é o afeto da tristeza.
Ele fala o que acontece conosco quando ficamos tristes. Olha como ele explica: na tristeza, as aberturas do coração são muito apertadas pelo pequeno nervo que as cerca, e o sangue das veias não sofre qualquer agitação; por isso, vão muito pouco para o coração. E, todavia, as passagens por onde o suco dos alimentos corre do estômago e dos intestinos para o fígado ficam abertas.
Por isso, o apetite não diminui, exceto quando o ódio, que muitas vezes se junta à tristeza, os fecha. Quando ele analisa a alegria, o desejo, o ódio etc. , veja que todos esses subcapítulos fazem parte de um artigo chamado "As Principais Experiências", que permitem conhecer esses movimentos, que são os movimentos do sangue e dos espíritos que causam as paixões no amor.
Porque todas as pessoas, quando se apaixonam, sofrem uma série de reações adversas. E essas reações, todas elas são determinadas por essa emoção que é o apaixonamento. E aí, Descartes aproveita-se da clareza da alteração do estado psíquico, nessa circunstância, para examinar o que lhe interessa.
Ou seja, a relação entre a mecânica do corpo e os movimentos da alma. O amor é um movimento da alma, um movimento da alma que provoca uma série de reações fisiológicas. Esse entendimento, que une as reações, digamos assim, as emoções e as reações fisiológicas, está na raiz de toda uma digamos assim, tradição psiquiátrica que entende que, embora a raiz de muitos problemas psíquicos que nós tenhamos seja difícil, tratáveis, talvez impossíveis de se tratar por meio de remédios, né, remédios que vão agir sobre os órgãos, sobre o corpo como um todo, ainda assim esses remédios conseguem aliviar sintomas.
De forma que, para você controlar um estado psíquico, digamos assim, disfuncional, quando a sua alma enfrenta uma disfunção, ao você tratar as reações adversas por meio de remédios, você consegue pelo menos acalmar o paciente para avançar na tentativa de curá-lo da angústia específica que ele esteja vivendo. Porque nós observamos que, de fato, as emoções produzem reações no corpo. A maneira mecanicista de tratar esse assunto é sempre observando o que acontece com os órgãos quando tal emoção surge na alma.
Então, vamos entender o seguinte: existe uma sobreposição entre a sobreposição ou justa posição. No caso de Descartes, é justa posição. Você tem a alma e você tem o corpo, mas eles estão ligados.
No caso de Descartes, é por uma glândula que fica no cérebro. Essa glândula, em que acontece a integração entre os dois, permite a passagem do que acontece na alma para o corpo. No final das contas, o que importa sublinhar é que o que acontece na alma afeta o corpo.
Bom, se o que acontece na alma afeta o corpo, ainda que eu não possa curar uma alma, eu posso controlar a maneira como o corpo foi afetado. E, em grande medida, você tem uma linha da psiquiatria que, por essa razão, trata as piores angústias por meio de remédios, porque mesmo sabendo que, às vezes, você não consegue tratar a causa, você consegue pelo menos aliviar os sintomas que são desencadeados por essa causa. Então, é muito engraçado, porque muitas vezes as pessoas, sobretudo quando se percebem adoecidas do ponto de vista anímico, do ponto de vista da alma, do ponto de vista do seu todo, do ponto de vista das emoções, elas percebem que não estão bem emocionalmente.
Né, as pessoas, às vezes, não se dão conta que a maneira como elas serão tratadas é claramente dependente de uma visão mecanicista do ser humano. Agora, a partir do momento que isso foi notado, surgiram outras linhas de psicoterapia, outras linhas de terapia mesmo, que procuram escapar desta visão mecanicista do ser humano. Agora, vamos pensar nas palavras que a gente mais usa para nos referirmos a nós e uns aos outros.
A gente usa: "Ah, é uma pessoa muito funcional! " ou "Aquela pessoa é disfuncional. " "Ah, este é um funcionário muito eficaz ou ineficaz, útil ou inútil, apto ou inapto.
" A educação básica, aquilo que as escolas fazem, é basicamente um treinamento, um adestramento. Aquilo que você aprende nas empresas, quando você vai fazer estágio, é justamente um adestramento para cumprir tarefas específicas. E é esperado de você que você tenha o rendimento máximo, aquele homem que tiver o rendimento mais próximo da estabilidade que apenas as máquinas possuem, porque elas não estão sob o jugo das emoções.
Aquele é considerado mais eficiente, razão pela qual as pessoas mais frias costumam ter um desempenho muito apreciado em ambientes específicos de trabalho, nos quais a pressão é muito forte. Quando a pressão é muito forte, as pessoas mais capazes de silenciar as emoções que elas carregam, por serem humanas, e permitir-se manter a frieza própria das máquinas, vão desempenhar bem, mas elas terão um impacto. Só que nós somos humanos.
Muitas vezes, essa pressão que nós aparentemente enfrentamos se torna doenças; ela se converte. Às vezes, as pessoas acabam alimentando compulsões. Nós, seres humanos, temos válvulas de escape.
Nem a pessoa mais fria, que mais se parece com uma máquina, aguenta dessa forma. As coisas, nós não somos máquinas. Esse é o problema.
Essa visão de Descartes é muito interessante do ponto de vista da história da medicina, da tentativa de, com os recursos materiais das ciências naturais, aliviarmos sintomas e estados cuja origem está na alma. Mas não. Resolve: e é muito complicado a gente também querer resolver, definir o próximo em termos de personalidades completamente disfuncionais.
Eu gosto muito de uma psiquiatra, mas que ela costuma repetir que o problema dos psicopatas é que eles vêm com defeito de fábrica, defeito de fábrica: não sentir empatia. Mas, ao mesmo tempo, ela diz também que, a depender da idade com que você começa a tratar uma criança com traços de psicopata, você tem uma certa resposta, e que nem todas as pessoas que têm esse traço chegam a pôr em prática a sua, a enfim, relação curiosa com a cuidade. Nem todos!
Então significa que é muito complicado a gente dizer que um ser humano possa ter um defeito de fábrica. Porque nós não somos objetos feitos numa indústria; nós somos seres cujo todo não é redutível à nossa mecânica interna, à mecânica interna dos órgãos. Nós temos algo a mais.
Esse algo a mais nós sabemos que é a sede das emoções; esse algo a mais é imaterial e esse algo a mais não necessariamente é resultado de impulsos cerebrais, muito embora nós percebamos que há sim uma justa posição entre as emoções e o que acontece no cérebro. Mas fica a pergunta: isso que acontece no cérebro começa lá ou o que se passa ali é uma reação do que se passa na nossa alma? E, quando a gente fala de personalidade, a gente tá falando de um ser completo.
A gente pode deixar uma de fora? Se a gente não pode deixar uma de fora, a gente tem de levantar a hipótese de que, se algo está errado conosco, nós podemos ter uma doença espiritual. E aí o nome não é nem disfunção, porque o espírito não é uma máquina; não tem nada mais distante da nossa alma, do nosso espírito, do que a estrutura mecânica de objetos feitos para funcionar, mas que muitas vezes quebram.
Nós, seres humanos, não dá para dizer que nós quebramos, porque todas as vezes que nós nos comportamos de maneira a nos autodestruir, existem caminhos de, digamos assim, recuperação. E a gente percebe que, sempre que a via escolhida é não tomar remédios, o sint de medicamento - o buscar amenizar as reações no corpo quando a origem delas é na alma, e sim procurar investigar nossa alma -, livres da analogia com essa visão mecanicista do corpo, a gente tem um pouco mais de chance de ter algum autoconhecimento. Quando nós nos libertamos dessa visão de que nós estamos tão impregnados pela visão mecanicista do ser humano que acaba abrangendo corpo e alma, quando a gente se liberta disso, a gente diz: espera aí, a minha alma não é uma máquina; meu corpo pode até guardar analogias com uma máquina, uma vez que cada órgão tem uma função etc.
, e esse conjunto funciona, mas a minha alma, que é a sede da minha personalidade, é uma outra coisa. E a minha angústia é algo que tá na alma. Claro que eu tenho reações fisiológicas, porque eu sou um todo; eu sou um todo feito de alma e corpo.
A minha forma, a minha essência, é a alma, porque a minha essência é a alma. O que determina quem eu sou é minha alma. Seria impossível que o que se passa na alma não afetasse o corpo.
Agora, se eu quebro um braço, não necessariamente eu sinto angústia, mas se eu tô profundamente angustiado, eu posso ter vontade de cortar meu braço fora. Então é muito interessante para todos vocês que querem ampliar o autoconhecimento e investigar as origens dessa nossa visão confusa e insuficiente, eu diria, de integração entre corpo e alma e de lugar de cada um. É muito interessante dar uma olhada no Tratado das Paixões da Alma, de Descartes, porque o Descartes era um dualista; ele não percebia a alma e o corpo como integrados de forma harmônica.
O que ele percebia era uma relação de justa posição entre alma e corpo. A alma estava por toda parte, mesmo porque ela não é extensão, não é material. Mas a maneira como ele se mostrava capaz de explicar as paixões da alma, ou seja, os afetos da alma, as emoções, a maneira como ele explicava, era a descrição da mecânica do corpo, sujeita ao que se passa na nossa alma.
E esta forma de lidar com a relação entre corpo e alma acabou, vamos dizer, nos tornando mais inclinados a acreditar que dar algo pro corpo, anestesiar o corpo, vai curar nossas angústias, vai curar nossa alma. Não, porque quando nós tropeçamos, nossa personalidade não é afetada, mas quando nós sentimos uma depressão profunda, vivemos um luto após uma perda, toda a nossa capacidade de desempenhar nossas tarefas mecânicas do cotidiano é afetada. A alma afeta o corpo; o corpo não necessariamente afeta a alma.
Um estado do corpo que faz com que minha alma sinta bloqueios. . .
Puxa vida, fiquei tetraplégica! Enquanto a pessoa não aprende a lidar com aquilo, evidentemente pode produzir uma angústia, pode produzir uma tristeza, mas não é uma relação de causa e efeito e não é uma relação de determinação. É perfeitamente possível uma pessoa não ser afetada emocionalmente por uma disfunção do corpo, mas é impossível que uma pessoa com uma doença espiritual não tenha o comportamento todo dela e toda a sua fisiologia de alguma forma comprometidas.
Até num excesso de cansaço. É só vocês pensarem na ansiedade de alguém que tá com muita angústia. Uma pessoa que vive uma angústia profunda, que é algo que acontece no espírito, não consegue vencer a ansiedade.
Se você trabalha a angústia dessa pessoa por meio de tentar descobrir a razão da angústia e fazer com que a pessoa contemple aquela angústia e entenda até o ponto de, digamos assim, se reconciliar com ela para se libertar dela, a ansiedade vai passar. Se você tomar ansiolítico, você vai dormir, mas. .
. Angústia continua lá. Então, assim, eu recomendo muito a leitura desse "Tratado das Paixões da Alma" para nós todos que estamos nessa Sociedade do Sid, das tabelas psiquiátricas, do tomar remedinho para tudo.
Reavaliem se isso realmente nos cabe e se nós, como seres humanos feitos de emoções, sujeitos à tristeza, angústia e a todo tipo de estados espirituais, dos quais nós precisamos, inclusive para amadurecer, e que não devem ser rejeitados nem anestesiados, mas enfrentados e compreendidos. Vale a pena a gente rever a noção de ser humano, que muitas vezes nos leva a buscar a solução incorreta e ineficaz para o problema que nós queremos resolver. Fica a indicação.
Aproveitando, agora, eu falei desse assunto porque acabou de sair o "Tratado das Paixões da Alma" numa tradução muito boa. Para vocês que têm aquela coleção das obras do Descartes pela Editora Perspectiva, também é uma tradução muito boa. Eu também tenho aquela edição, mas vocês, que são médicos, psiquiatras, pessoas da área de saúde mental, vale a pena ler isso aqui e repensar alguns dos métodos aos quais talvez vocês ainda se sintam muito apegados.
É uma investigação legal, tá bom? Fica a dica para vocês: até o dia 15 de março, dia do Consumidor, minha livraria está com uma promoção especial. Se você quiser conseguir esse livro por um preço especial, tá aqui o link na descrição desse vídeo.
Muito obrigada pela companhia e até a próxima!